sexta-feira, 15 de junho de 2012

O guri do adesivo e a menina do fósforo


O guri entrou no ônibus lotado das seis da tarde. Esgueirando-se pelo meio das gentes que apinhavam o coletivo começou a cantilena. “Um minuto de atenção, por favor. Eu poderia estar roubando, mas estou aqui oferecendo esse adesivo. Minha família precisa comer...” E por aí foi. As pessoas se mexiam incomodadas, como sempre ficam quando aparece alguém pedindo. Alguns viram a cara para a janela, outros baixam o olhar, outros fingem dormir. Há uma indiferença gritante diante do outro, exposto até as vísceras. Eu não consigo. Aquilo me toca.

Aprendi a ler muito cedo, tinha cinco anos. E o fiz a partir dos livros de história que meu pai comprava aos borbotões dos vendedores que batiam na porta de casa. Ele tinha pena dos pobres homens e nós ganhávamos cultura. Dentre os livros que eu lia estava um, com historietas de Hans Christian Andersen. Uma delas, em particular, sempre me emocionou. Era a da vendedora de fósforos. Numa noite de natal uma guriazinha anda pela rua cheia de neve, tentando vender seus fósforos para poder comer e se aquecer. Ninguém compra. Ela então se abriga numa marquise onde observa as famílias comendo, felizes, celebrando o natal. E ela está sozinha, com frio e com fome. A história termina com a menina morrendo de frio, em pleno natal, porque ninguém lhe havia comprado um fósforo. Aquilo é horrível.

Eu lembro que ficava no tapete, lendo, e questionando minha mãe. Ela tinha sempre as respostas. Uma vez, lendo a história, em lágrimas, comentei indignada: “Alguém podia comprar o fósforo. A guriazinha não morreria”. E minha mãe, da pia, bramiu a faca que lavava: “Não deveria era existir criança precisando vender fósforo”. E eu assenti. Era isso.

Depois, cresci, e fui para a vida, para a grande política. Talvez na minha cabeça de menina eu buscasse aquela realidade apregoada pela minha mãe. Viver num mundo em que todos pudessem ter dignidade. Mas, as coisas não são simples assim. Então, com Rosa de Luxemburgo, aprendi que, às vezes, temos de caminhar fazendo reforma e revolução, ao mesmo tempo. Por isso, faço sempre o que minha mãe falou: luto para que todos tenham direito à vida boa e bonita. Mas, enquanto isso não acontece de verdade, eu “compro o fósforo”.

E é o que faço quando vejo esses guris nos ônibus, pedindo, ou vendendo seus adesivos feinhos. Não lhes viro a cara, nem finjo que não existem. Gosto de olhar para eles, ouvir, atenta, toda aquela cantilena, sorrir e estender o que posso dar. Não é musculação de consciência, porque isso não aplaca minha ira. Sei que não muda nada no complexo sistema capitalista que tira das maiorias a possibilidade de viver com dignidade. Mas, nesses momentos, é como se eu ainda fosse aquela guria franzina, deitada no tapete da velha casa em São Borja, vendo a menininha dos fósforos. Eu nunca poderia deixá-la morrer. Se algum cristão, um único, lhe tivesse comprado o fósforo, ela poderia ter seguido seu caminho, virado mulher, transformado o mundo e feito, quem sabe, uma revolução. Era só um fósforo, uma coisa de nada.

Por isso sigo assim, repartindo o que tenho, compartindo com alegria, sem medo de parecer burra ou piegas. E quando isso acontece é como se eu voltasse àquele universo cinzento das tristes histórias de Andersen e o colorisse. É como se eu estivesse ali, na marquise, comprando o fósforo, e dizendo: “se aquece, e vem. Temos um mundo inteiro a construir”. E a gente saísse dali, saltitando, no rumo da revolução. Eu e a menina do fósforo, incendiando o mundo. Ah... como eu gosto de ter esperanças!..

domingo, 10 de junho de 2012

Insólito e lindo....

A deusa do Pará (Joelma) e o mago da Paraíba (Zé Ramalho)


sexta-feira, 8 de junho de 2012

A praça do povo livre




Para Maria Medianeira


Já andei por muitos lugares surpreendentes no mundo. E também pisei espaços de muita beleza. Como esquecer a visão da Acrópole numa noite de lua cheia, logo depois de uma greve geral que sacudiu Atenas? Ou a deslumbrante da ilha de Patmos onde fica a caverna dentro da qual São João recebeu as revelações do Apocalipse? Também já tive a graça de contemplar as pirâmides do Egito, numa noite fria, de lua branca, num dos maiores espetáculos de som e cor que já vi. Também pude caminhar pelos templos egípcios ao longo do Nilo, com suas colunas imensas, cheias de notícias do passado distante. A cidade espanhola de Córdoba, memória do mundo árabe, Granada, Lisboa. Já pisei na Chapada Diamantina, no serrado mineiro, nas praias de Maceió, na pedra da Bruxa, e tantas outras paragens onde até a respiração pára, de tanta lindeza.

