domingo, 12 de setembro de 2010

Recato

"Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém"
Mário Quintana

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Povo saharauí luta para derrubar o muro da opressão


Os muros são coisas doidas, símbolo de separação. Há quem diga que eles servem para proteger. Mas há que perguntar. Proteger a quem? Se a gente parar para pensar vai ver que os muros têm suas origens no poder. Desde muito tempo eles são erguidos para que aqueles que têm muita riqueza se protejam de quem não tem. A lógica da propriedade privada, da acumulação privada da riqueza e da terra. Valeria pensar: mas por que é assim? Por que uns têm muito e outros nada? Ah, essa é a pergunta que ninguém se faz.

Contam que um dos primeiros grandes muros da história foi a muralha da China, idealizada no século VII a.C pelos imperadores da dinastia Zhou, dispostos a dividir a terra em dois pedaços. O deles e o dos outros. O trabalho começou em 221 a.C e terminou dois milênios depois. Mas, é bem possível que antes dele outros já tivessem sido erguidos. Relatos nos Vedas ou na Torá – livros sagrados de povos muito antigos – falam de castelos e muralhas, erguidas para proteger cidades e reinos de possíveis invasores. Os muros são sempre muito usados para separar povos, como, por exemplo, o Muro de Adriano, construído em 122 d.C, para dividir o mundo romano (civilizado) do mundo dos bárbaros. Parece que sempre foi muito difícil aos seres humanos uma vida em comunhão, sem o medo do “outro”.

Mesmo em Abya Yala, onde as comunidades tinham por princípio básico a idéia de vida coletiva, é possível encontrar registro de grandes muralhas protetoras como o forte Pucará de Quitor, no deserto de Atacama, Chile, erguido pelo povo likan-antay para enfrentar o avanço de tribos inimigas.

Nos tempos modernos, o muro mais famoso foi o Muro de Berlin, criado pelos soviéticos em 1961, materializando a cortina de ferro a separar o mundo comunista do capitalista. Durante anos ele foi uma espécie de símbolo da separação, da exclusão, da prisão e do ódio. Não havia quem, no chamado “mundo livre”, não clamasse pela queda daquele muro. Quando ele finalmente foi derrubado em 1989, as gentes em todo planeta saudaram esta vitória da “democracia e da liberdade”. A impressão que se tinha é que ali se encerrava uma triste etapa da vida humana, que nunca mais iria se repetir. E esta é uma coisa estranha de se pensar, se levarmos em conta que anos depois, em 1994, os Estados Unidos iniciavam um programa anti-imigração, chamado de Operação Guardião, que principiava a construção do odioso muro que separa o país ianque do México. Naqueles dias, ninguém se levantou para falar em ódios, exclusão ou falta de liberdade. Desde então, ali, naquela cerca, morrem milhares de pessoas tentando passar para o lado dos EUA, buscando viver a promessa do sonho americano. Raras pessoas no mundo falam desse muro ou se importam com as vidas que se perdem ali.

Depois, em 2002, o artificial estado de Israel, amigo e parceiro dos EUA, deu início ao seu muro, segregando o povo palestino em seu próprio território. Quilômetros e quilômetros de concreto dividem famílias e transformam um povo inteiro em prisioneiro, dando vazão a levas e levas de violência, dor e morte. Também são muito poucos os que se importam com isso. A mídia, como sempre do lado do poder, se encarrega de disseminar pelo mundo o preconceito e a mentira, atribuindo aos palestinos o rótulo de terroristas e bandidos. Raros são os que gritam pela queda deste muro. Ele aparece como algo necessário, para proteger o povo de Israel, embora nunca ninguém tenha cogitado que o Muro de Berlim existisse proteger o povo comunista da sanha do capital.

Pois não bastassem as excrescências dos EUA e Israel há um outro muro do qual muito pouco se fala. É o que separa o povo saharauí de seu território original no norte da África, região que permanece obscura e desconhecida para todos na América Latina.

