quarta-feira, 21 de julho de 2010
Até quando o mundo calará?
domingo, 18 de julho de 2010
Derrubaram o Bar do Chico, mas ele voltará!...
No raiar da manhã de uma sexta-feira de muito frio vieram os homens e as máquinas. Não avisaram ninguém. Em minutos, derrubaram o Bar do Chico, ponto cultural da comunidade do Campeche, que está na praia desde 1981. Lugar que é reconhecido pelas pessoas que vivem no bairro como espaço coletivo de encontro e lazer. É, porque o Campeche, até hoje, sequer um praça tem. Os espaços coletivos são os que a própria comunidade cria e o Bar do Chico era um deles.
Seu Chico é um homem simples, pescador, que nasceu e viveu toda sua vida no Campeche. Do mar, tirou o sustento dos 13 filhos que criou. Mas, quando no início dos anos 80, os barcos industriais começaram a varrer o mar, tirando o pão da boca dos pescadores artesanais, ele precisou se virar. Naqueles dias não havia quase nada no Campeche, a não ser os ranchos de pesca que acolhiam as canoas e os homens. Então, do rancho nasceu o bar e, logo em seguida, o lugar virou o coração do Campeche.
O Bar do Chico estava na beira da praia, feito de madeira e palha. Lugar simplesinho, como Chico. Não havia cercas, era território liberado para as famílias que vinham à praia, para as crianças pegarem uma sombra, para o uso gratuito do banheiro nestes tempos em que se paga para tudo. No bar do Chico as gentes celebravam o começo do ano, o meio do ano, a chegada do verão, da primavera, das tainhas, o carnaval. Era a praça coletiva.
Então, deu que o filho do Chico, Lázaro, se fez vereador. Homem sério, decidido, resoluto, do lado dos empobrecidos, dos sem casa, sem terra, sem nada. Incomodou demais. Angariou inimigos. Sem ter como atingi-lo, os políticos que se acham donos da cidade, decidiram se vingar no pai. Começou a perseguição ao Bar do Chico. A alegação é de que o mesmo estava construído nas dunas e isso não podia ser. Mas, por outro lado, por toda a parte, as dunas do Campeche iam sendo tomadas e não havia ninguém querendo destruir nada. Só o Bar do Chico.
É que o Campeche é um bairro chato demais. Aqui as pessoas participam da vida da cidade, elas fazem reuniões, brigam com a prefeitura, apresentam propostas, não aceitam a especulação, enfrentam empresários, fazem o diabo. As gentes do Campeche são incomodativas demais. Então, precisava um baque, um golpe só, para quebrar a espinha, a alma forte das famílias pescadoras.
Por quase vinte anos pairou a ameaça de derrubada. Mas, o povo nunca permitiu. Quando se anunciava a vinda, lá estava a comunidade, vigiando. Então, nesta sexta, vieram sem aviso. E quebraram a espinha do Campeche. Na manhã de sábado, na sede da Rádio Comunitária, as pessoas chegavam aos borbotões. Vinham chorando, indignadas, iradas, resolutas, aquilo não ficaria assim. Ninguém estava imóvel. O golpe não vingara. Não se quebrara a espinha, não se destruíra a alma. Pelo contrário. O que assomava era a velha e renovada força popular. “Reconstruiremos!”, diziam...
O Bar do Chico caiu. E todos sabem por quê. Por outro lado, enquanto a tal da “justiça” cristaliza uma vingança em cima de um homem velho e de uma comunidade guerreira, a Casan (estatal que cuida da água e do esgoto) premia os invasores privados das dunas com a passagem de rede de esgoto nas suas casas. O mesmo estado que derruba o espaço comunitário e livre do Campeche, é o que arranca 16 milhões de reais dos cofres públicos para construir um molhe na Praia da Armação, unicamente para salvar as propriedades privadas de famílias que invadiram a beira do mar. A justiça que derruba o coração do Campeche é a mesma que permite que o famoso jogador de tênis, Guga, desfrute privadamente das dunas e da praia do Campeche. A prefeitura derruba o Bar do Chico ao mesmo tempo em que libera a construção de casas no Morro do Lampião. Ou seja, para os ricos tudo, para as comunidades nada.
O que aconteceu nesta sexta-feira no Campeche não é nada de novo. É o estado e a justiça, instrumentos de uma classe, usando seu poder sobre quem lhes incomoda. A prefeitura, incomodada com os entraves ao plano diretor que o Campeche sempre põe, quis dar uma lição às gentes. Um cala a boca. Não vai conseguir.
