sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Museu do Índio é história...





Fotos: Ricardo Casarini

Contra o “negócio” Copa do Mundo, a beleza e a força do mundo indígena se levantam

1556. Rio de Janeiro. Território Tupinambá

No meio da mata os Tupinambás espiam a baia. Desde há muito tempo (1502) que por ali havia chegado uma gente estranha. Traziam cruzes e armas que cuspiam fogo. Por anos foram empurrando os nativos para longe da praia, expulsando das terras que ocupavam em paz e destruindo seu modo de vida. Muitos tinham sido mortos, outros escravizados e uns poucos se embrenhavam para dentro da floresta, ainda livres. As batalhas eram frequentes, mas desiguais. Em 1554, um jovem índio chamado Aimbiré, filho do cacique Kairuçu, depois de ver o pai capturado e morto por conta dos maus tratos na fazenda de Brás Cubas, em São Vicente, consegue fugir do cativeiro e começa a reunir-se com chefes de grupos indígenas que ainda andavam livres pela região. É ele quem vai costurar uma aliança histórica de resistência. Naqueles dias andavam pela baia também os franceses, loucos para abocanhar riquezas. Os Tupinambás – que nos tempos da invasão dominavam todo o litoral - por algum motivo, acreditaram que aqueles poderiam ser amigos e se aliaram a eles para expulsar os portugueses. Lograram um pacto com os Goitacazes e os Guaianases, e essa parceria se configurou na famosa Confederação dos Tamoios, liderada por Aimbiré. Os indígenas pelearam por mais de 10 anos contra os portugueses. Traziam na pele a marca da opressão e queriam suas terras de volta.

Em 1565, Estácio de Sá desembarca perto do que hoje é o Pão de Açúcar e começa dali a resistência portuguesa contra os franceses e os indígenas. É quando funda a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. Com a ajuda do padre Anchieta, os portugueses vão se misturando a outras etnias indígenas, conquistando amizades e enfraquecendo a Confederação. Naqueles dias a coroa não atinava perder o comércio do pau-brasil, abundante na região. Por dois anos deram batalha aos indígenas. Esses eram chefiados pelo valente cacique Aimbiré, que conduzia os guerreiros pelas canoas através da baia da Guanabara em duros confrontos contra os invasores. Ainda assim, Estácio de Sá seguia distribuindo terra aos amigos portugueses, visando fortalecer suas posições. Em 1567, os portugueses conseguem abafar o movimento indígena e expulsam os franceses da região. A Confederação dos Tamoios é derrotada, os povos originários do lugar são dizimados, as lideranças caem nas batalhas, e poucas famílias conseguem escapar pelo mato, garantindo assim a continuidade do povo indígena na região.

2006. Rio de Janeiro. Ocupação Guajajara

No meio dos prédios os Guajajaras espiam o grande estádio do Maracanã, templo de um esporte que chegou ao Brasil pelas mãos dos ingleses, num tempo em que a Inglaterra era dona do mundo. Remanescentes dos velhos guerreiros da Confederação dos Tamoios, os indígenas se embrenham na cidade maravilhosa para recuperar o que acreditam ser seu: uma pequena fatia de território. O mesmo espaço que foi palco da disputa sangrenta entre portugueses e tupinambás nos primeiros anos de invasão. O lugar em questão é um velho prédio localizado ao lado do estádio, que de 1953 até 1977 abrigara o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro para ser justamente um espaço onde o homem branco pudesse compreender o modo de vida dos povos originários.

O território onde está o prédio tem larga vinculação com os indígenas. Primeiro, era o seu mundo original. Depois, com a vitória portuguesa foi passando por várias famílias até que em 1865, o então proprietário, Duque de Saxe, doou a grande mansão que construíra para que o governo federal a transformasse em Centro de Pesquisa sobre a cultura indígena. Nada aconteceu. A casa acabou abrigando a Escola Nacional de Agricultura e só décadas depois sediou o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Quando o SPI foi transferido para Brasília em 1964, o prédio passou para a mão dos militares. Foi só em 19 de abril de 1953 que o casarão retornou para a vida indígena, quando Darcy Ribeiro instituiu o Dia do Índio e criou ali o museu.

Mas, o espaço não ficaria muito tempo dedicado ao abrigo da história indígena. Em 1977 o museu é transferido para o bairro do Botafogo e o prédio passou para o controle da Companhia Nacional de Abastecimento, que praticamente o abandonou. Ao longo dos anos, a velha casa foi ruindo e nunca sequer foi tombada pelo Patrimônio Histórico.

Só que para os indígenas aquele lugar é espaço sagrado, templo de resistência e foi assim que em 2006 cerca de 20 pessoas – indígenas de várias etnias - decidiram ocupar o prédio, dispostos a fazer dali um ambiente de acolhimento para todos os irmãos que chegam à cidade maravilhosa, além de guardar a memória ancestral das gentes que viveram naquele território desde os tempos imemoriais. A casa foi tomada e começou a batalha pelo tombamento e recuperação. Desde então as comunidades originárias vem travando grande batalha institucional para manter o prédio, criando um polo de produção de cultura e de conhecimento sobre os povos originários. Mas, a exemplo dos tempos da invasão, novos Estácios de Sá armam suas esquadras e dão combate aos indígenas. Ao que parece, nada muda nas terras de Pindorama.

