sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Vem aí o Dia Nacional do Saci Pererê...



Preparem seus barretes vermelhos e as estripulias  A revista Pobres e Nojentas promove atividade no centro da cidade de Florianópolis (esquina democrática), no dia 31 de outubro. Celebração do Dia do Saci Pererê e da cultura nacional. Participe!!!

Conheça a ideia do Dia do Saci como luta anticolonial

Até os anos 60 a vida da gente era completamente imbricada com a natureza. As grandes cidades ficavam muito distantes e as crianças vivenciavam toda a beleza de conhecer e compartilhar as figuras míticas, moradoras das florestas e dos cantos escuros do lugar. Desde pequenos, os meninos e meninas aprendiam que no meio da noite vagava um negrinho, pastoreando uma boiada, e que se alguma coisa se perdesse dentro de casa era só acender uma vela, e o negrinho ajudava a encontrar. O negrinho do pastoreio era visto nas noites de chuva, quando os relâmpagos riscavam o céu, imponente, no seu baio, cavalgando no rumo das estrelas.

Nas tarde de inverno, quando os redemoinhos varriam as ruas, a gurizada saia como foguete, com suas garrafas de bocas abertas, buscando aprisionar os sacis pererês. Porque afinal, desde sempre aprendiam que o negrinho de uma perna só costumava estar sempre no meio do redemoinho e só aí, quando estava distraído, girando no vento, é que se podia pegá-lo. De resto era sempre um tal de fazer estripulias, batendo janelas, quebrando as louças, levantando as saias das moças. O Saci é guri frajola, serelepe, cheio de alegria e de liberdade.

E se vinha a noite fechada, as crianças entravam em casa, porque sabiam que lá fora, na mata, haveria de andar o boitatá, a cobra de fogo que come os olhos dos bichos, ou ainda o lobisomem, buscando sangue fresco, e o curupira, arrastando os pés virados, procurando pela mula-sem-cabeça. Esse era um universo conhecido e reproduzido nas escolas, na família, nas rodas de conversa ao pé do fogo.

Mas, com a consolidação do modo capitalista de produção no Brasil, que começou a apertar os laços no final dos anos 50, outra dominação foi tomando conta da vida das gentes: a dominação cultural. Já não bastava mais importar o jeito de produzir, a maneira de fazer as coisas, mas era necessário também copiar a cultura daqueles que os poderosos julgavam ser dignos de confiança. Foi assim que se introduziu a moda, com a calça jeans, a minissaia, ou a música, com a introdução da guitarra elétrica e o rock, abafando de vez a marchinha, o xaxado, o baião e a vaneira. No cinema, dava-se adeus aos musicais inocentes e aos filmes do caipira Mazzaropi, recheados da vida nacional. Era chegada a hora de Hollywood e seus enlatados repletos de ideologia, colonizando as mentes. Os faroestes estadunidenses endeusavam os cowboys e demonizavam os índios. Os filmes de ação apresentavam os soldados estadunidenses como heróis, salvando o mundo dos  horrores das guerras, dos comunistas, e os dramas consolidavam a certeza de que bom mesmo era viver em apartamentos com carpete, fumar Malboro e encontrar o homem dos sonhos, que seria branco, alto e de olhos claros.

A partir daí foram-se ocupando os territórios mentais. As cidades cresceram, se modernizaram, e as gentes se faziam cada vez mais parecidas com aqueles que, de certa forma, já dominavam no terreno da economia e da política. Bom mesmo era cantar em inglês e não foram poucos os jovens cantores brasileiros que iniciaram suas carreiras cantando na língua estrangeira. Um bom exemplo foi Morris Albert, que fez sucesso no mundo todo com a música “Feelings”. Cantar em português era coisa de brega. Nas festinhas a juventude enrolava um inglês que sequer se entendia. Papagaios.

O conceito de colonização diz que essa situação se faz real quando se conquista um território e se estabelecem novos moradores de acordo com o desejo dos que dominam. Pois foi exatamente isso que aconteceu com a gente. Nas cabeças das crianças, desde a mais tenra idade, foram sendo plantados novos conceitos, totalmente alienígenas. E esse tipo de controle chegou também no campo dos mitos. De repente, já ninguém mais falava em Saci, Curupira, Boitatá, Mula-sem-cabeça. Pela via do cinema cresceu a figura do vampiro e das festas estadunidenses. Uma delas é o Dia das Bruxas.

