quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Tiririca



O tempo passa, o tempo voa, mas os preconceitos seguem firmes enraizados na alma das gentes. Hoje, lendo as mídias sociais e os órgãos de comunicação on-line, pude observar os comentários maldosos acerca do fato de o deputado Tiririca ter sido considerado um dos 25 melhores parlamentares no Congresso Nacional, escolhidos pelos jornalistas. As pessoas, via e regra, acham tudo isso muito surpreendente. Viceja aí o sempre cultivado preconceito com relação aos pobres, os feios, os sujos. Para a maioria das gentes - mesmos as empobrecidas como Tiririca - é absolutamente certo que um cara semianalfabeto, vindo da periferia do país, um palhaço de circo, não poderia dar boa coisa. Seria mais um a mamar nas tetas do estado, usando as verbas parlamentares para se locupletar (encher os próprios bolsos).

Mas, uma boa olhada nos nossos Congresso, ao longo dos anos, já mostra que os mais "dignos" deputados, homens ricos, bem sucedidos empresários, doutores, enfim, da nata da sociedade, são os que estão acostumados aos desvios, às maracutaias, as tretas. Não são os "manés" aqueles que estão metidos nos escândalos, até porque quase nunca chegam a sentar numa cadeira de deputado. O poder financeiro não permite.

E o que sabemos da atuação do Tiririca? Que ele trabalha, que ele tem se esforçado e que apresentou um importante projeto para proteger a gente do circo. Olha só! Ele quer que o estado garanta ao povo do circo o direito de estar incluído na Lei Orgânica de Assistência Social, para que possam ser atendidos pelo SUS mesmo sem ter endereço. Segundo ele, os artistas circenses não conseguem atendimento médico nos posto de saúde por esse motivo: não têm endereço. Assim como não podem ter seus filhos matriculados na rede pública de ensino. Pois vejam bem, o Tiririca. Está atuando pelos direitos dos que o elegeram de fato: os empobrecidos, os abandonados. Ao contrário dos deputados que se elegem prometendo cuidar dos pobres, ganham o voto dos pobres, e depois se deitam na cama dos seus financiadores de campanha, cedendo aos desejos das grandes empresas, das multinacionais. Quem é o "mané" aí?

Segundo informes da Câmara dos Deputados, Tiririca é um dos nove parlamentares que registraram presença em todas as 171 sessões destinadas às votações. É presença certa nas comissões, coisa que não é obrigatória e esteve em 106 (88%) das 120 reuniões da Comissão de Educação e Cultura, da qual é titular. Também segundo os dados da Câmara já apresentou sete projetos de lei – todos voltados para o circo e a educação. Ainda não falou no plenário, mas pode ser encontrado sempre em seu gabinete, onde atende com deferência a quem quer que chegue.

Eu não sei o que vai acontecer com o Tiririca, se ele vai um dia sucumbir ao canto da sereia do poder. Se vota com a direita, se não tem muita consciência do que é o seu minúsculo partido. Mas, hoje, quero dizer que me sinto feliz por ver esse palhaço brasileiro fazer o que tinha prometido de fato. Pior do que tá não fica, dizia o seu slogan. Pensando no povo do circo, essa gente mágica que anda por aí levando alegria, discriminada e abandonada, para eles pode ficar melhor. Porque eles tem um representante de verdade. Alguém de sua classe que está lutando por eles, que não os esqueceu ao entrar nos salões acarpetados.

Também sei que não se deve idealizar as gentes empobrecidas. Não é pelo fato de ser pobre que torna alguém bom. Mas, da mesma forma, não se pode demonizá-las nem esperar sempre o pior. O Tiririca está indo bem. Meus respeitos, deputado...


domingo, 16 de setembro de 2012

Comunicação Pública e Comunicação Comunitária: algumas provocações


Podem-se separar esses dois conceitos de comunicação como sendo, o primeiro, uma comunicação feita com o controle da sociedade organizada, e o segundo, como a comunicação feita numa comunidade específica. Mas, se fixarmos bem o olhar, vamos ver que é só uma divisão didática. Tanto uma como a outra precisa da organização comunitária. E aí é que a porca torce o rabo. Vivemos num país – e arrisco dizer – num continente, onde a participação é coisa que ainda precisa ser aprendida. Países colonizados, amordaçados, useiros e vezeiros de ditaduras militares, de governos conservadores e patriarcais. Somos uma gente muito pouco acostumada a ter espaço onde dizer a palavra. Por conta disso, estamos sempre sendo representados por pequenos grupos que, com o passar do tempo, se acham no direito de dizer o que gostamos e o que não gostamos. Democracia direta é coisa distante para nós.

I
sso nos leva a questão principal que é a da comunidade. O que é isso? Como definir? O filósofo Enrique Dussel tem um conceito para comunidade que eu gosto muito. Ele diz que comunidade é o povo organizado, são as forças em ação num determinado lugar. Ora, isso nos coloca um problema, com o qual, nós, que trabalhamos com a tal da comunicação comunitária, temos de lidar todo o dia.


