sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Clara!!!

Para lembrar essa luminosa guerreira mineira que partiu num agosto, direto para os braços de sua Iansâ!!!


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sem âncora

O lindo poema de Rosângela Bion de Assis diz tanto nestes dias turbulentos...
Um dia ninguém me encontrará
onde eu seja esperada.
Vou seguir reto pela avenida confusa
até encontrar o mar vaidoso
com seu terno reluzente.
Desligarei meu velho localizador,
mas é provável que não notem minha revoada.
Meu lanche será servido sob uma laje úmida
com vista para andorinhas animadas.
Minha tarefa será não pensar nos ponteiros em marcha atlética
e não prever algum desencontro.
Vou iniciar uma leitura fresquinha,
especialmente guardada para esse dia,
que poderá ser uma tarde primavera
ou algumas horas no inverno.
Buscarei uma flor improvável,
um animal perdido,
uma pipa animada, sem âncora.
Só minhas botas gastas
saberão do meu paradeiro.
este dia ainda não chegou,
mas está sendo estudado como uma tese,
que precisa comprovar
que uma criatura que reza todos os dias
também é capaz de sair dos trilhos.
Nem que seja por um instante
no meio da tempestade.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Álvaro Uribe e os crimes de lesa humanidade

A mídia brasileira é pródiga em falar do conflito armado na Colômbia, sempre na perspectiva do governo, até estes dias, de Álvaro Uribe. Este, geralmente foi mostrado como o grande democrata que estava fazendo todo o possível para acabar com uma guerra civil que perdura por décadas. Jamais se ouviu ou se leu na mídia comercial brasileira sobre a famosa “black list”, um documento produzido pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que mostra Uribe como um narcotraficante. O documento é explícito: Álvaro Uribe é um senador (isso em 1991) que colabora ativamente com o cartel de Medelin, recebe dinheiro por isso e é amigo pessoal de Pablo Escobar. Talvez por isso mesmo os EUA tenham apoiado o então senador quando este quis ser presidente da Colômbia e o foi por dois mandatos. Não é sem razão que Uribe permitiu a instalação de nove bases militares estadunidenses no território colombiano.

Durante estes anos em que esteve à frente do governo colombiano, Uribe certamente não deixou de ser um fiel servidor do narcotráfico e não é à toa que agora inicia um processo de guerra contra a Venezuela, alegando mentiras sobre a ligação do governo de Chávez com os “terroristas” das FARCs. Segue o mesmo exemplo de seu chefe, George Bush, quando quis fazer a guerra contra o Iraque, a partir de mentiras como a que o Iraque teria armas químicas.

Primeiro, as FARCs não são formadas por terroristas. São exércitos regulares que lutam, armados, contra o exército da Colômbia e tem um plano de libertação para o país. Segundo, Uribe tem todo o interesse em se manter fora da cadeia, já que é um narcotraficante reconhecido inclusive pelos EUA, então precisa criar sobre si uma cortina de fumaça. E terceiro, durante seus mandatos promoveu tantos crimes e atrocidades que igualmente deve ser julgado por crime de lesa humanidade.

Na última semana, uma fossa encontrada no pequeno povoado de La Macarena, a uns 200 quilômetros de Bogotá, região que é conhecida como uma das mais “quentes” no processo do conflito colombiano, revelou parte de toda essa atrocidade que o terrorismo de estado tem praticado ao longo dos anos. Mais de dois mil cadáveres foram encontrados, amontoados uns sobre os outros, alguns ainda com as mãos e pés amarrados. Este se trata de um dos maiores enterros coletivos de vítimas que se tem notícia na América Latina. Segundo as informações dos jornais colombianos, a fossa teria corpos desde o ano de 2005, sempre renovados.

O exército colombiano se apressou em dizer que os corpos eram de guerrilheiros que haviam morrido em combate. Mas, o povo da região não confirma isso. Pelo contrário, o que os moradores dizem é que aqueles corpos são de líderes sociais, camponeses e militantes populares que desapareceram sem deixar qualquer rastro.