Até uns 20 anos atrás o tal do “Raloim” era celebrado apenas nas escolas de inglês, o que até tinha certo sentido, uma vez que quando se aprende uma língua há que se aprender algo da cultura do povo. Mas, depois, de mansinho, a festa foi se imiscuindo na vida cotidiana dos jardins de infância das escolas públicas e particulares, espaço de terra virgem, onde a colonização mental tem uma força tremenda. Sem que as famílias percebessem, os elementos mais enraizados da cultura estadunidense começaram a fazer morada na vida da criançada brasileira. Abóboras, a lenda do Jack, enfim, todos os elementos da belíssima lenda de origem celta que foi trazida aos Estados Unidos pelos colonos ingleses. Coloniza-se a cultura e movimenta-se a máquina do capital.
Ao contrário do significado cultural e místico que o Halloween tem nos Estados Unidos, aqui, ao ser transferido de forma artificial, o tal “dia das bruxas” nada mais é do que uma data a mais para vender coisas. Desafortunadamente, essa colonização mental não acontece unicamente no Brasil, ela toma conta também de quase todos os países latino-americanos, onde se pode ver a indefectível abóbora nos 31 de outubro de cada ano.

No Brasil, um grupo de ativistas da cultura do interior de São Paulo começou desde há anos um importante trabalho de conscientização sobre a história da cultura nacional. Grupos como a Sociedade dos Observadores do Saci, a Sosaci, tem dado contribuição importante nesse processo, produzindo vídeos e outros materiais educativos visando recuperar os antigos mitos e lendas da cultura indígena e negra. Levando esse debate por todo o país, os militantes da Sosaci querem que seja instituído o dia 31 de outubro como o Dia do Saci, fazendo com que nosso moleque, de raiz indígena e negra, vença de uma vez por todas a dominação cultural do “raloim”, como bem atesta o manifesto do grupo. “Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, que são usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos. Cada vez mais, muitos brasileiros começam a compreender isso.

Uma prova são  eventos como “O Grito do Saci”, realizado em São Luiz do Paraitinga, Estado de São Paulo, que atrai muita gente e cria uma catarse geral, uma lavação de alma. Outra prova é a onda de adesões que a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) vem recebendo de vários pontos do país. O Saci, a Iara, o Boitatá, o Curupira, o Mapinguari e muitos outros brasileiros legítimos estão aí para serem festejados, sem espírito comercial, como nossos legítimos representantes no mundo do imaginário popular e infantil”. E assim é.


A discussão que foi criada em torno da celebração do Dia do Saci em nada tem a ver com a xenofobia ou o desrespeito a outros povos. Momentos como o Dia dos Mortos no México, o Inti Raimi na América Andina e o Halloween nos Estados Unidos representam a essência cultural de cada um dos povos que os reverenciam. Pois a celebração dos mitos autóctones seria justamente a retomada do nosso território cultural que há tanto tempo vem sendo invadido e colonizado. Respeitar e dialogar com as demais culturas é rico e saudável, mas o preço disso não pode ser a destruição das nossas memórias ancestrais. 
O campo da cultura é sempre um espaço muito mal cuidado pelos movimentos sociais e sindicatos de luta. Faz-se muita política, discute-se o capitalismo, mas muito pouco se discute o pilar de todas as mudanças que é o imaginário popular, a cultura. Desde aí se pode avançar com muito mais eficácia no processo de transformação da sociedade. Se desde bem pequenas as crianças tomarem contato com a beleza que vive no seu próprio espaço de vivência, muito mais fácil será trabalhar conceitos como soberania, liberdade, pensamento crítico, transformação.

A proposta que toma corpo sobre a instituição do Dia Nacional do Saci não é pueril, muito menos folclórica. É uma resposta inteligente e criativa a um longo processo de colonização mental que impera no nosso país desde a invasão européia. Destruíram muitas culturas originárias, impuseram determinadas crenças e hoje, buscam homogeneizar a cultura. Mas, por todos os cantos do Brasil se levantam os amantes do saci, do Curupira, do Boitatá, de Iara, Mãe d´água, Boto cor-de-rosa. Todos juntos prometem vencer o culto à abóbora, fazendo uma grande festa com carne seca, mandioca e viola. Porque nossa cultura autóctone tem beleza demais para se render aos interesses do capital.