2012. Rio de janeiro. Copa do Mundo

Pois em julho desse ano, completamente surdo aos desejos dos povos indígenas e dos movimentos sociais para que fosse feito o tombamento do lugar, o governo federal vendeu a área ao governo do Rio de Janeiro. A proposta do governador Sérgio Cabral, singela, é derrubar o prédio para que sirva de espaço de mobilidade para as pessoas que virão assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014. Mais uma vez, a cultura indígena sendo solapada em nome de um deus estranho: nesse caso, o dinheiro.

Hoje seguem vivendo no prédio perto de 20 pessoas, representando etnias de diversas regiões do país: Guajajara, Pankararu, Xavante, Guarani, Apurinã, Fulni-ô, Pataxó e Potiguara, entre outras. Várias casas foram erguidas no lado de fora, uma vez que o prédio principal está em ruinas, apesar de servir para algumas atividades. A proposta dos ocupantes é recuperar o prédio e transforma-lo na primeira Universidade Indígena do país. Atualmente já são ministradas aulas de língua Tupi Guarani, inclusive para professores universitários e acontecem manifestações culturais, rituais, pinturas de corpo, feitura de comidas típicas das etnias na cozinha coletiva, ensinadas medicinas nativas e contadas histórias das tradições indígenas. Segundo as lideranças vivem mais de 30 mil índios no espaço urbano do Rio de Janeiro e o casarão deverá ser também um ponto de referência para a sobrevivência da cultura de todos eles.

Nesses dias, quando a demolição se aproxima, muito mais gente está se unindo aos moradores originários, tentando fazer pressão para que o governo estadual reverta a situação. Já foram feitas audiências públicas na assembleia estadual, caminhadas, protestos, ações judiciais. Tudo o que dá para fazer dentro da ordem burguesa. Mas, nos governos, todos estão surdos. Para se ter uma ideia do que pensam basta espiar a fala do Superintendente Federal de Agricultura no Estado do Rio de Janeiro, Pedro Cabral, em entrevista aos jornais: “A memória dos índios será preservada, talvez com uma loja de artesanato para eles venderem seus materiais”. Para eles, índio é folclore. Já Sérgio Cabral insiste: “vamos derrubar”. Mas, na aldeia Maracanã, o povo segue em resistência.

E tu, cara pálida?

A verdade pode soar incômoda, mas, índio, no Brasil, é estorvo. Por conta disso, eles são assassinados, estuprados, dominados, chutados, queimados, escondidos, degradados. Só que nem sempre foi assim. Antes da invasão dos portugueses os grupos étnicos, mais de 200, iam construindo suas vidas, dentro dos limites de suas culturas. Vivendo em terras férteis e abundantes não chegaram a constituir uma civilização como os astecas, incas e maias, premidos pelas dificuldades geográficas. Eram caçadores, coletores, e sentiam-se livres na imensidão das terras tropicais. A chegada dos estrangeiros colocou o mundo de cabeça para baixo, todo um modo de vida ruiu. Com os portugueses vieram a cruz e o arcabuz, exigindo a fé num deus estranho e impondo a escravidão. Estarrecidos diante da violência dos homens de além-mar, os habitantes originários dessas terras foram se embrenhando no interior. Os que não conseguiram foram exterminados. E assim foi se fazendo esse imenso Brasil. O índio era um animal sem alma que não servia sequer para ser escravo. Por isso, o extermínio, o genocídio.

Com o passar do tempo, as etnias que se embrenharam pelo interior também foram sendo encontradas. Com a chegada dos imigrantes, as terras que eram espaços de liberdade, começaram a ser aradas e escrituradas, passavam para outras mãos, viravam mercadoria, coisa que se compra. Na solidão das noites, os grupos indígenas que tinham sobrevivido ao massacre dos primeiros tempos também foram sendo destruídos, um a um. Eram chamados de bugres, selvagens, animais. Precisavam ser “civilizados” para que aceitassem pacificamente o roubo de suas terras e vidas. Assim se criaram os “bugreiros”, os bandeirantes, uma gente que fez fortuna caçando e matando índio e que até hoje são apontadas como “heróis nacionais”. De novo, os habitantes originais da grande Pindorama eram um entrave para o progresso que representavam os imigrantes.

No início do século XX uma nova versão de contato começou a se fazer. Já não era mais o tempo da morte, do extermínio, mas da inclusão. Os indígenas começaram a ser procurados para que pudessem sair do seu estado “selvagem” fazendo parte da “civilização”. Com o lendário Marechal Rondon acabava-se a caça e começava um processo de integração. Foi ele quem criou o Serviço de Proteção ao Índio, em 1910, com sede no Rio de Janeiro, então capital da República. O objetivo era dar amparo e ajudar no processo de integração. Mas, apesar de todos os esforços e da boa vontade de muita gente do calibre de um Rondon, a integração do índio à sociedade que se criou a partir do genocídio nunca se deu de verdade. Fora do seu lugar sagrado, os povos originários seguiram sendo vistos como um estorvo. Os que se integraram na vida fora das matas, foram perdendo suas referências culturais, e ainda assim seguiram sendo discriminados. E os que aceitaram viver em aldeias, amargam até hoje a falta de direitos e de terra.