Vou falar da minha aldeia, para que vocês possam - se for bem sucedida – aceder ao universal. Temos uma rádio comunitária no bairro onde moro em Florianópolis, o Campeche. Ela foi criada pelo movimento organizado que se formou num momento em que a comunidade foi chamada a discutir um plano diretor. Foi um tempo rico. As pessoas se juntavam, debatiam, discutiam o bairro e, depois de muita reunião, formularam uma proposta. Foi a primeira comunidade de Florianópolis a fazer isso, nos anos 80. Mas, nesse processo, quem atuou não foi o bairro todo, eram alguns. Principalmente gente de esquerda, mas também gente nem tão de esquerda, mas que queria pensar o bairro e garantir uma vida boa. Esse movimento fez nascer um jornal impresso, o “Fala Campeche”, que passou a ser uma voz importante no bairro, dando notícias de todo o debate do plano diretor, assim como de todos os olhares que o construíram. Essa caminhada desse povo organizada, mais tarde, acabou gestando a Rádio Comunitária Campeche.


A nossa rádio, portanto, é filha de um longo processo de organização da comunidade, de um conjunto de pessoas que, por vezes, nem está tão afinada na política, mas que se afina no desejo de coisas boas para o bairro. É uma aliança tênue e frágil que temos de refazer a toda hora. Mas, ainda assim, temos conseguido manter a rádio viva desde 1994, com programas ao vivo desde 2004. Ali têm espaço todas as forças vivas que atuam no bairro, o que garante voz inclusive a algumas com as quais nem concordamos muito. Mas, isso é a democracia e a rádio está ali para o debate.


Isso significa que, tal qual na vida mesma, a luta de classe também se faz no âmbito da comunicação comunitária. É o nosso desafio diário. Todas as mazelas da sociedade se expressam naquele espaço. A comunidade se vê retratada na rádio e ocupa o espaço. Então, temos de lidar o tempo todo com a contradição. De um lado, todos os pressupostos que garantem ser a nossa rádio um espaço democrático, livre, formador de conhecimento, fomentadora dos debates e de outro, a sempre constante presença de forças que representam o contrário. Isso significa que a peleia pelas mentes e corações é diária. Assim que fica claro o quanto esse vocábulo “comunidade” encerra de conflito, contradição e complexidade.


Comunitário e popular


Nesse sentido a comunicação comunitária se diferencia totalmente de outras propostas de comunicação popular que se fazem sem essa tensão. É o caso de outro projeto no qual tomo parte que é a Revista Pobres e Nojentas, uma revista de reportagem que busca mostrar aquilo que a mídia normal não mostra. Esse é um projeto unilateral, que existe a partir do desejo de cinco jornalistas e alguns parceiros eventuais. Nós olhamos a cidade, as comunidades de periferia, os problemas, e decidimos a pauta.

Damos espaço para quem queremos e nos damos o direito de não dar voz a quem acreditamos que não mereça. É uma revista parcial, fincada na ideia de que aquele é um espaço dos que não têm ainda onde expressar sua voz. Ainda assim é um projeto de comunicação popular porque se faz na perspectiva do mundo popular e se distribui gratuitamente nas comunidades. Da mesma forma pode-se falar do blog “Palavras Insurgentes”, mantido por mim na rede mundial de computadores. Faço ali comunicação popular porque o mundo que retrato é o mundo popular. Mas, a edição, coordeno eu. Eu decido os temas, eu escrevo, faço minha análise, expresso minha opinião. E, ainda que seja um jornalismo feito “desde abajo”, ele depende só de mim.


Por isso que fazer comunicação comunitária é um desafio mais instigante. Porque nessa proposta estamos em grupo, fazendo coisas em perpétuo negociar. E isso não é coisa fácil. Porque fazer comunicação nas e para as comunidades é possível com uma só mão. Barbada, desde que tenhamos a convicção política e os meios de produção. Mas, fazer comunicação com as comunidades exige o descarte completo do ego, das certezas, e da intolerância.


Dou um exemplo com o qual nos deparamos todos os dias na rádio comunitária. Nossa rádio nasceu com o firme propósito de formar conhecimento, fugir dos temas impostos pela indústria cultural, debater os problemas locais. Mas, como agir com o associado que quer ouvir na rádio a música que é sucesso nacional, ainda que alavancada pela indústria? Como propor à comunidade um gosto que é de um grupo em particular? Essas são questões que estão sempre em pauta, discutidas à exaustão. Porque ser comunitária pressupõe estar em diálogo, e não servindo como correia de transmissão de um pensamento particular. É claro que, nesse caso, o debate se faz ao vivo, com o ouvinte participando e tendo a chance de se contrapor.


Outro elemento da comunicação comunitária que é bem contraditório é a legalização. Hoje, em Santa Catarina temos mais de 100 rádios comunitárias legalizadas. E, conforme um trabalho de pesquisa da jornalista Terezinha Silva, pouquíssimas desse grupo poderiam de fato ser chamadas de comunitárias. No mais das vezes são rádios religiosas ou comerciais mesmo, na maior cara dura. Algumas delas, inclusive, extrapolando seu espaço de abrangência e adentrando no espaço da outra. Como é o caso de uma 98.3, exatamente a mesma frequência que a Rádio Campeche, que tem sede em São José e pode ser ouvida no Campeche.