Mas, para isso, é preciso que cada brasileiro faça sua parte. Pais e mães precisam retomar as velhas histórias, escolas devem ensinar os antigos mitos e toda a gente deve celebrar esse dia 31 de outubro como o dia do Saci e de todos os seus amigos. Para participar do abaixo assinado, entre na página da Sosaci e dê o clic: http://www.sosaci.org/abaixo-assinado.htm.

Enquanto isso preste muita atenção quando passar por um bambuzal. Ao ouvir os barulhinhos de “cloc, cloc, cloc”, atente-se. São os sacis nascendo. E estão vindo aos milhares, pulando em uma perna só, fazendo bagunça na proposta de destruição cultural que o império tenta nos impor. O Saci vive e está bem aí, do seu lado. Acredite! 

Publicado originalmente na revista Novo Olhar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

A cidade...




A cidade é sempre um corpo em mutação. Misturam-se o modernoso, o contemporâneo, as tendências vanguardistas. Mas, sempre, indefectivelmente, apareço o antigo, o que perdura, o que adormece nas memórias e, vez ou outra, assoma em cor e beleza. No centro de Florianópolis pode-se ver esse antigo, tentando respirar por entre os grandes prédios, colorindo-se, para ficar mais perto dos dias atuais. Essa cidade que tanto amo, me surpreende... a cada passo!

sábado, 13 de outubro de 2012

Relógios


Sério. Gostaria muito de saber quem foi o gênio que teve a ideia de trocar os relógios que havia no calçadão e em frente à igreja. O troço é uma tremenda agressão à paisagem. Não tem absolutamente nada a ver com o cenário, com a rua, com o jeito de Florianópolis. Será que não dava para dizer a esses gestores públicos, arquitetos, sei lá quem, que modernidade não precisa significar coisas metalizadas e gigantes? Que é possível enfeitar a cidade com elementos que se encaixem na paisagem como se ali não estivessem? Fala sério! Aqueles relógios são o ó do borogodó! Se eu fosse esse povo da prefeitura, tratava logo de tirar aquilo e colocar alguma coisa mais a fim com o astral do centro.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Entendendo a marca da bolsa




Entrei no ônibus correndo, atabalhoadamente, como sempre. Carregada com livros, casaco e equipamentos de trabalho. Era fim de tarde e o terminal urbano vazava gente pelo ladrão. A fila do Rio Tavares já tinha parado, esperando o outro horário, mas eu estava atrasada e o jeito era ir em pé. Esperar pelo próximo ônibus equivaleria perder uns 20 minutos ou mais, o que me faria também perder a integração e toda aquela ladainha de quem sofre o transporte coletivo desintegrado de Florianópolis. 

Assim, entrei e fui me esgueirando em meio ao povo tentando achar algum lugar que me permitisse segurar no ferrinho do banco porque, como sou pequena, não alcanço o ferro de cima. Tragédia cotidiana. Foi então que percebi uma coisa que me deixou muito intrigada. Na medida em que eu ia avançando pelo corredor ia esbarrando nas pessoas, é claro. Mas o curioso é que as mulheres pareciam estar todas com a mesma bolsa. Era o mesmo modelo, o que variava era a tonalidade. Algumas a tinham na cor bege e outras, marrom. Imediatamente pensei que aquelas bolsas deveriam estar bombando na novela, porque às vezes acontece de um determinado personagem ditar moda. 

O ônibus saiu rumo ao Rio Tavares e fiquei matutando, tentando encontrar algum globo ocular simpático para entabular uma conversa. Lá pela rabeira do ônibus encontrei uma garota que eu conhecia. Observei que ela também estava com uma bolsa igual. Então, observei: - “Gozado, parece que tá todo mundo usando o mesmo modelo de bolsa, né?”. Ela me olhou e riu gostosamente: “É a Louis Vouitton, Elaine. Uma marca famosa, é super moda agora e a gente encontra, baratinha, no mercado público”. Então mostrou a sua, a qual tinha estampada por todo o corpo a tal da marca, um L e um V entrelaçados. Eu então perguntei: “E quanto é que o pessoal ganha para andar com essa bolsa?” E ela, com cara de espanto: “Nada, a gente compra, é moda”. 