Mas, a cena que mais me emocionou até hoje foi a de uma praça no interior do Rio Grande do Sul, na cidade onde nasci. Tínhamos saído de Florianópolis – ao melhor estilo easy rider – em direção à fronteira gaúcha aonde iríamos levar as cinzas da minha mãe. Ela havia morrido em 1998, e seu sonho sempre fora voltar aos pagos. Mas, só em 2010 tínhamos conseguido as condições para tanto. Partimos no carro de uma amiga, eu, ela, meu pai, meu sobrinho e um amigo dele. Fomos devagar, parando aqui e ali. Dormimos em São Miguel depois de ver o show de luzes que mostra a saga de Sepé Tiaraju. Outro momento de encanto.

No dia seguinte já estávamos à margem do rio Ibicuí, onde minha mãe costumava nadar quando criança. Era ali que ela queria ficar para sempre, circulando de um lado a outro, misturada à grande energia cósmica. O rio faz divisa entre Itaqui e Uruguaiana, a cidade onde vim ao mundo. Então, nada mais natural que depois da bonita cerimônia a gente fosse para a terrinha, visitar velhos amigos do meu pai. Foi o que fizemos.

Uruguaiana segue sendo o que sempre foi. Uma cidade pequena, bem no estilo das cidades da banda oriental. Ruas largas, casas altas, calçadas espaçosas, árvores por toda parte. Foi bonito circular por ali, nas paragens da minha infância. Tudo continuava lá, apenas aparecia aos meus olhos adultos com outra força. Até o castelo que era meu sonho e que parecia grandioso, surgiu só como uma casa grande. Mas nada diminuiu o encanto. Tudo era emoção. Os amigos, os parentes, aquele ar.

Então, quando a noite chegou, veio a maior beleza. Decidimos encontrar uma amiga num bar em frente à praça central. E para lá fomos. A tarde já caia e a barra da noite se anunciava no céu de janeiro. Fazia calor. A praça era a mesma de 40 anos atrás. Mas havia uma novidade. Ela estava cheia de gente. Nunca vi coisa assim em toda minha vida. Cada canto da praça estava iluminado. Parecia dia claro. As crianças corriam por entre as árvores e os heróis de bronze. As mulheres passeavam tomando sorvete, famílias tomavam chimarrão. Era quase como a visão do paraíso. Havia música, risos, luz, cor. Todos nós fomos tomados por uma emoção indizível. Forte demais. Aquilo era comunidade. A imagem concreta de comunidade.

Sempre que quero expressar esse sentimento de vida comum, de comunhão, de partilha amorosa, me vem àquela cena. Nunca vi nada igual. E os meus olhos se enchem de lágrimas. Dentro de mim, que sou filha da banda oriental, assoma o mesmo sonho de meu amado Artigas - o general dos povos livres: a construção de uma comunidade onde todos vivam em paz, felizes e livres. Por um átimo, naquela noite, na feérica Praça de Uruguaiana, esse sonho pareceu real.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MST ocupa fazenda em Santa Catarina


Por Pepe Pereira dos Santos - Timbó Grande

Na madrugada do día 07 de Junho, 47 famílias Sem Terra ocuparam a Fazenda Caçador Grande, localizada a 4 km da sede do municipio, uma área de 254 hectares em Timbó Grande, SC.

No centenário da Guerra do Contestado, episódio catarinense quando famílias ficaram sem terra pela invasão de uma empresa de exploração de madeira vinda dos Estados Unidos, agora famílias recuperam uma área improdutiva, pertencente à Timbó Empreendimentos Florestais administrada operacionalmente pela Terra Master, uma empresa de origem estadunidense que encontrou no planalto catarinense uma oportunidade de lucro com a exploração do solo e da água para o monocultivo de pinos e eucalipto. A fazenda ocupada estava há muito abandonada e a ocupação foi tranquila. Agora as famílias, animadas pela conquista, estão construindo os barracos e organizando o acampamento. Mais famílias são esperadas no local e vizinhos da Fazenda afirmaram que a empresa ainda possui cerca de 10 fazendas na região semelhantes à que foi ocupada hoje.

