terça-feira, 26 de junho de 2012

O peão é sempre o culpado


O capitalismo dependente é o “uó do borogodó”. As empresas se dizem “modernas”, cheias de tecnologia, adeptas do livre mercado. Alardeiam a baboseira do sistema capitalista que vende a promessa de vida boa, mas só para poucos. Para a maioria é a superexploração do trabalho, o medo, a pobreza. E, no geral, a tal da “modernidade” das empresas só se faz por conta da desgraça dos que vendem sua força de trabalho para elas.

Dia desses vinha de Porto Alegre. Ônibus normal, nos quais vai a gente sem posses, o famoso convencional. Já é um pé no saco, porque para em tudo que é luzinha. Tudo bem. Lá vínhamos para Florianópolis. Eram três e meia da manhã. O pneu estourou. Até aí, tudo bem, acidentes acontecem. O motorista desce para trocar o dito cujo. Rec-rec-rec-rec. Só barulho e nada. Passam-se os minutos. Os passageiros se inquietam. É noite fechada, cai uma geada fria, tudo deserto. Depois de uns 40 minutos eu mesma não resisto e desço. É tempo demais para um pneu furado.

Lá, na noite escura, está o pobre motorista deitado sob o ônibus tentando fazer funcionar o macaco. Não funciona. Todo mundo a dar palpite e o guri suando. Rec-rec-rec-rec, nada do macaco subir. Os passageiros fazem sinal para os caminhões, os ônibus, ninguém para. Dois da Santo Anjo finalmente param e oferecem o macaco, mas o deles também é incapaz de levantar o ônibus. O fato é que os três veículos ali parados não tinham as condições adequadas para enfrentar uma simples troca de pneu.

O motorista, depois de ter tentado o que podia, inclusive arriscando a vida, decidiu ligar para empresa – Eucatur – e pedir um carro para levar os passageiros. Do lado dele ouvi o trabalhador, no outro lado da linha, dizer: “te vira aí, dá jeito, faz sinal para algum caminhão”. Os pobres motoristas são obrigados a seguir um tipo de protocolo em que fazem das tripas coração antes de propor a vinda de um novo carro. O rapaz estava bem nervoso. De um lado, pressionado pelos passageiros, de outro, sofrendo aquele terrorismo psicológico por parte de um companheiro que deveria zelar pelo seu bem estar e dos passageiros. O tal do Rodolfo, no outro lado da linha, preferiu seguir a regra patronal: sugar o trabalhador ao máximo antes de deslocar um ônibus.

A noite se estendia pelo arrabalde de Laguna, onde estávamos. O tempo passava e nada de o macaco subir. Não havia o que fazer. O motorista ligou outra vez e, de novo, era convidado a tentar mais. O rapaz, ainda jovem, era a própria imagem da culpa. Como se fosse responsabilidade dele o pneu ter furado e ele não ter força suficiente para levantar um ônibus cheio de gente. Pressionado, voltou a ligar dizendo que não havia mais o que fazer. “Então, aguardem que vamos mandar o ônibus”. E nisso tudo se passaram quatro horas. Quatro horas de espera no meio da noite.

Ao chegar fui fazer a reclamação na empresa. Nem bem entrei os funcionários me cercaram. “É sobre o atraso. Aqui o formulário”. Eu disse: “não é o atraso. Quero reclamar do terrorismo psicológico que foi feito contra um trabalhador”. Eles se entreolharam. Uma mulher saiu, acusando: “O Geraldo demorou a chamar ajuda”. Ou seja, o motorista já tinha sido julgado pelos colegas. Fora o culpado, exatamente como ele mesmo já se sentira lá na estrada. Aí alucinei e me parei a dar discurso. “Vocês são todos trabalhadores, iguais a ele. Deviam se proteger, se ajudar. Mas não, ficam aí a defender patrão. Ele cumpriu as regras impostas pela empresa. Fez o que pode e o que não pode. Que ninguém agora vá culpar o cara por isso. Era o que faltava”. E tudo isso aos gritos, enquanto as pessoas paravam para ver. Fui à agência que fiscaliza o transporte: nada podem fazer. Saí dali desolada e impotente.