A legalização, ao mesmo tempo em que deu certa segurança para quem faz a comunicação, colocou a proposta numa camisa de força. São tantas as regras que boa parte da tesão que há em fazer comunicação comunitária se esvai. Muitas vezes, as propostas comunitárias tem uma dinâmica própria que acabam tendo de se enquadrar numa lei fria e isso afasta muita gente.


Outro elemento perturbador no mundo da comunicação comunitária é a febre dos gestores. Como o governo Lula inaugurou uma interessante lógica de financiamento de propostas populares – via os pontos de cultura – muitas das pessoas que antes faziam comunicação como uma ação política na busca pela transformação começaram a se transformar num monstro informe chamado “gestor cultural”. Isso gerou a criação exponencial de pequenas ONGs que vão se formando com duas ou três pessoas, e essas criaturas vão se fazendo gerentes de projeto, passando a administrar os recursos públicos como quem administra uma empresa. A ponto de o objeto em si da coisa – que é fazer rádio, fazer teatro, fazer cultura – passar a ser apenas um adereço, um detalhe, quando não um atrapalho, ficando a ação principal enredada no “gerir o projeto”. Penso que aqui reside um nó górdio, que precisa de muito debate.


De certa forma sou muito cética quanto esse chamado avanço da comunicação comunitária no Brasil. Porque há muito que avançar em termos estruturais para que a comunicação comunitária possa de fato cumprir seu papel com mais eficácia. Por enquanto eu penso que somos apenas resistência, e muito pouco eficaz às vezes. É uma coisa importante, mas precisa dar um salto de qualidade.


Durante os debates da Conferência Nacional de Comunicação, a gente tentou fazer a discussão num outro nível, mas não tivemos eco. Seguiu hegemônica a ideia capitaneada pelo Fórum Nacional de Democratização das Comunicações, que é a proposta de democratização. Ora, democratizar a comunicação pressupõe melhorar o que aí está. E, penso que esse modelo não deve ser remendado. Ele é ruim. Precisa de um outro, novo. Claro, conspiro da proposta de Rosa de Luxemburgo de que é preciso fazer reforma e revolução, tudo junto ao mesmo tempo. E é por isso que não consigo trabalhar só com a ideia de democratização. Há que democratizar o que for possível nesse modelo, é certo. Mas, ao mesmo tempo temos de abrir cunhas para a construção de outro modelo. Soberania comunicacional. Ou seja, a comunicação de fato na mão do povo, com todas as idiossincrasias que isso pode provocar. Por isso a experiência comunitária é tão rica, porque ali já estamos exercitando esse fazer. A soberania popular pressupõe o embate permanente dentro da comunidade, a luta de classe, viva, também no campo comunicacional.


Formar redes e tomar o poder


A república bolivariana da Venezuela foi o primeiro país da América do Sul a pensar um novo modelo de comunicação. Durante anos o governo bolivariano conversou com as forças vivas do país e conseguiu, em 2009, constituir uma lei – chamada Lei Resorte (lei de responsabilidade social em radio e televisão) – que deu nova cara para o jeito de fazer comunicação. Aqui no Brasil segue olimpicamente ignorada. Pois a lei venezuelana dá condições concretas para que a comunicação comunitária se faça, e mais do que isso, garante espaço de difusão a tudo o que é produzido nas mais remotas regiões do país. Emissoras privadas precisam ter até 70% de programação local, e foram criadas várias emissoras de rádio e TV estatais e públicas. Ou seja, houve uma mudança estrutural (revolução) e não apenas remendo (reforma). Ali, a democratização da comunicação não significa um pouquinho mais de negros, um pouquinho mais de índios, um pouquinho mais de homossexuais no rádio e na TV. Ali está em curso um processo de soberania comunicacional. Mudança, transformação.


É fato que esse processo não se dá de maneira isolada. O país também vem atuando de outra forma no embate da colonização mental que sempre tomou contra de “nuestra América”. Assim que a soberania comunicacional só pode ser possível no Brasil se houver outro Brasil também. Isso, por si só já nos demarca a titânica tarefa que temos.


Nesse sentido, nós, comunicadores comunitários e populares precisamos atuar para garantir mais eficácia no nosso fazer. Isso talvez só seja possível formando redes, potencializando nossos escritos e produções de vídeo e rádio. Em Santa Catarina estamos tentando. Criamos em 2010 a Rede Popular Catarinense de Comunicação que reúne rádios comunitárias, agências de informação, blogs, jornais eletrônicos e impressos. A ideia é que cada parceiro reproduza a informação do outro, fazendo com que um fato que seria conhecido apenas no bairro ou na comunidade, possa se expandir para além de suas fronteiras. Nessa experiência vamos capengando e acertando. Por vezes alguns veículos ficam em dificuldade, não conseguem criar informação própria, mas a coisa vai indo. Um ajuda o outro, fazemos oficinas, cursos, encontros. Vamos caminhando, porque já compreendemos que sozinhos não temos eficácia, ficamos presos no gueto.