O município registra um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano do país.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Governo tripudia trabalhadores e espera pela greve


“Na federal é assim. Todo ano tem greve”, dizem, entre risos, alguns estudantes. É como se fosse um ritual a cumprir, e algo que nascesse da “vagabundice” dos trabalhadores públicos que não querem trabalhar. É certo que tem algum trabalhador que se comporta dessa forma, mas não é a maioria. Se fosse assim, as universidades não funcionariam e nem seriam as instituições mais importantes do país, onde se cria 90% da ciência. Algum mérito os técnico-administrativos têm de ter nisso aí, porque nenhuma pesquisa, estudo ou extensão acontece sem esses trabalhadores.

E, como é comum nas relações de trabalho, todo os anos os trabalhadores precisam ter seus salários ajustados, pelo menos no que diz respeito às perdas do período, como acontece com qualquer outra categoria. Mas, entre os trabalhadores públicos não é o que sucede. Não há data-base para eles. Os salários só se reajustam se existe luta. E olha que é lei. E, como também ocorre com qualquer outro trabalhador, os públicos igualmente comem, vestem seus filhos, gastam com saúde, educação e tudo mais. Logo, precisam recuperar as perdas e, de quebra, garantirem um aumento real.

Não bastasse esse kit-básico da vida laboral que diz respeito a salário, os trabalhadores públicos lutam desde há anos por uma carreira. E o que é isso? A possibilidade de, entrando numa instituição pública, fazer carreira lá dentro, mudar de posto, crescer, como também acontece nas empresas privadas. Mas, isso, igualmente está fechado para os trabalhadores públicos. Não há proposta de carreira e uma criatura, ao entrar num cargo, ali fica até morrer, mesmo que estude e se qualifique. Fora isso, ao longo dos anos, por conta dos governos de plantão, muitas outras desgraças se abateram sobre o funcionalismo – principalmente os do executivo. Cargos importantes foram extintos, funções iguais ganharam salários diferenciados, aposentados foram mal enquadrados na tabela salarial, enfim, um festival de horrores.

Tudo isso vem sendo discutido com o governo, sem avançar um passo sequer. Na greve do ano passado, os trabalhadores ficaram quase três meses parados e as negociações não avançaram em nada. O governo exigiu o fim do movimento para apresentar uma proposta. Os trabalhadores saíram da greve, derrotados. E o governo não ofereceu proposta. Desde 2007 já foram contabilizadas 52 reuniões com o governo, no que ele chama de negociação permanente. E o que de fato permanece é a completa indiferença com a situação dos trabalhadores. Os salários estão congelados, não foram feitas as mudanças de racionalização dos cargos, os aposentados perdem direitos. O caos.

Na semana passada os trabalhadores das universidades decidiram encaminhar um indicativo de greve. Mais uma. Porque também não dá para ficar aturando enrolação permanente de um governo que não se dispõe a oferecer qualquer solução aos problemas criados. Pelo contrário, existe até projeto propondo o congelamento dos salários em 10 anos.

Pois a última reunião com os representantes da Secretaria de Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento foi uma tristeza. Usando da velha tática da chantagem, a funcionária do Planejamento, Marcela Tapajós, disse que era muito difícil o governo sentar com os trabalhadores que já estavam anunciando greve. Ao que foi respondido que a proposta de greve só nasceu por conta de essas reuniões não saírem do lugar. E o que se sucedeu não foi diferente de tudo o que os trabalhadores vêm vivendo desde sempre. Conversa fiada, chantagem e ameaças. Basta ver como o governo está tratando a greve dos professores, também se recusando a conversar. Nas mesas “de enrolação”, o governo aparece ora com a conversa de mudança no piso, ora com uma ideia de nova carreira, mas nada aparece como proposta real. Apesar de alardear crescimento no PIB nos últimos anos, a presidente Dilma não quer saber de dividir isso com os trabalhadores. Certamente o interesse maior é seguir pagando os escorchantes valores das dívidas externa e interna.

E, assim, o governo vai criando um impasse, deixando os trabalhadores num beco sem saída. Nas mesas, nada avança. Então, talvez, quem sabe, na luta. Mesmo com a derrota no ano passado, os trabalhadores acreditam que não dá para ficar inerte, vendo os salários congelarem e todas as misérias da carreira e da tabela salarial seguirem crescendo.

Isso significa que as universidades viverão nova greve dos técnicos administrativos. Em Santa Catarina, o movimento dos professores que assoma em todo o país, não chegou. Os sindicatos de docentes não chamaram assembleias nem deliberaram por greve. Há uma apatia e uma acomodação muito grande entre eles. Mas, o dos técnico-administrativos acatou o indicativo da Federação Brasileira dos Sindicatos das Universidades Brasileiras e deve entrar em greve a partir do dia 11 de junho, assim como também os técnico-administrativos dos Institutos Federais.

