sábado, 4 de setembro de 2010

Passeio no inferno


Florianópolis, sexta-feira, véspera de feriadão do sete de setembro. Vindo da UFSC para o centro, num trajeto que demora em média 15 minutos, amarguei 50. Tudo muito lento e nem eram cinco da tarde. Fila no túnel, final por todo lugar. No centro da cidade aquele burburinho de bandeiras e sons, coisas da política. Desci do ônibus e fui dar uma fuçada na vida que se espraiava pelas ruas. De repente, uma infinita tristeza, uma saudade imensa dos tempos em que fazíamos política com amor e gosto.

Quantos namorados perdidos por conta das intermináveis reuniões, os briques de venda de materiais na esquina democrática, as passeatas com a Banda de Amor à Arte, aquele orgulho de carregar a bandeira vermelha. Tudo era tão cheio de paixão. Nas ruas, abundavam os militantes, pessoas que trabalhavam sem parar em nome de uma mudança sonhada. Éramos tão felizes naquele esperar...

Agora não é mais assim, as bandeiras ainda tremulam nestas épocas de eleição, mas as pessoas que as seguram não o fazem por amor ou crença. Estão ali ganhando seu pão. 10 ou 20 reais por dia. Não há passeatas, nem venda de badulaques na esquina democrática, não há militantes nas ruas. Tudo está esterilizado. Não há paixão. É mesmo um tempo de seca política. Falta tesão!
Sozinha e perdida no mar do vazio decidi voltar para o meu Campeche. Quarenta minutos esperando o ônibus no terminal central. Filas quilométricas de gente. Quando finalmente chega o coletivo parece que dá um frisson, as pessoas se acotovelam, se empurram e há uma corrida aos lugares, para que a viagem seja menos terrível, pelo menos sentado. Entra mais gente que cabe no ônibus. Bolsas gigantes nos roçam a cara, bundas e pernas se amassam. Os vidros fechados, o ar não funciona. Um sufoco danado.

Lá vamos nós para a viagem que deveria durar 20 minutos. O ônibus se arrasta. O povo bufa. As caras são de profunda tristeza. Os olhares são vazios, não há sorrisos nem buliço. As pessoas vão quietas, com o rosto sem expressão. Cada um está sozinho no seu mundo interior. Boa parte ouve alguma coisa no mp3, mas nada animado, pelo jeito. Ninguém ri. A viagem dura hora e meia e ainda há mais um terminal para enfrentar, outro ônibus para entrar, antes que a acolhedora imagem da nossa casa apareça.

No terminal do Rio Tavares o ônibus acabou de sair, o que significa que ficaremos mais meia hora na fila. E ela se agigantando. As mesmas pessoas sem expressão, como zumbis, naquela espera sem fim. Enfim, o ônibus. E lá vão todos se empurrando, tentando garantir um banco. Serão mais 30 minutos de viagem até chegar ao Jardim Castanheira, vindo pela Eucalipto. O ônibus parte, tem um cheiro estranho no ar, de queimado. As pessoas se olham. Hum!!! Isso não vai dar certo. O ônibus supera toda a Pequeno Príncipe e dobra na rua dos Eucaliptos. Numa das paradas, ele apaga. O povo começa a murmurar. O cobrador diz que tem um probleminha elétrico, o motorista insiste em dar a partida. O motor geme e arranca. O povo suspira aliviado, rezando para que ninguém mais aperte a campanhinha. Azar. Mais alguém quer descer. O ônibus para e novamente apaga. Ai Jesus. De novo a partida, geme, geme, geme e vai... E assim vai se arrastando o coletivo numa viagem que também se arrasta. Os que ficam no fim da linha estão em pânico. Não vai chegar. Alguém começa a xingar. Outro reclama sozinho e “la nave vá”... 45 minutos depois de sair do segundo terminal o ônibus finalmente para no Castanheira, meu ponto. Eu desço e fico olhando para ver se os demais terão sorte de chegar ao destino. O ônibus não dá partida, geme, geme, geme, e morre. As pessoas descem, gritam com o motorista. “Não tenho culpa”, ele diz, desolado. E o povo segue à pé. O cobrador pega o celular e chama o guincho. Fica ali, igualmente desacorçoado. “É a terceira vez esta semana”.