Eu fiquei ruminando a informação. As bolsas são como outdoors ambulantes, estampando uma marca, propagandeando. As pessoas deveriam ganhar por isso, afinal, é um anúncio. A menos que fossem apaixonadas pela marca, ou a marca significasse alguma coisa muito legal, como uma campanha para salvar animais, uma mensagem política ou coisa assim. Mas não, fui informada de que o legal é mesmo ostentar a marca, para que os demais vejam o quanto a pessoa é descolada. Entendi. “Essa tua bolsa, por exemplo, é ridícula...”, ela me disse, entre risos. Eu ri também, entendendo que ela era torcedora do Avaí e não que desfizesse da minha “verdinha”. É que a minha bolsa velha de guerra estampa o símbolo do meu time do coração, deliciosa paixão: o Figueirense. De fato, admiti, é brega. Mas não seria tão brega quanto ostentar uma marca só porque ela é marca de descolados?  Ficamos nesse papo, e o povo todo em volta ouvindo. Ela perguntou: “E tu, não tinha que cobrar por levar o brasão do time?” Mas time é amor, respondi.  “Pois é, e Louis Vouitton para nós é amor também”. Putz, me pegou. Como rebater isso? Não dá.  

Assim, de ponto em ponto, lá se foram as moças com suas bolsas em série. E eu, saí serelepe, com minha mochilinha verde, de pelúcia, com o símbolo do furacão do estreito. Cada uma carregava sua própria significância, o seu amor... E vamos combinar, como dizer qual amor é melhor? Não tem como!
 

sábado, 6 de outubro de 2012

A música do Pará



Esse brasilsão é mesmo uma maravilha. Em cada cantinho se esconde a beleza de uma cultura multifacetada, misturada, mestiça. E a música é um dos espaços onde essa cara brasileira consegue se expressar com infinita claridade. No norte, na região do Pará, vive uma dessas coisas lindas, capazes de nos enternecer até as lágrimas: Nilson Chaves.


Apesar de já ter andado tanta estrada numa larga carreira, esse poeta dos rios e da vida marajoara, não toca nas rádios, não aparece na televisão e tampouco é o queridinho das gravadoras. O motivo não é outro senão a riqueza de sua poesia, a delicada mirada do seu espaço geográfico, esse norte tão desconhecido no sul. Através de sua voz, Nilson conta as histórias do boto dos rios da Amazônia, do povo ribeirinho, das gentes do Pará, do açaí, do tacacá, o cotidiano de Belém, da beira do Guajará.


Nilson vai nos guiando pelas veredas úmidas do norte, na ternura do toque do violão, na delicadeza da voz, com aqueles seus olhos de rio. Impossível ouvir suas canções e não sentir a vastidão do mundo amazônico, naquilo que ele tem de grandioso e de especial. A música desse gigante do Pará é para ser ouvida assim, no final da tarde, enterrado na rede, mirando o pôr-do-sol.


Aqui vai um pouquinho dessa beleza, com outro monstro da música do norte, Vital Lima. Para conhecer e nunca mais deixar de ouvir.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A democracia em Cuba



Quem já não ouviu através dos meios de comunicação o mesmo repetido mantra de que em Cuba não há democracia? Pois o Núcleo de Estudos em Práticas Emancipatórias, do curso de Direito da UFSC, em parceria com o IELA, promove a conferência da professora Mylai Burgos Matamoros, da Universidade Nacional Autônoma do México, sobre o sistema jurídico político revolucionário cubano. Uma boa oportunidade para conhecer esse sistema que não tem como ser comparado com a democracia neoliberal burguesa, através da qual se costuma olhar a Cuba revolucionária.

Mylai é licenciada em Direito pela Universidade de Havana, com mestrado na Universidade Nacional Autônoma do México. Atualmente finaliza seu doutorado na mesma universidade mexicana onde também dá aula.

A conferência acontece no dia 15 de outubro, no Auditório do CCJ/UFSC, às 10h.

Mais informações: 37216483  ou 37216742