A cova foi descoberta por conta da denúncia realizada por gente que esteve por anos atuando junto aos paramilitares e que se entregou sob a proteção de uma controvertida lei chamada de Lei de Justiça e Paz. Esta lei garante aos informantes uma pena simbólica se eles confessarem seus crimes. Durante estas sessões de “confissão”, um dos chefes de um grupo paramilitar chamado John Jairo Renteria revelou que ele e seu grupo chegaram a enterrar mais de 800 pessoas em uma fazenda na cidade de Puerto Asís. Também confessou que os seus comandados usavam estas pessoas (sindicalistas, militantes sociais, estudantes) para aprender como esquartejar uma pessoa e revelou que alguns procedimentos eram feitos com as pessoas ainda vivas.

A audiência e a localização dos corpos da cova de La Macarena aconteceram no mesmo dia em que o governo de Santos, atual presidente colombiano, pediu uma reunião urgente na OEA para denunciar a Venezuela como um estado que estava acolhendo membro das FARCs. Nada mais do que outra cortina de fumaça para tentar encobrir o horror da descoberta e das outras tantas atrocidades produzidas pelo governo de seu amigo e antecessor Álvaro Uribe.

O povo organizado da Colômbia quer que tudo seja esclarecido e exige ainda a punição de Uribe por estes crimes, imprescritíveis, de lesa humanidade.

Veja fotos da cova descoberta em La Macarena.
www.iela.ufsc.br


Caminhada pelo Bar do Chico

Comunidade foi visitada pela Maricota e por um grupo de músicos, com distribuição de panfletos e conversas sobre a importância histórica do bar. A caminhada terminou em frente ao Essence, mega-mepreendimento imobiliário em cima da duna e com licença ambiental.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Agosto, mês da Pachamama


O mês de agosto é um tempo sagrado na América andina. É o mês no qual se rendem homenagens à Pachamama, a mãe terra. Por todos os rincões deste espaço geográfico, lugar dos collas, aymaras, quéchuas e tantas outras etnias, os amautas (sacerdotes) preparam oferendas, as wajt´as, que vão desde doces e comidas típicas até fetos de llamas e ovelhas. Com as oblações vão os pedidos de saúde, dinheiro e trabalho. Apesar de mais de 500 anos de colonização e domínio da religião católica, não há quem não ofereça seu presente a Pachamama neste agosto que já começou.

Para os amautas ayamras este é considerado o período de “lakan paxi”, o mês da boca, porque é nesse período que a grande mãe abre sua boca para receber as oferendas dos seres humanos que sobre ela andam, vivem e amam. Muitas são as cerimônias celebradas por todo o território. Algumas são bem simples, feitas em casa, pelas famílias. Outras, realizadas pelos yatiris relembram os ritos ancestrais e invocam os antigos deuses do mundo andino, os achachilas, que moram nos cerros nevados do Illimani, Huayna Potosí, Mururata, Sajama e Chijcha. Nestes dias de agosto também é hora de invocar as forças que vivem nos rios e os espíritos dos animais.

Para quem crê nas formas anímicas e nos deuses antigos, nada melhor do que preparar uma boa cerimônia nestes dias de frio. O mês de agosto inteiro se presta a estas homenagens.

Em tempos de grande destruição da natureza, provocada pelo modelo de desenvolvimento do modo capitalista de produção, talvez seja hora de uma boa reflexão e de um encontro com o sagrado. Das montanhas nevadas dos Andes ecoam os cantos e sobe a fumaça dos incensos. Os deuses antigos esperam dos homens e das mulheres o respeito e a harmonia. E a Pachamama quer, ora quieta, ora em ebulição, que os seres humanos compreendam que são apenas uma espécie a mais pisando o lugar.

Neste dia primeiro de agosto, seguindo a tradição, fiz bolinhos de chuva e ofereci a mãe terra. Pedi proteção, saúde, alegria, para mim e para todos no mundo. Pedi que ela abrisse os olhos daqueles que a golpeiam para que possam ver o grande presente que é estar vivo, e pisando neste chão. Pedi piedade para os que não compreendem e pedi forças para enfrentar mais um ano, até que chegue o novo agosto.

Que viva a Pachamama, toda a honra a grande mãe!!!


