quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Do passado e das palavras...




Para Ana

Remexendo nas gavetas do passado andei a me procurar. Era preciso saber quem de fato era essa mulher que, assombrada, me olha no espelho. Enrodilhada nos tormentos, não dava conta, até que me aventurei nas brumas. Voltar, ano a ano, caminhar para trás, olhando pelas frestas da vida que já havia escorrido pelas mãos. As primeiras lembranças foram os livros, essa paixão. Enciclopédias compradas pelo pai, da mão dos vendedores ambulantes.  Mundos distantes, coisas estranhas, descobertas, desejos. As páginas consumidas com voracidade no quarto da vó, enquanto ela bordava seu ponto cruz.

Depois, as primeiras letras. Ler já não parecia suficiente, havia que me aventurar pelo mágico mundo que era possível formar com as palavras. Seguindo os passos do pai no contato com a vida mesma. Meu primeiro colégio, bem longe de casa, no bairro do Passo, para onde eu ia, de ônibus, com a professora Maria Helena. Lugar da beleza, da partilha, começo desse amor insano por “nuestra América”. Perdida, bem longe do centro, encravada na periferia, a Escola Municipal chama-se Francisco de Miranda, um dos gigantes da pátria grande. Não é por acaso, então, em mim, essa mistura argentina, campeira, índia, abyayálica. Vem desde a infância, inoculada nas salas de aula cheias de desenhos de Bolívar e San Martín ou na beira do Uruguai, cercada de paisanos de todos os credos, com sua língua argentina.

Há alguns anos passei muito rapidamente por São Borja. Estava levando minha mãe para o rio Ibicuy, sua última morada. Não havia tempo para visitas, mas, meu coração pediu para ver a pequena escola onde aprendi a formar as primeiras palavras. E lá fui eu, carregada de emoções. Era janeiro, férias, fazia calor. Tanto tempo se passara, nem sabia se a encontraria. Mas qual, lá estava a Francisco de Miranda, não mais tão modesta como a das minhas lembranças. Uma esquina antes do rio, formosa e impávida, formando novas cabecinhas no amor à América Latina, às letras. De fora, impedida pelas grades naqueles dias de férias, reverenciei o lugar por alguns minutos, ouvindo nítidas as vozes da minha infância. Do outro lado da rua encontrei, ainda firme, o casarão onde comprávamos picolé na hora do recreio, misturadas às gentes do lugar.

E então ali estava eu, uma mulher que escolheu viver das palavras, as quais nasceram naquele bendito lugar, no intrigante bairro do Passo. Como num encantamento essas mesmas palavras me acenavam, das brumas da minha meninice. Aquilo que eu sou se forjou nas salinhas, outrora de tábua, do Francisco de Miranda. Dali eu parti para o mundo tal qual Juana Azurduy, bramindo minhas espadas. Como o tempo se esvaia, e era preciso seguir no rumo do Ibicuy, no umbral da escola deixei uma flor e me fui, nascida de novo, embriagada de risos e recordações.

Bem mais tarde, guiada no passado pela mão da Ana, compreendi que nada no mundo poderia mudar aquela garotinha que desenhou suas primeiras letras no Francisco de Miranda, entre os filhos do povo das barrancas ribeirinhas. Indefectivelmente, passe o que passar, eu andarei sempre em luta, grávida de palavras e, com elas, esgrimindo o mundo...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A eleição na Venezuela





Agora no mês de outubro, a Venezuela vai outra vez às urnas. De novo a escolher seu presidente. Desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu pela primeira vez o cargo de presidente, que o país vem vivendo transformações importantes, nunca antes imaginadas. A primeira delas foi a refundação da República com a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, aprovada por mais de 92% da população. Nela, por força das gentes organizadas, foi criado um quinto poder - maior que o legislativo, executivo e judiciário: o poder popular, coisa que não existe em nenhuma outra Constituição do mundo. Isso significa que se a maioria do povo não aceitar determinada lei, pode revogá-la. A Venezuela viveu um turbilhão. Por todo o país se moveram as gentes, povo que nunca antes tivera a chance de viver a participação efetiva da vida política. E, para desespero da elite que mandava no país desde décadas, quem conquistou a maioria das cadeiras foram as pessoas mobilizadas em torno de uma proposta de mudança radical. A nova carta foi construída e o então presidente decidiu submeter-se a outra eleição, agora sob a nova Constituição. Estava fundada a quinta república e iniciava aí a democracia participativa, na qual o povo era protagonista. Assomava na América do Sul a República Bolivariana da Venezuela, tendo como objetivo a recuperação da ideia da Pátria Grande, de Bolívar.

