quarta-feira, 25 de julho de 2012

Valdir Agostinho é festa


Então eu que vivo "tatuirada" (entocada) decidi sair na noite dessa terça-feira só para ver o Valdir Agostinho. E isso não é qualquer coisa. O Valdir é uma entidade, a consubstanciação da alma ilhoa, é menestrel, é poeta, roqueiro, menino, é pé descalço na areia da barra, é pandorgueiro, de coração sempre voando nas altas paragens. Valdir Agostinho é fantasia, é água do mar, é peixe, é homem, é aracuã. Seu canto reverbera a vida simples de uma Florianópolis que continuamos buscando. Sua pureza evoca o jeito doce da criança que ainda não foi tocada pelo mal. “Eu sonhei que chegava aqui e não tinha ninguém”, confessou ele, encantado com o teatro cheio de gente.

Cercado das suas bugigangas recicladas, Valdir Agostinho tomou conta do palco do TAC. As roupas coloridas, os chapéus malucos, os instrumentos feitos com lata e papelão, tudo ali forjado em encantamento e alegria. Impossível ouvir a “sereia manezinha” e não se deixar levar pelas profundezas do mar sem fim que rodeia essa ilha bela. Um mar que Agostinho joga em nós, no delicioso ritmo das canções, ora rock, ora balada, ora baião, ora qualquer coisa agostiniana de sabor salgado com cheiro de viração.

“Se o Martin fizer balaio, eu vou querer comprar um”, diz, desvelando a ilha profunda, que vive nos cantões da Lagoa, do Ratones, do Ribeirão. Em cada personagem, em cada letra, Valdir vai apontando homens e mulheres, coisas boas, procissões, festas de divino, carnaval, bruxas, Cascaes. Toda essa cultura rica e poderosa que poucos ainda conseguem amar. Valdir Agostinho ama, como o Peninha ama, como um tanto de gente que encheu o teatro também ama.

A noite com a música e a poesia de Valdir é uma festa sem fim, deixa o coração da gente cantando. Bruxólico, criança, moleque, erê. Guri sapeca da Barra que cuida do planeta, que enche o céu de pipa, que brinca com as almas que voejam pelos caminhos arenosos dessa cidade amada. Feiticeiro, ele cria um caldeirão de magias que saltam como sons e cores. Um show do Valdir é um mergulhar na cultura popular, recheado com o dizer chiado do povo daqui. É comer robalo, siri, camarão, tainha, marixco, corvina, é voar nas vassouras das bruxas, é banhar nas águas claras do mar e sair com o cabelo cheirando maresia.

“Eu quero você na minha, minha sereia manezinha. Vou te fisgar na minha linha, e enquanto isso eu vou cantando o reggae da tainha”...Ele canta e a gente sai, vestida de festa, pela rua afora, também dançando o reaggae da tainha...

Valdir Agostinho, eu marixcolhi você...

Veja o clip do Reggae da Tainha

terça-feira, 24 de julho de 2012

A greve nas universidades vai continuar



Já se vai mais de um mês da greve dos trabalhadores técnico-administrativos das universidades, mas, no geral, essa parece ser uma greve invisível, porque, na mídia, quando os jornalistas falam em greve nas universidades, se referem no mais das vezes aos professores. Isso, em verdade, não se configura novidade, pois, desde sempre, a hierarquia nas universidades tende a colocar o trabalho dos técnicos sempre em segundo plano, como se esse contingente de pessoas atuasse apenas numa atividade meio, não fazendo muita diferença no resultado do trabalho educativo.  

Há um filme de produção estadunidense que mostra explicitamente como é usual esta relação complicada entre os técnicos e os professores. É o “Quase deuses”, que conta a história da inusitada parceria entre um faxineiro da Universidade Johns Hopkins e um médico professor/pesquisador, que busca descobrir novas técnicas para a cirurgia do coração. O faxineiro Thomas, um homem simples e negro, é exímio inventor de ferramentas que começa a operar corações junto com o professor, conseguindo criar novas técnicas cirúrgicas e ferramentas que fazem a pesquisa avançar e tornam o professor famoso. Há uma cena paradigmática na qual o fotógrafo/jornalista chama todos os dirigentes da universidade para posar para a foto da matéria que anunciará as novidades científicas descobertas ali. O pesquisador vai, todo vaidoso, e vê, ao longe, o faxineiro, que na verdade é o real inventor da técnica. Ele se cala, segue para a foto e não o chama, não anuncia a sua façanha, não o inclui na vitória que, de fato, é do trabalhador. 