O massacre do povo Saharauí: um pouco de história
O povo que vive no território reivindicado pelos Saharauí é muito antigo e habita aquela área desde quando os berberes brancos avançaram pelo norte do Sahara, no século VII, premidos pelas invasões árabes. Assim, eles foram jogados para a parte sul de onde hoje é o Marrocos, quando passaram a viver de forma autônoma. Os berberes são originários do norte da África e formam a gênese do povo do Marrocos. Na verdade, esse termo “berbere”, significa “bárbaro” e por isso é repudiado pelos seus descendentes que gostam de ser chamados de “amazigh” (homens livres). Mas, é parte deste povo de “homens livres” que hoje está sendo responsável pela desgraça do povo Saharauí.

O reino do Marrocos foi criado por volta do ano 470 a.C. e sempre esteve com os olhos mais voltados para a Europa que para seu interior. Ocupado pelos árabes no século VII, a região foi porta de entrada dos mouros para a península ibérica, onde reinaram por anos. Bem mais tarde, foi a vez do Império Romano anexar o Marrocos como colônia e foi só no século XI que os berberes reconquistaram seu território. Mas, a briga interna de vários clãs pelo controle do Marrocos o enfraqueceu e deu chance para a invasão de Portugal que, no século XV, no auge da expansão colonial, abocanhou algumas cidades. Foram muitos os anos de lutas para recompor o território. Na metade do século XIX, a Espanha e a França estenderam seus domínios pelo norte da África, ocuparam a área, e o espaço daquelas terras foi dividido. Em 1912 a parte do Marrocos ficou com os franceses, e a Espanha se apropriou da região norte e do Sahara ocidental, onde então viviam os saharauí.

Como em todas as colônias africanas, a ocupação não se deu sem luta. São históricos os massacres de revoltosos em batalhas nas quais Espanha e França se ajudavam contra os povos locais. O advento da segunda guerra mundial abriu caminho para novos movimentos de libertação e seguidos conflitos aconteceram. Em 1956, o Marrocos finalmente conquistou sua independência dos franceses, instituindo uma monarquia, mas a parte que estava nas mãos da Espanha não conseguiu o mesmo feito. Permaneceu colônia e, a exemplo dos marroquinos, as populações continuaram buscando a libertação. Por conta disso, em 1973 foi criada a Frente Popular de Libertação de Saguia-El-Hamra e Rio de Ouro (POLISARIO), que passou a liderar a luta na região ocidental.

Com a independência reconhecida, o Marrocos se organizou e começou a sonhar com novos vôos. Ambicionava anexar a parte espanhola da região, sem reconhecer que ali viviam povos autônomos, com cultura própria e igualmente sedentos de liberdade. Nos anos 60 e 70 vieram as vitoriosas lutas de libertação nacional em todo o mundo e, em particular na África, com várias colônias saindo do jugo de Portugal. Essa conjuntura leva a Espanha franquista a aceitar o princípio da autodeterminação nas regiões ocupadas, mas ainda sem se dispor a “largar o osso”. Então, no ano de 1975 quando o Marrocos, já livre da França, começa uma investida bélica na região ocidental do Sahara, a Espanha, igualmente ignorando as reivindicações do povo saharauí, assina um acordo entregando a região ao Marrocos e à Mauritânia. Com esta atitude vergonhosa, a Espanha cede ao rei Hassan II as riquezas naturais do Sahara ocidental, e com elas, o povo que ali vivia.

Ainda assim, o povo saharaui não se entregou. Tão logo as tropas espanholas saíram do território, em 27 de fevereiro de 1976, a Frente POLISARIO proclamou a República Árabe Saharauí Democrática (RASD). Segundo eles, ali estava um povo real e não seria um invasor que os colocaria na condição de “ninguém”. A própria Mauritânia reconheceu esse direito.

Mas, assim que viu garantida a soberania sobre o território até então espanhol, o governo do Marrocos, sem fazer caso da proclamação de independência saharauí, organizou uma grande marcha, conhecida como a “marcha verde” (na verdade um processo de colonização), na qual mais de 350 mil pessoas migraram para a região do Sahara ocidental, tendo a frente uma unidade de infantaria repleta de blindados, numa clara demonstração de força. Como as terras estavam tradicionalmente ocupadas pelo povo saharauí, as tropas marroquinas não hesitaram em iniciar uma campanha brutal de desalojo. Chegaram ao ponto de utilizar bombas de fósforo e napal, causando terríveis sofrimentos aos povos que ali viviam e obrigando-os a uma retirada em massa. Grande parte buscou abrigo na Argélia e outra parte seguiu lutando.