E assim termina o dia. Vou andando, cheia de mau humor. Dia duro. Lágrimas escorrem, para ver se afogam a raiva, a impotência, a solidão. O transporte coletivo em Floripa é sempre um passeio no inferno. Minha casa assoma na escuridão das ruas de areia. O cachorro acolhe, alegre. Os gatos enroscam seus corpos peludos. As estrelas brilham sob minha cabeça, o cheiro de dama-da-noite invade as narinas. Jogo as coisas no chão - livros, pão, mel, revistas - e fico ali no escuro. Amanhã é sábado e eu vou estar no Campeche, com minha bicicleta, a praia, o sol, os bichos, os meus. Ai que bom!!!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Na terra do Minotauro


Era manhã cedinho quando chegamos a Heraklion, capital da famosa ilha de Creta, espaço bendito do deus Taurus. Tudo ali evoca o sagrado. Desde o mar, azul demais, morada de Posseidon, até os corredores labirínticos do palácio de Knossos. Mas, foi difícil a tarefa de conectar com toda esta história antiga, repleta de mitos e lendas, devido ao burburinho dos turistas que mal escutam a fala das gentes locais, preocupados em tirar fotos. Depois de certo desconforto com tanta gente, tivemos sorte. A guia, que falava um fluente espanhol, era uma senhora de quase 70 anos, de nome Catarina. Experiente na profissão, ela levou o pequeno grupo do qual eu fazia parte pelo caminho inverso. Assim, enquanto todos os barulhentos turistas começavam o passeio pela porta de entrada principal, nós começamos pelo final, no anfiteatro.

A ilha de Creta é a maior ilha da Grécia e a quinta maior do Mediterrâneo. Transformada hoje num Centro Mundial de Turismo, tem 260 quilômetros de comprimento, variando de 12 a 60 na largura, e 650 mil habitantes que se dividem por entre três grandes cordilheiras. Está ao sul do Mar Egeu e tem sua economia baseada no turismo e na cultura da vinha, da oliveira e dos cereais. Segundo a história, ela já foi habitada desde o neolítico, há cinco mil anos antes de Cristo. Mas foi já na Idade do Bronze, no ano de 3000 a.C que na ilha floresceu uma das mais antigas civilizações da Europa: a civilização cretense. Por volta do ano 2000 a.C começa o período minóico, no qual foram construídos palácios gigantescos. Havia um profundo conhecimento da engenharia, da astronomia e o povo cultuava um deus personificado na figura do Touro. Conta-se que no ano de 1.700 a.C aconteceu um terrível terremoto que colocou no chão quase todos os palácios, mas, sob o comando do rei Minos tudo foi reerguido, com maior pompa e riqueza de detalhes, em alabastro, pedra e madeira.

A cultura minóica é reverenciada na Grécia como um dos momentos de grande desenvolvimento dos povos antigos. O povo de Creta dominava os mares e tinha a maior frota da época. Seu declínio começou por volta do ano 1.400 a.C. quando o vulcão de Santorini cuspiu fogo, seguido de um forte terremoto. Naqueles dias, uma onda gigante atingiu a frota e abriu caminho para a ocupação grega, que chegou sem guerra, uma vez que quase tudo estava destruído.

A descoberta dos palácios

O tempo passou e a civilização minóica virou lenda. Entrou para a cosmogonia grega como o território de um mito: o do Minotauro, monstro metade homem, metade touro, que vivia nos labirintos dos palácios do rei Minos e que só era acalmado com o sacrifício de virgens. Conta a lenda que ele – que era filho de Minos - só foi destruído quando Ariadne forneceu a Teseu o segredo para entrar e sair do labirinto. Ele entrou, matou o monstro e saiu seguindo um fio que deixara preso à entrada do palácio. Na verdade, conta Catarina, o mito do Minotauro surgiu por conta de que, na ilha, o Touro era reverenciado como um deus e nas festas de primavera havia celebrações onde os jovens dançavam e brincavam com um touro. Estes afrescos podem ser vistos com detalhes no Palácio de Knossos.

Até 1890, os palácios do rei Minos eram considerados frutos da imaginação dos contadores de história. Foi nesta época que um morador da ilha, coincidentemente chamado Minos, encontrou algumas cerâmicas com inscrições e percebeu que ali poderia estar um tesouro. Ele tentou levar adiante a escavação, mas, naqueles dias, o território estava ocupado pelos turcos, que não permitiram a busca. Foi em 1900 que um inglês chamado Sir Artur Evans, atraído pelas histórias dos palácios veio para Creta e comprou a colina onde Minos havia encontrado as cerâmicas. Não demorou muito e os palácios estavam descobertos, tudo sob a tutela do Museu Britânico. Hoje, o palácio de Knossos é parada obrigatória de quem vai à ilha e uma caminhada por ele torna bastante óbvia a origem da lenda do labirinto. O lugar é gigante e suas edificações são cheias de labirintos de salas e corredores.