Apesar da história triste de morte, destruição e genocídio, os povos indígenas nunca se entregaram sem luta. Desde os primeiros dias da invasão, quando perceberam que ali estava a opressão, as comunidades resistiram. Resistem ainda hoje por todo o país, na luta pela demarcação das terras, contra a invasão de seus territórios, contra os megaprojetos que destroem a vida, pela garantia de seus direitos. E não é diferente o que acontece hoje no Rio de Janeiro. Tão pouco o que querem: um prédio, uma universidade, um espaço para que sua gente possa descansar a cabeça e cultivar sua cultura. Ainda assim, a sanha por lucro, dinheiro, negócios, prevalece. A Copa do Mundo, que pretende atrair turistas de todo o planeta, trará com ela mais um massacre.

Que fazer diante disso? Da impotência frente à fria lógica do capital? Talvez seja hora de evocar Aimbiré, a alma sagrada da Confederação tamoia, o desejo secular de liberdade das gentes indígenas para viver sua cultura, seus deuses, seu modo de vida. E, com essa força, iniciar uma rebelião que acerte o ponto mais sensível dessa gente que quer derrubar a aldeia Maracanã: o bolso. As formas? Haveremos de encontrar...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com Maria do Carmo, outra vez...!





Eu era menina quando ouvi as gurias mais velhas falarem de um túmulo que havia atrás do quartel, na cidade de São Borja, fronteira com a Argentina. “Ela é santa”, cochichavam, e preparavam prendas para levar quando fossem pedir para que viesse o príncipe. Andava-se muito para chegar até lá e os adultos não aconselhavam percorrer a pequena trilha no meio do mato. “É perigoso, vão sossegar”. Mas que, as gurias não descansavam enquanto não iam levar as ofertas e fazer os pedidos àquela que alguns davam como certo fazer milagres.

As versões do caso eram muitas, mas a que mais se ouvia era de que lá pelo mês de agosto de 1890, ali havia sido assassinada a jovem Maria do Carmo Fagundes, guria de vida airosa, que era como chamavam as prostitutas naqueles dias. Mas, ao que parece, esta tinham um princípio irremovível: jamais se deitava com milicos. E vem daí a tragédia. Conta-se que um soldado apaixonou-se por Maria do Carmo e, desesperado por saber-se impossível, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Então a matou, bem ali, atrás do quartel, o mesmo lugar onde alguns poucos amigos a enterraram. Mas, sua alma alegre não suportou a fria terra, e ela decidiu que ali vagaria, acolhendo as dores do amor e fazendo felizes aqueles que lhe pedissem graça.

Foi aí que começaram os milagres. Não são poucas as histórias de gente que viu a mulher de longos cabelos negros brincando com o vento, fazendo os soldados, que ficavam nas guaritas do quartel, tremer feito vara verde. Desde aí se espalharam os feitos da Maria do Carmo, a prostituta virada santa. Seu amor foi embora? Clame à Maria do Carmo. Faltou dinheiro? Clame à Maria do Carmo. Bateu a depressão, faltou o príncipe encantado, a vida foi pelo ralo? Clame à Maria do Carmo.

Quando chegava o mês de agosto era de lei caminhar pela trilha até o pequeno túmulo para levar flores, perfumes, bijuterias. A Maria do Carmo era nossa Iemanjá, venerada no outono. Não foram poucas as lágrimas derramadas naquele campo santo, fruto de amores não correspondidos e desejos de vida feliz.

Então, o tempo passou, eu cresci, fui embora da cidade, mas a força da santa das mulheres sempre me acompanhou. Há alguns anos (2009), num janeiro, passei por São Borja, num átimo. Tinha várias opções. Ver alguns velhos amigos, visitar antigos vizinhos, caminhar pelas veredas da minha infância. O tempo era curto, mas não hesitei. “Quero ir ao túmulo da Maria do Carmo”. Por algum motivo, aquele lugar nunca saiu de mim, espaço de encantos e sortilégios. Surpresa eu constatei que já não havia trilha, nem mato, não era mais um lugar ermo. Havia casas por perto e uma estrada de chão levava até o campo santo, agora cercado, pintado e sinalizado. Pelas placas que ali estão, vê-se que a obra é de 2005.