E assim, seguimos. As empresas de transporte não se preocupam com a segurança de seus trabalhadores. Imaginem se vão cuidar da nossa. Estamos todos entregues ao azar.

Nacionalismo revolucionário em discussão na UFSC



A socióloga argentina Alcira Argumedo abre o Congresso Estadual das Brigadas Populares em uma atividade com a parceria do Núcleo de Estudos da América Latina (NEHAL/IELA). A conferência sobre “Nacionalismo Revolucionário e a Esquerda Latino-Americana” acontece no dia 29 de junho (sexta-feira) às 18h30min, no Auditório do CFH/UFSC e será aberta ao público.

Alcira Argumento, que é professora da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, atua hoje como deputada nacional na Argentina, representando o Movimiento Proyecto Sur. Como pesquisadora escreveu importantes trabalhos como: El silencio y las voces en América Latina: notas sobre el pensamiento nacional-popular, Los laberintos de La crisis e Un horizonte sin certeza: América Latina ante La revolución científico-técnica. Defensora do nacionalismo revolucionário, Alcira entende que esta é a mais radical possibilidade de emancipação dos povos. “Não se deve confundir nacionalismo-revolucionário com populismo barato. Essa diferença a esquerda precisa conhecer, para não cair nas armadilhas”.

Contatos: 84212550 – com Diógenes


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Greve na UFSC



As duas primeiras semanas da greve dos técnico-administrativos da UFSC foram de crescimento das paralisações, afinal, sempre tem muita gente que fica esperando para ver como as coisas vão se comportar. Esse ano já foi possível verificar um bom fortalecimento da mobilização, uma vez que muita gente que estava em cargos da reitoria anterior agora aderiu à greve. Também se observa uma participação massiva dos novos trabalhadores, que entraram nos últimos concursos, uma gente mais jovem e cheia de gás, querendo entender o que acontece com a sua vida laboral. As assembleia são cheias, como há muito não se via.

Na segunda semana a reitoria colocou um bode na sala tentando garantir a abertura do Restaurante Universitário só com os trabalhadores terceirizados. A categoria reagiu e ocupou as instalações do RU. Também alguns grupos organizados de estudantes, ligados a grupos conservadores e de direita, com a parceria de outros estudantes isolados, entraram no RU intimidando os trabalhadores exigindo a abertura do restaurante. Foi um momento tenso, mas que acabou sendo contornado pelos grevistas. Uma vez que eles iam explicando as razões da greve, os estudantes que estavam na onda, compreenderam e saíram, enfraquecendo o grupo organizado.

Dias depois, a reitoria realizou nova reunião com o sindicato e os estudantes e se deparou com o DCE apoiando a luta dos trabalhadores. Teve de dar outra solução para sua promessa de garantir alimentação. Por outro lado, os trabalhadores decidiram dialogar com os estudantes realizando um sopão coletivo nessa segunda-feira. De qualquer forma, os fatos envolvendo os estudantes e o RU deram um gás no movimento, pois serviu para unificar ainda mais os trabalhadores.

Na semana que inicia, além do sopão conjunto, já está marcado um ato unificado com os demais trabalhadores federais públicos para quinta-feira. Amanhã, terça-feira, tem assembleia geral e os trabalhadores vão discutir o documento encaminhado pela Associação dos Trabalhadores de Nível Superior (ATENS) ao governo federal, buscando negociar isoladamente seus salários, desconhecendo a greve dos colegas. Tema que promete.

domingo, 24 de junho de 2012

Ela, de Novo



Por Marcela Cornelli, jornalista

"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre". Pagu

A Revista Pobres & Nojentas volta a circular pelas ruas de Desterro. Irreverente já no nome, sem papas na língua e com muito conteúdo crítico e de qualidade, ela se contrapõe, desde o seu nascimento em 2006, à mídia burguesa e conservadora catarinense, que atua sob o monopólio da RBS, afiliada da Rede Globo no Sul do Brasil.

Depois de um ano interrompido o projeto, devido a questões financeiras – não e fácil manter um projeto de mídia alternativa, principalmente porque muitos criticam a mídia burguesa, mas poucos são os que apoiam iniciativas que se contrapõem ao modelo do capital – a revista volta com sua edição de número 28.