Mas, esse ideal tão singelo colocou toda a direita latino-americana à postos. Uma Venezuela libertária era incômoda demais. Isso sem falar na relação de amizade com Cuba, desequilibrando a correlação de forças na região, afinal, o país comandado por Chávez é uma potência petrolífera. E foi assim que, desde o chiquérrimo bairro de Altamira, onde vive a elite caraquenha, foi se gestando um golpe de estado. Com a preciosa ajuda dos Estados Unidos, empresários locais, fazendeiros, vende-pátrias, conseguiram aprisionar Hugo Chávez no ano de 2002. Queriam fazer o povo crer que o presidente havia renunciado e, assim, assumir o comando do "cargo vago". Só que um soldado que fazia parte da guarda que vigiava o presidente foi o portador de um bilhete no qual Chávez informava que estava preso, que era um golpe e que não havia renunciado. A Venezuela bolivariana se mexeu. Desceram as gentes de todos os lugares e obrigaram os golpistas a devolver o presidente. A força do povo derrotou o golpe. Desde aí a Venezuela vem caminhando sob outros ventos. Coisas importantes foram se sucedendo, revertendo em benefícios para  a maioria, antes relegada ao azar.

Chávez trouxe para as ruas a luta de classe. Na capital, Caracas, qualquer grupinho de dois já inicia uma discussão sobre o modo bolivariano de governar. Há os que não perdoam o fato de o presidente ter garantido poder ao povo. Um grupo particularmente tem atuado na disputa. São os chamados “esquálidos”, opositores do governo. Eles não reconhecem os processos eleitorais livres e chamam Chávez de ditador, sendo respaldados pela CNN, braço midiático armado do modo estadunidense de ver a democracia. Querem de volta o tempo em que só um pequeno grupo de privilegiados desfrutava do direito de governar e de desfrutar as riquezas. Coisas como as "missões" - grupos organizados de pessoas comuns, nos bairros - são inadmissíveis. É que essas atividades têm levado alfabetização às gentes, universidade, direitos, comunicação livre, creches, saúde, comida barata, cultura, moradia,  tudo o que antes não havia. 

Em 2006, o presidente submeteu-se a outro pleito, no qual foi vencedor, com mandato até 2013, justamente por essa postura de defender a democracia participativa, onde manda o povo. Depois dessa importante vitória, o processo bolivariano aprofundou-se. As missões se consolidaram nas cidades de todo o país assim como nas zonas rurais, milhões de pessoas tem participado, fazendo com que a ideia de democracia assuma outra conotação. Na Venezuela, democracia não se resume ao direito de votar, mas sim, o de participar ativamente da vida do país em todas as áreas possíveis. Mas, o processo nunca foi tranquilo. A mudança bolivariana foi se fazendo sem revolta armada, na paz, e isso pressupõe o direito de a oposição também se organizar. Apesar das constantes denúncias de falta de liberdade de expressão, quem já visitou a Venezuela sabe o quanto a oposição pode se expressar e como o faz. No mais das vezes os ataques são à pessoa do presidente, geralmente no mais baixo calão. Também não é segredo para ninguém a ação constante da embaixada dos EUA, fomentando a dissidência. Acabar com a democracia participativa na Venezuela é uma necessidade para quem só consegue impor a dita cuja pela força das armas: vide Iraque, Afeganistão, e outros tantos lugares ocupados militarmente. E foi por conta desse permanente atuar da oposição com seus aliados estrangeiros que as eleições legislativas de 2010 mostraram um avanço significativo da velhas forças. Porque, afinal, não é coisa fácil levantar um país de mais de uma centena de anos de escravidão à oligarquia local. A pobreza não acaba por mágica e o processo de mudança - feito de forma democrática - é eivado de avanços e retrocessos. 

Não é sem razão que agora, nas eleições do dia 7 de outubro, a disputa está bastante polarizada entre os candidatos Hugo Chávez, pelo GPP (Gran Polo Patriótico), que junta organizações de esquerda, populares e independentes, representantes dos novos tempos e Henrique Capriles, pela oposição, o MUD (Mesa de la Unidad Democratica), que reúne vários partidos e forças de oposição mais à direita, tentando evitar que Chávez chegue pela terceira vez à cadeira presidencial. A estratégia de centrar forças em um único candidato foi baseada justamente na boa performance conseguida nas eleições que definiram os parlamentos em 2010, quando essa coalizão conseguiu fazer 47,22% dos votos válidos.

O candidato de oposição, Henrique Capriles Radonski, é um jovem e bonito advogado, filho da elite local, escolhido a dedo para enfrentar Chávez. Tem uma sólida carreira política que começou como deputado, sendo ele um dos mais jovens do antigo congresso. Também foi prefeito por duas vezes no município de Baruta e governou o estado de Miranda. Sua família está ligada ao setor empresarial, sendo que o principal produto que comercializam é a comunicação através da "Cadena Capriles". Também atua na área do entretenimento, do cinema e serviços imobiliários. Henrique formou-se nos melhores colégios de Caracas, fez-se advogado e especializou-se em direito tributário. Estudou também fora do país, na Itália, Holanda e Estados Unidos. Durante o golpe de estado que tentou tirar Hugo Chávez do poder, Henrique esteve envolvido nos ataques à Embaixada de Cuba e chegou a ser detido. Naqueles dias circulara o boato de que o vice-presidente estaria asilado na embaixada e Henrique tentou violar os acordos diplomáticos buscando vistoriar o local que era, por lei, território cubano. 