Mas, ainda assim, isso não é suficiente. Nossas redes são pequenas, regionalizadas. Como combater com esses poucos “soldados” a força de uma informação divulgada num Jornal Nacional, ou num Jornal da Record? Essas chegam a todo território nacional, em cada cantinho desse país, massivamente.


Então, nossa meta maior precisa ser aquela que o velho Brizola tanto insistiu: temos de tomar esses meios. Eles precisam estar nas mãos populares. E essa não é uma tarefa fácil. Mas, precisa estar no nosso horizonte. Nenhuma comunicação comunitária ou popular, por melhor que seja, pode prescindir desse alcance nacional, dessa penetração de massa. O espectro é público, é nosso e temos de tomá-lo. Como vamos fazer isso é o que temos de conspirar nesses encontros que fazemos pelos cantões do Brasil, sob pena de vivermos eternamente na resistência. Basta de resistir. É hora de avançar. A luta pela soberania comunicacional é a luta classista por outro Brasil. Isso significa que as pessoas que fazem a luta pela democratização das comunicações, ou pela expansão da comunicação comunitária popular precisam também fazer a luta geral, pela mudança e pela transformação radical. Caso isso não seja feito seguiremos dando remédio para o monstro... E isso, só interessa à classe dominante.


Conferência proferida em Curitiba no 1º Curso Estadual de Comunicação Popular do Paraná. 10 de maio de 2012

sábado, 15 de setembro de 2012

Os zapatistas – hombres de maiz



Essa lenda contou o velho Antônio ao sub Marcos. Que quando os deuses decidiram criar as gentes fizeram um primeiro experimento. E fizeram homens e mulheres de ouro. Eles brilhavam muito, eram bonitos, mas não se moviam, não trabalhavam, porque eram muito pesados.
Então os deuses decidiram fazer os seres de madeira. Esses, homens e mulheres, se moviam, trabalhavam muito. Os deuses pensaram que tudo estava bem, mas, logo perceberam que os homens de ouro haviam se apropriado dos homens de madeira, fazendo com que trabalhassem para eles. Eram seus empregados.

Os deuses não gostaram disso e fizeram outros homens e mulheres, dessa vez de milho. E que esses eram bonitos, falavam a língua verdadeira, se moviam, trabalhavam e subiram as montanhas para fazer o caminho verdadeiro.
Então, disse o velho Antônio que os homens de ouro, brancos, são os ricos, os de madeira, morenos, são os pobres e os de milho são aqueles que os de ouro temem e os de madeira esperam. Então alguém perguntou ao velho de que cor eram os homens de milho.

Ele r
espondeu: assim como existem vários tipos de milho, os homens de milho têm muitas cores, têm todas as peles, e que ninguém poderia saber quem nem como eles eram, porque tinham como característica não ter um rosto. 

É por isso que os zapatistas usam o pasamontañas (gorro preto). Porque eles são os homens e as mulheres de milho. Podem ser qualquer um. São qualquer um que fale a língua verdadeira e faça o bom caminho.


Veja o vídeo...


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Do passado e das palavras...




Para Ana

Remexendo nas gavetas do passado andei a me procurar. Era preciso saber quem de fato era essa mulher que, assombrada, me olha no espelho. Enrodilhada nos tormentos, não dava conta, até que me aventurei nas brumas. Voltar, ano a ano, caminhar para trás, olhando pelas frestas da vida que já havia escorrido pelas mãos. As primeiras lembranças foram os livros, essa paixão. Enciclopédias compradas pelo pai, da mão dos vendedores ambulantes.  Mundos distantes, coisas estranhas, descobertas, desejos. As páginas consumidas com voracidade no quarto da vó, enquanto ela bordava seu ponto cruz.

Depois, as primeiras letras. Ler já não parecia suficiente, havia que me aventurar pelo mágico mundo que era possível formar com as palavras. Seguindo os passos do pai no contato com a vida mesma. Meu primeiro colégio, bem longe de casa, no bairro do Passo, para onde eu ia, de ônibus, com a professora Maria Helena. Lugar da beleza, da partilha, começo desse amor insano por “nuestra América”. Perdida, bem longe do centro, encravada na periferia, a Escola Municipal chama-se Francisco de Miranda, um dos gigantes da pátria grande. Não é por acaso, então, em mim, essa mistura argentina, campeira, índia, abyayálica. Vem desde a infância, inoculada nas salas de aula cheias de desenhos de Bolívar e San Martín ou na beira do Uruguai, cercada de paisanos de todos os credos, com sua língua argentina.