Esta atitude do professor não é isolada num mundo em que as relações de trabalho impostas pelo sistema de produção de mercadorias, como é o capitalista, são vistas de forma separada. Desde Immanuel Kant que o mundo moderno inaugura a separação radical entre o que seja trabalho manual e trabalho intelectual. E essa visão kantiana é a que domina na sociedade capitalista, o que faz com que na divisão de trabalho do mundo universitário apareça como absolutamente natural que um técnico seja considerado inferior ao docente. No contexto ali desenhado, apenas o docente estaria realmente vinculado à atividade fim proposta pela universidade.

A relação trabalho manual x trabalho intelectual

Pois é justamente essa verdade moderna que o economista Alfred Sohn Rethel procura desconstruir ao apresentar uma teoria materialista do conhecimento em contraposição à visão kantiana. Segundo ele, Marx já havia anunciado que na fase mais elevada da sociedade comunista haveria de desaparecer a subordinação servil dos indivíduos a divisão do trabalho e, com ela, a antítese entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Esta antítese, insiste Marx, existe em todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na exploração econômica, sendo, inclusive, um dos ingredientes do fenômeno da alienação no qual se baseia a exploração. Daí não ser nenhuma novidade que esta tensão se explicite na universidade, também um espaço de poder, de divisão do trabalho e de exploração.

Mas, Sohn Rethel também observa que na sociedade capitalista os considerados “trabalhadores intelectuais” não são os máximos beneficiários do sistema e sim os servos do domínio,  logo, não deveriam vangloriar-se disso. Para o pensador francês a superação do capitalismo é elemento fundamental para a mudança destas relações, que pode libertar tantos uns como outros. Kant dizia que a divisão entre mãos e mente é uma necessidade transcendental, já Sohn Rethel afirma que ela é apenas fruto da sociedade produtora de mercadoria. Assim, os antagonismos de classe que engendra a produção de mercadorias na sociedade burguesa – e a produção de conhecimento está entre elas – está intimamente ligada as formas de divisão entre mente e mão.

Sohn Rethel discute o tema do ponto de vista formal, assim como Kant, mas numa outra perspectiva. Ele mostra como num ato cotidiano de compra e venda de uma mercadoria existe um momento x em que tanto quem compra como quem vende está envolvido em uma abstração (um ato intelectual). É o momento em que se efetua o intercâmbio propriamente dito, este espaço de tempo em que alguém busca algo para seu uso e outro estabelece um valor de troca, fazendo-se assim a transação. Assim, a abstração não é uma coisa exclusiva da mente – como queria Kant – mas aparece no dia a dia da vida real, tem origem nos atos concretos. Sohn Rethel insiste que assim como os conceitos de ciência natural são abstrações-pensamentos, o conceito econômico do valor é uma abstração real. É certo que ele existe só no pensamento, mas não brota dele. Sua natureza é social. Não são os homens que produzem estas abstrações e sim as suas ações, o que fecha com o conceito de que é o ser social que determina a consciência.

Assim, se para Kant estava certo que existia uma separação radical entre mente e mão, e Hegel conferia ao Espírito a primazia e o domínio sobre o manual, Marx desorganiza tudo isso relacionando com o tempo, compreendendo que isso muda na história. Logo, não há como determinar antecipadamente as formas do manual e do intelectual. Por isso que a sociedade sem classes proposta por Marx só pode existir se houver uma unidade concreta entre o trabalho manual e o intelectual, sem a primazia de um sobre o outro, que é o que, em última instância provoca toda essa lógica de dominação tão bem engendrada dentro da universidade, assim como em qualquer outro setor do mundo capitalista.