O povo do Campeche quer seu espaço de volta e vai reerguê-lo com as próprias mãos, a menos que cada casa, cada hotel, cada condomínio, cada espaço privado seja também demolido. Se não for assim, o Bar do Chico vai viver outra vez. Ah, vai...
E o primeiro momento de reconstrução acontece neste sábado, dia 24, a partir das três horas da tarde. O Campeche está convidando toda a cidade para vir ajudar. Aqui não vai acontecer como no poema, no qual eles vem, pisam o nosso jardim e ninguém diz nada. Aqui, quando alguém pisa no jardim do vizinho, as gentes se levantam. Hoje pisaram no jardim do Campeche. Pois vão conhecer a força do povo!
Ato Público: Dia 24 de julho. 15h. Em frente ao bar do Chico. Traga seus instrumentos de trabalho.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Pobres&Nojentas: cinco anos de compromisso com o outro, real
Outro dia, ouvindo a linda escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie falar sobre os perigos da história única e de como isso acaba criando ilusões sobre quem são os seres humanos que vivem em determinados espaços geográficos, tais quais os da periferia, me enchi de emoção ao verificar que nós, aqui no sul do mundo abiaiálico também caminhamos por estas veredas de narrar as vidas sob várias facetas, para que as pessoas possam saber que o humano é essa mistura de sombra e luz, como bem já ensinaram os orientais. Assim, compartilhando essa rica fala de Chimanda sob a necessidade de contar histórias sobre a vida real – eivada de suas contradições – reiteramos nosso compromisso de fazer da Pobres & Nojentas o espaço da vibrante aventura humana. Porque nosso propósito é mostrar nossas próprias caras, para que se possa viver a emoção igual a vivida no dia 28 de junho de 2010, quando a revista foi mostrada ao povo hondurenho via canal de televisão, tal como narra a jornalista Míriam Santini de Abreu, co-editora da P&N. “Quando Globo TV Honduras apresentava as imagens do dia no seu programa Interpretando a Notícia, conduzido pelos jornalistas David Romero Ellner e Héctor Amador, o jornalista Rony Martínez que nos visitou em março aqui em Desterro, tomou conta do programa e disse: `- Agora vou apresentar o número da Revista Pobres & Nojentas de Brasil, especialmente feito para destacar a Resistência Hondurenha naquele país. Olhem-se aqui companheiros jornalistas. Estas fotos trazem nossa história. Aqui estão os homens e mulheres da Resistência em Honduras, e os homens e mulheres que nos receberam e são nossa família lá em Florianópolis`.
Rony Martínez pediu um primeiro plano e foi mostrando e comentando página por página, toda a Pobrinhas que se unia naquele momento, em “pleno corpo físico” à Resistência Catracha. Os jornalistas que lá se encontraram, fotografados pelo colega hondurenho Ronnie Huete Salgado, se emocionaram muito e o colega Raul Fitipaldi que estava em sua casa da Ilha assistindo a emissão via internet também. Era a Pobrinha cumprindo seu papel de integrar e integrar-se cada vez mais profundamente à luta dos povos oprimidos.
Os nomes da Elaine, Míriam, Rosângela, Celso e Raul soaram musicalmente na dicção privilegiada do jornalista hondurenho que deixou saudades, junto com Ronnie Huete Salgado, entre nós, aqui na Ilha. Ficou linda a Pobres na TV de Honduras, andando passo a passo com a Resistência, marchando junto ao Povo Hondurenho a um ano do Golpe!”
Agora, o número 23 da Pobres chega com a recuperação da preciosa história de luta dos estudantes e do povo florianopolitano por um transporte urbano digno, mostra o triste destino de quem não respeita a natureza, a corajosa vida de Antônio, da Novo Horizonte e revela a criação de uma rede de comunicação popular em Santa Catarina.
A vida e seu movimento, o povo em luta. Ah, essa beleza que nos toca viver, de sermos jornalistas e podermos narrar a caminhada da raça, sem cair na lógica do “nkali” (o que quer ser maior do que o outro), como lembra Chimamanda. Mas esse insaciável desejo de compartir, como dizem os compas de língua hispânica. Na Pobres vive o jornalismo e vive o compromisso ético de não permitir a história única.
