terça-feira, 15 de maio de 2012

Conversando com o escritor

Programa Sábado Literário, todos os sábados na Rádio Campeche, `as 17h. Sempre uma boa conversa com algum escritor catarinense ou estudioso de literatura. vale a pena conferir pelo sítio da rádio. Aqui podemos ver a entrevista com o escritor Amílcar Neves. Uma beleza!!!!


15 de maio - Dia da Catástrofe

Na Palestina é assim. Ninguém é dono de si. Qualquer garoto saído dos cueiros, se for israelense e tiver uma farda, pode tudo. Eles humilham mulheres, homens, jovens e aterrorizam crianças. É coisa cotidiana. Acontece todos os dias, desde o fatídico 15 de maio de 1948, quando o Estado de Israel foi criado à força. Naquele dia, milhares de famílias tiveram de abandonar suas casas, suas oliveiras, suas mais sagradas lembranças e sair, na direção de lugar nenhum, fugitivas em sua própria terra. Desde aí, as gentes palestinas são desalojadas, no meio da noite, pela força dos tanques e da armas. São mais de 60 anos e o povo resiste.

Vez ou outra explode o desespero, em violência. Há quem diga que os palestinos deviam dar o primeiro passo para a paz, fazer um esforço, deter o terror. Mas, como dizia o grande poeta Mahmoude Darwich, “ainda goteja a fonte do crime”, e esta fonte não fica no lado palestino. O que podem as gentes diante de tanques? Hoje, Israel mantém prisioneiros mais de oito mil palestinos, destes, 380 são crianças. E que crime cometeram estes meninos de olhos aterrorizados? Nasceram palestinos! Há ainda denúncias de que alguns têm seus órgãos retirados por conta do tráfico de órgãos humanos, outros são torturados da mais variadas formas, mulheres são estupradas. É o terror.

Por isso o 15 de maio ecoa na voz árabe: AL Nakba, o dia da catástrofe. Um dia para não se esquecer. Um dia para celebrar a resistência heróica de uma gente que não se rende e busca, por sobre todos os muros, a flor da liberdade. Haverá de achar... Haverá de achar! Viva a Palestina!

ESTRANGEIRO NUMA CIDADE DISTANTE


Quando eu era pequeno
E belo,
A rosa era a minha morada,
E as fontes eram os meus mares.
A rosa tornou-se ferida
E as fontes, sede.
- Mudaste muito?
- Não mudei muito.
Quando voltarmos à nossa casa
Como o vento,
Olha para a minha testa.
Verás que as rosas são agora palmeiras,
E as fontes, suor,
E voltarás a encontrar-me, como eu era,
Pequeno
E belo...
Mahmoud Darwich

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Comunicação popular e comunitária é destaque no Paraná


O Primeiro Curso Estadual de Comunicação Popular do Paraná, realizado nos dias 10 e 11 de maio em Curitiba, mostrou uma juventude ávida de conhecimento e de transformação. Muitos estudantes de jornalismo, muitos jornalistas e um bom número de sindicalistas anunciaram que o tema da comunicação popular e comunitária re-começa a povoar o imaginário de uma geração disposta a provocar mudanças. Organizado pelas entidades Jornal Brasil Fato, Cefuria - Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Sindicato dos Bancários de Curitiba, Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (SISMUC) e produtora QuemTV, o curso apresentou os mais variados temas, todos voltados para a necessidade de uma nova práxis no campo comunicacional.

Nos dois dias, intensos, foram discutidas as questões emergentes do mundo das comunicações tais como a concentração dos meios, as novas tecnologias e as experiências vitoriosas de comunicação popular. O grande painel montado com a presença de gente de todo o sul do país, assim como do sudeste, mostra que a comunicação de resistência segue firme no Brasil e, potencializada a partir das novas tecnologias, apresenta grandes possibilidades de provocar o desejo de mudança.

É certo que ainda se discute comunicação comunitária e popular de forma bastante fragmentada, com os olhos pregados nas experiências pontuais, que são importantes, mas, às vezes, não tão eficazes. Comparadas com a força de transmissão dos grandes meios, as propostas populares ainda carecem de muita estrada. Daí a importância de encontros como esse realizado no Paraná.