Maria do Carmo dorme no pequeno túmulo azul, simples, mas bem cuidado, e ao seu redor multiplicam-se os presentes. Flores, perfumes, velas, bijuterias. O tempo passou e a mulher alegre, de longos cabelos continua bailando atrás do quartel. Dizem que os soldados já não lhe têm medo, ao contrário, a veneram e lhe trazem prendas. E, a contar pelos presentes espalhados no chão, a romaria de gente continua. Eu toquei seu nome e lhe fiz um pedido. Saí dali com o coração leve. Na tarde de verão missioneiro, incrivelmente soprava um brisa. Era ela. Eu sabia. Tocou meu rosto, senti seu cheiro. E quando o carro partiu a vi pelo espelho. Voejava envolta em azul. Acenou e sorriu. Então lembrei a última graça que lhe pedira antes de partir da cidade, em 1977. Estava cumprido. Não era à toa que eu estava ali.  

domingo, 6 de janeiro de 2013

"Serás livre ou morrerás"




Era uma dessas desgraçadas noites de senzala no ano de 1819. Uma negra escrava, entre dores, dava à luz a uma menina. Seus dedos magros a acolheram e apertaram. Mais uma para sofrer. Mas, naquela madrugada, no pequeno condado de Dorchester, no estado de Maryland, Estados Unidos, a menina que arejava os pulmões com gritos fortes não carregaria o peso da dor. Ela seria uma libertária, uma dessas loucas, nojentas, que nada dobra e, anos depois, se tornaria uma das mais importantes “condutoras” de negros para a liberdade.

O nome dado pela mãe foi Aramita Ross. Mas muito pouco conviveu com quem lhe deu à luz. Ainda garotinha foi levada para a plantação e ficou sob os cuidados da avó. Com seis anos de idade já estava no trabalho de uma casa branca. Apanhava muito. Uma vez levou uma surra só porque comeu um cubo de açúcar. Ela ruminava a dor e sentia que a vida lhe pesava. Quando completou 11 anos, passou a usar uma bandana na cabeça, indicando que saíra da meninice. Foi aí que mudou de nome. Virou Harriet e já tinha nos olhos o ar da rebeldia. Não foi à toa que quando viu um capataz pedindo ajuda para segurar um negro fujão, se recusou a fazê-lo. Por isso levou um golpe na cabeça e sofreu a vida toda as conseqüências.

Harriet cresceu ali, na plantação, a matutar. Nunca passou dos 1,50m. Era pequena, de olhos penetrantes e cheia de idéias de liberdade. Não ia morrer escrava. Quando tinha 25 anos casou-se com um negro livre, John Tubman, e vivia a pensar em planos de escape. Coisa que não achava eco junto ao marido. Ele não compartilhava das loucas idéias que ela sussurrava nas noites de inverno. Mas ela queria ir para o norte, fugir, ser livre também. Agüentou cinco anos e, numa destas noites, escapou no rumo da Filadélfia.

Sua fuga foi digna de filme. Ajudada por uma família branca, foi colocada dentro de um saco, num vagão, até estar segura nas casas dos abolicionistas que revezam na rota de fuga. Chegou inteira e logo começou a trabalhar. Do dinheiro que ganhava, guardava uma parte que usava para libertar outros negros. Mas, para Harriet, dar dinheiro não bastava. Aquela alma atormentada precisava agir, e ela decidiu liderar as tropas de negros e brancos que marchavam para as fazendas e libertavam os negros. Fez muitas dessas incursões. Em uma delas, no comando, chegou a libertar 750 negros de uma só vez. Tudo isso já bastaria para tornar Harriet uma lenda, mas ela ainda iria mais longe. Como não era mais um jovenzinha decidiu abandonar o comando das tropas e passou a atuar como “condutora”, no que ficou conhecida como a “estrada de ferro subterrânea”.

Esta estrada de ferro não era uma estrada de verdade, mas o nome dado à rota de fuga de milhares de negros em todos os Estados Unidos. Uma rede muito bem urdida de estradas, rotas e casas, as quais os negros percorriam e se abrigavam durante a grande travessia para a liberdade. Essas rotas eram pronunciadas junto aos negros sempre com os jargões da estrada de ferro, para que nenhuma suspeita fosse levantada e, justamente por isso, foram chamadas assim.

Nesse processo de fuga a figura do “condutor” era, sem dúvida a mais importante. E Harriet se fez um deles. Foi a mais famosa e a mais eficiente. Armada de revólver e da sua atávica coragem ela chegou a carregar mais de 300 pessoas para os estados em que a escravidão já estava abolida. Nunca perdeu qualquer passageiro. Ficou conhecida também a frase que dizia aos seus conduzidos quando empreendiam a caminhada rumo ao norte: “Serás livre ou morrerás”. E foi com essa bravura que também carregou para a liberdade seus irmãos de sangue e seus pais, esta última uma viagem espetacular. Não foi à toa que ficou conhecida como “o Moisés” de seu povo.

Harriet era mestra na arte da fuga e do disfarce. Graças a isso entrava e saia do sul escravista a qualquer hora. Em 1857 sua cabeça valia o prêmio de 40 mil dólares. Nunca foi pega. Durante a guerra civil estadunidense ela, já entrada nos anos, ainda serviu como enfermeira e espiã das forças federais. Seu nome é reverenciado até hoje por todos os negros e negras daquele país como uma mulher que não aceitou a sua condição e, generosa e solidária, deu sua vida para garantir a liberdade dos negros. Morreu velhinha, em 1913, considerada uma heroína nacional. Mesmo assim, foi só em 2003 que o estado instituiu o dia 10 de março (dia de sua morte) como o dia de Harriet Tubman, a Moisés do povo negro estadunidense, a condutora, aquela que nunca abriu mão da liberdade. “Há duas coisas que tenho direito: a liberdade ou a morte. Se não tiver uma, tenho a outra. Nenhum homem neste mundo vai me tomar a vida”. E assim foi.