Como sempre acontece, uma greve na universidade demora a tocar a sociedade. No geral, os movimentos duram de dois a três meses. Não tem a mesma força que uma greve de ônibus, que paralisa uma cidade e não passa dos três dias. Greve na educação é coisa que se arrasta, como se parar o processo de criação de conhecimento de milhares de pessoas fosse algo sem importância. Parece até que o governo lucra com a greve, já que muitos dos gastos acabam diminuindo. É uma coisa perversa. O governo deixa os trabalhadores sem qualquer aceno de negociação e passam-se os meses. Quando então aparece algum impasse, como a impossibilidade de um início de semestre, uma formatura, ou coisa assim, então a sociedade se volta contra os trabalhadores. Eles são os vagabundos que não deixam seus filhos se formarem, ou arranjarem um emprego. Toda a dor das famílias dos trabalhadores fica no vazio, diante da ira de quem precisa de um serviço que não é prestado.

Então, na queda de braço entre os trabalhadores e o estado – no geral sempre a serviço do capital – o cordão arrebenta no lado mais fraco. Até porque, desde o final dos anos 90 que os trabalhadores públicos vêm diminuindo seu ímpeto de luta. As últimas greves tiveram muita adesão, mas pouca mobilização. Isso significa que os serviços param, mas a força da luta não aparece em passeatas massivas ou atos de massa. Isso é ruim porque o governo percebe a fragilidade do movimento e aí deixa o tempo passar para que a greve vá se desmilinguindo.

Esse ano está colocado mais um desafio. Muitos trabalhadores novos entraram nas universidades nos últimos tempos. Espera-se que esse sangue novo vibre na órbita da luta mesma, luta real, na rua, na mobilização. Muitos direitos que os trabalhadores mais antigos ainda têm, os novos não terão garantido. Entraram em desvantagem. Então, mais motivos ainda têm para fazerem a greve ferver. Vai ser um momento importante no qual esses novos trabalhadores mostrarão a que vieram: se são meros carreiristas, pulando de concurso em concurso, ou se tem mesmo o desejo de atuar na construção de uma educação universitária de qualidade e com compromisso social.

A semana que vem aponta para esse novo embate com o governo. Educação parada. Universidade parada. Criação do conhecimento prejudicada. A eterna luta do trabalho contra o capital. Sim, porque quando um governo prefere pagar juros a banqueiros em vez de valorizar seus trabalhadores, ele está, de fato, representando o capital. A luta de classe outra vez se expressando. A ver como se comportam a sociedade, os trabalhadores, o governo, o capital.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O povo da Núbia






Estando no Egito, conhecer o povo núbio era uma exigência ontológica. Desde pequena as imagens dos escravos negros guardando as divindades egípcias me enchiam de estupor e curiosidade. Eram sempre mais dignos e belos que os próprios faraós que guardavam. E as mulheres, de pele retinta, destacavam-se como deusas, cortejadas e desejadas pelos filhos de Amon-Rá. Os núbios, mais do que escravos, eram um povo que tinha cultura e língua próprias e além de entregarem seus corpos, também eram sangrados das riquezas de sua terra, como o ouro e o marfim. Mais tarde, já adulta, fui saber que também houve um tempo em que governaram o Egito, não mais escravos, mas faraós, deixando sua marca indelével na cultura daquele esplendoroso país. Assim, quando o pequeno barco que navegava pelo Nilo aportou em Assuã eu me preparei para um encontro desde há muito esperado. Não foi em vão.

Um pouco de história

Cinco mil anos antes da nossa era, quando nas terras de Abya Yala (América Latina) começaram a vicejar povos como os tiahuanaco, collas, mayas e mexicas, no vale do rio Nilo, norte da África, já se organizava – com centenas de anos de história - o povo núbio. Há relatos que contam que essa pode ser a mais antiga civilização negra da África, com origens pré-históricas. Durante o domínio do Egito faraônico a Núbia era a região que separava o Egito da África subsaariana. Seu território era pródigo em riquezas como ouro, pedras preciosas e diorito, e se estendia desde a primeira catarata do Nilo até Khartum (hoje no Sudão). Abrigava, então, o generoso e fértil vale do Nilo assim como o deserto até o Mar Vermelho pelo leste, e até a Líbia pelo oeste.