Com a presença de uma geração mais nova, ávida por conhecer e criar, talvez seja chegada a hora de os movimentos avançarem na sistematização de uma totalidade necessária, para que as exitosas propostas de comunicação popular em andamento não se percam apenas na resistência, formem redes e se propaguem de forma capilar, buscando, muito mais do que sobreviver individualmente, tomar os grandes meios e assumir de vez o controle da comunicação de massas no Brasil. Como já ensinava Rosa de Luxemburgo, há que se fazer reforma e revolução. Nesse sentido, as propostas dos Movimentos Populares, que hoje resistem, precisam avançar para uma ofensiva totalizante. Não mais resistir, mas também ocupar, controlar e produzir nos grandes meios.

Assim como a grande política o debate nas comunicações também está muito permeado das duas grandes linhas de pensamento que se enfrentam nesse século: humanizar o capitalismo (reforma), ou transformação total do sistema (revolução). Os bens intencionados, que acreditam que é possível dar uma cara mais humana para o capitalismo, apostam em propostas conciliadoras, de convivência pacífica, com lutas pontuais. Assim, as ideias variam entre a formação de redes alternativas para oferecer outra visão das coisas e propostas de democratização das comunicações, esperando ganhar dentro do sistema monopólico um pouco mais de espaço para as questões populares. São ações importantes e necessárias, mas se esgotadas em si mesmas, acabam sendo muito redutoras.

Eu partilho de outra visão. Não creio que o sistema de propaganda montado pelo modo de produção capitalista – que tem nos meios massivos o seu motor de formação pedagógica – esteja disposto a conceder a tal ponto que permita um entreolhar na transformação. O máximo a que os grandes meios podem chegar é ao atendimento muito pontual e fragmento de algumas das reivindicações desse movimento de democratização. Colocar um negro como protagonista de uma novela – vez em quando – por exemplo. Mas, que ninguém se engane. Os grandes meios não permitirão que a voz dos trabalhadores, dos oprimidos, da comunidade das vitimas tenha seu espaço garantido nos veículos de comunicação. Acreditar nisso, ou é ingenuidade ou má-fé.

O sistema capitalista sobrevive sob uma máxima: para que um viva, outro tem de morrer. Não há como melhorar isso. Assim que por mais que se lute por democracia dentro do modelo comunicacional que aí está, estaremos sempre anos-luz de onde queremos chegar. A comunicação comunitária e popular precisa dar um passo à frente. Até agora tem cumprido bem a missão de ser resistência, mas já é chegada a hora de assumir o ataque ao sistema monopólico, com o intuito de transformar – não apenas a comunicação, mas o modo de organizar a vida, fora do modelo moderno/iluminista/liberal. Em outros países da América Latina isso vem sendo feito, tal qual na Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina. Por ali, os movimentos populares e indígenas, aliados a governos mais progressistas, vão dando passos mais ousados, talvez porque carreguem na memória a forma de organizar a vida dos povos antigos, outra lógica, diferente da do mundo capitalista.
Na Venezuela, o avanço no campo comunicacional veio mais cedo que na Argentina e no Equador (proposta bastante discutida por esses dias). Na lei RESORTE, promulgada em 2009, depois de um longo debate popular, estão garantidas as condições concretas para a produção de conteúdo comunitário nas regiões mais remotas do país, nas comunidades de periferia. E vai além: garante também a reprodução. Ou seja, o que as comunidades criam e formulam aparece em televisão aberta, todo mundo pode ver. Nós, no Brasil, estamos na retaguarda desse luta e atrasados também na formulação. Falta ousadia e criatividade. Ainda estamos amarrados ao velho sistema, ainda que muitas sejam as críticas a ele.

Um exemplo bem claro da domesticação do setor comunicacional combativo é a falta de uma campanha nacional contra o “latifúndio” da informação. A Federação dos Jornalistas segue na lógica da democratização, visando melhorar o que aí está. Os movimentos populares estão enredados nas suas lutas cotidianas e também assumem uma atitude reativa ou de resistência. Em Santa Catarina, o Sindicato dos Jornalistas, na gestão comandada pelo jornalista Rubens Lunge (2010/2011), fez uma grande campanha contra o oligopólio da RBS no Estado, mas acabou sozinho, sem o engajamento dos sindicatos ou dos movimentos combativos, e a ação movida contra o grupo RBS se perdeu no vazio. Ao que parece, para grande parte das lideranças, o discurso contra a concentração dos meios não passa de palavras ao vento.