Hoje, contam os negros, quando apita um trem lá para os lados do sul, todo aquele que sofre alguma prisão, seja física ou espiritual, sente um arrepio. É Harriet, a condutora, chamando para a grande travessia. E sempre há quem se levante e encontre o caminho.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Documentário sobre o Henfil

Bom de ver...


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Viver é caminhar na beleza!



Ali estava eu, enfrentando meus medos. Sozinha, sentada bem no meio do avião. Havia pedido um lugar no corredor, por conta do temor. Uma coisa meio estúpida já que dento do avião, não faz diferença. Ainda assim, me sinto mais segura. Mas, ao entrar, uma mulher, mais nervosa do que eu, insistiu para trocar o lugar. Ela estava na janela, e suava. Cedendo à opressão da bondade deixei a mulher ocupar meu lugar e lá fui para o assento da janela. Foi a minha vez de começar a suar. O voo era de La Paz à Santa Cruz de la Sierra, e seria a primeira vez que eu cruzaria a cordilheira dos Andes num avião. Daí o medo. Sempre vêm à mente aquelas cenas de acidentes nas montanhas e coisas assim.

Sem saída, enterrei a cara num livro do Enrique Dussel que havia comprado em Sucre. As 20 teses sobre política. Julguei que me distrairia com o debate, sempre original, do filósofo argentino/mexicano e o tempo de voo passaria num átimo. E ali fiquei, entretida na ideia de que o poder, se for obedencial, não é ruim nem corruptor. Genial esse homem! Minha cabeça fervilhava em orgasmo intelectual. 

Foi então que senti, do lado de fora do avião, uma presença. Pelo canto do olho percebi que havia algo ali, naquelas alturas. Meu corpo se retesou, os cabelos arrepiaram, todos. Uma espécie de gelo me tomou inteira. Como poderia haver algo lá fora, naquela altura? Então, lentamente, despreguei os olhos do livro de Dussel e enfrentei o pavor. Virei a cabeça e me deparei com a visão mais incrível que já pude presenciar.

Bem ao lado, quase sendo possível tocá-la, se descortinava a espinha dorsal de Abya Yala: os Andes. Nunca pensei que pudesse ser tão belo. Eu, que já havia caminhado por suas entranhas, nas longas viagens de ônibus, não tinha noção do que seriam, vistos assim, do alto. O avião passava tão perto, meio em paralelo. Da janela, podiam-se ver as neves eternas e quase sentir sua textura. Aguçando a vista, dava para ver as trilhas feitas pelos animais andinos - ou pelos homens - nos pontos mais baixos. Foi um momento sagrado. Sem que eu pudesse conter, as lágrimas me foram caindo, numa volúpia de emoção. Eu, guria nascida na planura missioneira do Rio Grande do Sul, lugar de onde só se pode vislumbrar o infinito, agora provava daquela visão andina, concreta, numa hora mágica.

Observei que o lugar onde eu estava sentada era o centro do avião e percebi que aquela posição conformava também o centro da “chacana”, a sagrada cruz andina dos povos originários. E que, agora, dentro de mim, também se desenhava essa figura mítica das gentes do meu continente. Nascida na planura, criada no cerrado mineiro, vivendo em frente ao mar, agora provava da beleza dos Andes. O grande círculo dos quatro cantos estava fechado. Ninguém mais pode ser o mesmo depois desta experiência. Ali se conformava minha alma abyayálica. Ali se definia, agora com mais vigor, essa decisão de assumir uma identidade autóctone, charrua que sou.

Os Andes, o mar do Brasil, as planuras das “misiones”, o cerrado, tudo isso é a expressão da Pachamama, a grande mãe. A visão majestosa das montanhas andinas tornou mais forte a certeza de que nesta terra grande, nesta “nuestra” América, nesta Abya Yala, podemos ser algo mais do que imitadores baratos de uma cultura imposta. Por todo o continente se levantam as gentes originárias recuperando seus deuses, seus credos, suas formas organizativas. Ensinam eles que, antes da conquista, aqui viviam homens e mulheres que tinham outros modos de se relacionar com a terra, com a água, com as matas, com as pessoas e os animais. Um outro jeito, nunca respeitado. E que foi solapado, subsumido na dominação.

Mas, agora, aí estão, vivos, se expressando, crescendo. Porque nunca morreram. Porque estavam latentes, ou disfarçados, esperando a hora histórica, que chegou. E, assim como os Andes, gigantes, magníficos, belos, os povos originários irrompem na vida social dos países de toda Abya Yala dizendo, bem alto, a sua palavra, exigindo respeito às suas culturas, línguas e modos de vida. Quéchuas, aymaras, guaranis, mapuches, mocovís, charruas, kollas, kunas, caraíbas, pataxós, navajos, tantos...