As matérias dessa edição tratam da luta das empregadas domésticas pelo reconhecimento de seus direitos trabalhistas, da luta dos egípcios e dos chiapanecos no México para preservar sua cultura, traz uma análise sobre Florianópolis em ano de eleição municipal, denuncia o insaciável apetite da elite da Capital para privatizar espaços públicos e conta a história da criação de uma inédita cooperativa de comunicação em Santa Catarina, a Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura. A Pobres também traz duas crônicas e dois poemas, em edição dedicada aos companheiros de luta Uby e Mosquito, falecidos em Florianópolis no ano passado.


Assim como o Desacato, parceiro de muitas lutas, a Pobres & Nojentas vem mostrando ser uma proposta de mídia alternativa em Santa Catarina que dá voz aos empobrecidos e às comunidades que não são ouvidas pela mídia e/ou quando são ouvidas, o são de forma pejorativa como se as pessoas que ali vivem precisassem de caridade e não que são capazes de se organizarem e irem à luta pelos seus direitos.

A Pobres & Nojentas- Nojentas no sentido de quem não desiste nunca de buscar vida boa e bela para todos, não é, como o próprio nome sugere, uma mídia comercial. A Pobres é vendida de mão em mão, em uma peregrinação pelas ruas de Florianópolis, e, em eventos nos quais a equipe de jornalistas que a editam, todos voluntariamente, participam, leva-se o seu nome. Graças ao apoio cultural do Sindprevs/SC, ela é distribuída gratuitamente nas comunidades empobrecidas que participam das suas reportagens. E não se obtém nenhum lucro com ela, toda renda da venda é usada para editar o próximo número.

Foi na antiga padaria Brasília, que hoje já não existe mais para infelicidade de quem gostava de tomar um café e pão com ovo baratos no centro da cidade, logo ali do lado da Praça XV, que as primeiras ideias da Pobres nasceram das mãos de duas jornalistas e hoje editoras da revista, Elaine Tavares e Míriam Santini de Abreu, e de um grupo de amigas. Aos poucos, mais gentes foram se engajando no projeto. Foram lindas as parcerias com o Desacato também, sempre em busca de mostrar o outro lado da notícia, da informação, busca tão necessária para ajudar na transformação social. A Pobres é uma revista de classe, escolheu um lado na luta, o lado da classe trabalhadora, e a equipe que trabalha nela são jornalistas que acreditam que o jornalismo deva ser libertário, quebrando conceitos e abrindo caminhos para uma nova sociedade mais justa e igualitária. Jornalistas que acreditam que, por suas mãos entrelaçadas, podem ajudar a transformar a sociedade em que vivem. Que sabem que o jornalismo não é e nem deve ser parcial, porque o jornalismo da mídia burguesa também não o é. Jornalistas que entendem que sim, é preciso checar fatos e ouvir as pessoas, mas mais que isso, além de ouvi-las, deve-se ajudá-las a escreverem a sua própria história.

Muitos foram os sonhos e projetos de vida que a Pobres nesse breve tempo de vida ajudou a realizar. Foi com o apoio da Pobres que várias publicações foram lançadas, através da Companhia dos Loucos, como: Porque é preciso romper as cercas: do MST ao Jornalismo de Libertação, da jornalista Elaine Tavares; Mulheres da Chico, de Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara; Seres do Bem – retratos de viandantes, do jornalista Ricardo Casarini Muzy.; Uma Cidade na Memória, do jornalista James Dadam e Jornalismo nas Margens – uma reflexão sobre comunicação em comunidades empobrecidas, da jornalista Elaine Tavares.

Agora a Pobres está apoiando um novo projeto que contará a história de uma adolescente que teve a vida ceifada pela anorexia, doença que muito retrata o que a indústria da “beleza”criada pelo capitalismo está fazendo com nossos jovens, meninos e meninas.