A civilização minóica, que floresceu sob o comando do rei Minos era festiva e alegre. Tanto os homens como as mulheres passavam grande parte do tempo em atividades lúdicas, ao ar livre. Gostavam de dança, canto e touradas. Tinham uma escrita própria que demorou muito a ser decifrada. Na verdade, boa parte permanece inacessível, apenas se decifrou uma que trazia dados sobre o palácio, tais como detalhes da construção e controle dos armazéns. As diferenças de classe eram quase inexistentes e havia um equilíbrio muito grande. Minos era considerado um rei muito justo e no seu trono de pedra – o mais antigo da Europa – está estampado um glifo que representa um animal com cabeça de águia, corpo de leão e serpente, representando os três elementos da cosmogonia cretense: o céu, a terra e submundo.


Andando no labirinto

Sob o sol de quase 40 graus o palácio de Knossos adquire uma luminosidade impar e fica difícil imaginar um monstro meio homem, meio touro andando por ali em busca de virgens. Mais fácil pensar numa comunidade simples e prosaica, vivendo feliz à beira do mar. A estrutura tem um grande pátio central e um outro na parte oriental, próximo aos aposentos da rainha. Há grandes buracos com vasos gigantes, sobras de rituais e cerimônias sagradas. A sala do trono é pequena e muito singela. Há um pequeno trono de pedra e uma cabaça ritual, onde Minos fazia suas oferendas. Nela eram colocados óleos sagrados que fluíam para debaixo da terra, onde reinava a serpente, deusa do submundo, controladora dos terremotos. O teto é baixo e com pouca luz, para deixar mais profundo o ar de mistério. Já os aposentos pessoais, tanto do rei quanto da rainha são altos, arejados e cheios de luz, com pátios internos por onde crescem plantas.

Há dezenas de corredores de armazéns onde se guardavam o óleo, o ouro, a prata e os mantimentos. As paredes são pintadas com afrescos cheios de delicadeza e graça. Os homens são representados em marrom e as mulheres em branco, sempre com roupas frescas e vaporosas. Também aparecem com muitas jóias e em cenas de brincadeiras com o touro, danças e jogos.

O touro era sagrado porque a comunidade acreditava na antiga lenda de que o principal deus daquelas terras, Zeus, disfarçado de touro, havia raptado Europa e com ela gerara um filho. Este filho seria o rei Minos, daí a sua fama de homem sábio e justo, uma vez que era um semideus. Por conta desta lenda, todos os anos, acontecia a “taurocatapsia”, uma espécie de brincadeira com o touro, que reunia os jovens em jogos, acrobacias e festas, tendo nascido daí a lenda do Minotauro.

O palácio de Knossos também tem um sistema hidráulico muito sofisticado. Pode-se perceber que os cretenses tinham vários banheiros e cultivavam o hábito do banho diário. Há um sistema de canais que dividiam as águas negras da água da chuva, esta última sempre seguindo o rumo do rio, para que fosse renovado o ciclo da água. É bom lembrar que os construtores de Knossos também estão imortalizados pela história grega: são os arquitetos Dédalo e Ícaro. Para quem não se lembra, foi de cima de uma das torres do palácio que, Ícaro – sonhando em voar como pássaro - alçou vôo com suas asas coladas com cera. Diz a lenda que tanto chegou perto do sol que a cera foi derretendo e ele caiu no lindo mar Egeu.

A saída do palácio fez-se pela entrada norte, que dá caminho para o mar. Era por aquele portão que entravam e saiam os trabalhadores que tornaram famosa a frota cretense. Não é sem razão que bem ali está um enorme afresco com a figura de um touro. É Taurus, o deus, guardando e vigiando a vida de seus súditos.

Pelo caminho de mais de dois mil anos, ainda bastante bem conservado, seguimos em direção ao porto com a profunda sensação de ter estado num lugar mágico. Apesar do buliço das gentes, as colunas pretas imitando o alabastro, os afrescos cheios de vigor e a figura do deus em todo o lugar, dão a oportunidade de um encontro único com um povo antigo que, há mais de cinco mil anos, ali viveu de maneira tão alegre e pacífica. A brisa fresca das árvores que margeiam a saída do palácio murmura bênçãos, o touro nos mira e nos despedimos com a certeza de que os deuses ainda guardam o lugar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Castelinho: um lutador!