Assim, aceitando-se as teses de Sohn Rethel e de Karl Marx, todo esse processo de dominação, servidão, opressão e inferiorização do outro que é o caldo cultural vivido na universidade só poderá ser superado quando os trabalhadores compreenderem a ideologia que está embutida na divisão do trabalho e a superarem. Para isso, os técnicos-adminsitrativos, que hoje são os que estão submetidos a essa opressão, devem enfrentar o debate intelectual com mais preparo, compreendendo que para mudar esse estado de coisas há que mudar também a forma de organizar a vida. Não só na universidade, mas na sociedade. Isso é um pouco o que se faz na greve, mas, no cotidiano da vida, quando tudo volta ao normal, isso volta a se perder.

A luta de sempre

O certo é que tanto os técnicos – desde aquele que abre a porta para o aluno entrar até o pós-doutor que dirige pesquisa – como os professores constroem o saber dentro da universidade. Muitas vezes, não tanto como deveria, mas o fazem juntos, seja nos erros como nos acertos. Daí que falar em greve na universidade é perceber essas duas pernas da estrutura. 

O governo federal, da forma como age em relação aos movimentos, só faz fortalecer a ideia de divisão e inferioridade. Apesar de manter uma atitude dura na negociação com os trabalhadores, tem recebido os professores e até já apresentou uma proposta – ruim, é verdade. Mas, para os técnicos, o que há é o silêncio. Para manter a aura de “companheiros” alguns dirigentes chamam a Fasubra (Federação dos Sindicatos das Universidades Brasileiras) para conversar. Mas é só conversa mesmo. Nada de negociação. Quem manda é o Planejamento e a ministra já falou no bom som do colonialismo mental: “Não podemos ir à contramão da Europa que hoje está cortando salários”. Ou seja, completamente perdida da realidade mundial, ela apenas quer copiar a Europa, sem se importar se a conjuntura de lá é muito diferente daqui. Nos países centrais a crise está rugindo. Aqui ela ainda não chegou com força. O Brasil está em ascendência econômica, crescendo cada dia mais. Dinheiro não é coisa que falta. No orçamento brasileiro, segundo dados do próprio governo, 54,9% está sendo direcionado para pagamento e amortização da dívida pública, enquanto que para o pagamento de trabalhadores públicos são utilizados parcos 9,85%. Ora, os números são luminosos. Toda a prioridade para banqueiros. Ao povo, as batatas.  

Na última semana os trabalhadores públicos foram à Brasília e fizeram um acampamento. Muita mobilização, barulho e incomodação para o governo. Até o Ministério do Planejamento foi ocupado, causando tensão. Mas, ainda não foi o suficiente para fazer cócegas na ministra europeizada. Talvez ela esteja esperando para ver quais as próximas ações da primeira ministra de ferro da Alemanha, para então decidir como copiá-la. 

Enquanto isso, o semestre letivo que deveria iniciar agora no fim de julho já começa a ter problemas. Não há como fazer matrícula, tudo está parado. Esta tem sido uma mobilização muito significativa de professores e técnicos. Mas, ao que parece o governo federal está se lixando para a educação dos jovens brasileiros. Qualidade, criação intelectual, pensamento crítico, é coisa que só atrapalha governos tíbios, daí que quanto menos gente capaz de pensar, melhor. Não é sem razão que as greves nas universidades se arrastam por meses. Não é como uma greve nos transportes que em dois ou três dias se resolve. A educação não é produtiva.  

O governo é pródigo em divulgar números utilizados para pagamento de trabalhadores, falam em alguns bilhões (de 6 a 9) e mostram tabelas que aos olhos das gentes que assistem à televisão soam como absurdas. “Dinheiro demais para os servidores públicos”. Mas a mesma mídia e o mesmo governo não mostram os números e as tabelas dos valores que enviam para os bancos, mais de 500 bilhões todo o ano. 

E assim vão os trabalhadores na árdua luta contra o capital. Pois o patrão estatal é apenas formal. O embate que se trava numa greve da educação, é o velho embate contra o capital, pois é com ele que se disputam as verbas. Enquanto o governo continuar optando por servir ao “diabo” (a dívida), o atendimento ao povo através dos serviços públicos continuará ruim e isso não pode ser imputado a uma massa de trabalhadores que desde os terríveis anos de FHC vem amargando arrocho salarial e falta de perspectivas na carreira. Cada vez mais os governos, desde FHC, Lula e agora Dilma, vêm atuando na lógica de definir algumas carreiras estratégicas no serviço público e essas não tem a ver com educação, saúde, previdência ou outras que digam respeito imediato à população. Não. As carreiras estratégicas são as do judiciário e da receita federal, espaços estratégicos de recolhimento de dinheiro e de respaldo jurídico. 