Muitos foram os temas já trazidos pela Pobres como as denuncias sobre a criação do Costão Golf no Santinho; a falta de direitos básicos na cidade como moradia e saneamento básico; as lutas travadas contra o capitalismo que explora e destrói nosso meio ambiente e elitiza cada vez mais a cidade, expulsando os pobres dela. Trouxe reportagens desde a América Latina, Cuba e as lutas dos povos. Retrata a realidade de uma cidade vendida ao capital e que exclui seus filhos.

A Pobres veio ironicamente para se contrapor às revistas do tipo “ricas e famosas” , veio para contar a história de mulheres de verdade, de mulheres de luta, lindas de corpo e alma. Está aí há seis anos trilhando a estrada, tentando fazer a diferença na luta de classes, a favor da classe trabalhadora.

Para que este projeto possa continuar, agregar mais forças e efetivamente fazer frente aos meios de comunicação burgueses ele precisa do seu apoio.

Você pode conhecer mais o projeto pelo link na Internet do Portal Desacato: http://desacato.info/pobres-e-nojentas/

Para comprar e/ou assinar a revista e também ajudar a construir esse projeto entre em contato com a Pobres através do e-mail: eteia@gmx.net.

A revista é vendida também na banca da Praça VX, no valor de R$ 5,00.

Para assinar são 4 edições anuais no valor de R$ 25,00 reais (incluído as despesas com Correio).
 
Vamos seguindo de mãos dadas pelo caminho!

Porque para transformar é preciso lutar!

Golpe no Paraguai

O que acontece no Paraguai, com o pedido inusitado de impedimento do presidente Fernando Lugo, e julgamento relâmpago, não se configuram em surpresa numa América Latina onde os golpes de estado são recorrentes. Basta lembrar o último golpe em Honduras (em 2009) que acabou, inclusive, respaldado com novas eleições totalmente ilegais. E isso não é obra do acaso ou da vontade de alguma força interna. Faz parte de um projeto de dominação dos Estados Unidos que não quer ver qualquer possibilidade de uma América livre e soberana. Mel Zelaya, em Honduras, foi deposto porque se acercou da Alba, comandada por Hugo Chávez.

Agora, os golpistas atuam no Paraguai, região estratégica, parte da tríplice fronteira tão cobiçada por sua riqueza energética. Fernando Lugo vem da teologia da libertação, tem caráter progressista, pendendo para a proposta de integração latino-americana, próximo de Chávez. Ao império isso já é suficiente para uma intervenção, mesmo que boa parte das políticas de Lugo não se distancie das velhas práticas neoliberais.

Na última semana, um conflito entre a polícia e camponeses na região de Curuguaty, a 250 quilômetros de Assunção, deixou seis policiais e 11 camponeses mortos, deu o motivo para que a velha e sempre desperta direita se mobilizasse. Por um lado, o confronto mostra que o campo está ardendo, que os camponeses estão em luta buscando mudar a imobilidade agrária do país. Para se ter uma ideia, durante o governo do ditador Strossner, mais de 10 milhões de hectares de terra foram distribuídos de forma ilegal aos seus aliados. Milhares de camponeses perderam suas terras criando o fenômeno dos sem-terra. Com a democratização do país, esses trabalhadores fortaleceram as lutas e o próprio presidente Lugo atuou junto com eles quando ainda não era o mandatário da nação.

O massacre de Curuguaty está envolto em mistérios. A mídia internacional e local divulga que havia, junto aos camponeses, membros de um grupo guerrilheiro e que foi o ataque desses membros que provocou a reação policial. Mas, nada está comprovado. O acontecido está sob investigação. O fato é que essa explicação é típica. Era o que se dizia do MST, no Brasil, quando a luta desse movimento começou. O que, é claro, ficou evidenciado como mentira. É mais provável que a infiltração seja de paramilitares, típicos dos contragolpes imperialistas.

O fato é que os congressistas viram aí um bom motivo para enfrentar e destruir o presidente Lugo. Os partidos tradicionais que sempre mantiveram de rédeas curtas o poder, seguiram em maioria no Congresso e a frágil aliança que garantiu a vitória ao presidente acabou sem força no parlamento. Colorados e Liberais têm, juntos, 29 das 45 cadeiras do Senado. A Câmara, com 80 membros, também tem maioria anti-governista. Nesse sentido, podem impor qualquer coisa que queiram. Assim, decidiram acusar o presidente pelo massacre e instituíram um processo de impedimento.