O Congresso Nacional dos Jornalistas nos reservou algumas boas surpresas. Uma delas foi a presença indelével de Lucídio Castelo Branco, o Castelinho, dando conta de seus 47 anos de profissão e militância sindical. Testemunha ocular das grandes transformações do mundo do jornalismo brasileiro ele lembrou que vem de um tempo em que o jornalista era um boêmio, querendo apenas ter uma carterinha, não pagar imposto e entrar de graça nos teatros e cinemas. Não havia escolas de jornalismo e os profissionais eram práticos licenciados. “Hoje não, temos gente com compromisso social, qualificada e diplomada. Tudo isso foi fruto de uma luta”.

Lucídio começou a trabalhar em 1946, quando também conseguiu seu registro no sindicato. Naqueles dias, os jornalistas faziam jornalismo, mas tinham de garantir seu salário por outras vias. No caso dele, trabalhava também na prefeitura. Desde que começou a atuar no jornalismo, Castelinho esteve na batalha pela melhoria das condições de trabalho, acompanhou a criação dos cursos de jornalismo e, no sindicato, lutou com todas as forças pela regulamentação da profissão, coisa que só aconteceu em 1965. “É interessante lembrar que nossa profissão viveu momentos significativos nas ditaduras. Foi Getúlio Vargas quem reconheceu a profissão de jornalista em 1944 e foram os militares que garantiram a regulamentação. Mas isso não significa, de forma alguma, que tenhamos sido coniventes com o regime. Apenas fizemos a luta e vencemos. Nada nos foi dado. Foi luta”.

Lucídio Castelo Branco criticou duramente os argumentos utilizados pelos ministros que derrubaram a Lei de Imprensa. “Diziam que era um restolho da ditadura e por isso tinha de cair. Ora, foi a ditadura militar quem decretou que para ser ministro do STF a pessoa tem de ser nomeada pelo presidente. Isso aí não é restolho da ditadura?”

Tendo sido o grande articulador da regulamentação da profissão do jornalista em 1965, Castelinho se mostrou indignado com a decisão do STF e esperançoso de que os deputados revertam essa decisão com a aprovação da PEC. Com a mesma energia de quase 50 anos atrás, quando iniciou sua caminhada pelas trilhas desta profissão, ele está aí, na luta, sem descanso. Mostrou que não há tempo para fazer as grandes batalhas. Foi aplaudido de pé, longamente, pelos colegas jornalistas. Chorou. “Nunca em minha vida me senti tão feliz”. Deu uma grande lição a todos os companheiros.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O jornalismo serve para fazer aflorar os conflitos




O Congresso Nacional dos Jornalistas, que aconteceu em Porto Alegre, de 18 a 22 de agosto, propiciou debates bastante ricos sobre a profissão, embora a platéia, naqueles momentos, fosse bastante esvaziada. Mas, quem ficou para a discussão, conseguiu aprofundar um pouco mais os temas que, depois, seriam disputados acirradamente nas plenárias. Conjuntura, exigência de diploma, regulamentação, formação, experiências alternativas, estas foram as questões que permearam as mesas de debate, ajudando a pensar o futuro do jornalismo no Brasil.

Na mesa de conjuntura, que abriu o congresso, a polêmica já apareceu no primeiro palestrante. Sérgio Murilo, presidente da Fenaj, avaliou que a conjuntura brasileira está muito rica e que há uma consolidação da democracia, embora a mídia não se mostre à altura destes acontecimentos. Segundo ele, há uma incapacidade por parte do mercado em responder positivamente diante destas “imensas possibilidades colocadas pela democracia”. Disse que, hoje, a mídia confunde muito o jornalismo com o entretenimento e que esta é uma aposta equivocada dos donos dos meios. “Eu acabei de fazer um roteiro pelo país junto com o Schröder e vi que as redações não têm as condições mínimas para o exercício do jornalismo. Os empresários não têm noção de para onde vai o mercado, não têm capacidade gerencial de perceber o avanço da concentração dos meios”. Por conta disso, afirmou, é necessário que os jornalistas ofereçam uma nova forma de fazer jornalismo.

Sérgio Murilo foi bastante criticado por esta análise uma vez que não explicou sobre qual democracia falava. A democracia liberal? A financeira? Se forem estas duas, sim, ele tem razão. Estão firmemente consolidadas, mas isso não é bom. Também foi questionado no que diz respeito a sua visão dos empresários. A delegação de Santa Catarina argumentou que não há nenhum equívoco na conduta dos patrões. “É da natureza do capitalismo agir assim, os empresários têm muita noção de para onde está indo o mercado e o estão gerindo muito bem. Assim é no capitalismo. Acreditar que os empresários estão equivocados e que é preciso ensiná-los no seu negócio não deve papel da Fenaj”.