E é por causa disso que a luta deve continuar! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Conhecendo Sandro Silva

Entrevista com o deputado Sandro Silva, do PPS, segundo negro a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina


Santa Catarina, onde o negro ainda é invisível



Antonieta em 1934, Sandro em 2012

As terras de Meiembipe, onde hoje cresce Florianópolis, eram originalmente ocupadas pelos Guarani. Quando por aqui chegaram os primeiros europeus, de origem espanhola, o que encontraram foi esse povo tranquilo e passeador. Como traziam enfeites de penas, os invasores os chamaram de Carijós e apesar de terem recebido os estranhos com delicadeza, a recíproca não foi verdadeira. Com o lugar se transformando em ponto de parada para os que iam mais ao sul, em direção à Buenos Aires, os indígenas trataram de mover-se e foram entrando para o interior. Ainda assim, quando em 1651 o bandeirante Francisco Dias Velho enviou seu filho para a região, este travou alguns combates com grupos que insistiam em permanecer nas redondezas, afinal, essa era sua terra. Em 1675 Velho também veio para o lugar e aí começa a história da ocupação definitiva da ilha de Santa Catarina, no povoado chamado de Nossa Senhora do Desterro. Esse povoado quase desapareceu depois que Dias Velho foi feito morto por piratas, mas ainda assim algumas famílias resistiram, sendo que em 1712 aqui viviam 142 famílias de brancos, muitas delas com seus escravos.

Os açorianos chegaram mais tarde, em 1748 e engrossaram a população. A ilha começou a ser ocupada em vários pontos, onde também havia fortes para proteção contra os espanhóis. O que se sabe é que tanto no primeiro período como na época da chegada dos imigrantes, já existiam negros no lugar, a maioria escravos de ganho (eram usados para ganhar dinheiro para seus senhores, trabalhando como sapateiros, artesãos e domésticos), já que as famílias não tinham grandes glebas de terra para cultivar.

Nesses primeiros tempos, conforme conta André Luiz Santos, no importante estudo que realizou sobre a pobreza em Florianópolis (http://labcs.ufsc.br/files/2011/12/Tese-03-PGCN0383-T.pdf), a cidade crescia na beira do mar, próximo à matriz, onde se aglomeravam as famílias brancas proprietárias, os comerciantes, assim como os pobres (marinheiros, degradados, foragidos, etc...). A vila era espaço de todos. Foi só com a chegada dos escravos a partir de 1700 que começou a aparecer a segregação. Como com o passar do tempo alguns desses escravos conseguiam a liberdade, era comum que eles montassem cortiços – ainda próximo ao centro – onde faziam suas moradas, nas famosas casinhas de porta e janela.

Ainda segundo o trabalho de André Luiz Santos, em 1810, na ilha, de cada três habitantes, um era de origem africana. Aqueles que fugiam dos seus “donos” também formavam quilombos e faziam suas casas nos morros que circundavam a vila. Escondidos pelo mato eles formavam família e ainda desciam para trabalhar no porto ou fazer biscates.  Com o fim da escravidão, os negros libertos, sem condição de ficar morando nas casas do centro foram ocupando a periferia e o primeiro grande bairro dos negros foi a Toca, atrás do Hospital de Caridade.
Com o crescimento do comércio e os brancos proprietários melhorando de vida, não só os negros, mas todos os pobres foram definitivamente expulsos da região central, os cortiços que ali existiam foram demolidos e os sobrados da elite econômica começaram a ser erguidos. O governo instituiu pesados impostos aos que moravam no centro e aos pobres não houve alternativa a não ser ocupar a periferia. Em 1920, outra lei obrigou todos os habitantes a ter instalações sanitárias nas casas. Sem condições de fazer as obras, os pobres e os negros recém-libertos subiram os morros que contornavam a cidade.