Algumas coisas são muito surpreendentes nesse caso. Primeiro, a elite política – boa parte aliada dos latifundiários – se viu, de um dia para outro, defensora dos pobres camponeses. E, segundo, definiu um processo de impedimento tão rápido, 24 horas, no qual a defesa presidencial teria direito a apenas duas horas. Conforme os advogados do presidente, em qualquer juízo a defesa tem 18 dias para preparar defesa, não há sentido de o presidente ser julgado em rito sumário, ainda mais que os motivos não se qualificam como passíveis de se exigir um impedimento. Quem acompanhou o debate desta sexta-feira no congresso paraguaio, pode observar o raivoso discurso dos congressistas contra os sem-terra, a favor do latifúndio, o que mostra muito bem o que está em jogo nessa ação golpista.

Ainda na sexta-feira, durante a sessão do congresso, chanceleres dos países da Unasur estiveram presentes e se manifestaram dizendo que o processo não estava sendo democrático e que todos gostariam de ver a ordem democrática ser respeitada. Foi feita a proposta de que o congresso seguisse os prazos, que discutisse melhor o tema e ouvisse o povo sob pena de uma decisão apressada, sem garantir direito a defesa, causar profunda comoção no país. “Se os congressistas não respeitarem o processo democrático será muito ruim para o povo paraguaio e para toda América Latina”, expressou Alí Rodríguez, secretário-geral da Unasur.

Ao final da sessão, o relator - depois de um julgamento moral - apontou pelo imediato afastamento do presidente. Em votação nominal, 39 votaram pela condenação de Lugo, 4 votaram contra o juízo político e dois estavam ausentes. Estava consolidado o golpe, sob os aplausos dos latifundiários e narcotraficantes.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Feliz solstício de inverno



Hoje começa nova estação. É começo do ano para os povos originários das terras abaixo do Rio Bravo. Tempo de recolher, de limpar quintais, de podar árvores, de chá com mel, de sopa quente, chocolate. Hoje é dia sagrado, momento de celebrar. Desde os tempos imemoriais que os homens marcam o tempo na virada das estações. Tempo de plantar, de colher, de aquietar.

O inverno é tempo gris, de vento sul, de mar grosso, de virada para dentro. É estação do recolhimento, de repensar a vida, as escolhas, os caminhos.

Nesse primeiro dia do povo autóctone, na espinha dorsal da nossa América baixa começam as comemorações do Inti Raymi, festa mágica do povo andino. Na nossa terra Guarani é hora de aparecer no céu a grande Ema, o Ñhandu, bicho mítico que enche a terra e o céu, apontando um tempo de claridade.

É chegada a hora de retomar nossas memórias antigas, de oferecer um pago a terra, de render graças por estar vivo na entrada da nova estação, do novo ano. Porque, enfim, viver é um presente...

Feliz Solstício... Celebraremos com uma boa sopa de raízes, para lembrar da Pachamama, da Terra mãe, que dá vida e prato cheio.  Jallalla!

Hospital Universitário: comunidade luta para não privatizar



Os lutadores sociais e os sindicalistas de boa cepa tem uma triste sina. São sempre vistos como os arautos da desgraça. Estão sempre a clamar que alguma coisa muito ruim está vindo, que algo terrível vai acontecer. E o pior é que é isso mesmo. A desgraça vem. Foi o que ocorreu no que diz respeito ao Hospital Universitário. Desde o ano de 2007 que as pessoas ligadas ao movimento de luta por saúde de qualidade vêm dizendo que o governo quer privatizar esse que é o único hospital totalmente público de Santa Catarina. Ninguém nunca acreditou.

Quando estávamos na direção do sindicato dos trabalhadores da UFSC promovíamos uma atividade chamada de “café com sonho”. De manhã cedo, esperávamos as pessoas que vinham do interior do Estado, para serem atendidas no HU, com um café quentinho e a informação sobre as propostas governamentais de criar uma empresa privada para dirigir o hospital, desvinculando o mesmo da universidade. No geral, as pessoas pegavam o panfleto, liam, conversavam, se apavoravam, e era tudo. Voltavam para suas cidades e esqueciam. O que é natural, porque quem está doente quer mais é resolver o problema que lhe aflige.