Durante milênios esta região foi muito importante porque configurava um espaço de encontro entre o mundo Egípcio, que principiava a crescer como um poder regional, e os demais povos da África. Em 3.100 a.C, a Núbia foi conquistada pelo Egito que ora incorporava a nação a seu império, ora concedia que vivesse como um reino independente. Mas, o certo é que por muitas dinastias os faraós utilizaram os núbios como escravos e são eles os que se podem ver nas gravuras do Egito antigo a guardar os palácios e as tumbas.

No ano 2.000 a.C, a Núbia se fortaleceu e formou um reinado forte e coeso sob a dinastia Kush. Criou cidades importantes e sua capital Kerma era um fervilhante centro comercial, onde se negociava o ouro, peles de animais e marfim. O crescimento econômico da nação núbia outra vez acendeu a cobiça e o Egito voltou a dominar. Ainda assim, por volta de 1.700 a.C. a aristocracia núbia seguia com poderes e mandava seus filhos para estudar no Egito, sendo alguns deles funcionários importantes junto aos faraós. No ano 900 a.C, os núbios se independentizam outra vez e fundam outra capital, Nepata, mais ao sul da antiga Kerma. Era próprio da sua cultura fazer túmulos em forma de pirâmides, assim como manter uma escrita própria. Ainda hoje é possível ver essas belezas nas pirâmides de El Kurru, Nuri e Meró, na região do Sudão.

No ano de 730 a.C., o rei Piye, decidiu que era hora de os núbios assumirem o comando do Egito e recuperar os tempos gloriosos de Ramsés e Tutmés, uma vez que o país estava sendo governado por chefes medíocres, e perdido de sua espiritualidade. Assim, Piye partiu do sul com seus exércitos, navegando pelo Nilo até a cidade de Tebas, capital do Alto Egito. Foram muitas batalhas até que veio a vitória e Piye tornou-se o primeiro faraó negro, sob o nome de Tutmés III. Ele inaugurou a XXV dinastia, na qual governaram vários faraós núbios. Os faraós negros unificaram o Egito, fortaleceram o império, e resistiram por anos aos assírios. Foram os núbios que, inclusive, pararam a marcha dos assírios sobre a Judéia, garantindo aos judeus a recuperação da cidade de Jerusalém.

Sob o domínio Núbio, o Egito teve uma nova fase de florescimento e após a morte de Piye em 715 a.C, seu irmão Shabaka consolidou a XXV dinastia estabelecendo a capital egípcia de Menfis. Ele ficou conhecido por sua generosidade e em vez de executar os inimigos, fez com que eles atuassem na construção de diques para proteger as aldeias das inundações do Nilo. Sob o nome de Pepi II, ShabaKa reformou os templos de Luxor e Karnak, acrescentando sua própria estátua.

Outro rei núbio que se tornou figura de vital importância ao Egito foi o filho de Piye, Taharqa, que governou 26 anos. Após a vitória diante dos assírios ele semeou o Egito com maravilhas arquitetônicas ao logo de todo o rio Nilo, num arrojado programa de obras civis que rivalizou em beleza com os antigos faraós. Taharqa repaginou os velhos templos, mas jamais promoveu qualquer destruição, ao contrário de seus inimigos que, depois de sua morte, destroçaram os narizes de suas estátuas, fato que o impediria de retornar da terra dos mortos.

No ano de 671 a. C Taharqa enfrentou outra vez os assírios e perdeu a batalha, recuando até Menfis enquanto Esarhaddon se apropriava de parte do Egito, massacrando os moradores e erguendo montes com suas cabeças. Mais tarde, diante de novos ataques, abandonou Menfis e voltou para Napata, na Núbia. Foi o fim da dinastia dos núbios.

A Núbia hoje

Estando no Egito, conhecer o povo núbio era uma exigência ontológica. Desde pequena as imagens dos escravos negros guardando as divindades egípcias me enchiam de estupor e curiosidade. Eram sempre mais dignos e belos que os próprios faraós que guardavam. E as mulheres, de pele retinta, destacavam-se como deusas, cortejadas e desejadas pelos filhos de Amon-Rá. Os núbios, mais do que escravos, eram um povo que tinha cultura e língua próprias e além de entregarem seus corpos, também eram sangrados das riquezas de sua terra, como o ouro e o marfim. Mais tarde, já adulta, fui saber que também houve um tempo em que governaram o Egito, não mais escravos, mas faraós, deixando sua marca indelével na cultura daquele esplendoroso país. Assim, quando o pequeno barco que navegava pelo Nilo aportou em Assuã eu me preparei para um encontro desde há muito esperado. Não foi em vão.