O diretor do Jornal Já, de Porto Alegre, Elmar Borges, disse que os jornalistas mais velhos foram praticamente expulsos das redações, o que diminui a visão crítica, e compartilha da idéia de que há uma democracia consolidada e que as empresas se recusam a ver a realidade. Um dos criadores da idéia do Coojornal, cooperativa que brilhou durante a ditadura militar, ele acredita que hoje o que se precisa é fazer a luta tanto dentro dos jornalões e grandes mídias, como fora deles.

O representante da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), Gustavo Granero, disse que o que importa para o sistema mundial é o dinheiro e a concentração de riqueza, daí a necessidade de que tenha menos jornalismo, menos informação. “É por isso que eles apostam no lixo do entretenimento”. Segundo ele, por conta desta conjuntura é preciso que os jornalistas tenham claro sobre qual é o alvo da luta. “O jornalismo mundial está em crise, não há diversidade de fontes. Pelo menos em 40% das notícias que se lê não se consegue identificar quem está falando. Além disso, no México, na Colômbia, em Honduras, estão matando os jornalistas que falam. Na África não tem internet, não tem telefone, o povo está tratando de sobreviver. Na América Latina ainda temos de caminhar para encontrar um perfil próprio”.

Transformar o imaginário
O professor da Famecos, Juremir Machado, trouxe uma contribuição provocativa, apontando a servidão voluntária como um dos grandes problemas no jornalismo, seja por parte dos jornalistas ou dos patrões na relação com o empresariado. “Por isso a mídia é tão conservadora”, avaliou. Para ele, um dos grandes problemas da categoria na atualidade é a consolidação de um imaginário no qual as “pessoas boas” são aquelas que se apresentam como moderadas. E “as pessoas más” são os radicais. Esses não aparecem na mídia. “Mas, quem pode apostar que os ditos moderados sejam os portadores da verdade?”

Para Juremir o grande desafio é transforma esse imaginário que toma conta dos jornalistas na sociedade do espetáculo, na qual só aparecem as coisas que os jornalistas consideram “boas”. Se não aparecem os conflitos sociais, por exemplo, é porque os envolvidos são “maus”. Essa é a lógica. “No caso da América Latina o que a gente ouve? Que estes presidentes de esquerda são fanáticos, são perigosos. Mas, se pensarmos bem, quem pode ser mais perigoso que um José Sarney? Esse aí não seria um radical?” Provocativo e polêmico, Juremir nem abriu debate, estava atrasado para o seu programa de rádio. Ainda assim, não tergiversou: os jornalistas precisam transformar o imaginário.

A decisão do STF
O advogado Antônio Carlos Porto afirmou que o STF julgou a questão do diploma com base num conceito de liberdade típico do século 19. Segundo ele, o tempo de hoje é o da produção industrial de notícias, onde não cabe a concepção do indivíduo, tal qual entendem os ministros. “A questão da liberdade de expressão não está no campo individual, do jornalista, mas deve ser debatida na relação com o direito de propriedade. Afinal, qualquer pessoa pode ter um blog, mas só um empresário da comunicação pode produzir em escala ”.

O professor Manoel Chaparro, da USP, chamou a atenção para o fato de que os jornalistas brasileiros ainda não aprenderam a fazer jornalismo na liberdade e muito menos sabem qual a razão de ser do jornalismo. “O princípio básico do jornalismo é ser independente. Mas essa não é uma coisa fácil nem mesmo em relação a nós mesmos. Às vezes fracassamos, mas temos de seguir defendendo isso”. Chaparro lembrou que, antes, eram os jornalistas que andavam em busca das notícias num mundo que era silencioso. Hoje não, elas chegam aos borbotões. O mundo é falante. “Então a gente vê que os jornalistas trabalham com conceitos velhos. Não incorporaram os novos tempos”.

Contrário a exigência do diploma, ele disse que como bem lembrava Darcy Ribeiro, os avanços civilizatórios se dão por revoluções tecnológicas e não pela luta de classe. “Isso é duro, mas precisa ser levado em conta. Os jornalistas precisam passar um olhar humilde sobre o cenário em que trabalham. O direito de informação deixou de pertencer aos jornalistas, e hoje todos podem exercê-lo”. Chaparro alertou para o fato de que os sujeitos sociais da atualidade aprenderam a ver a notícia como parte do acontecimento. Há uma revolução das fontes. Elas se dizem sem precisar do jornalista. Elas comandam as agendas”. Na verdade o professor da USP deixou de lado o paradoxo que esta situação apresenta. Se, de fato, existe hoje um mundo falante, nada garante que este mundo possa de fato se expressar, afinal, a concentração dos meios é cada dia maior. Nesse sentido, o limite da fala é sempre dado pelos donos das empresas. Da mesma forma, o diploma. Se é fato que a informação saiu do controle do jornalista, isso não significa que o trabalhador, explorado nos meios de comunicação de massa possa ficar sem a proteção legal. Hoje, defender o diploma é fazer sim uma luta corporativa, mas isso não deveria envergonhar o trabalhador. Muito pelo contrário. É uma luta legítima diante da exploração promovida pelos donos dos meios.