Desde então, múltiplas resoluções das Nações Unidas, da União Africana e um acórdão do Tribunal Internacional de Justiça de Haia reconhecem o direito à autodeterminação do povo saharauí, entendendo que não há registro jurídico nem histórico de vínculo de soberania por parte do Marrocos naquele local. Mais de 80 países do mundo reconhecem a RASD, mas isso fica só no papel.

A luta do povo saharauí não deu trégua este tempo todo, e no final dos anos 80, com a intermediação da ONU, o governo do Marrocos e a POLISARIO aceitaram um acordo, no qual o Marrocos retiraria suas tropas da região e realizaria um plebiscito com o povo para que este escolhesse entre a independência ou a anexação ao Marrocos. Mas, o certo é que isso nunca se concretizou e o governo marroquino se recusa a aceitar a autodeterminação dos saharauí.

Já são mais de 35 anos de luta, e a Frente Popular de Libertação tem cedido muito mais do que o Marrocos, se dispondo inclusive a depor as armas e libertar prisioneiros, mas não encontra eco no governo marroquino.

A situação hoje
É nesse contexto de intransigência que o Marrocos deu início a construção de um muro, dividindo a região do Sahara ocidental, visando segregar ainda mais as gentes saharauí, impedindo-as de viverem em paz no seu território. Hoje, parte do povo, sem poder ocupar seu território original, vive em terras cedidas pela Argélia, na condição de refugiados, em acampamentos desprovidos de qualquer condição de dignidade.

O muro da vergonha do Sahara Ocidental tem mais de dois mil quilômetros e divide de norte a sul o território. Vigiado por mais de 150 mil soldados marroquinos o percursos ainda apresenta uma infinidade de minas que, vez ou outra, provocam mortes entre os saharauí ou mesmo entre militantes internacionalistas que fazem periódicas marchas e manifestações no muro. Segundo a ONU há um cessar-fogo vigiado por uma missão de cascos-azuis, mas isso não impede que o Marrocos siga acossando a gente saharauí.

O fato é que o regime monárquico, ainda em vigor no Marrocos, se recusa abrir mão das inúmeras riquezas do Sahara ocidental. Entre elas está a magnífica costa Saharauí, que toma parte do Mediterrâneo e parte do Oceano Atlântico. Ali está um dos bancos de pesca mais ricos do mundo, hoje ocupado pelo Marrocos. Também se fala de grandes reservas de petróleo, com algumas áreas já sendo exploradas na parte que está sob o domínio do Marrocos. Igualmente fazem parte do pano de fundo da disputa de território as abundantes minas de fosfato que estão na parte ocidental do Sahara, portanto, devendo pertencer à República Saharaui, mas que seguem sendo exploradas pelo Marrocos.

Numa visita às páginas da Internet ou ao Youtube qualquer pessoa pode ver as terríveis condições de vida da gente saharauí nos acampamentos em meio ao deserto. É por isso que a Frente de Libertação insiste na busca de solidariedade mundial e no reconhecimento da República Árabe Saharauí Democrática como um Estado independente. As gentes do deserto da áfrica ocidental estão aí, a provar que os muros continuam sendo fortes mecanismos de opressão e segregação por parte daqueles que detém poder militar e político. Mas o povo saharauí também mostra, a exemplo dos palestinos e dos milhões de imigrantes, fugitivos do capitalismo, que não há canhão capaz de frear a luta por vida digna, por território e por liberdade. Como bem mostra a história, os muros acabam caindo. Sempre!

Viva a luta do povo saharauí!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Povo hondurenho segue em luta



Honduras saiu da pauta da mídia. Não há mais golpe militar nem presidente asilado em embaixada brasileira, e, diz a CNN, “voltou a democracia”, com as eleições de 2009. Assim, não existem mais motivos para tornar notícia o país. Mas, a verdade não é bem essa. Primeiro que a democracia não voltou coisa nenhuma. As eleições foram realizadas dentro do golpe, portanto, não tem qualquer legitimidade. Nenhum candidato de esquerda ou progressista participou do processo, que era viciado por natureza. Assim, o presidente eleito representa pouco mais de 15% das gentes. A maioria segue em luta, quer de volta seu país, sua liberdade, sua soberania. Coisas que lhes foram tiradas por um golpe alinhavado pelo embaixador estadunidense no país.