Mas, no caso dos trabalhadores do HU a coisa era ainda pior. Como grande parte não gostava - e ainda não gosta - de conversas de sindicato, nem dava atenção ao que se denunciava. Os panfletos ficavam nos lixos ou jogados no chão. Os apelos para mobilização eram ridicularizados. “Lula não vai fazer isso”, ou “ esse tipo de coisa nunca vai acontecer”. E o tempo passou e a fundação privada vingou.

Apesar disso, muita coisa se fez. Matérias nos jornais sindicais, atos públicos, abraços ao HU. Um grupo de valentes lutadores - trabalhadores e estudantes - nunca esmoreceu. Mas não foi suficiente para barrar a tal da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, criada há pouco tempo. Na fala do governo federal – de onde saiu a proposta – vem a conversa mole de que é uma empresa pública. Não é. É de direito privado, portanto, vai atuar como tal. Seu objetivo é o lucro. E como se gera lucro no atendimento à saúde? A resposta vem do médico Pedro Carreirão Neto: “cortando serviços, diminuindo a qualidade e enxugando pessoal”. Então, imaginem o que vai acontecer se o HU for entregue a essa empresa. O que nem é tão bom, vai piorar.

A ideia do governo é de entregar mais de cinco bilhões de reais para criar a nova empresa. Se esse dinheiro fosse direto para os hospitais, quanto bem não faria. Mas não. Será criada toda uma estrutura gigantesca para administrar os hospitais universitários de todo o país. O objetivo do governo é diminuir custos. Mas, é uma incoerência. Como diminuir custos, criando mais gastos? Bueno, a resposta a essa questão é simples. O governo mente. A empresa de serviços hospitalares é uma exigência do mercado. Empresas, médicos, laboratórios, e mais uma série de abutres querem ganhar dinheiro com a saúde das gentes. E sem risco, porque vão ganhar tudo de mão beijada do estado. É um negócio espetacular.

Não é sem razão que o povo brasileiro vê, todos os dias, as grandes redes de comunicação lançarem matérias enormes sobre a falta de qualidade dos hospitais públicos. A campanha de demonização do que é público não é por acaso. Não acontece assim, de repente, a mídia se interessar pela saúde dos pobres. Tudo isso faz parte de uma campanha muito bem urdida de lavagem cerebral. Mostra-se, à exaustão, o horror dos hospitais, e depois vem a "boa" notícia: agora vai privatizar. Como se privatização fosse a solução para as coisas ruins que acontecem na saúde pública. É fato que o atendimento público não é bom, mas não há garantia nenhuma de o atendimento ser melhor na iniciativa privada. Pelo contrário. Se o que vai valer é o dinheiro de quem pode pagar, a coisa tende a ficar pior para os pobres.

Em Santa Catarina o governo do Estado já entregou vários hospitais para as malfadadas “organizações sociais”, espécie de ONGs que agora cuidam da administração dos mesmos. A lógica do lucro sobre a doença. Coisa muito perversa. Os sindicalistas estão aí, desde há tempos, denunciando, sem serem ouvidos. E a coisa foi se fazendo, urdida no silêncio, pois o que aparece para a população é que agora tudo vai melhorar. Quem precisa fazer uso de um hospital sabe que não é assim. Há algumas semanas os médicos de Santa Catarina vêm se mobilizando na denúncia dos horrores que estão vivendo nos hospitais. Áreas inteiras de hospitais são fechadas, atendimentos são centralizados na capital, há leitos desativados, equipamentos apodrecem sem uso por falta de pessoal. E agora? Dizer o quê? Muitos desses hospitais estaduais já estão em mãos privadas. Significa que o que alardeavam os “arautos da desgraça” era a mais pura verdade. Tudo ficou pior.