Foi aí que o procurador de Santa Catarina, João dos Passos não deixou dúvidas: a decisão do STF carece de fundamentos jurídicos. Segundo ele, o decreto que foi colocado em questão não tem nada de inconstitucional, pois não há na Constituição Federal nenhuma norma que trate da regulamentação de profissões. “O STF judicializou um assunto que pertence ao terreno da política, do Congresso Nacional. Está muito claro na Constituição que é o legislador quem tem a competência para decidir sobre o exercício profissional. O STF aparentemente usurpou as funções legislativas interpretando de maneira tendenciosa. Seria como dizer que não precisa diploma para um advogado porque ele prejudicaria o direito a ampla defesa do contraditório, ou como se a Carteira de Motorista impedisse o direito de ir e vir”.

O deputado Ibsen Pinheiro também reforçou a idéia de que é o Congresso quem define em lei sobre a regulamentação das profissões, e o judiciário deveria se limitar a isso, ao cumprimento da lei, sem querer ser protagonista no campo da política. Ibsen também discorreu sobre o conceito de liberdade de expressão lembrando que este não é um direito absoluto. “Uma pessoa não pode gritar `fogo´ num teatro lotado se não houver fogo. O direito de expressão deve ser interpretado na convivência com os respectivos limites. E isso não é censura”. Sobre a PEC em tramitação no Congresso ele acredita que tem grandes chances de ser aprovada, embora venha a abrir uma exceção na lei. “Até hoje não se constitucionalizou a regulamentação das profissões”. Ele acredita que o processo não será tão rápido quanto acreditam algumas lideranças da Fenaj.

A defesa da profissão e o futuro do jornalismo
A mesa que discutiu o futuro da profissão trouxe o debate sobre a formação. Sérgio Gadini, do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo contou que existem hoje 1.300 escolas de jornalismo que lançam no mercado mais de 400 novos profissionais por ano. O desafio, depois da decisão do STF, é definir por que se formar. Segundo ele houve um golpe na identidade e agora os alunos estão se perguntando as razões para a diplomação. Para ele, mais do que nunca os cursos deveriam fortalecer o olhar sobre a demanda social de informação, deixando de vê-la como mercadoria.

O repórter da Globo, Marcelo Canellas, reforçou esta posição lembrando que quando era estudante esteve metido no Centro Acadêmico, foi à Brasília lutar pelo diploma, se envolveu com o aspecto social da profissão. Hoje, como repórter, ele procurar “enfiar o pé na lama” para sempre encontrar boas histórias que desvelem as contradições da sociedade. “O jornalismo é uma forma específica de conhecimento, precisa de formação”. Canellas criticou a universidade por estar distante destes debates, e sem conexão com os sindicatos. “Longe da vida real, não é possível formar bons profissionais”. Lembrou ainda que, hoje, é o jornalismo que determina quais acontecimentos estarão na agenda do público e o jornalista tem obrigação de interferir nessa agenda. “Para isso o jornalista tem de ter posição sobre as coisas e também as ferramentas teóricas para bancá-las”.

O professor Antônio Holfeldt, da PUC/RG salientou a necessidade de a universidade formar um jornalista que tenha olho crítico, que seja humanista e tenha conhecimento dos grandes textos do jornalismo. Durante o debate foi levantado como argumento a incapacidade da universidade de trabalhar com o pensamento novo. Os jovens que hoje saem da universidade saem preparados tecnicamente, mas não sabem pensar. Há um afastamento dos professores do mundo real e das lutas sindicais. O povo passa a ser objeto de pesquisa, passível de vampirismo intelectual, enquanto suas demandas ficam silenciadas pelos profissionais que deveriam ser críticos. Foi lembrada a teoria de Adelmo Genro Filho sobre o jornalismo, que poucos professores conhecem, e os que a conhecem, no mais das vezes a esterilizam, esquecendo de que ela é uma teoria marxista, portanto, tendo como foco principal o desvelamento da realidade.