Agora, a imagem de jovem moço bem sucedido está sendo usada para enfrentar um homem que passou por um longo tratamento médico e ainda apresenta sinais de doença. De maneira bastante gritante a disputa se dá no campo simbólico entre o sangue novo e o velho enfermo. Uma simbologia às avessas já que o "moço" nada mais é do que a volta do sempre existente, ou seja: a oligarquia predadora e sugadora de riquezas. Enquanto Chávez é a continuação da mudança, do aprofundamento do protagonismo popular: o novo. 

Sem dúvida a Venezuela vai passar por uma queda de braço sem precedente, com dois modelos de organização da vida bastante distintos. É certo que o modo bolivariano não é o melhor dos mundos, tem suas falhas, seus pontos de corrupção, seus entraves, mas não resta dúvida que representa uma parcela da população que nunca teve acesso aos direitos mais básicos. A Venezuela de antes era um país no qual aos pobres era relegado o lugar subalterno, de aceitação de uma realidade na qual a fatia maior de poder e riqueza era dos mais ricos - uma parcela ínfima dos venezuelanos. Com o governo bolivariano os empobrecidos puderam ter acesso ao país, aos recursos públicos, aos bens públicos. O dinheiro do petróleo que só engordava contas no estrangeiro passou a financiar casas populares, centros de produção de informação, educação formal, saúde, começou a ser dividido com equidade. Não dá para negar que houve mudanças significativas do ponto de vista estrutural. Isso sem falar das grandes empreitadas continentais como a Telesur, uma rede de informação na qual a América Latina se vê de verdade, o Banco del Sur, uma proposta de banco solidário e a Alba, Aliança Bolivariana para as Américas, que investe tudo no sonho da Pátria Grande. 

Agora, nas urnas, o povo vai decidir. Se quer aprofundar seu poder ou se vai entregar sua vida na mão dos velhos "patrões". E a beleza está justamente nisso, na possibilidade de errar ou de acertar. Tudo está em aberto. Só que não dá para ser ingênuo acreditando que a decisão vá se dar apenas baseada no livre arbítrio das gentes. A batalha que está para acontecer na Venezuela nesse dia 17 tem muitos atores. Por ali andam os empresários, os mercenários, os vende-pátria, os embaixadores do império, o dinheiro das fundações estrangeiras, os provocadores, os enganadores, os vendedores de sonhos e até os terroristas, todos agindo nos bastidores.  Cada cidadão do país se verá enredado por essas forças e será preciso muita consciência de classe para decidir o voto em Hugo Chávez. 

É sempre bom lembrar que, apesar de toda  a centralidade do debate ficar nesses dois candidatos, que agrupam a maioria das forças políticas à esquerda e à direita, também há outros candidatos de partidos menores como María Bolívar, pelo Partido Democrático Unidos pela Paz, Orlando Chirinos, pelo partido Socialismo e Liberdade, Reina Sequera,, pelo partido laboral, Luis Reyes Castillo, Pela Organização Renovadora Autêntica e Yoel Acosta Chirinos, pela Vanguarda Bicentenária Republicana.

Agora é esperar. As urnas falarão!

sábado, 8 de setembro de 2012

Via Campesina na Palestina - um olhar desde dentro

É período de colheita das oliveiras, a árvore símbolo da resistência do povo palestino. 13 militantes da Via Campesina Brasil viajam à Cisjordânia. No caminho, esta Brigada internacionalista vive de perto as consequências da colonização israelense, na qual impera a repressão militar. Do outro lado, incorporam o significado da luta de resistência do povo palestino. Muito além das bombas propagandeadas por meios de comunicação pró-sionista, a principal arma utilizada pelos palestinos é inequívoca: existir.


Câmara, montagem e realização: Claudia Jardim e Benjamín Durand



Vía Palestina - Crónicas de una Brigada Internacionalista from Red ALBATV on Vimeo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Circulando por Cuiabá








Os aglomerados urbanos exercem sobre mim profundo encantamento. Por conta disso, gosto de caminhar pelas cidades, sentindo a beleza que nasce desde a mão humana. Mesmo nos lugares mais inauditos, sempre é possível realizar esse que é o encontro mais sagrado: o da nossa humanidade. Foi assim que o mês de setembro me surpreendeu em Cuiabá, Mato Grosso, a porta de entrada da majestosa Chapada dos Guimarães. Nas primeiras horas, um estranhamento. Longas avenidas, casas baixas, cidade gris, esfumaçada pelas queimadas, vegetação seca, e o abafado calor. Faltavam as gentes.

Então, pelas generosas mãos da Rose, baixamos para o centro. Baixar é mesmo o melhor verbo, já que a parte histórica da cidade fica numa depressão. Aí, foi uma sucessão de belezas. O centro de Cuiabá é a vida pulsante da cidade. As ruas mais estreitas, a profusão de lojas, os casarões antigos, as casinhas geminadas, as mangueiras carregadas de frutas e os cuiabanos. Essa gente ora pantaneira, ora amazônica, ora do cerrado, de cor de cuia, traços indígenas e cheia de alegria.  Apesar do calor de deserto, as ruelas fervilham – muitas foram transformadas em calçadões - a música toca alto, e os mais velhos descansam nas praças cheias de grandes mangueiras. Também pululam as barraquinhas, com artesanato local e comidas de rua, os mais espetaculares pitéus.