No último dia 19 de junho, o Sindicato dos Médicos denunciou mais um momento de horror. Uma pessoa sendo reanimada no chão, dentro do Instituto de Cardiologia de Santa Catarina, por falta de condições estruturais, ou seja, uma simples maca. Segundo o sindicato, não é raro que haja apenas um médico na emergência, o que inviabiliza qualquer atendimento de qualidade. O governo se faz de morto e ainda tem a cara de pau de dizer que não há falta de profissionais no sistema e que não irá chamar os novos concursados. Só no Instituto de Cardiologia seriam necessários mais 13 médicos e o dobro do pessoal de enfermagem. Mas, se a proposta das organizações sociais e agora a da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares é de cortar gastos, isso significa que essas reivindicações não deverão ser atendidas. Pelo menos, não sem luta.

No Caso do Hospital Universitário resta uma esperança. A universidade tem a possibilidade de decidir não aderir a essa proposta de ter o seu HU administrado pela empresa privada. O governo diz que cada universidade terá livre arbítrio, mas ao mesmo tempo trabalha pelas costas, espalhando o rumor de que aqueles que não aderirem à empresa privada poderão ter prejuízos na hora de buscar recursos. Segundo o doutor Carreirão Neto, essa chantagem é imoral e inadmissível: “O governo não poderá penalizar os HUs que não aderirem, isso seria por demais perverso”. A vice-reitora da UFSC, Lúcia Helena Pacheco, durante um seminário promovido pelo Fórum Catarinense em Defesa do SUS e contra a Privatização, disse que a nova administração ainda está tomando pé da situação, e que já pediu mais prazo ao governo para discutir o tema. “Nós vamos fazer um fórum, um debate, enfim, vamos ouvir a comunidade. Nenhuma decisão vai ser tomada sem isso”, afirmou.

De qualquer forma, ouvir a comunidade não é suficiente. A começar pelos próprios trabalhadores do HU, a maioria sequer sabe o que vem a ser essa empresa privada e quais os problemas que ocorrerão caso ela venha a administrar o HU. Assim, conforme sugeriu o professor Irineu Manoel de Souza, é necessário que as pessoas – trabalhadores, estudantes e comunidade – sejam informadas do assunto para depois, com clareza do que isso pode significar para a vida dos catarinenses, decidir. É bom lembrar que o HU atende pessoas de todo o estado de Santa Catarina, com mais de 30 mil consultas por mês, sem contar as internações. Assim, o certo é que também as prefeituras de todo o estado informassem à população. Com a nova empresa, privada, administrando o HU, estaria aberta a porta para o atendimento por plano de saúde e qualquer ser humano sabe que entre um “cliente” endinheirado e um pobre sem recursos, a escolha no mais das vezes tenderá a recair no que pode pagar, já que numa empresa privada o que importa é o lucro.

Assim, o encaminhamento do Fórum é de que a população se levante em luta contra mais essa selvageria capitalista que pretende tomar corpo agora no Hospital Universitário. Vários hospitais do Estado já estão em mãos de OSIPS – as tais organizações sociais – e a população está cada dia com menos opções de atendimento público. Assim, não basta só defender o HU, há que se fazer a luta pela retomada dos demais hospitais estaduais que estão orbitando o círculo do lucro com a doença.

Como fazer para se manifestar? Há várias maneiras. Organizar frentes de luta nas cidades, seja através de sindicatos combativos, seja através de associação de moradores. Pressionar os prefeitos, o governador. Participar das atividades chamadas pelos sindicatos de trabalhadores da saúde. Enfim, juntar-se ao movimento. Um sindicato sozinho não consegue muita coisa. É necessário que as gentes se mexam e ocupem as ruas. Nada no mundo vem de graça para os pobres, os trabalhadores, tudo é conquistado à duras penas. Há muita gente se organizando, então, encontre esse povo aí na sua cidade, e mobilize-se. A saúde pública é um direito das gentes. Vamos garantir, na luta, que ele seja exercido.

Basta de enganação e basta de abutres lucrando com a dor do povo. Fora empresas privadas da saúde pública do Brasil. As empresas que quiserem atuar na saúde privada, que arquem com seus riscos. Os recursos públicos precisam ser investidos na saúde pública.