Há alguns anos passei muito rapidamente por São Borja. Estava levando minha mãe para o rio Ibicuy, sua última morada. Não havia tempo para visitas, mas, meu coração pediu para ver a pequena escola onde aprendi a formar as primeiras palavras. E lá fui eu, carregada de emoções. Era janeiro, férias, fazia calor. Tanto tempo se passara, nem sabia se a encontraria. Mas qual, lá estava a Francisco de Miranda, não mais tão modesta como a das minhas lembranças. Uma esquina antes do rio, formosa e impávida, formando novas cabecinhas no amor à América Latina, às letras. De fora, impedida pelas grades naqueles dias de férias, reverenciei o lugar por alguns minutos, ouvindo nítidas as vozes da minha infância. Do outro lado da rua encontrei, ainda firme, o casarão onde comprávamos picolé na hora do recreio, misturadas às gentes do lugar.

E então ali estava eu, uma mulher que escolheu viver das palavras, as quais nasceram naquele bendito lugar, no intrigante bairro do Passo. Como num encantamento essas mesmas palavras me acenavam, das brumas da minha meninice. Aquilo que eu sou se forjou nas salinhas, outrora de tábua, do Francisco de Miranda. Dali eu parti para o mundo tal qual Juana Azurduy, bramindo minhas espadas. Como o tempo se esvaia, e era preciso seguir no rumo do Ibicuy, no umbral da escola deixei uma flor e me fui, nascida de novo, embriagada de risos e recordações.

Bem mais tarde, guiada no passado pela mão da Ana, compreendi que nada no mundo poderia mudar aquela garotinha que desenhou suas primeiras letras no Francisco de Miranda, entre os filhos do povo das barrancas ribeirinhas. Indefectivelmente, passe o que passar, eu andarei sempre em luta, grávida de palavras e, com elas, esgrimindo o mundo...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A eleição na Venezuela





Agora no mês de outubro, a Venezuela vai outra vez às urnas. De novo a escolher seu presidente. Desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu pela primeira vez o cargo de presidente, que o país vem vivendo transformações importantes, nunca antes imaginadas. A primeira delas foi a refundação da República com a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, aprovada por mais de 92% da população. Nela, por força das gentes organizadas, foi criado um quinto poder - maior que o legislativo, executivo e judiciário: o poder popular, coisa que não existe em nenhuma outra Constituição do mundo. Isso significa que se a maioria do povo não aceitar determinada lei, pode revogá-la. A Venezuela viveu um turbilhão. Por todo o país se moveram as gentes, povo que nunca antes tivera a chance de viver a participação efetiva da vida política. E, para desespero da elite que mandava no país desde décadas, quem conquistou a maioria das cadeiras foram as pessoas mobilizadas em torno de uma proposta de mudança radical. A nova carta foi construída e o então presidente decidiu submeter-se a outra eleição, agora sob a nova Constituição. Estava fundada a quinta república e iniciava aí a democracia participativa, na qual o povo era protagonista. Assomava na América do Sul a República Bolivariana da Venezuela, tendo como objetivo a recuperação da ideia da Pátria Grande, de Bolívar.

Mas, esse ideal tão singelo colocou toda a direita latino-americana à postos. Uma Venezuela libertária era incômoda demais. Isso sem falar na relação de amizade com Cuba, desequilibrando a correlação de forças na região, afinal, o país comandado por Chávez é uma potência petrolífera. E foi assim que, desde o chiquérrimo bairro de Altamira, onde vive a elite caraquenha, foi se gestando um golpe de estado. Com a preciosa ajuda dos Estados Unidos, empresários locais, fazendeiros, vende-pátrias, conseguiram aprisionar Hugo Chávez no ano de 2002. Queriam fazer o povo crer que o presidente havia renunciado e, assim, assumir o comando do "cargo vago". Só que um soldado que fazia parte da guarda que vigiava o presidente foi o portador de um bilhete no qual Chávez informava que estava preso, que era um golpe e que não havia renunciado. A Venezuela bolivariana se mexeu. Desceram as gentes de todos os lugares e obrigaram os golpistas a devolver o presidente. A força do povo derrotou o golpe. Desde aí a Venezuela vem caminhando sob outros ventos. Coisas importantes foram se sucedendo, revertendo em benefícios para  a maioria, antes relegada ao azar.

Chávez trouxe para as ruas a luta de classe. Na capital, Caracas, qualquer grupinho de dois já inicia uma discussão sobre o modo bolivariano de governar. Há os que não perdoam o fato de o presidente ter garantido poder ao povo. Um grupo particularmente tem atuado na disputa. São os chamados “esquálidos”, opositores do governo. Eles não reconhecem os processos eleitorais livres e chamam Chávez de ditador, sendo respaldados pela CNN, braço midiático armado do modo estadunidense de ver a democracia. Querem de volta o tempo em que só um pequeno grupo de privilegiados desfrutava do direito de governar e de desfrutar as riquezas. Coisas como as "missões" - grupos organizados de pessoas comuns, nos bairros - são inadmissíveis. É que essas atividades têm levado alfabetização às gentes, universidade, direitos, comunicação livre, creches, saúde, comida barata, cultura, moradia,  tudo o que antes não havia. 