Desta forma, mesmo que os holofotes da mídia tenham se voltado para outros lugares, a luta em Honduras prosseguiu. Depois das eleições seguiram as prisões, as mortes, os desaparecimentos. Lideranças sindicais e jornalistas são escolhidos a dedo. Amanhecem mortos. Mesmo assim o povo não esmorece.

Um exemplo disso é a batalha dos professores hondurenhos, que nos tempos do golpe, foram uma das categorias mais mobilizadas. Desde há sete meses que eles vêm buscando conversar com o governo de Pepe Lobo para que ele atenda suas reivindicações trabalhistas e políticas, como o rechaço à Lei Geral da Educação, que limita o direito à educação pública. Mas, o governo se faz de surdo. Por conta disso os professores iniciaram uma greve, e, como sempre acontece, foram brutalmente reprimidos pela polícia. Na tentativa de escapar do violento ataque, os trabalhadores buscaram abrigo na Universidade Pedagógica Nacional Francisco Morazán. Ainda assim a polícia atacou, com bombas, balas de borracha e balas de verdade. Uma ação desproporcional. Em Honduras, os demais trabalhadores, apoiando a luta dos professores por entender que é também a defesa da educação pública, já estão articulando uma greve geral para este dia 7 de setembro.

Mas, na madrugada do dia 5 de setembro, outra ação repressiva das forças de segurança, tornou a situação ainda mais grave e promete levar mais gente às ruas. Policiais fortemente armados invadiram a Universidade Nacional Autônoma de Honduras, para prender professores – dirigentes sindicais - que estavam em greve de fome, protestando contra a demissão ilegal de 184 professores da universidade. Segundo a reitora, Julieta Castellanos, as demissões teriam ocorrido porque os professores eram “subversivos”.

Esta mesma reitora já havia chamado a polícia no dia 3 de agosto, para desalojar trabalhadores que realizavam protestos contra as demissões. Agora, outra vez, atiça as forças policias sobre os sindicalistas em greve de fome, exigindo a prisão de todos os 28 professores que realizam o protesto. Por todo o país, os trabalhadores se solidarizam e chamam a população a se manifestar nesse sete de setembro. Tudo indica que será um dia de mobilizações massivas em todo o país.

A luta dos professores é só uma entre tantas outras demandas que seguem pedindo passagem na Honduras ainda sufocada pelo autoritarismo. E os mesmos homens, mulheres, adolescentes e crianças que enfrentaram os fuzis do golpe militar seguem enfrentando as forças policias do governo “democrático”. Uma gente valente que não esmorece, ainda que não haja mais câmeras filmando suas dores. Neste sete de setembro, quando aqui no Brasil se ouvirá o grito dos excluídos, em Honduras as gentes encherão as ruas. É a interminável luta do povo pela vida digna.

Cinco razões - lindo Manu Chao

domingo, 5 de setembro de 2010

Mikonos


Sob o sol de 40 graus, ultrapassando o azul mais azul do mar Egeu, chega-se a Mikonos, uma ilha pequena, simples, de uma beleza abissal!
Efharistó, elenika!!!





sábado, 4 de setembro de 2010

Passeio no inferno


Florianópolis, sexta-feira, véspera de feriadão do sete de setembro. Vindo da UFSC para o centro, num trajeto que demora em média 15 minutos, amarguei 50. Tudo muito lento e nem eram cinco da tarde. Fila no túnel, final por todo lugar. No centro da cidade aquele burburinho de bandeiras e sons, coisas da política. Desci do ônibus e fui dar uma fuçada na vida que se espraiava pelas ruas. De repente, uma infinita tristeza, uma saudade imensa dos tempos em que fazíamos política com amor e gosto.

Quantos namorados perdidos por conta das intermináveis reuniões, os briques de venda de materiais na esquina democrática, as passeatas com a Banda de Amor à Arte, aquele orgulho de carregar a bandeira vermelha. Tudo era tão cheio de paixão. Nas ruas, abundavam os militantes, pessoas que trabalhavam sem parar em nome de uma mudança sonhada. Éramos tão felizes naquele esperar...