Na Praça Santos Dumont, no cair da noite, pode-se visitar a barraca do Sérgio Pavão, um carioca que escolheu Cuiabá para viver e foi o primeiro a trazer para a rua a comida típica do lugar. Maria Isabel - uma espécie de carreteiro, Feijoada de Pintado, Arroz com Pacu seco, feijão empamonado, farofa de banana , carne seca com banana verde, ventrecha de pacu, mujica de pintado com mandioca, e uma série de outras delícias. O sabor de Cuiabá, esse lugar mágico.

De manhã, pode-se tomar café em qualquer padaria, sempre acompanhado da chipa, uma espécie de salgado com queijo e o famoso bolinho de arroz, marca registrada da cultura local. Arroz pilado, docinho, evocando a beleza da vida simples, pantaneira.

O Mercado do Peixe, próximo ao rio Cuiabá, no finalzinho do centro histórico, é espaço de maravilhas. Todos os peixes da região se mostram em beleza, alimento das gentes, marca da cultura. O pescador, assombrado com a formosura do dourado, o qual pesca diariamente, anuncia orgulhoso: "Esse é o rei do rio. O mais bonito, o mais forte". Ele diz que a batalha com o peixe é sempre uma epopeia, daí o seu respeito pelo bicho. Coisa de emocionar. Nas barracas das frutas aquele cheiro fresquinho, o perfume da manga, banana, caju, jaca, bocaiúva, pequi. Um universo colorido que enche a boca de vontades. O famoso furrundu, doce típico do lugar e a farinha de mandioca flocada são estrelas no lugar. O lugar ainda vende toda a sorte de comidas típicas, o néctar dos deuses.

Ainda próximo ao rio está o Arsenal, antiga penitenciária colonial que foi totalmente reformada pelo sistema do Sesi. Virou um centro de cultura dos mais incríveis. Por ali, na tarde modorrenta, dezenas de crianças circulam nas oficinas de dança, no teatro, cinema, bibliotecas e oficinas de música. Também ali se pode encontrar a famosa viola de cocho, instrumento típico daquele povo. É uma viola feita de um único tronco, apenas escavada no local onde deveria ficar o buraco que forma a caixa de ressonância. Chama-se assim porque é feito do mesmo jeitinho que o caboclo faz o cocho para alimentar os animais. É invenção do povo simples da roça, e arpeja os sons mais doces, porque cheios da simplicidade do homem rural. Ouvir a viola é comungar com alma do pantanal, tanto que ela já considerada patrimônio imaterial da região.

E assim se vai conhecendo as riquezas de Cuiabá. Na igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho pode-se admirar a arquitetura. Ela é uma réplica da catedral de Notre Dame e enche de orgulho aqueles que ali trabalham. Mesmo no adiantado da hora, o vigia abre a porta para que as pessoas entrem e admirem. "É a nossa riqueza, temos de mostrar", e aponta, orgulhoso, as reformas feitas, a nova pintura e a beleza da imagem da virgem, esculpida em madeira e com cara cuiabana.

Em frente à Câmara de Vereadores está outra coisa fascinante. A demarcação do centro geodésico da América do Sul. Exatamente o meio do nosso lindo continente. Um obelisco marca o ponto exato do coração pulsante desta parte sul de Abya Yala e ali pode-se sentir a energia poderosa de um "povo sin piernas, pero que camina". Cuiabá é exemplo disso. Dominada pelas forças do latifúndio e do agronegócio mostra também muita pobreza, essa pobreza que nasce da exploração contínua e cotidiana. Ainda assim, sente-se a potência das gentes, na resistência concreta do dia-a-dia, com sorriso na cara, mas com a mão valente sempre pronta para a luta. Agora, que a cidade virou sede da Copa do Mundo, a vida se complicou. As obras estão em todos os lugares, as ruas estão trancadas, o aeroporto fecha, o transtorno é grande. "Fazem estádios e não calçam as ruas", reclamam os que sacolejam nos ônibus lotados e escassos. Boa parte das gentes acredita que vai ser bom sediar a copa, acreditam nos governos que os jogos trarão fartura. Mas outro há que sabem das mazelas e estão vigilantes.