Penso que os movimentos sociais precisam dar uma virada. No Paraná isso começou. A própria ideia de juntar várias entidades para discutir o papel estratégico da comunicação popular e comunitária já é um bom sinal. Agora, o próximo passo é sair do particularismo. Avançar para o universal. E isso significa discutir a comunicação no contexto geral do país, a sua relação com todas as forças e seu papel transformador. A comunicação é uma disputa renhida dentro do processo de luta de classe. Se os movimentos seguem com a visão de dar uma melhorada no “monstro”, nada mais fazem do que se adequar a uma proposta conciliadora, meramente reformista. Mas, se passam à ofensiva, criando redes, abolindo os egos dos dirigentes e pensando na possibilidade concreta de assumir o controle dos grandes meios, aí o papo é outro. Reforma e revolução. As coisas tem de ser feitas simultaneamente, sob pena de sermos apenas mais uma peça do sistema. É certo que transformar e revolucionar exige um pouco mais de todos. Há preços a pagar. Mas, é algo que os movimentos podem empreender. É chegada a hora de exigir mais do que a democratização dos meios, é tempo de construir soberania popular no campo da comunicação e na vida política como um todo. O velho Marx já dizia que a emancipação política sozinha não é suficiente. É preciso que venha a emancipação social. Isso significa que não basta termos mais espaços nos meios, temos de controlá-los, colocá-los a nosso serviço.

O Paraná começou essa caminhada e tem aí um desafio. Nós, em Santa Catarina também estamos nisso, buscando avançar para além da reivindicação cidadã (emancipação política). Isso não basta. O grupo que envolve os jornalistas e comunicadores sociais da Rede Popular Catarinense de Comunicação já realizou vários encontros pelo estado inteiro, tem acumulado forças, vai dando passos seguros na direção da transformação real e total. Ainda somos poucos, mas já fazemos barulho. Resistindo e avançando, reformando e revolucionando, assim tem de ser.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Com amigos, caminhando...




Eis que faço aniversário nesse dia 14 de maio. Surpreendentemente, essa frágil vida humana com a qual me presentearam Nelson e Helena, percorreu cinquenta e uma voltas de órbita solar. Ultrapassei mais um limiar. Sinto-me pronta para coisas que ainda não sei. Agora, no silêncio da casa quentinha, com os gatos a ronronar em língua felina, me chamou uma passagem do grande livro cristão que conta sobre os 40 dias de Yeshua no deserto. Por infindáveis horas ali ele esteve enfrentando as tentações, preparando-se para o que estava para vir.

Nesses dias lindos de maio, arranchada no meu Campeche, eu me aproximo daquele homem. Parece-me que, como ele, andei por anos a fio vencendo tentações. Mas, agora, ultrapassando o portal dos cinquenta, conforta-me a ideia de que também tenho conseguido vencer os desertos que se apresentam a cada tanto na vida. Tal qual Yeshua, já tive diante de mim um “daemon” a sussurrar sibilinas ideias que me perturbaram a alma.

Conta São Mateus que ao final do recolhimento de Yeshua e do embate com a voz interior (demônio), vieram os anjos e compartilharam com ele a vitória. Assim me sinto. Também vencedora de demônios, e acompanhada. Da janela da sala vejo as corujas da rua iniciando seu voo, os passarinhos buscando um canto onde dormitar, os gatos miando a minha volta, meus homens na azáfama diária, minha hóspede de além-mar pitando um palheiro, o cachorro perseguindo borboletas. Tomando meu café com leite, percebendo essas cenas cotidianas, vejo-os como anjos, tocando-me com suas asas de beleza e esperança.

Não há desertos possíveis se temos amigos. E os meus estão por aí. São poucos, mas mantêm permanentemente suas asas abertas, redes seguras, espaços de aconchego e comunhão. Sei onde estão e sei que posso contar com eles (mesmo quando se zangam)...

Feliz aniversário pra mim, tão cheia de bênçãos...

terça-feira, 8 de maio de 2012

O racismo eternizado


O feriado me encontrou lânguida, debruçada sobre um livro de contos do escritor britânico William Somerset Maugham, mais conhecido por sua magistral obra “A servidão humana”. O escrito que sorvi nesses dias relata algumas histórias passadas nos mares do sul, mais especificamente em espaços colonizados pelos ingleses, neozelandeses, alemães, franceses e estadunidenses, tais como Samoa, Havaí e outras da região da Polinésia, no Oceano Pacífico. Entre um relato e outro as páginas vão derramando todo o preconceito que alguém pode ter contra outro que não seja seu igual e a gente vai percebendo como o racismo tem suas raízes tão profundamente cravadas nos corações das gentes, ainda mais quando narrados com qualidade.