A região núbia já se difere do restante do Egito pela cor. Não só do povo, que tem a pele negra, mas da cidade em si. Tudo vibra. As casas, as pessoas, as coisas. O artesanato é muito telúrico, com desenhos que imitam peles de bichos como os jacarés e as cobras. Pode-se perceber que os animais tem um valor inestimável. Eles estão em tudo, nas imagens pintadas nas casas, empalhados nas salas, ou mesmo vivos, circulando pelas residências como seres da família. O camelo é quase sagrado, indispensável para o transporte nas regiões de deserto. Já no rio, o que impera é a faluca, um tipo de barco à vela usado desde os tempos mais remotos, sempre navegando ao sabor do vento.

A cidade de Assuã, chamada de “a pérola do Nilo” é grande e cosmopolita. A paisagem é incomparável, bonita demais. Há uma classe média que vive bem e cuida da cidade, mas são as pequenas comunidades já na região do deserto, que mostram a cultura núbia na sua mais completa tradução. Para chegar até lá é preciso andar pelos menos uns 40 minutos no lombo dos camelos, aproveitando a paisagem exuberante e contraditória de rio e deserto, lado a lado. Pelo caminho, a toda hora passa um menino, voando, sobre o camelo que se faz veloz em suas mãos. No povoado, tudo é cor. As casas seguem um modelo bastante típico do povo núbio, arredondadas, com abóbodas e imensos pátios. Cada uma delas é pintada de uma cor diferente, vibrante. Não faltam os murais, espalhados por toda a aldeia. Neles, o retrato do cotidiano, gente trabalhando, sobre os camelos, plantando, cuidando dos animais, mulheres nos afazeres domésticos, paisagens. Uma lindeza.

Uma das práticas mais antigas é o tradicional chá. Nenhum visitante passa por uma comunidade núbia sem entrar e partilhar desse líquido saboroso. Na casa onde fomos recebidos, os cômodos eram grandes, coloridos e arejados, apesar de serem de chão batido. Na sala, muitos animais empalhados. “Eram companheiros muito amados”, diz a mulher. No meio do pátio, um poço com jacarés, animal também muito estimado por ali. Percebe-se uma harmonia entre gente, bicho e espaço geográfico.

O povo é pobre, vive do artesanato, dos passeios de camelo e de uma modesta agricultura de subsistência. Mas, o que impressiona é o cuidado com a cultura. Na escola da comunidade, os professores ensinam o núbio, língua originária, que é uma das formas mais seguras de manter o modo de ser. Também não são poucos os artistas que colorem as casas com as cenas do seu mundo, muito típicas.

A relação com o Egito segue sendo de integração, mas sempre com esse sentimento único de povo autônomo. Na política contemporânea, chegaram a amar muito um egípcio: Gamal Abdel Nasser, o qual inundou 500 quilômetros de suas terras para fazer o maior lago artificial do mundo: o lago Nasser. Desses 500 km, 350 pertencem ao Egito e 150 ao Sudão. Na época, com a promessa de conter as cheias sistemáticas do Nilo, Nasser conseguiu convencer centenas de famílias (10 mil pessoas) a sair de suas terras, garantindo novas casas, novas terras e também a realocação de 16 dos 17 templos que estavam nos espaços a serem alagados. Hoje, ao falar sobre aqueles dias, os núbios que trabalham com artesanato no embarque para a ilha onde está o templo de Filae seguem acreditando que fizeram certo em confiar no político de esquerda. “Ele foi melhor que tivemos”.

O lago nasceu da construção da Alta Represa, um gigante de quatro quilômetros de largura por 11 metros de altura. As pedras de puro granito que foram usadas para a obra poderiam erguer mais de 147 pirâmides. Com a represa, Nasser buscava proteger o Egito da seca e das inundações. Conforme os moradores locais, isso foi conseguido. “Agora podemos fazer três colheitas no ano, mesmo que o barro bom do Nilo não consiga mais passar”. Segundo o egiptólogo Abdel Aziz, como é da cultura núbia cultivar aquelas terras, muitas das famílias que foram embora estão voltando e o governo tem garantido tratores e terras, principalmente aos jovens.