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O relógio-ponto eletrônico e a universidade


O trabalho, nos tempos antigos, sempre foi gerido pelo tempo da natureza. O sol era quem determinava a hora de fazer esta ou aquela tarefa. Todo mundo sabia de seus afazeres e não havia motivo algum para que alguém controlasse o tempo. De qualquer forma sabe-se que o relógio, como um mecanismo de marcação do tempo, existe desde há cinco mil anos, e naqueles tempos eram chamados relógio de sol. No ano de 250 depois de Cristo surgem as ampulhetas, um jeito de marcar o tempo que podia ficar sobre a mesa de trabalho dos grandes sábios, que se perdiam em divagações e já não acompanhavam o tempo da natureza. Desde então a engenharia do relógio só evoluiu, a ponto de em 1500 já existirem relógios portáteis. Já o relógio de pulso foi inventado por um velho conhecido nosso, Santos Dumont. Hoje, a indústria do relógio chega a produzir mais de 250 milhões de unidades.

Mas o famoso relógio-ponto, que controla a hora e a vida dos trabalhadores só surgiu na Inglaterra, no auge da revolução industrial, no início do sistema capitalista. Os patrões entendiam que o livro-ponto era passível de fraudes e a idéia de um equipamento que controlasse entrada e saída de forma mecânica se espalhou. Era a marca de uma racionalidade a serviço do capital e da exploração humana, uma vez que o relógio servia apenas para escravizar o trabalhador e não para garantir-lhe direitos.

O tempo passou e as relações de trabalho foram mudando. A luta dos trabalhadores conseguiu avançar muito na discussão dos processos de controle e, hoje, em pleno século XXI, apesar de o nível de exploração continuar tão alto como no século XIX, já se pode vislumbrar algumas mudanças significativas na relação trabalho x tempo. As negociações entre patrões e empregados conseguiram, em muitos casos, estabelecer acordos importantes nessa área. O tipo de trabalho específico de determinadas categorias também permitem que o tempo possa ser trabalhado com flexibilidade, sem prejuízo para a produção.

Agora, o governo decide lançar uma portaria que nada mais é do que uma grande “mão-na-roda” para os empresários que produzem equipamentos eletrônicos, particularmente relógios. Mais uma vez interferindo nas relações do capital x trabalho pró-capital, o governo torna obrigatório o uso do relógio-ponto eletrônico em todas as empresas do país. A alegação é até singela. Serviria para melhor controlar a exploração a que são submetidos os trabalhadores que cumprem jornadas de sobretrabalho. E, em tese, parece ser para proteger o trabalhador. Mas, com uma análise mais apurada, já se pode perceber que essa medida é um tremendo retrocesso nas relações de produção, um retorno ao início da revolução industrial.

Marx já mostrou desde há muito tempo que no sistema capitalista não há meio termo nas relações de trabalho. Elas sempre são de exploração do trabalhador. Não importa quão bonzinho possa ser o empresário, todo o seu objetivo é voltado para o lucro, e este lucro só pode ser garantido com a mais-valia do trabalhador, ou seja, com a sua exploração. Não há formas de mudar isso, a não ser mudando o sistema todo. O que os trabalhadores conseguem, no mais das vezes, dentro do capitalismo, é afrouxar um pouco a corda, e esse tem sido o papel dos sindicatos desde o início da sua existência. Lutar contra o capital para dar um pouco de conforto ao trabalhador, permitindo que ele não seja “tão” explorado. Mas a exploração segue, ora maior, ora menor, pois é da natureza do capital.

O processo de luta pela redução das horas trabalhadas faz parte deste contexto. Com os avanços tecnológicos, os trabalhadores conseguem produzir o mesmo, senão mais, em menos horas trabalhadas, daí a grande batalha que tem sido travada pelas 30 horas semanais. Seis horas de trabalho por dia garantem, com folga, uma boa produção e ainda o lucro do patrão. Ou seja, a exploração continua, mas o trabalhador poderia dispor de um tempo livre através do qual cuidaria da família, curtiria um lazer, estudaria etc...

Mas, apesar dessa luta ter se espalhado pelo planeta, ao que parece, governos e patrões sequer tomam conhecimento da mesma. Então, voltar a coisas tão antigas como o controle dos trabalhadores via relógio, agora eletrônico, só mostra que muito pouca coisa avançou no mundo do trabalho.