O grande sol, Inti, se derramando sobre os Andes, bateu na brancura das neves eternas, Pachamama espreguiçou. O condor bateu, forte, as asas, as llamas correram, brincalhonas, os cuys saltitaram alegres. No céu, a pura paz. Nos caminhos, lá embaixo, os aymaras da Bolívia - mais antigos que os incas - seguiam suas vidas, mais fortes que nunca. E eu, hipnotizada, agora entendia o segredo já sussurrado pelos povo navajo: “Beleza em cima, beleza em baixo, beleza pelos lados. A vida é um caminhar na beleza”. E assim será, melhor, quando vencermos e superarmos o capitalismo predador. Esse dia vai chegar, pela força das gentes!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os abusos de preços


A tal da Danusa Leão já  havia constatado: os pobres estão viajando de avião, frequentando lugares nunca dantes vislumbrados e gastando muito mais por aí. Isso é fato. Talvez seja por isso que as rodoviárias agora começaram a praticar preços de aeroporto, tentando seguir a tendência. Sim, porque a gente até pode comprar passagem de avião para qualquer lugar em 12 módicas prestações, mas se quiser fazer um lanche no aeroporto, aí "dá cosa", como diz a gente de Florianópolis. Uma água custa seis reais e um café com pão de queijo pode sair por mais de 15. Verdadeiro assalto.

Pois agora as rodoviárias estão nessa também, de assaltar as gentes. Outro dia, indo para Porto Alegre, cheguei super cedo na rodoviária e pensei em fazer um lanche, para evitar as comilanças nas paradas. Mas, na rodo de Floripa tem apenas duas grandes lanchonetes, praticando os mesmos preços. Um café com pão de queijo pode custar quase 10 reais. Não há escapatória. É isso, ou fome. Não comi, não gosto de ser explorada.

Em Porto Alegre, os preços também já deixaram de ser populares. Uma refeiçãozinha básica, tipo prato feito, custa mais de 23 reais. Os lanches andam pela casa do 18 e o velho café com pão de queijo inflacionou. É certo que lá tem mais opções de lanchonetes, mas os preços não se diferenciam. Pô, não dá para pagar isso por um lanche tão magro.

Lembrei da rodoviária de Brasília, que é espaço de chegada e saída das gentes mais pobres, que andam pelos interiores do Brasil. A bichinha tá virada num xopim, cheia de lojinhas chiques, com praça de alimentação e os preços tudo pela hora da morte. Por isso é comum ver as pessoas sentadas no chão lustroso, com as bolsas abertas, cheias de comidas gostosas feitas de antemão.

De maneira que para não cair no roubo institucionalizado temos de fazer como antigamente: levar o lanche de casa. Abusar dos biscoitos, bolos, pastéis e sanduíches  tudo feito em casa. Melhor também trazer uma ou duas garrafas de água, dependendo da lonjura. Não importo de pagar por uma boa comida, mas creio que esse povo está exagerando demais. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Salve Aldeia Maracanã





Por Ricardo Casarini - jornalista

Durante toda a noite os “guardiões” ficam acordados para cuidar da segurança da Aldeia Maracanã. Eles se revezam, às vezes de duas em duas horas, outras de quatro em quatro. São indígenas os Pataxós, Puris, Ashaninkas, Guajajaras, Potiguaras, Apurinãs e de tantas outras etnias. São colabores os “brancos”, professores, jornalistas, educadores, estudantes, artistas, anarco-punks e uma diversidade de outros simpatizantes. 

O momento é tenso, delicado. O prédio onde hoje funciona a Aldeia Maracanã, considerado um centro de referência da cultura indígena na cidade do Rio de Janeiro, está prestes a ser demolido por conta do projeto do novo Estádio do Maracanã, que sediará jogos da Copa do Mundo de 2014. De acordo com matéria publicada no Correio do Brasil neste finalzinho de 2012, cujas informações foram apuradas através de fonte ligada aos empresários que participam do projeto de recuperação do Estádio Mário Filho, o Maracanã, e do próprio Governo do Estado do Rio de Janeiro, a demolição do prédio do antigo museu do índio é “apenas uma questão de tempo”.

A casa, de 150 anos, pertenceu a Duque de Saxe, que doou a mansão para que o governo federal a transformasse em Centro de Pesquisa sobre a cultura indígena. O lugar já foi sede da Escola Nacional de Agricultura e também sediou o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Depois, em 1953, finalmente retornou para o estudo da cultura indígena, quando Darcy Ribeiro, em 19 de abril, instituiu o Dia do Índio, e criou ali no casarão o Museu do Índio, primeiro museu dedicado à cultura indígena de toda a América Latina. Ali na aldeia também foi criado o Parque Nacional do Xingú, uma das maiores e mais importantes reservas indígenas do país.

Infelizmente o prédio não ficou muito tempo sendo utilizado para preservar e difundir a cultura indígena, em 1977 o museu foi transferido para o bairro de Botafogo e o prédio da Aldeia Maracanã passou para as mãos da Companhia Nacional de Abastecimento, que durante anos abandonou o casarão e o deixou praticamente em ruínas. 