Agora não é mais assim, as bandeiras ainda tremulam nestas épocas de eleição, mas as pessoas que as seguram não o fazem por amor ou crença. Estão ali ganhando seu pão. 10 ou 20 reais por dia. Não há passeatas, nem venda de badulaques na esquina democrática, não há militantes nas ruas. Tudo está esterilizado. Não há paixão. É mesmo um tempo de seca política. Falta tesão!
Sozinha e perdida no mar do vazio decidi voltar para o meu Campeche. Quarenta minutos esperando o ônibus no terminal central. Filas quilométricas de gente. Quando finalmente chega o coletivo parece que dá um frisson, as pessoas se acotovelam, se empurram e há uma corrida aos lugares, para que a viagem seja menos terrível, pelo menos sentado. Entra mais gente que cabe no ônibus. Bolsas gigantes nos roçam a cara, bundas e pernas se amassam. Os vidros fechados, o ar não funciona. Um sufoco danado.

Lá vamos nós para a viagem que deveria durar 20 minutos. O ônibus se arrasta. O povo bufa. As caras são de profunda tristeza. Os olhares são vazios, não há sorrisos nem buliço. As pessoas vão quietas, com o rosto sem expressão. Cada um está sozinho no seu mundo interior. Boa parte ouve alguma coisa no mp3, mas nada animado, pelo jeito. Ninguém ri. A viagem dura hora e meia e ainda há mais um terminal para enfrentar, outro ônibus para entrar, antes que a acolhedora imagem da nossa casa apareça.

No terminal do Rio Tavares o ônibus acabou de sair, o que significa que ficaremos mais meia hora na fila. E ela se agigantando. As mesmas pessoas sem expressão, como zumbis, naquela espera sem fim. Enfim, o ônibus. E lá vão todos se empurrando, tentando garantir um banco. Serão mais 30 minutos de viagem até chegar ao Jardim Castanheira, vindo pela Eucalipto. O ônibus parte, tem um cheiro estranho no ar, de queimado. As pessoas se olham. Hum!!! Isso não vai dar certo. O ônibus supera toda a Pequeno Príncipe e dobra na rua dos Eucaliptos. Numa das paradas, ele apaga. O povo começa a murmurar. O cobrador diz que tem um probleminha elétrico, o motorista insiste em dar a partida. O motor geme e arranca. O povo suspira aliviado, rezando para que ninguém mais aperte a campanhinha. Azar. Mais alguém quer descer. O ônibus para e novamente apaga. Ai Jesus. De novo a partida, geme, geme, geme e vai... E assim vai se arrastando o coletivo numa viagem que também se arrasta. Os que ficam no fim da linha estão em pânico. Não vai chegar. Alguém começa a xingar. Outro reclama sozinho e “la nave vá”... 45 minutos depois de sair do segundo terminal o ônibus finalmente para no Castanheira, meu ponto. Eu desço e fico olhando para ver se os demais terão sorte de chegar ao destino. O ônibus não dá partida, geme, geme, geme, e morre. As pessoas descem, gritam com o motorista. “Não tenho culpa”, ele diz, desolado. E o povo segue à pé. O cobrador pega o celular e chama o guincho. Fica ali, igualmente desacorçoado. “É a terceira vez esta semana”.

E assim termina o dia. Vou andando, cheia de mau humor. Dia duro. Lágrimas escorrem, para ver se afogam a raiva, a impotência, a solidão. O transporte coletivo em Floripa é sempre um passeio no inferno. Minha casa assoma na escuridão das ruas de areia. O cachorro acolhe, alegre. Os gatos enroscam seus corpos peludos. As estrelas brilham sob minha cabeça, o cheiro de dama-da-noite invade as narinas. Jogo as coisas no chão - livros, pão, mel, revistas - e fico ali no escuro. Amanhã é sábado e eu vou estar no Campeche, com minha bicicleta, a praia, o sol, os bichos, os meus. Ai que bom!!!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Na terra do Minotauro