O relógio-ponto no serviço público

As idéias “bem-intencionadas” do governo para proteger os trabalhadores, não bastassem estar gerando crise no mundo do trabalho privado, também já aparecem na esfera pública. A Universidade Federal de Santa Catarina, querendo ser mais real que o rei, decidiu “sair na frente” e impor o relógio-ponto eletrônico aos seus trabalhadores. Tal e qual o governo, os dirigentes universitários dizem que é para o bem dos trabalhadores, para trazer isonomia num ambiente onde muitos trabalhadores não cumprem a jornadas de trabalho. Os argumentos, pífios, só conseguem mostra uma profunda incompetência administrativa.
Na verdade, ao se aprofundar nas diretivas da medida da UFSC, percebe-se que a proposta de controle eletrônico muda tudo, para que tudo continue como está. Diz o reitor Álvaro Prata que os trabalhadores com cargo de chefia não estarão submetidos ao ponto. E não é de estranhar, já que nesta gestão foram criados dezenas de cargos, todos estratégicos, para consolidar o velho esquema de poder que vige na UFSC desde há 50 anos. A lógica é sempre a mesma. Coloca-se um pouco de poder na mão de um pequeno exército e estes “empoderados” garantem a continuidade das políticas conservadoras da universidade. Para se ter uma idéia, nestes 50 anos de existência, a UFSC teve um único sopro de democracia, no curto período do mandato de Diomário Queiróz, e ainda assim, o conservadorismo não permitiu grandes arroubos.

Agora, na gestão de Álvaro Prata, chega-se a essa situação: implantação de relógio-ponto, retrocesso medieval, para que o grupo político que se perpetua no poder siga dominando através do segundo escalão que ficará livre do elemento escravizante. Aos demais trabalhadores, sobrará a lógica privada de produção, talvez um ensaio para a privatização que segue vindo a galope nas universidades brasileiras. O reitor (que vem da área da produção), quem sabe, esteja querendo entrar para a história como aquele que abriu caminho para o processo de produção privada dentro da UFSC.

Os trabalhadores da universidade tem um fazer muito específico, completamente diferente de uma fábrica. Eles não estão submetidos a processos de produção que exijam contagem de tempo limitante. Estes trabalhadores mexem com o trabalho imaterial. Fazem pesquisa, atuam na extensão, auxiliam nas atividades do ensino. É toda uma dinâmica bastante diferente de uma produção mecânica e, mesmo essa, como já vimos, com as novas tecnologias, tampouco precisariam deste controle proposto pelo estado.

Ninguém nega que é preciso controlar a assiduidade dos trabalhadores, afinal, o serviço público é de fundamental importância para a comunidade e nada pode justificar que alguma atividade não seja oferecida à população. Mas os trabalhadores tem propostas para isso e não é de hoje. Estas propostas estão continuamente na mesa dos dirigentes, e são eficazes e exeqüíveis. No caso da UFSC, desde 2003 que os trabalhadores apresentam a proposta de seis horas de jornada, com garantia de atendimento de 12 horas ininterruptas. Chegando a alguns casos ao total de 18h, considerando os cursos que funcionam também à noite. Eles propõem que os nomes dos trabalhadores de turno sejam afixados nos locais de trabalho para que o público possa cobrar em caso de ausência. Além disso, existem os trabalhadores que exercem atividades de campo, cujas horas também devem ser de conhecimento público, portanto, tudo muito definido, sem possibilidades de falha, salvos as eventuais, humanas.

Assim, segue a velha luta dos trabalhadores contra aqueles que insistem na exploração. No setor privado é a mesma luta capital x trabalho, mas, no serviço público, o que seria o motor de administradores de plantão? Essa é uma pergunta que exige resposta! No caso da UFSC não é difícil de chegar a uma conclusão. A medida do relógio-ponto é excludente, discriminatória e reforça os mecanismos de controle dos trabalhadores, e não é do horário, é do controle mesmo, político. É só uma forma “mais moderna” de manter sob o cabresto os técnico-adminsitrativos, já que os professores estão fora deste mecanismo do relógio-ponto. Ou seja, na UFSC, é o mais do mesmo. As mesmas velhas práticas truculentas e predatórias, só que revestidas de um caráter de “modernidade”.

Outra pergunta que fica no ar é sobre a reação dos trabalhadores? O que farão? Como está se posicionando a CUT, as demais centrais, os sindicatos? Na UFSC os trabalhadores estão se mobilizando por conta própria, em ações nos centros. Começou agora e pode se transformar numa onda gigante. Há que esperar. A apatia ainda é um grande entrave, mas, quem sabe, quando setembro chegar...