Cuiabá também é centro de muitas batalhas travadas pelos povos indígenas. Desde as incursões dos ferozes bandeirantes que avançavam pelo centro brasileiro na busca do ouro, que as comunidades da região amargam derrotas e terrores. Os primeiros a enfrentar a sanha invasora foram os coxiponés, e depois as demais etnias, cada dia mais empurradas para o abismo das reservas e da vida tutelada. Desde a fundação da cidade em 1719 até os dias de hoje, os indígenas precisam batalhar para garantir cada pequeno avanço de demarcação de terras, de preservação da cultura, de vida digna. E, como no passado, hoje seguem enfrentando os gananciosos, os ferozes grileiros de terra, os grandes fazendeiros, que passam ao povo - quase todo de descendência indígena  - a ideia de que índio é coisa ruim, é atraso do progresso e que, portanto, deve ser eliminado. Mas, ao mesmo tempo, esses mesmos dominadores usam da beleza da cultura indígena para ganhar dinheiro. É comum ver hotéis com nomes indígenas, decorados com quadros que mostram a vida simples do homens e mulheres autóctones. No Paiaguas, um hotel chique do centro, tem até estátuas de índios para encher a vista dos turistas. Mas não se engane, é só para turista ver. No geral, o preconceito contra os povos originários é grande. Só que eles não se entregam. E hoje estão numa grande luta contra a absurda portaria 303, da Advocacia Geral da União, um golpe baixo do governo que pretende rever as demarcações e expulsar os índios de suas terras.

De tudo o que vi em apenas dois dias de vivência intensa faltou a Chapada, esse gigante natural do qual apenas senti o hálito. Mas, ainda assim, o encontro com as pessoas, o carinho da acolhida, a partilha amorosa de vida marcou de forma indelével o coração. Cuiabá nunca mais será um ponto no mapa. É o coração da minha américa do sul, é lugar da magia da viola de cocho, é morada de amigos, espaço do rasqueado, essa música simples, de poética ingênua, que nos toma a alma.

Na noite quente cuiabana, num quintal fresquinho, debaixo da mangueira e do pessegueiro, enquanto o gato caçava comida, encerramos um seminário sobre liberdade de expressão à moda de Cuiabá: quente, fraterno, alegre, comunitário. Poucas vezes me senti tão plena!...

Veja o vídeo....


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

As batalhas no Chile


No último mês de agosto tem sido assim: praticamente todos os dias os estudantes chilenos saem às ruas a protestar e exigir gratuidade na educação. O Chile que até bem pouco tempo era mostrado como a menina dos olhos do neoliberalismo mostra as rachaduras de um sistema que exclui a maioria, enquanto enriquece a elite entreguista. Como o país viveu muito tempo mergulhado numa ditadura brutal e sanguinária (Augusto Pinochet), os reflexos desse estado de exceção repercutiram nas gerações seguintes levando ao medo e ao silêncio. Mas, agora, os estudantes, principalmente os do ensino secundário, resolveram batalhar pelo direito de estudar com qualidade e sem os altos custos da educação privada.

As primeiras grandes revoltas começaram no governo da socialista Michele Bachelet, em 2006. Quase um milhão de pessoas foram às marchas e aos protestos de rua. A revolta contra a privatização do ensino foi puxada pelos secundaristas e ficou conhecida como a “revolta dos pinguins”, numa alusão ao uniforme usado pelos alunos. Naqueles dias um garoto de 16 anos foi morto pela polícia e o país se levantou. Desde então, as lutas não param. Arrefecem um pouco, mas depois voltam à carga. Em 2011, já durante o governo de Sebastian Piñera, reconhecidamente um linha dura, os protestos revelaram a bela líder estudantil universitária Camila Vallejo, que nos dias atuais ocupa o cargo de vice-presidente da Federação de Estudantes das Universidades do Chile, cedendo passo a novas lideranças. E, agora, em 2012, as grandes manifestações voltaram com força, de novo puxadas pelos secundaristas. Todas elas com toda carga de repressão bem típica dos tempos da ditadura. Grandes contingentes policiais e aparatos bélicos para enfrentar meninos e meninas saídos da escola.

Na última semana os jornais chilenos estamparam denúncias de abuso sexual por parte de policias em garotas presas durante os protestos. A comunidade está em pé de guerra. Porque, afinal, a gurizada não se intimida com as prisões e segue se expressando nas ruas, como sempre contando com a adesão de sindicalistas e outros movimentos sociais que convocam greves e paralisações para acompanhar os protestos.

No campo da economia o Chile segue apresentando números recordes de crescimento e a população quer ver esses números expressos em serviços públicos. Mas, isso não acontece. A saúde pública é um fracasso, a educação perde qualidade, foi municipalizada e não recebe investimentos, a universidade só pode ser cursada por quem tem muito dinheiro ou se dispõe a alimentar uma dívida gigantesca. Por isso a juventude trata de batalhar por um futuro digno. Os estudantes já se deram conta a bastante tempo que o tal do “sonho liberal” só é sonho para alguns. A maioria está submetida à falta de qualidade nas escolas pagas e à exclusão.

Assim é que a batalha nas ruas, que levam milhares aos protestos, exigem mudanças radicais no processo educacional, tais como democracia, qualidade e gratuidade. No rastro dessa massiva revolta dos pinguins, vêm os universitários, professores, sindicatos e movimentos sociais. Eles aproveitam para reivindicar a refundação do estado chileno, ainda eivado de leis oriundas do regime ditatorial. Para se ter uma ideia, o povo Mapuche, comunidade originária que vive no Chile e reivindica território e autonomia, tem sido perseguido e aprisionado com base nas leis de segurança nacional do tempo de Pinochet. São encarcerados como terroristas. Não é sem razão que toda a comunidade chilena esteja reivindicando uma nova Constituição para o país, afinal, o mundo mudou, o Chile mudou e as gentes de hoje já perderam o medo.