Era manhã cedinho quando chegamos a Heraklion, capital da famosa ilha de Creta, espaço bendito do deus Taurus. Tudo ali evoca o sagrado. Desde o mar, azul demais, morada de Posseidon, até os corredores labirínticos do palácio de Knossos. Mas, foi difícil a tarefa de conectar com toda esta história antiga, repleta de mitos e lendas, devido ao burburinho dos turistas que mal escutam a fala das gentes locais, preocupados em tirar fotos. Depois de certo desconforto com tanta gente, tivemos sorte. A guia, que falava um fluente espanhol, era uma senhora de quase 70 anos, de nome Catarina. Experiente na profissão, ela levou o pequeno grupo do qual eu fazia parte pelo caminho inverso. Assim, enquanto todos os barulhentos turistas começavam o passeio pela porta de entrada principal, nós começamos pelo final, no anfiteatro.

A ilha de Creta é a maior ilha da Grécia e a quinta maior do Mediterrâneo. Transformada hoje num Centro Mundial de Turismo, tem 260 quilômetros de comprimento, variando de 12 a 60 na largura, e 650 mil habitantes que se dividem por entre três grandes cordilheiras. Está ao sul do Mar Egeu e tem sua economia baseada no turismo e na cultura da vinha, da oliveira e dos cereais. Segundo a história, ela já foi habitada desde o neolítico, há cinco mil anos antes de Cristo. Mas foi já na Idade do Bronze, no ano de 3000 a.C que na ilha floresceu uma das mais antigas civilizações da Europa: a civilização cretense. Por volta do ano 2000 a.C começa o período minóico, no qual foram construídos palácios gigantescos. Havia um profundo conhecimento da engenharia, da astronomia e o povo cultuava um deus personificado na figura do Touro. Conta-se que no ano de 1.700 a.C aconteceu um terrível terremoto que colocou no chão quase todos os palácios, mas, sob o comando do rei Minos tudo foi reerguido, com maior pompa e riqueza de detalhes, em alabastro, pedra e madeira.

A cultura minóica é reverenciada na Grécia como um dos momentos de grande desenvolvimento dos povos antigos. O povo de Creta dominava os mares e tinha a maior frota da época. Seu declínio começou por volta do ano 1.400 a.C. quando o vulcão de Santorini cuspiu fogo, seguido de um forte terremoto. Naqueles dias, uma onda gigante atingiu a frota e abriu caminho para a ocupação grega, que chegou sem guerra, uma vez que quase tudo estava destruído.

A descoberta dos palácios

O tempo passou e a civilização minóica virou lenda. Entrou para a cosmogonia grega como o território de um mito: o do Minotauro, monstro metade homem, metade touro, que vivia nos labirintos dos palácios do rei Minos e que só era acalmado com o sacrifício de virgens. Conta a lenda que ele – que era filho de Minos - só foi destruído quando Ariadne forneceu a Teseu o segredo para entrar e sair do labirinto. Ele entrou, matou o monstro e saiu seguindo um fio que deixara preso à entrada do palácio. Na verdade, conta Catarina, o mito do Minotauro surgiu por conta de que, na ilha, o Touro era reverenciado como um deus e nas festas de primavera havia celebrações onde os jovens dançavam e brincavam com um touro. Estes afrescos podem ser vistos com detalhes no Palácio de Knossos.

Até 1890, os palácios do rei Minos eram considerados frutos da imaginação dos contadores de história. Foi nesta época que um morador da ilha, coincidentemente chamado Minos, encontrou algumas cerâmicas com inscrições e percebeu que ali poderia estar um tesouro. Ele tentou levar adiante a escavação, mas, naqueles dias, o território estava ocupado pelos turcos, que não permitiram a busca. Foi em 1900 que um inglês chamado Sir Artur Evans, atraído pelas histórias dos palácios veio para Creta e comprou a colina onde Minos havia encontrado as cerâmicas. Não demorou muito e os palácios estavam descobertos, tudo sob a tutela do Museu Britânico. Hoje, o palácio de Knossos é parada obrigatória de quem vai à ilha e uma caminhada por ele torna bastante óbvia a origem da lenda do labirinto. O lugar é gigante e suas edificações são cheias de labirintos de salas e corredores.