Em 2006, o presidente submeteu-se a outro pleito, no qual foi vencedor, com mandato até 2013, justamente por essa postura de defender a democracia participativa, onde manda o povo. Depois dessa importante vitória, o processo bolivariano aprofundou-se. As missões se consolidaram nas cidades de todo o país assim como nas zonas rurais, milhões de pessoas tem participado, fazendo com que a ideia de democracia assuma outra conotação. Na Venezuela, democracia não se resume ao direito de votar, mas sim, o de participar ativamente da vida do país em todas as áreas possíveis. Mas, o processo nunca foi tranquilo. A mudança bolivariana foi se fazendo sem revolta armada, na paz, e isso pressupõe o direito de a oposição também se organizar. Apesar das constantes denúncias de falta de liberdade de expressão, quem já visitou a Venezuela sabe o quanto a oposição pode se expressar e como o faz. No mais das vezes os ataques são à pessoa do presidente, geralmente no mais baixo calão. Também não é segredo para ninguém a ação constante da embaixada dos EUA, fomentando a dissidência. Acabar com a democracia participativa na Venezuela é uma necessidade para quem só consegue impor a dita cuja pela força das armas: vide Iraque, Afeganistão, e outros tantos lugares ocupados militarmente. E foi por conta desse permanente atuar da oposição com seus aliados estrangeiros que as eleições legislativas de 2010 mostraram um avanço significativo da velhas forças. Porque, afinal, não é coisa fácil levantar um país de mais de uma centena de anos de escravidão à oligarquia local. A pobreza não acaba por mágica e o processo de mudança - feito de forma democrática - é eivado de avanços e retrocessos. 

Não é sem razão que agora, nas eleições do dia 7 de outubro, a disputa está bastante polarizada entre os candidatos Hugo Chávez, pelo GPP (Gran Polo Patriótico), que junta organizações de esquerda, populares e independentes, representantes dos novos tempos e Henrique Capriles, pela oposição, o MUD (Mesa de la Unidad Democratica), que reúne vários partidos e forças de oposição mais à direita, tentando evitar que Chávez chegue pela terceira vez à cadeira presidencial. A estratégia de centrar forças em um único candidato foi baseada justamente na boa performance conseguida nas eleições que definiram os parlamentos em 2010, quando essa coalizão conseguiu fazer 47,22% dos votos válidos.

O candidato de oposição, Henrique Capriles Radonski, é um jovem e bonito advogado, filho da elite local, escolhido a dedo para enfrentar Chávez. Tem uma sólida carreira política que começou como deputado, sendo ele um dos mais jovens do antigo congresso. Também foi prefeito por duas vezes no município de Baruta e governou o estado de Miranda. Sua família está ligada ao setor empresarial, sendo que o principal produto que comercializam é a comunicação através da "Cadena Capriles". Também atua na área do entretenimento, do cinema e serviços imobiliários. Henrique formou-se nos melhores colégios de Caracas, fez-se advogado e especializou-se em direito tributário. Estudou também fora do país, na Itália, Holanda e Estados Unidos. Durante o golpe de estado que tentou tirar Hugo Chávez do poder, Henrique esteve envolvido nos ataques à Embaixada de Cuba e chegou a ser detido. Naqueles dias circulara o boato de que o vice-presidente estaria asilado na embaixada e Henrique tentou violar os acordos diplomáticos buscando vistoriar o local que era, por lei, território cubano. 

Agora, a imagem de jovem moço bem sucedido está sendo usada para enfrentar um homem que passou por um longo tratamento médico e ainda apresenta sinais de doença. De maneira bastante gritante a disputa se dá no campo simbólico entre o sangue novo e o velho enfermo. Uma simbologia às avessas já que o "moço" nada mais é do que a volta do sempre existente, ou seja: a oligarquia predadora e sugadora de riquezas. Enquanto Chávez é a continuação da mudança, do aprofundamento do protagonismo popular: o novo. 

Sem dúvida a Venezuela vai passar por uma queda de braço sem precedente, com dois modelos de organização da vida bastante distintos. É certo que o modo bolivariano não é o melhor dos mundos, tem suas falhas, seus pontos de corrupção, seus entraves, mas não resta dúvida que representa uma parcela da população que nunca teve acesso aos direitos mais básicos. A Venezuela de antes era um país no qual aos pobres era relegado o lugar subalterno, de aceitação de uma realidade na qual a fatia maior de poder e riqueza era dos mais ricos - uma parcela ínfima dos venezuelanos. Com o governo bolivariano os empobrecidos puderam ter acesso ao país, aos recursos públicos, aos bens públicos. O dinheiro do petróleo que só engordava contas no estrangeiro passou a financiar casas populares, centros de produção de informação, educação formal, saúde, começou a ser dividido com equidade. Não dá para negar que houve mudanças significativas do ponto de vista estrutural. Isso sem falar das grandes empreitadas continentais como a Telesur, uma rede de informação na qual a América Latina se vê de verdade, o Banco del Sur, uma proposta de banco solidário e a Alba, Aliança Bolivariana para as Américas, que investe tudo no sonho da Pátria Grande. 