O presidente Sebastian Piñera tem sido muito duro no trato com os estudantes assim como com os indígenas. Seu governo – reconhecidamente de direita – vem perdendo popularidade, mas, ainda assim não oferece solução para o problema da educação. Mesmo em meio ao fervo dos protestos ele insiste que não vai tornar pública as universidades. A queda de braço vai continuar.

As eleições e a outra campanha




Quando em 2005, às vésperas de mais um pleito eleitoral que iria eleger o presidente do México, o movimento zapatista lançou a "outra campanha", não foi poupado pela esquerda tradicional. Chamados de traidores e, depois, como responsáveis pela derrota de Lopez Obrador (candidato mais à esquerda), os zapatistas nunca se intimidaram em defender aquilo que acreditavam melhor para o México naqueles dias. O contexto de tudo isso é que o povo do sul do país - fundamentalmente os indígenas e camponeses - sempre estiveram esquecidos do poder público. E, como em todo o chamado "mundo democrático", em época de campanha eleitoral, não eram poucos aqueles candidatos que apareciam dizendo que iam melhorar isso e aquilo. Eleitos, nunca cumpriam.

Nos anos 80, os indígenas de Chiapas decidiram iniciar um movimento de base para recuperar sua autonomia e sua dignidade. Já estavam fartos de promessas não cumpridas e de seguir amargando  a miséria e o abandono. Esse movimento cresceu, se consolidou e, em 1994, quando o mundo capitalista cantava em verso e prosa o fim de todas as utopias, os índios de Chiapas ocuparam, armados, 12 cidades do México. Cobertas as caras  com lenços vermelhos e pasa-montañas (gorros negros) - porque eram todos iguais - eles lançaram a sua palavra: "nunca mais o mundo sem nós". Durante 12 dias combateram as tropas do exército e ao final desse prazo, o governo foi obrigado a ceder. Desde aí, os zapatistas se mantém em paz armada, construindo uma forma diferente de organizar a sua vida em várias cidades autônomas. Estão, é claro, inseridos na "democracia" mexicana, mas, de alguma forma, a duras penas, conseguem levar a diante seu projeto de mundo, sempre no embate cotidiano com o governo neoliberal e entreguista.

A "outra campanha" durante a campanha eleitoral de 2005 foi, de novo, uma outra forma de encarar a tal da "festa democrática" que, no mais das vezes apenas dá o direito do voto ao povo, mas sem que haja o compromisso real com as demandas das gentes. O mais comum é ver os candidatos fazerem promessas, jogarem palavras ao vento e, ao serem eleitos, voltarem as costas aos que os elegeram, governando para pequenos grupos de poder que, no mais das vezes, são os mesmos que injetam dinheiro nas campanhas. Assim, os compromissos financeiros com as empresas são cumpridos à risca, enquanto o povo, fonte real do poder, é deixado às moscas.  Na "outra campanha", durante meses, o sub comandante Marco viajou pelo país fazendo esse debate. Discutindo política, conversando com as gentes sobre essa situação, sobre o sistema eleitoral, sobre a farsa do processo, sobre o não comprometimento dos candidatos. Um trabalho de desvelamento desse misterioso sistema de eleição democrática que, de democrática, não tem nada. Ele dizia: "O processo eleitoral a começou e alguém virá a dizer que sim, nos apoiam e que iram resolver tudo. Nós vimos a dizer que eles não vão resolver absolutamente nada e nem os vemos trazer soluções, se não problemas, e o convidamos de que nos juntemos com os companheiros que estão alçando em outras partes do país para construirmos o novo México".

Essa que foi uma decisão tão criticada, talvez seja mesmo a melhor forma de enfrentar o período eleitoral. Não é a "vontade" de alguns candidatos que faz mudar - pontualmente - alguns aspectos da vida do povo. Como bem lembra Karl Marx, no livro Glossas Críticas marginais ao artigo  "O rei da Prússia e a reforma social", os males sociais não podem ser explicado pelo intelecto político, já que esse é a expressão teórica da perspectiva da classe burguesa. Um exemplo disso é o transporte coletivo de Florianópolis. A maioria dos candidatos à prefeito insiste que vai melhorar a viabilidade urbana desde planos mirabolantes de "reformas" no sistema, tais como a quarta ponte, o transporte marítimo, o BRT, sem mexer na lógica que constitui a cidade para os carros.  Ora, a seguir a linha de Marx, a raiz dos problema do transporte público, assim como da falta de moradia, falta de estrutura na saúde, na educação, acaba sendo buscada em vários lugares, menos onde ela efetivamente está - que é o modo de vida liberal/burguês. E é por isso que o caminho é sempre uma reforma, um remendo, e nunca a revolução. Marx ainda orienta: enquanto os trabalhadores se moverem pelo intelecto político, as lutas serão mal orientadas. Assim, quando um político  - mesmo de esquerda - propõe substituir uma forma de governar por outra - dentro do estado burguês e sem transformações estruturais  - está pensando apenas no ponto de vista da política e não do social. Com isso apenas desorienta teórica e e praticamente a luta dos trabalhadores.