Também são os jovens que dominam os barcos que fazem os passeios no lago e levam turistas para ver os templos. De certa forma, no Egito em geral, o turismo ainda não é dominado por poucas empresas. Há uma grande divisão de tarefas, todas cumpridas por pessoas físicas ou pequenos negócios. O que se nota é que cada um ganha seu quinhão no grande bolo turístico. No ancoradouro que leva a ilha do templo de Filae, são muitos os barcos e apesar da grande movimentação, os trabalhadores se organizam de tal forma que cada um deles sempre tem um freguês. Esse templo, dedicado à deusa Isis, é um dos que foram removidos do seu lugar original, pedra a pedra. Foi o último resgatado da água. Segundo conta Abdel Aziz, o trabalho de remoção dos 16 templos levou oito anos e ocupou a força criativa de representantes de 48 países. Por conta dessa ajuda internacional quatro dos templos foram levados para fora do Egito. Um está na Espanha, um em Nova Iorque, um na Alemanha e outro na Holanda. “o governo egípcio ofereceu como um presente”.

No início desse século a história desse povo ancestral sofreu mais um baque. O governo do Sudão, que tem apoio dos Estados Unidos (Sudão é um espaço estratégico para o império) construiu outra usina hidrelétrica no Nilo, cerca de mil quilômetros acima da barragem de Assuã, criando um lago de 170 quilômetros de comprimento. Esse lago inundou milhares de outros sítios arqueológicos ainda inexplorados, que contam da cultura núbia. Com isso, grande parte das belezas do apogeu do povo núbio seguirá soterrada. Pirâmides, grandes estátuas, enfim, a prova da grandeza de uma nação que aglutinou o comércio na região por séculos. Ainda assim, na grande curva do Nilo, ao sul, podem-se ver as ruinas da antiga capital, Nepata, que, no mundo antigo, foi tão vibrante e cosmopolita como é hoje Assuã.

O fato é que, apesar de ter parte do seu passado destruído ou escondido sob as águas, o povo núbio segue reverenciando sua cultura ancestral, mantendo um jeito peculiar de ser, vivenciando um equilíbrio natural com o ambiente. Deles, trouxe uma bonequinha de madeira, que representa a mulher local, a fertilidade, a fartura. Ela me observa, todas as manhãs, com seu olhar risonho. De mim, ficaram dois brincos de prata, ofertados à pequena anfitriã, Sara. Enternece meu coração saber que naquela margem do Nilo uma garotinha de pouco mais de 10 anos se enfeita no espelho das águas, cantando uma velha canção, com uma belezura que já me enfeitou. A ligação com a sorridente menina núbia é a concretude de um velho desejo, quando eu, debruçada sobre surrados livros de história, sonhava em encontrar seu povo de valentes e belos guerreiros. Encanta-me saber que eles estão lá, de pé, gigantes, tão lindos como nos tempos dos faraós. E livres, fazendo hoje, a nova revolução egípcia!

Que o segundo turno das eleições ponha no poder o que for melhor para o Egito.


A luta de classe é sempre pedagógica


A greve dos trabalhadores do transporte público foi uma linda lição de luta de classe, que durou três dias em Florianópolis. Nesses momentos de ruptura da ordem estabelecida é que se pode ver como todo esse pacto que os ditos liberais fazem de “colaboração e parceria” com os trabalhadores se traduz em nada. Basta que os trabalhadores exijam um direito, melhores salários e melhores condições laborais e o empresariado arreganha os dentes, acompanhado de toda a mídia comercial, mais os poderes da república. Tudo vira contra a luta dos trabalhadores. E eles ainda passam pelos grandes vilões.

Quem mora numa cidade grande, sabe. O trânsito mata. Não só por conta da violência dos acidentes, mas pelo caos diário que provoca estresse e selvageria. Nesse universo, um motorista de ônibus, que faz dezenas de viagens, iguais e repetitivas, está submetido a forte pressão. Não é à toa o pedido de redução de carga horária para seis horas. E a resposta dos empresários? “Isso é impossível, vamos ter de contratar mais gente!”. Mas, ora, e isso não é bom? Mais emprego, mais “colaboradores”? Pois ninguém fala sobre isso. A imprensa, feito papagaio, se limita a reproduzir à exaustão os argumentos pífios dos empresários.

Em todos os canais de televisão foram convidados os empresários do transporte, os lojistas, especialistas em economia e o festival de bobagens se espraiou. Reclamações indignadas dos comerciantes que estavam perdendo dinheiro. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores. Declarações indignadas dos empresários do transporte sobre o prejuízo à cidade. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores. Também a população era incitada a dar sua opinião, com os telefones abertos, para que reclamassem à vontade. E a culpa, de quem? Dos trabalhadores.