Cada uma das histórias vai descortinando a beleza das ilhas polinésias, sua natureza, sua exuberância e, ao mesmo tempo, toda a arrogância dos personagens, a maioria estrangeiros, usurpando a vida e a riqueza dos nativos. Os locais aparecem como os devassos, selvagens, feios, incapazes, vagabundos. As mulheres são mostradas quase sempre como prostitutas, incapazes de viver uma vida monogâmica, bem ao gosto do protestantismo burguês.

Ao penetrar nas páginas, capítulo a capítulo, fui sendo tomada pelo ódio. Pois dá para perceber que não apenas os personagens são preconceituosos e racistas, mas também o próprio autor. Mesmo quando ele tenta “dourar” algum nativo, o faz de forma tão ostensivamente racista que causa engulhos. É impressionante como o espírito colonial se impregna nas pessoas. Na narrativa, cada estrangeiro ali naquelas ilhas invadidas, além de tomar as riquezas para si, insistia em menosprezar e aviltar os habitantes originários. Tudo tão igual.

Li três contos e já ia desistir. Mas, o meu amigo Raimundo Caruso me havia indicado um em particular, que ficava mais ao final do livro. Segui. O conto chama-se “A chuva” e narra a história de dois casais de estrangeiros, um deles de missionários estadunidenses, presos em uma das ilhas em tempo de chuva, tendo por companhia uma prostituta, alegre e desbocada. O pastor, indignado com a presença da meretriz, inicia uma caçada psicológica de tamanha crueldade que chega a doer. Nele se vê o ódio aos nativos, às suas crenças, a sua cultura e toda a arrogância do opressor. O “bom” pastor conta como subjugou os “naturalmente depravados” locais. E depravada era a mulher que, apesar de branca, era tão “desigual” como um nativo. Pois ele a degrada, a destrói, a reduz a nada. E tudo em nome da decência e dos bons costumes.

O interessante é que o final do conto é surpreendente e nos deixa entre o estupor e a alegria. Foi bom ter caminhado até o fim. A mulher, ainda que reduzida a quase perda de sua humanidade, vence. E, tal qual ela, também decido ligar a vitrola e fazer tocar, a todo volume, uma canção de regozijo diante da arrogância, do racismo e do desamor.

O livro “Histórias dos mares do sul” se redime diante de mim com a beleza desse conto. E até Maugham, ele mesmo um homem que sofreu discriminação por ser homossexual num tempo em que isso era um grande tabu. E a prostituta, senhorita Thompson, em alguma medida redime todas as personagens femininas/nativas tão aviltadas pelo autor.

Fiquei a matutar sobre como uma boa pena pode perpetuar a visão de um povo. E como faz falta aos oprimidos alguém que também possa contar as histórias desde o ponto de vista da comunidade das vítimas. Urge narrar a vida dos vencidos, e com boa pena, com boa pena...



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Padaria do Alemão


Não há aventura maior do que flanar pela cidade, entrando nos mais escondidos becos, desvendando ruelas, descobrindo lugares. Há uma vida, tão intensa, muitas vezes escondida, porque longe das tradicionais vias. Por exemplo, avançando a Conselheiro Mafra para além do prédio da prefeitura encontramos alguns espaços de armarinho, de roupas usadas, de embalagens, perfumes, mundos mágicos esperando ser vivenciados. Por ali há que se andar com vagar, sentindo os cheiros, ouvindo os sons.

Mais na frente achamos uma padaria, onde o atendimento é dos melhores. Uma juventude alegre, cheia de energia, que te olha nos olhos e te atende com prazer. Coisa bem rara de se ver no comércio de Florianópolis. Ali, a gente se sente em casa, tomando café com leite e pão com manteiga, sem que ninguém te observe com olhos estranhos e ar blasé.

Os trabalhadores dizem que o dono é gente muito boa. Ao que parece conseguiram ali uma boa relação entre capital x trabalho. E, olhando para ele, chamado de “Alemão”, a gente percebe que até pode ser possível. Ele tem o riso fácil, a cara boa, trata bem a gurizada e deixa os fregueses bem à vontade. A padaria é simples e tem um nome óbvio: Padaria do Alemão. E, ainda que longe do centro, vale a pena dar uma pernada até lá para conhecer a alegria das gurias e dos guris do balcão. Para nós, da Pobres, já é a nova padaria favorita.




Que venha a Tainha

O primeiro de maio no Campeche. Festa de fé e esperança...