Marx aponta também que o trabalhador, ao se alienar no trabalho e na batalha cotidiana para vencer seus obstáculos, não têm condições de pensar a cidade. Está fora não só da comunidade política, mas também da comunidade da vida mesma, a vida física e espiritual, "está separado da essência humana".  É por isso que Marx reivindica a necessidade de uma revolução social com alma política. Diz: "A revolução em geral - a derrocada do poder existente e a dissolução das velhas relações - é um ato político. Por isso, o socialismo não pode efetivar-se sem revolução...No entanto, tão logo tenha início a sua atividade organizativa, logo que apareça seu próprio objetivo, a sua alma, então o socialismo se desembaraça do seu revestimento político".

Tudo isso é para dizer que o período das eleições, como bem perceberam os zapatistas, é um momento muito fértil para se discutir política, a grande política. Não dá para cair na armadilha de confiar apenas nas pequenas e, muitas vezes, irrealizáveis promessas que os candidatos de todas as cores fazem. Se a proposição real não for a organização de outra forma de sociedade, sempre estaremos arriscados ao engano.

Em Florianópolis, e em vários lugares no Brasil, há grupos pensando nessa lógica da "outra campanha", e isso mostra maturidade política. Mas, isso deve se espalhar pelos bairros, nas associações, nos sindicatos. O debate não pode ser só o de votar nesse ou aquele candidato que vai resolver pequenas demandas do nosso bairro ou da nossa rua. A cidade precisa ser pensada como um todo e é necessário que as gentes percebam que os males sociais que nos tocam não são relativos à imperfeição humana, a falta de recursos ou incompetências administrativas - como diz Ivo Tonet, no prefácio do Glossas Críticas. O que Marx tenta nos mostrar é que esses males não são defeitos da "matrix", mas absolutamente inerentes ao modo de vida burguês, capitalista. Levar essa reflexão e garantir a compreensão disso pode ser muito mais eficaz para a vida numa cidade do que eleger um ou mais enganadores.

Há quem salte, acusativo: Mas, então, votar não adianta? A resposta é uma só: sim, não adianta. Se um povo acredita que pelo simples voto, pela simples entrega das decisões nas mãos de um "prometedor", as coisas vão acontecer, está enganado. A pessoa pode votar sim, em quem acreditar, fazendo o movimento de pequena reforma. Mas, sabedora de que os males sociais são causados pelos sistema em si precisa se manter alerta e conectada nas lutas coletivas. Não por reformas, apenas, mas por também por revolução. A mudança total do sistema.  trocar um governo por outro não resolve... Já vimos esse filme, há que mudar o sistema.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Das entranhas do norte, se levantam as gentes...


Famílias moradoras de comunidades do norte da ilha de Santa Catarina lutam por moradia - na foto, povo do Papaquara enfrenta enchente e despejo

Quem passa pelo norte da ilha de Santa Catarina pode até pensar que está em Miami. Jurerê Internacional ostenta luxo e futilidades. Ali, no alto verão, jovens lavam os pés com champanhe nos “lounges” cobertos com linho egípcio. Em Canas'vieiras, assim como nos Ingleses, os turistas circulam por entre prédios de luxo e agitadas baladas. O mar, tranquilo e quentinho, foi a beleza vendida nos anos 80, quando a região iniciou uma explosão imobiliária, que alterou de vez a cara interiorana do lugar. Pescadores foram iludidos com a força da grana e, logo, expulsos da praia. A orla especulada virou mercadoria, espaço dos ricos.

No final dos anos 90, a ilha seguia seu processo de inchaço. Sem condições de vida melhor no interior de tantos estados desse imenso Brasil, outras gentes foram também atraídas pelas belezas da ilha, cantadas em verso e prosa na televisão e nas revistas nacionais. Mas, esse povo, sem posses, nunca foi alvo das empreiteiras. Para eles não havia anúncio de prédios, nem deliciosos reclames de vida boa à beira mar. Mesmo assim, eles vieram, e exigiram seu espaço na cidade. Como diz a moradora do Papaquara (uma comunidade de ocupação), Marisa Moreira: “nós somos brasileiros e cada pedacinho desse chão também nos pertence”.

E esses que chegaram buscando vida melhor foram se ajeitando como podiam. Ora morando com um parente, ora ocupando espaços públicos ou áreas de preservação. Muitos deles sabiam que era um risco entrar nas terras devolutas, mas, que fazer? Com os filhos à tiracolo, com a vida para ganhar, qual opção? E, assim, foram se formando novas comunidades de periferia, boa parte em áreas de risco. Foi assim para os que ocuparam as dunas dos ingleses ou a margem do Rio Papaquara. Na Vila do Arvoredo, a areia vai aos poucos comendo os barracos e na margem do rio, a enchente foi roubando tudo o que o povo tinha até que em 2011, depois de mais um alagamento, quando ainda se recuperavam da desgraça em abrigos públicos, acabaram definitivamente despejados. “Eu nem pude ver a minha casa. Quando saímos do abrigo, já tinham demolido tudo. Se foi tudo o que eu tinha”, lembra Josinei Plácido.