De todas as mesas, com debates de alta qualidade, ficou a certeza de que o profissional do jornalismo precisa encontrar tempo para estudar, conhecer as novas teorias, ser capaz de pensar o novo, de olhar criticamente para a realidade e narrá-la. Além disso, como bem lembrou Manoel Chaparro, o papel do jornalismo é fazer os conflitos aflorarem. Sem isso, os profissionais serão meros porta-vozes, e não encontrarão amparo na sociedade.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Penna Filho: um homem do cinema



A figura do diretor de cinema geralmente vem associada a alguém excêntrico, vaidoso ou temperamental. Penna Filho não tem nada a ver com esse estereótipo. Ele é tranqüilo, doce e cheio de ternura. Aos 77 anos está em plena atividade, lançando seu mais recente filme “Doce de Coco”, vencedor do Prêmio Cinemateca Catarinense e que cumpre uma linda jornada pelo interior deste estado, apesar de ser olimpicamente ignorado pela mídia comercial. Penna Filho vive em Florianópolis e, dia desses, esteve na Rádio Comunitária Campeche falando do seu filme e de sua trajetória de homem da palavra e da imagem.

Penna Filho nasceu capixaba em março de 1936, mas se fez do mundo quando decidiu mudar para São Paulo em 1959, para fazer cumprir seu destino de “contador de histórias”. Ainda em Vitória ele, quase um menino, iniciou sua carreira de locutor, ator, repórter, produtor e diretor artístico. O guri magrinho era um dínamo e sua voz serena prenunciava a delicadeza das narrativas que ele construiria ao longo da vida.

Na capital paulistana ele dava os primeiros passos junto com a televisão, crescendo e aprendendo com esta nova forma de comunicação que iria revolucionar a vida humana. Seguia no rádio, mas a imagem já começava a mexer com sua cabeça criadora. O golpe militar o tira do circuito da rádio comercial, porque um texto seu sobre o fato, censurado na Rádio Bandeirante, o faz ser demitido. Impedido de dizer a palavra libertadora ele mergulha no cinema. A tela grande o chama e ele passa a trabalhar como continuísta e assistente de direção em filmes de gente como Ody Fraga, Ary Fernandes, Milton Amaral, Carlos Coimbra e Mazzaroppi, de quem guarda boas lembranças. Paralelo a isso atua em dublagens de filmes para televisão, como ator e diretor. No início dos anos 70 ele já era um dos profissionais mais incensados pelo povo do cinema e da televisão, onde voltou a atuar na área da propaganda.

No início dos anos 70 chegava a hora de Penna Filho dirigir seu próprio filme, e foi quando nasceu “Amores de um cafona”, feito em parceira com Osires Figeroa. Mas, o seu solo foi “O diabo tem mil chifres”, que a censura militar considerou imoral e iconoclasta. Esse filme não pode ser visto por ninguém até o final dos anos 70 e marcou a vida de Penna Filho como um período em que faltaram as possibilidades de trabalho. Por conta disso ele regressou à televisão para fazer reportagens, atuando em programas como o Fantástico e o Globo Repórter, na Globo.

Em 1977 entra para a TV Cultura de São Paulo e ali consegue produzir documentários e programas que, inclusive, são premiados. Foi um tempo de muita criação, no qual também dirigiu alguns especiais. É só nos anos 90 que ele volta para os 35 milímetros, com o filme Naturezas Mortas, ganhador de vários prêmios também. Em 2006 realiza um longa sobre a vida do jogador de futebol Ademir da Guia, “Um craque chamado Divino” e em 2009 finaliza outro longa, o “Doce de Coco”.

Esta curta descrição da vida profissional de Penna Filho certamente não lhe faz justiça, mas já dá uma idéia do potencial criativo deste homem que segue enfrentando a máquina trituradora do circuito comercial de cinema, que conta hoje com apenas 2.200 salas em todo o país, menos da metade do número de municípios, embora o governo federal alegue que são mais de seis mil. Isso já deixa claro o quanto o cinema está em baixa no país e o quanto não há incentivo para este tipo de espaço cultural. No mais das vezes, as grandes cidades só têm salas nos centros comerciais (xopins) e a mágica do cinema não existe mais. E, no interior, já se pode falar de uma geração que nunca viu um filme em tela grande. Além disso, as salas que existem são praticamente prisioneiras da indústria estadunidense, com mais de 2/3 delas nas mãos de duas ou três megaempresas, dificultando a caminhada de produções cinematográficas que não estejam vinculadas ao sistema. Não bastassem todas estas dificuldades, a Globo ainda abocanha grande parte das produções nacionais, sendo subsidiária de uma empresa estadunidense. Por isso abundam os filmes “engraçadinhos” com atores globais. Tudo faz parte do mesmo esquemão. “A gente observa que estas produções são feitas só para o povo rir. Eu não, quero filmar para o povo rir e refletir”, diz Penna Filho.