A civilização minóica, que floresceu sob o comando do rei Minos era festiva e alegre. Tanto os homens como as mulheres passavam grande parte do tempo em atividades lúdicas, ao ar livre. Gostavam de dança, canto e touradas. Tinham uma escrita própria que demorou muito a ser decifrada. Na verdade, boa parte permanece inacessível, apenas se decifrou uma que trazia dados sobre o palácio, tais como detalhes da construção e controle dos armazéns. As diferenças de classe eram quase inexistentes e havia um equilíbrio muito grande. Minos era considerado um rei muito justo e no seu trono de pedra – o mais antigo da Europa – está estampado um glifo que representa um animal com cabeça de águia, corpo de leão e serpente, representando os três elementos da cosmogonia cretense: o céu, a terra e submundo.


Andando no labirinto

Sob o sol de quase 40 graus o palácio de Knossos adquire uma luminosidade impar e fica difícil imaginar um monstro meio homem, meio touro andando por ali em busca de virgens. Mais fácil pensar numa comunidade simples e prosaica, vivendo feliz à beira do mar. A estrutura tem um grande pátio central e um outro na parte oriental, próximo aos aposentos da rainha. Há grandes buracos com vasos gigantes, sobras de rituais e cerimônias sagradas. A sala do trono é pequena e muito singela. Há um pequeno trono de pedra e uma cabaça ritual, onde Minos fazia suas oferendas. Nela eram colocados óleos sagrados que fluíam para debaixo da terra, onde reinava a serpente, deusa do submundo, controladora dos terremotos. O teto é baixo e com pouca luz, para deixar mais profundo o ar de mistério. Já os aposentos pessoais, tanto do rei quanto da rainha são altos, arejados e cheios de luz, com pátios internos por onde crescem plantas.

Há dezenas de corredores de armazéns onde se guardavam o óleo, o ouro, a prata e os mantimentos. As paredes são pintadas com afrescos cheios de delicadeza e graça. Os homens são representados em marrom e as mulheres em branco, sempre com roupas frescas e vaporosas. Também aparecem com muitas jóias e em cenas de brincadeiras com o touro, danças e jogos.

O touro era sagrado porque a comunidade acreditava na antiga lenda de que o principal deus daquelas terras, Zeus, disfarçado de touro, havia raptado Europa e com ela gerara um filho. Este filho seria o rei Minos, daí a sua fama de homem sábio e justo, uma vez que era um semideus. Por conta desta lenda, todos os anos, acontecia a “taurocatapsia”, uma espécie de brincadeira com o touro, que reunia os jovens em jogos, acrobacias e festas, tendo nascido daí a lenda do Minotauro.

O palácio de Knossos também tem um sistema hidráulico muito sofisticado. Pode-se perceber que os cretenses tinham vários banheiros e cultivavam o hábito do banho diário. Há um sistema de canais que dividiam as águas negras da água da chuva, esta última sempre seguindo o rumo do rio, para que fosse renovado o ciclo da água. É bom lembrar que os construtores de Knossos também estão imortalizados pela história grega: são os arquitetos Dédalo e Ícaro. Para quem não se lembra, foi de cima de uma das torres do palácio que, Ícaro – sonhando em voar como pássaro - alçou vôo com suas asas coladas com cera. Diz a lenda que tanto chegou perto do sol que a cera foi derretendo e ele caiu no lindo mar Egeu.

A saída do palácio fez-se pela entrada norte, que dá caminho para o mar. Era por aquele portão que entravam e saiam os trabalhadores que tornaram famosa a frota cretense. Não é sem razão que bem ali está um enorme afresco com a figura de um touro. É Taurus, o deus, guardando e vigiando a vida de seus súditos.

Pelo caminho de mais de dois mil anos, ainda bastante bem conservado, seguimos em direção ao porto com a profunda sensação de ter estado num lugar mágico. Apesar do buliço das gentes, as colunas pretas imitando o alabastro, os afrescos cheios de vigor e a figura do deus em todo o lugar, dão a oportunidade de um encontro único com um povo antigo que, há mais de cinco mil anos, ali viveu de maneira tão alegre e pacífica. A brisa fresca das árvores que margeiam a saída do palácio murmura bênçãos, o touro nos mira e nos despedimos com a certeza de que os deuses ainda guardam o lugar.