Agora, nas urnas, o povo vai decidir. Se quer aprofundar seu poder ou se vai entregar sua vida na mão dos velhos "patrões". E a beleza está justamente nisso, na possibilidade de errar ou de acertar. Tudo está em aberto. Só que não dá para ser ingênuo acreditando que a decisão vá se dar apenas baseada no livre arbítrio das gentes. A batalha que está para acontecer na Venezuela nesse dia 17 tem muitos atores. Por ali andam os empresários, os mercenários, os vende-pátria, os embaixadores do império, o dinheiro das fundações estrangeiras, os provocadores, os enganadores, os vendedores de sonhos e até os terroristas, todos agindo nos bastidores.  Cada cidadão do país se verá enredado por essas forças e será preciso muita consciência de classe para decidir o voto em Hugo Chávez. 

É sempre bom lembrar que, apesar de toda  a centralidade do debate ficar nesses dois candidatos, que agrupam a maioria das forças políticas à esquerda e à direita, também há outros candidatos de partidos menores como María Bolívar, pelo Partido Democrático Unidos pela Paz, Orlando Chirinos, pelo partido Socialismo e Liberdade, Reina Sequera,, pelo partido laboral, Luis Reyes Castillo, Pela Organização Renovadora Autêntica e Yoel Acosta Chirinos, pela Vanguarda Bicentenária Republicana.

Agora é esperar. As urnas falarão!

sábado, 8 de setembro de 2012

Via Campesina na Palestina - um olhar desde dentro

É período de colheita das oliveiras, a árvore símbolo da resistência do povo palestino. 13 militantes da Via Campesina Brasil viajam à Cisjordânia. No caminho, esta Brigada internacionalista vive de perto as consequências da colonização israelense, na qual impera a repressão militar. Do outro lado, incorporam o significado da luta de resistência do povo palestino. Muito além das bombas propagandeadas por meios de comunicação pró-sionista, a principal arma utilizada pelos palestinos é inequívoca: existir.


Câmara, montagem e realização: Claudia Jardim e Benjamín Durand



Vía Palestina - Crónicas de una Brigada Internacionalista from Red ALBATV on Vimeo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Circulando por Cuiabá








Os aglomerados urbanos exercem sobre mim profundo encantamento. Por conta disso, gosto de caminhar pelas cidades, sentindo a beleza que nasce desde a mão humana. Mesmo nos lugares mais inauditos, sempre é possível realizar esse que é o encontro mais sagrado: o da nossa humanidade. Foi assim que o mês de setembro me surpreendeu em Cuiabá, Mato Grosso, a porta de entrada da majestosa Chapada dos Guimarães. Nas primeiras horas, um estranhamento. Longas avenidas, casas baixas, cidade gris, esfumaçada pelas queimadas, vegetação seca, e o abafado calor. Faltavam as gentes.

Então, pelas generosas mãos da Rose, baixamos para o centro. Baixar é mesmo o melhor verbo, já que a parte histórica da cidade fica numa depressão. Aí, foi uma sucessão de belezas. O centro de Cuiabá é a vida pulsante da cidade. As ruas mais estreitas, a profusão de lojas, os casarões antigos, as casinhas geminadas, as mangueiras carregadas de frutas e os cuiabanos. Essa gente ora pantaneira, ora amazônica, ora do cerrado, de cor de cuia, traços indígenas e cheia de alegria.  Apesar do calor de deserto, as ruelas fervilham – muitas foram transformadas em calçadões - a música toca alto, e os mais velhos descansam nas praças cheias de grandes mangueiras. Também pululam as barraquinhas, com artesanato local e comidas de rua, os mais espetaculares pitéus.

Na Praça Santos Dumont, no cair da noite, pode-se visitar a barraca do Sérgio Pavão, um carioca que escolheu Cuiabá para viver e foi o primeiro a trazer para a rua a comida típica do lugar. Maria Isabel - uma espécie de carreteiro, Feijoada de Pintado, Arroz com Pacu seco, feijão empamonado, farofa de banana , carne seca com banana verde, ventrecha de pacu, mujica de pintado com mandioca, e uma série de outras delícias. O sabor de Cuiabá, esse lugar mágico.

De manhã, pode-se tomar café em qualquer padaria, sempre acompanhado da chipa, uma espécie de salgado com queijo e o famoso bolinho de arroz, marca registrada da cultura local. Arroz pilado, docinho, evocando a beleza da vida simples, pantaneira.

O Mercado do Peixe, próximo ao rio Cuiabá, no finalzinho do centro histórico, é espaço de maravilhas. Todos os peixes da região se mostram em beleza, alimento das gentes, marca da cultura. O pescador, assombrado com a formosura do dourado, o qual pesca diariamente, anuncia orgulhoso: "Esse é o rei do rio. O mais bonito, o mais forte". Ele diz que a batalha com o peixe é sempre uma epopeia, daí o seu respeito pelo bicho. Coisa de emocionar. Nas barracas das frutas aquele cheiro fresquinho, o perfume da manga, banana, caju, jaca, bocaiúva, pequi. Um universo colorido que enche a boca de vontades. O famoso furrundu, doce típico do lugar e a farinha de mandioca flocada são estrelas no lugar. O lugar ainda vende toda a sorte de comidas típicas, o néctar dos deuses.