Sua mais nova produção é assim. Doce de Coco é um filme que conta da vida da gente brasileira, o povo simples que batalha para sobreviver, mas que também é engraçado, sonha e faz planos para sair do sufoco da vida massacrante. Trabalho difícil de realizar por conta dos poucos recursos e tudo o que envolve fazer cinema na “periferia” do país, como é o caso de Santa Catarina. Mas, que, a despeito de tudo isso, o filme, rodado no Ribeirão da Ilha (patrimônio cultural de Florianópolis), se completou e seguiu seu caminho, sendo apresentado por todo o estado de Santa Catarina no projeto “Cinema para o povo sem tela”.

Penna Filho acredita piamente que o audiovisual no Brasil poderia ser auto-sustentável, mas para isso haveria que ter uma política pública real, que garantisse igualdade de condições aos profissionais. Hoje, da forma como está colocada a Lei Rouanet fica muito difícil. Os artistas precisam fazer romarias às empresas que, muitas vezes, não tem interesse em realizar os trâmites. “Agora tem uma proposta de mudança aí, em que as empresas terão de dar em dinheiro vivo de 10 a 30% dos recursos. Pode ser que dê mais certo”. Fora os editais públicos ou os trâmites da Lei Rouanet os cineastas independentes ficam em péssima situação. Aqueles que não se vendem ao esquema Global - que é subsidiário de grandes empresas estadunidenses - têm que penar muito para realizar um trabalho. Porque fazer cinema é coisa grandiosa, envolve muita gente, figurinos, cenários e tantos outros detalhes que demandam dinheiro.

Agora, tramita no Senado Federal uma medida provisória (a 491/210), do governo federal que, entre outras coisas, apresenta o projeto “Cinema perto de você”, uma proposta de criar salas de cinema nas cidades pequenas e nos bairros de periferia das grandes cidades. A idéia em si até é interessante, mas se não tocar na questão da distribuição dos filmes – sempre na mão estrangeira - e não garantir espaço digno ao cinema nacional será só mais uma sala a projetar o lixo ideológico estadunidense. A medida também avança para o estabelecimento de linhas de crédito, via BNDES, e com facilidades tributárias para as empresas que investirem no cinema. Mas, também isso não garante uma mirada mais autóctone para a cinematografia.

Apesar destas propostas pontuais, no Brasil há muito pouca compreensão de que o cinema deveria ser espaço de contação das histórias locais, dos personagens nacionais, dos fatos históricos, dos mitos, da realidade tupiniquim. Tirando alguns momentos, muito pontuais, o cinema nacional é mera reprodução do jeito de fazer estadunidense. Basta uma olhada no megassucesso Se eu fosse Você, com Glória Pires e Tony Ramos, que chegou a ter um segundo “capítulo”. Nada mais é do que a reprodução – mal feita – das batidas comédias românticas do cinema estadunidense. Colonialismo mental e cultural que vai se reproduzindo feito praga. E, nesse diapasão, a vida que vive neste imenso país encontra muito pouco espaço para ser narrada. Até porque o Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, o catarinense Doce de Coco, dirigido por Penna Filho, filmado no interior da ilha, tem de ir rompendo as barreiras, punho em riste, como os próprios personagens, que precisam apostar num grande sonho para poderem se mover adiante. O sonho do Penna Filho, ele não disse, mas pude demandar no seu olhar misturado de ternura e força, que é o de ver, cada vez mais, o Brasil na tela grande. O Brasil de verdade, destes cantões, as gentes reais, se dizendo na beleza e na luta.

Já a política, bem, esta é outra seara, tão difícil de ser desbravado quanto fazer uma produção que seja independente do sistema internacional. Sem a ação coletiva e crítica da classe artística, as proposições governamentais continuarão a ser pontuais e sem conexão com uma proposta verdadeiramente nacional.

A filmografia completa e outras informações sobre Penna Filho podem ser encontradas no sítio: http://www.pennafilho.com/

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Mosquito zoando com a cabeça dos poderosos


Sexta-feira, dia 13, o Amilton Alexandre, mais conhecido como Mosquito, colocou na rua o seu Tijoladas Press, a revista que traz os melhores textos do famossíssimo blog Tijoladas do Mosquito e outros textos inéditos. A idéia é colocar os podres da politicagem da região na rua, para que a população saiba aquilo que não sai na TV nem nos jornais. Parabéns Mosquito e longa vida!...