O lugar, considerado histórico e sagrado pelos povos indígenas, passou a ser ocupado por moradores de rua e usuários de drogas e seguiu durante anos abandonado pelo poder público. No ano de 2006, um grupo de indígenas, de várias etnias, resolveu assumir o espaço que lhes eram de direito e ocuparam o prédio com o propósito de fazer dali um Centro de Referência da Cultura Indígena, além de abrigo para os “parentes” de diversas etnias que chegam a cidade e na maioria das vezes não tem onde serem acolhidos. 

A partir da ocupação em 2006 o prédio passou a ser “recuperado” de acordo com a capacidade financeira dos indígenas, que sempre foi muito pequena, e com a força de trabalho deles, que sonham em manter o lugar e poder fazer dali, além de sua morada, um lugar onde as pessoas possam conhecer e vivenciar um pouco da cultura indígena de nosso país. Um espaço que já funciona como centro de referência, mas que ainda tem muito a oferecer, seja como centro de estudo, escola ou até mesmo uma universidade indígena. Como o estado de conservação do prédio é péssimo e a ideia e de que ali funcione toda a estrutura para o centro de referência, várias casinhas para abrigar os índios foram construídas ao redor do casarão e hoje ainda seguem vivendo aproximadamente 30 indígenas de várias etnias diferentes, Guajajara, Pankararu, Xavante, Guarani, Apurinã, Fulni-ô, Pataxó, Potiguara, Ashaninka e tantas outras. 

A vida na Aldeia Maracanã é uma luta diária, nas primeiras horas do dia, junto com o nascer do sol, o despertar dos indígenas já começa com atividades e compromissos dentro e fora da aldeia. O trabalho é dividido de acordo com a afinidade de cada um e com as necessidades do coletivo.

Cacique Tukano é um dos primeiros a despertar, já sai de casa arrumado, sempre com uma papelada nas mãos. Depois de organizar alguns trabalhos e atividades da aldeia e tomar um humilde café com pão e manteiga segue para cidade, junto com colaboradores, a fim de organizar e articular a luta institucional em defesa da Aldeia Maracanã. Desde o principio da ocupação já foram organizadas inúmeras audiências públicas na assembleia estadual e na câmara municipal, além de caminhadas, protestos e ações judiciais. Cacique Tukano é dos mais antigos moradores da ocupação, muito respeitado pelo grupo é um dos ícones em defesa da Aldeia Maracanã.

Dauá Puri, o ancião da aldeia, também segue o mesmo caminho, de banho tomado e bem vestido, com o cocar na cabeça, tendo os braços e pescoço cheios de artesanatos indígenas, Dauá segue ao lado do companheiro Tukano com sua  pasta cheia de documentos. Sempre prestativo e carregando um sorriso sincero no rosto, Dauá além de toda correria institucional em defesa da aldeia, exerce um papel como um irmão mais velho, ou pai da família. Desperta batendo palmas, chamando o grupo para acordar. Gosta que todos se reúnam em volta da mesa, deem as mãos, cantem, agradeçam e se alimente juntos. 

A organização diária de trabalho na aldeia segue de acordo com a demanda. Alguns  voluntários ficam responsáveis em preparar o alimento do grupo, outros em buscar apoio financeiro para a ocupação, cuidar da segurança, equipe de comunicação, recepção de visitantes, venda de artesanato, limpeza e organização do espaço da aldeia, cuidado com a horta comunitária, onde foram plantados legumes e verduras para consumo próprio.  Enfim, uma grande variedade de atividades que a cada dia precisam ser realizadas para o bem estar de todos. Na aldeia as atividades são autogestionadas, as decisões coletivas, todos tem voz e vez e trabalham para o melhor do grupo. Mas, apesar de todo o trabalho, os índios e colaboradores ainda convivem com problemas estruturais, como a falta d’água e de energia elétrica.

Para tentar sobreviver dentro das condições mínimas de habitabilidade, os indígenas da Aldeia Maracanã mantêm um centro cultural, que realiza aos primeiros sábados de cada mês um festival de gastronomia, música, rituais e artes indígenas. Nestes dias a aldeia fica lotada de visitantes, crianças, jovens e adultos, interessados em conhecer e compartilhar a cultura indígena. 

Na programação, contação de histórias indígenas, música, teatro, artesanato e oficinas. Mas, o pouco que se arrecada durante os festivais não da conta da sobrevivência dos habitantes da aldeia e eles ainda dependem bastante de doações, inclusive de alimentos, de entidades e simpatizantes da causa.
Ao lado do muro e dos portões do casarão as atividades não param nem durante a noite, pois a aldeia faz fronteira com o canteiro de obras e alojamento dos trabalhadores que durante 24 horas do dia se revezam nas obras de construção do novo estádio do Maracanã para a Copa do Mundo de futebol.