Mas, quem pensa que essa gente guerreira fica por ali chorando as pitangas, se engana. Não, eles se juntam e se organizam na luta pela moradia. Aprenderam na escola da vida que só a luta renhida faz avançar a existência daqueles que, de seu, só dispõem dos corpos e da força de trabalho. Por isso, quando é noite, por entre os caminhos de areia pode-se ver o carreiro de gente andando para as reuniões. Desde há meses que eles encontraram na força de uma militância nova, as Brigadas Populares, o entusiasmo que faltava para a luta coletiva de todas as comunidades do norte da ilha que estão na batalha por uma casa digna para morar.

Foi assim que a luta mais antiga, do povo da Vila do Arvoredo, pode se juntar com a peleia dos moradores do Morro do Caçador e dos despejados do Papaquara, todos moradores do norte da ilha. A ideia era realizar uma manifestação conjunta no norte da ilha, para fazer visível essa luta que é travada nos cantões da ilha, despercebida pela imprensa e desconhecida da maioria. Foram muitos encontros e reuniões. Muita conversa e muito debate. Tudo acertado sem pressa, buscando acertar cada aresta, cada dúvida, cada desesperança.

Então, na quinta-feira, dia 23 de agosto, o povo que passava apressado pelo terminal de ônibus de Canasvieiras, parou. É que ali estavam as famílias que vivem no rico norte, na parte pobre. Os que ganham a vida fazendo reciclagem, cuidando das gentes nos hotéis e nas casas chiques. Os sem lugar, sem casa, sem endereço. Mas, ao mesmo tempo, com garra, com desejos e com valentia. Munidos de faixas, feitas com as próprias mãos, eles anunciavam suas dores e suas esperanças. Gritando palavras de ordem, defendiam seu direito de morar e viver bem na cidade. Caminharam pelas ruas, pela estrada, mostraram sua cara. Na firmeza de cada criatura que ali se fez presente, depois de mais um exaustivo dia de trabalho, estava firmada a palavra bendita: “queremos moradia”. Uma casa, um lar, uma morada. “Pobre nunca tem endereço dentro da ilha, não existe endereço pra pobre. Parece que eles não querem pobre aqui dentro da ilha”, diz Carlos Roberto Miranda, que mora na ilha há 25 anos e ainda não pode ter a sua casa. Mas, ele, assim como todos os que participaram da passeata não vão se render ao desânimo nem aos políticos oportunistas que prometem e não cumprem. Eles decidiram lutar.

A caminhada no norte da ilha foi só o começo. Como um rastro de pólvora, a luta pela moradia e pelo acesso irrestrito à cidade – o que inclui também a mobilidade, o lazer - vai se espalhar, buscando unir as 64 comunidades de periferia que existem hoje em Florianópolis, e nas quais vivem muitas famílias, ainda sem endereço, em casa mal ajambradas, de papelão, de lona ou de madeira velha. Junto com elas caminha também a militância das Brigadas Populares, não como uma entidade externa que pretenda indicar caminho, mas como mais alguns companheiros que, juntos, buscam garantir o direito de cada pessoa que vive em Florianópolis poder morar e viver feliz. “Nosso trabalho como organização que luta pela reforma urbana é fazer formação e organização popular, construir junto com os moradores as ligações entre a ausência de diretos para alguns e a acumulação de poder para outros e encontrar saídas coletivas para garantir o acesso à cidade”, diz Vitor Hugo Tonin, das Brigadas Populares.

Ao final da manifestação que expôs a ferida aberta que ninguém quer ver, os moradores do norte da ilha foram para um debate com os candidatos à prefeitura de Florianópolis que deveria acontecer na Escola Jacó Anderle. Mas, sem que ninguém soubesse o motivo, o diretor da escola suspendeu tudo e não permitiu que as gentes entrassem. Dos seis “prefeituráveis” que disputam a cidade apenas Élson Pereira, do PSOL e Gilmar Salgado, do PSTU, respeitaram os sem endereço se fazendo presente. E dialogaram com as famílias através de um megafone, discutindo a questão urbana, tão caótica e desigual na “ilha da magia”.

Mas, cada um que ali estava sabe muito bem que a luta pela cidade não se resume a votar no dia da eleição. Ela é cotidiana e permanente. Assim, pelos caminhos de areia do norte da ilha, nessa parte ainda invisível dos bairros nobres, as gentes continuarão caminhando para se encontrar e definir os rumos da longa luta que precisa ser travada. Junto com elas, as Brigadas Populares, também mergulhadas na batalha pelo direito à cidade. E não só para alguns...

*****