Uma reportagem da RBS mostrou um repórter, dentro de uma empresa de ônibus, no interior de um veículo que tentava furar o cerco que os grevistas faziam em frente ao portão. O espetáculo da defesa do direito daquele trabalhador específico que queria trabalhar, e não podia. Uma minoria entre os motoristas e cobradores, mas foi o que recebeu os holofotes. A maioria dos trabalhadores que enfrenta o trânsito maluco de uma cidade que prioriza o carro não teve sua história contada. As duas seriam boas histórias, as duas, e não apenas um lado da moeda.

Não teve repórter na casa de um motorista mostrando seu cotidiano, sua vida na periferia, seu acordar de madrugada, seu medo de assalto nos madrugadões, o sacrifício para criar os filhos. Não. A dor era a dos empresários que, desgraçadamente, estavam tendo prejuízos por conta do fato de que os trabalhadores estavam exigindo direitos.

Também os números eram manipulados na cara dura. “Os empresários estão dando aumento de 7%, o que querem mais?”, diziam os comentaristas, arvorados subitamente de defensores da ordem e das gentes. Mentira. A proposta era de recomposição salarial de quatro e pouco, mais dois de aumento real. Os mesmos comentaristas, inflamados diante da ousadia dos trabalhadores não eram capazes de falar que em Florianópolis são apenas cinco empresas que cobrem o serviço de transporte, que há um monopólio de linhas, que as gentes não têm opção, que nunca houve licitação para a contratação das empresas, que tem gente graúda da política com ações nessas empresas. Nenhuma confrontação de dados sobre os lucros das empresas, do que a prefeitura joga de dinheiro público no serviço privado. Nada. Hélio Costa foi o único que fez alguma pergunta incômoda ao representante dos empresários, mas acabou incorporando o discurso de que o caos era culpa dos trabalhadores.

O prefeito Dario Berger, como sempre, foi um fiasco, agindo como se a prefeitura não tivesse nada o que fazer diante da “violência” imposta pelos trabalhadores. Seu único arroubo foi dizer que mandaria punir os donos de vans que estariam cobrando a mais dos quatro reais autorizados pela prefeitura. E nenhum repórter ou comentarista para questionar essa omissão.

A procuradoria foi rápida em dar seu parecer, lançando uma nota digna de “nota”. Chegou a propor a demissão de 10% dos trabalhadores de cada empresa, como medida de punição aos trabalhadores em luta. E a nota era lida e relida, como se fosse a verdade verdadeira. Lembrei-me do dia em que entramos na Justiça com pedido de suspensão do show do Bem Harper, no Campeche, que estava sendo proposto em uma área de preservação permanente. Nenhuma palavra da “justiça”. Contra os ricos não há ação “punitiva”. Não há. É fácil ser valente diante daqueles que só têm os “seus corpos nus”, como diria o grande contador de histórias do povo, o repórter Marcos Faerman.

Mas essa gente aguerrida fez a sua luta. Mostrou que esse papo de conciliação entre capital e trabalho não existe. Não há como existir. Os trabalhadores estarão sempre em busca de melhoria no seu fazer cotidiano que, dentro do capitalismo, sempre será de exploração. É uma corda esticada no limite. E nesse cabo de guerra, os empresários nunca – eu disse nunca – serão bonzinhos. Cada pequeno avanço só vem com luta, luta forte, luta renhida. Assim, quando a luta de uma categoria se faz, o certo mesmo é haver a união de classe. Os trabalhadores todos, juntos, apoiando a luta daqueles que tiveram coragem de fazê-la.

Aí, agora, os papagaios dos poderosos já estão atuando ideologicamente. Os trabalhadores venceram essa queda de braço, arrancaram mais uma coisinha dos patrões. Isso não pode ficar impune. Então, o braço duro da vingança vem com força. Já começam a falar em aumento da tarifa. E aí, a culpa será de quem? Dos trabalhadores que lutaram. Falar-se-á em conluios, em tramoias entre o sindicato dos trabalhadores e os patrões. Dir-se-á que foi tudo armado, que era jogada. E mais uma vez os trabalhadores serão punidos, porque ousaram lutar e vencer.

Então, quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. A greve é a expressão da luta de classe. A greve é a ruptura da ordem que impõe a exploração aos trabalhadores. A greve é um dos poucos recursos de força que os trabalhadores têm para negociar. Ela é necessária para que os direitos avancem. Se vier aumento, não é por causa da greve. É porque os empresários não querem diminuir em um centavo sequer os seus lucros. Então, eles, não satisfeitos em sugar os trabalhadores, ainda sugam o povo. Se vier aumento, a causa é a ganância pelo lucro, a omissão de uma prefeitura que não se importa com os cidadãos.

E se ele, o aumento, de fato vier? Então, será hora de a população aprender com os motoristas e cobradores. Lutar e vencer!