Apesar de segregado nas encostas, o povo negro se fortaleceu como comunidade unificada. Já era assim antes quando criaram, no início da escravidão, a Irmandade de São Benedito dos Homens Pretos, em 1728. Esse sempre foi o jeito que os negros – escravos e depois libertos – encontraram para se proteger: a união. Mais tarde eles foram os primeiros a organizar times de futebol e as famosas sociedades bailantes, onde se encontravam e conspiravam. Eram concorridos os bailes no Clube 25 de dezembro, por exemplo, no alto da Agronômica, o qual podiam frequentar os brancos, e como ele, outros clubes se formavam e congregavam as comunidades. A vida social e política dos negros sempre foram intensas, e tanto que nos anos 30 a primeira mulher a se eleger para a Assembleia Legislativa foi uma negra de Florianópolis: a professora Antonieta de Barros.

Ao longo de todo esse tempo, desde a ocupação a partir do litoral, os negros também foram adentrando pelo estado afora, levados como escravos rurais nas fazendas de gado e de cana-de-açúcar. Depois, libertos, seguiram construindo suas vidas como comunidade, aportando todos os aspectos de sua rica cultura, originária dos diversos países do continente africano, de onde foram sequestrados. Há núcleos negros importantes em cidades como Joinville, Chapecó, Jaguaruna, Lages, Itajaí, São Bento, Campo Alegre, Blumenau, São Francisco do Sul, Três Barras, Criciúma, enfim, em todos os cantos do estado.
Hoje, os negros somam mais de 800 mil almas em Santa Catarina, perfazendo 13% da população e, segundo Osvaldo Vargas, da Coordenadoria da Igualdade Racial do governo estadual, geram perto de 150 milhões de reais por ano em ICMS.  “Mas, na realidade, o que a gente vê é que esse dinheiro não chega aos negros. Não temos acesso ao conhecimento sobre onde são investidos esses recursos e porque não existem políticas voltadas à população negra”.

E é por conta da importância que esse segmento da sociedade tem que existe agora essa coordenadoria. Ela surge na esteira de uma lei federal, criada no governo Lula, que obriga os estados a formularem uma política de igualdade racial. No caso de Santa Catarina, o trabalho ainda está muito incipiente. Conforme Osvaldo, que ocupa o cargo de coordenador, ainda é possível notar uma grande resistência entre os membros do governo. “Creio que são dificuldades culturais ou falta de conhecimento. Mas, a gente ainda nota certo desdém por parte de algumas pessoas. Só que isso não impede que a gente avance. Estamos na fase de montagem de comitês dentro das secretarias para depois exigir do governador um projeto de lei que crie o Plano Estadual da Igualdade Racial, que defina claramente as políticas públicas voltadas para os negros. Tudo vai devagar”.

Para Osvaldo Vargas, essa lentidão também é fruto da estrutura bastante incipiente da coordenadoria. Pouca gente e muita demanda. Tanto que, até agora, o trabalho tem sido feito basicamente por ele e só no âmbito do tema “negro”. Existem questões relacionadas aos ciganos e aos indígenas que nem chegaram a aflorar. O caminho é longo. “Nós, negros, vivemos um momento muito bom na conjuntura, temos um marco histórico com um novo deputado negro, Sandro Silva (PPS), assumindo uma cadeira na Assembleia. O primeiro, depois da professora Antonieta de Barros, em 1934. E ele está disposto a travar essa luta pelo Plano de Igualdade Racial, daí que vamos começar com isso e ir avançando”.

Sandro Silva é natural de Joinville e vem de uma sólida militância na cidade onde também já foi vereador e presidente da Câmara. Vindo de uma família humilde, ele encontrou na educação a força para vencer os obstáculos da vida. Nunca foi militante da causa negra, construiu sua carreira política desde a universidade onde atuava como professor de física. Mas, desde que assumiu um cargo público percebeu que esta era uma necessidade reprimida e vem atuando em consequência. Hoje ocupa a cadeira do deputado Altair Guidi que está de licença. Possivelmente o deputado exerça o cargo por apenas 60 dias (assumiu em 12 de junho), mas nesse curto período que estiver representando sua comunidade quer trabalhar para ver respeitadas as demandas do povo negro. Esse pode ser o empurrão que estava faltando para que essa importante comunidade saia da invisibilidade. “Vamos garantir espaço para os movimentos, vamos conversar com o governador e fazer sair do papel esse Plano da Igualdade Racial, incluindo também os índios. Esse será um compromisso para nós”. 