Embora a própria história de nosso país comprove a importância e o valor histórico do lugar, em julho de 2012, o governo federal vendeu a área ao governo do Rio de Janeiro. A proposta do governador do Estado, Sérgio Cabral, desconsidera a história e não reconhece esse valor e insiste em derrubar o prédio para que sirva de espaço de mobilidade para as pessoas que virão assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014.
Ou seja, ao invés de preservar, revitalizar e fazer o tombamento deste patrimônio histórico, o Centro de Referência da Cultura Indígena Aldeia Maracanã, ele quer demolir o prédio para construir um estacionamento e um shopping Center.

Além da Aldeia Maracanã, também estão ameaçados de demolição no entorno do estádio a Escola Municipal Friedenreich, referencia no município, no Estado e no país;  o Complexo Esportivo Célio de Barros, onde centenas de jovens atletas, moradores de várias comunidades do Rio de Janeiro realizam diversas práticas esportivas e ainda, um centro de estudos de sementes originárias, que funciona ao lado da aldeia.

Juntos com os povos indígenas, diversas outras organizações lutam em defesa destes patrimônios públicos hoje ameaçados pelo poder do dinheiro. Comitê popular, jornalistas, estudantes, antropólogos, grupo de professores e pais de alunos da escola, atletas, artistas e ainda, o movimento “O Maraca é Nosso”, que luta contra a privatização do Maracanã. O projeto do governo do Estado, que prevê a concessão do Maracanã à iniciativa privada é uma operação praticamente definida em favor da proposta apresentada por representantes do grupo empresarial fluminense de Eike Batista. 

O poder e os números que os índios enfrentam são grandes. Uma placa da empreiteira em frente ao Maracanã anuncia que 750 milhões de reais serão gastos na reforma, o valor falado da transação com Eike Batista é de 450 milhões. São mais de 500 mil apenas para a empreiteira que vencer a concorrência para demolir o casarão.

Mesmo assim os indígenas e colaboradores seguem na resistência, cacique Tukano informa: “Não vamos desistir! Não queremos ser lembrados como índios coitados e sim como valentes e guerreiros. Vamos resistir!”
Por isso, ele e os companheiros Ashaninka, Afonso Apurinã, Dauá, Kauatã, Pará, Pacari, Quati, Mônica, Zahy, Iracema, Antonio, Flávio, Shama, Coelho Awá-Guajá, Lobo e tantos outros importantes personagens dessa história de luta, todos os dias acordam com o nascer do sol e como índios guerreiros, seguem o dia na batalha.

O Poder Público segue dando as costas para a luta indígena e dos movimentos populares e sociais, nas últimas duas sessões da câmara municipal, que previam a votação do tombamento do prédio da Aldeia Maracanã, os parlamentares, a vista de quem quis ver, simplesmente boicotaram a votação. Na penúltima votaram alguns assuntos da pauta e depois se retiraram do plenário. Depois da sessão alguns foram vistos rindo, tomando cerveja e se divertindo em um bar das proximidades, o que gerou revolta nos manifestantes que acompanharam a sessão e depois presenciaram a cena. Na última sessão, já nos últimos dias de 2012, grande parte dos parlamentares resolveu não aparecer, alguns estavam na câmara e simplesmente preferiram ficar em suas salas com ar condicionado, mais uma vez comprovando a falta de interesse por parte deles em relação a preservação do espaço indígena e de todo o complexo ao entorno do Maracanã.

Na esfera judicial, a situação dos habitantes da Aldeia Maracanã também piorou substancialmente nos últimos dias do ano. Na semana passada, duas liminares que os favoreciam foram derrubadas. Uma exigia a permanência dos povos indígenas dentro do prédio do antigo Museu do Índio, e a outra impedia a demolição do edifício. Ambas as liminares foram concedidas a pedido da Defensoria Pública da União. A derrubada  dessas medidas deixa o caminho livre para que os índios sejam desalojados e o prédio demolido. Inclusive os moradores da aldeia já receberam a visita de dois técnicos que se identificaram como membros da equipe de demolição. A entrada desses técnicos não foi permitida e agora o temor é que eles retornem a qualquer momento, inclusive com força policial. 

A ameaça é iminente, Sérgio Cabral insiste: “vamos derrubar”. Mas, na aldeia Maracanã, o povo segue em resistência. Indígenas e colaboradores continuam firmes na luta contra a demolição do prédio. Estão organizados, no último dia 29, promoveram um debate, que foi transmitido ao vivo pela internet. Ali, diversos indígenas e colaboradores puderam compartilhar um pouco da história da aldeia e desse movimento de resistência. 

Os povos originários de nossa terra resistem junto com os brancos que acreditam na luta. Eles fazem um apelo de conscientização. Pedem ajuda para todos que sintam esse chamado em defesa de nossa história. A qualquer momento o prédio da aldeia pode ser invadido, os índios desalojados e a grande parte da história do Brasil, representada por aquele patrimônio histórico pode ser demolida e virar cinzas.  

A próxima atividade em defesa da aldeia acontece no dia 1 de janeiro, a partir das 10h, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Informações sobre todo o processo de luta em defesa da Aldeia Maracanã: http://aldeiamaracanarj.wix.com/aldeia e www.facebook.com/aldeia.maracana.3?fref=ts