Ainda próximo ao rio está o Arsenal, antiga penitenciária colonial que foi totalmente reformada pelo sistema do Sesi. Virou um centro de cultura dos mais incríveis. Por ali, na tarde modorrenta, dezenas de crianças circulam nas oficinas de dança, no teatro, cinema, bibliotecas e oficinas de música. Também ali se pode encontrar a famosa viola de cocho, instrumento típico daquele povo. É uma viola feita de um único tronco, apenas escavada no local onde deveria ficar o buraco que forma a caixa de ressonância. Chama-se assim porque é feito do mesmo jeitinho que o caboclo faz o cocho para alimentar os animais. É invenção do povo simples da roça, e arpeja os sons mais doces, porque cheios da simplicidade do homem rural. Ouvir a viola é comungar com alma do pantanal, tanto que ela já considerada patrimônio imaterial da região.

E assim se vai conhecendo as riquezas de Cuiabá. Na igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho pode-se admirar a arquitetura. Ela é uma réplica da catedral de Notre Dame e enche de orgulho aqueles que ali trabalham. Mesmo no adiantado da hora, o vigia abre a porta para que as pessoas entrem e admirem. "É a nossa riqueza, temos de mostrar", e aponta, orgulhoso, as reformas feitas, a nova pintura e a beleza da imagem da virgem, esculpida em madeira e com cara cuiabana.

Em frente à Câmara de Vereadores está outra coisa fascinante. A demarcação do centro geodésico da América do Sul. Exatamente o meio do nosso lindo continente. Um obelisco marca o ponto exato do coração pulsante desta parte sul de Abya Yala e ali pode-se sentir a energia poderosa de um "povo sin piernas, pero que camina". Cuiabá é exemplo disso. Dominada pelas forças do latifúndio e do agronegócio mostra também muita pobreza, essa pobreza que nasce da exploração contínua e cotidiana. Ainda assim, sente-se a potência das gentes, na resistência concreta do dia-a-dia, com sorriso na cara, mas com a mão valente sempre pronta para a luta. Agora, que a cidade virou sede da Copa do Mundo, a vida se complicou. As obras estão em todos os lugares, as ruas estão trancadas, o aeroporto fecha, o transtorno é grande. "Fazem estádios e não calçam as ruas", reclamam os que sacolejam nos ônibus lotados e escassos. Boa parte das gentes acredita que vai ser bom sediar a copa, acreditam nos governos que os jogos trarão fartura. Mas outro há que sabem das mazelas e estão vigilantes.

Cuiabá também é centro de muitas batalhas travadas pelos povos indígenas. Desde as incursões dos ferozes bandeirantes que avançavam pelo centro brasileiro na busca do ouro, que as comunidades da região amargam derrotas e terrores. Os primeiros a enfrentar a sanha invasora foram os coxiponés, e depois as demais etnias, cada dia mais empurradas para o abismo das reservas e da vida tutelada. Desde a fundação da cidade em 1719 até os dias de hoje, os indígenas precisam batalhar para garantir cada pequeno avanço de demarcação de terras, de preservação da cultura, de vida digna. E, como no passado, hoje seguem enfrentando os gananciosos, os ferozes grileiros de terra, os grandes fazendeiros, que passam ao povo - quase todo de descendência indígena  - a ideia de que índio é coisa ruim, é atraso do progresso e que, portanto, deve ser eliminado. Mas, ao mesmo tempo, esses mesmos dominadores usam da beleza da cultura indígena para ganhar dinheiro. É comum ver hotéis com nomes indígenas, decorados com quadros que mostram a vida simples do homens e mulheres autóctones. No Paiaguas, um hotel chique do centro, tem até estátuas de índios para encher a vista dos turistas. Mas não se engane, é só para turista ver. No geral, o preconceito contra os povos originários é grande. Só que eles não se entregam. E hoje estão numa grande luta contra a absurda portaria 303, da Advocacia Geral da União, um golpe baixo do governo que pretende rever as demarcações e expulsar os índios de suas terras.

De tudo o que vi em apenas dois dias de vivência intensa faltou a Chapada, esse gigante natural do qual apenas senti o hálito. Mas, ainda assim, o encontro com as pessoas, o carinho da acolhida, a partilha amorosa de vida marcou de forma indelével o coração. Cuiabá nunca mais será um ponto no mapa. É o coração da minha américa do sul, é lugar da magia da viola de cocho, é morada de amigos, espaço do rasqueado, essa música simples, de poética ingênua, que nos toma a alma.

Na noite quente cuiabana, num quintal fresquinho, debaixo da mangueira e do pessegueiro, enquanto o gato caçava comida, encerramos um seminário sobre liberdade de expressão à moda de Cuiabá: quente, fraterno, alegre, comunitário. Poucas vezes me senti tão plena!...

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