78 anos depois que a primeira mulher negra ocupou uma cadeira no legislativo catarinense, Sandro pretende mostrar que a comunidade negra não pode mais permanecer invisível.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A música em ação

Show dos alunos da Escola de Música Compasso Aberto, de Florianópolis. Aprendizes da música e da beleza que vem com ela...



A mais valia ideológica de Ludovico Silva

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Um veterinário com coração


Não sei bem porque, mas os animais, principalmente os gatos, gostam de viver na minha casa. Eles aparecem, assim, do nada. Comem, dormem, ocupam espaços e vão ficando. Chegou um tempo em que eram doze. Eu não consigo mandá-los embora, muito menos dar. Acabam virando da família. Mas, como gatos – majestosos e independentes - eles fazem suas regras. Às vezes somem por dias, nem mandam telegrama. Depois, reaparecem, com seu andar malemolente, e se deitam ao sol. Nem pergunto onde andaram. Eles não contariam. Outros vão embora para sempre e deixam saudades. As gatas começam a dar crias e eu enlouqueço. Que fazer com tantos? Dar, jamais.

Então chegou o tempo em que havia de operar as bichinhas. Uma crise de consciência tamanha. Tirar delas a alegria de terem seus gatinhos? Dias e noites pensando. Que fazer? Coisa difícil isso. Cada vez que uma delas pulava no meu colo e olhava nos meus olhos me assaltava a culpa. Toca saber onde fazer a operação. Pela prefeitura não dá, só quem é carente. Nas veterinárias é o olho da cara. Dureza para quem teve a benção de ser escolhida por várias gatas. Então encontrei uma ONG que vende cupons para operação a preço baixo. Arrisquei. O fato é que me dei mal.

Levei a Juanita para a tal cirurgia. Tudo correu normal, ela foi entregue no final do dia, ainda dormida. Com as recomendações de que não tirasse a malha e a deixasse em lugar seguro. Fiz uma boa caminha dentro do guarda-roupa, para ela não correr o risco de cair. Mas, quem consegue segurar uma gata de muro? Na manhã seguinte, ela já havia tirado a malha. Como? Não sei. Sacrifício tremendo para colocar outra. Cuida e cuida, cada passo, como se fosse um bebê. Mas, foi só descuidar outra vez e ela tirou os pontos externos. Quando vi, bateu o desespero. O que fazer? A gatinha com o corte aberto. Liga para a veterinária que fez a operação. Em vez de ajudar, ela deu esporro e só depois de muito chororô disse que levasse a gata no seu consultório. Mas, teria de pagar, avisou. De novo pirei. O consultório ficava na Trindade, uns 40 quilômetros de onde eu estava, e nem carro tenho.

Tratamos de pegar a gatinha e levar num veterinário do bairro. Improvisa um jeito de carregar a bichinha na bicicleta e toca a procurar um. Encontramos. Foi entrar no consultório e ele já avisou. “Pelo nosso código de ética não posso atender um animal que já está sendo tratado por outro”. Explicamos a situação, era uma emergência e não tínhamos como levar até o outro lado da cidade. Não aceitou. A gata poderia morrer estrebuchando na sua frente e ele nem se importaria. A menos, é claro, que pagássemos, e caro. Mandamos o filho de uma ronca e fuça às favas e voltamos para casa. Nosso pânico quase maior que nosso amor. Fomos até a agropecuária perto de casa, pedir um socorro. A boa alma do atendente nos indicou uma pomada e um antibactericida. “Fiquem tranquilos, ela vai ficar boa”.

E voltamos para casa atordoados pela falta de amor daqueles que deveriam ser os mais queridos cuidadores. Não há médicos com corações humanos – isso eu já comprovei - e tampouco veterinários. A primeira pergunta é pela grana. Podem pagar? Se não, vazem! E a gente fica no limbo. Nem tão pobre para ter o atendimento da prefeitura, nem tão rico para pagar os absurdos que pedem os veterinários. E nessa brecha da desgraça ficam os pobres bichos, sem qualquer chance de serem tratados. A sorte é que a gatinha se refez, entre seus próprios cuidados e os nossos. A ferida fechou e hoje ela anda por aqui, saltitando por entre os livros. Mas eu sigo de coração plúmbeo, esperando que um dia possamos ter um hospital público também para os bichos. E veterinários capazes de compaixão.