Abaixo, o enlace para o vídeo onde a escritora nigeriana Chimamanda faz ecoar, tal como nós, o compromisso com a beleza do humano. (Para ter a tradução clique em View Subtitles e marque "português")
terça-feira, 13 de julho de 2010
Outros olhares sobre a manifestação grega
O homem velho arrastava um enorme carro cheio de várias qualidades de sementes. Levava para o meio da passeata, pois ali teria cliente certo. Os gregos gostam de beliscar típicas sementes salgadinhas e outros salgados que não consegui identificar. A caminhada e as palavras de ordem não pareciam afetá-lo. Estava ali apenas para ganhar um dinheirinho. Como ele, também desfilavam imigrantes paquistaneses e indianos, vendendo água. Da mesma forma como o homem do carroção das sementes, eles passavam com as caixas cheias daquele líquido precioso, no calorão da manhã, sem se afetar. Já os negros, vindos de lugares como a Somália, Nigéria e outros pontos da África, apareciam com enormes sacolas e espalhavam as mercadorias em alguma esquina, prontos a venderem carteiras ou óculos de sol, no melhor estilo dos nossos ambulantes. É que os imigrantes aqui na Grécia parecem ser os mais pobres entre os pobres. A eles não lhes toca a crise, pois é em crise que vivem desde que saíram de seus países para tentar uma vida nova na boa Elenika. Dizem os governantes que a terra dos filósofos é uma excelente porta de entrada para essas pessoas,cujo sonho é chegar à Europa rica, por isso eles são vistos ao borbotões, assim como também são perseguidos. Num dia em que Atenas praticamente parou, sem transporte público de nenhuma natureza, sem comércio aberto, nem nada, apenas os negócios de lata ficaram abertos e seus donos estavam bem felizes, igualmente vendendo água, chocolates e biscoitos. Esses negócios são espécies de quiosques, feitos de lata, existentes a cada cem metros. Vendem essas coisinhas que não competem com os comerciantes mais abastados. Eles também reclamam da crise, pois os turistas, seus mais frequentes fregueses, diminuíram muito na Grécia desde o ano passado, quando começou a crise. Raros são os ambulantes no centro da cidade. Em compensação, os mendigos abundam. Muitos são homens jovens, que não encontram trabalho, e ficam a perambular pelas ruas. Também encontrei algumas senhoras, muito velhinhas, que chegam a andar curvadas, com suas mãozinhas enrugadas estendidas. Cena triste demais. Já entre os trabalhadores que se manifestaram na greve geral ficava bem claro o número expressivo de jovens. Na caminhada das centrais sindicais GSEE e ADEDY e do Partido Comunista, eles eram os mais firmes no grito de ordem e na animação. Ninguém ali parecia derrotado, embora o parlamento tivesse votado no dia anterior pela reforma das aposentadorias. “Os direitos fundamentais não se apagam quando uma lei é aprovada. A luta por aqui vai continuar”, afirmavam. Também não havia choramingação em torno do fato de que o governo que aprovou esta lei e outras tantas medidas de arrocho seja um governo socialista. “As coisas são assim. Eles mudam e a gente luta. Se a gente continua, eles caem”. Para os trabalhadores gregos não há qualquer sentido no plano de ajuda do FMI. Os grupos econômicos que viabilizarão o empréstimo de mais de 100 milhões de dólares são os mesmos que são credores da Grécia. Ou seja, o dinheiro entra na Grécia e logo volta para as mãos de quem emprestou, uma vez que o principal ponto da crise é justamente a dívida que o governo tem com os bancos estrangeiros. “Os ricos que paguem a conta”, este é o grito de guerra dos que saíram às ruas neste dia 8 de julho. Segundo eles, o tal ajuste, só ajusta a vida dos que sempre tiraram o escalpo do povo: os bancos. As medidas tiram 15% dos salários dos funcionários públicos, congelam as atuais aposentadorias e aumentam tempo e contribuição e idade para se aposentar. Algo muito parecido com o que aconteceu no Brasil em 2003. A mídia eletrônica grega também nos apresenta uma sensação de estar em casa. Tirando a língua, absolutamente incompreensível para quem não a conhece, o resto é uma cópia do modelo CCN de fazer jornalismo. No dia da greve, por exemplo, parecia que era outro país que passava na TV. Poucas foram as notícias sobre a mobilização e as que apareceram vinham desconectadas, sem que o espectador pudesse compreender a totalidade dos fatos. Além disso, muitas são as matérias com governantes e legisladores afirmando que estas medidas são fundamentais para salvar a Grécia, o que leva uma boa parcela da população no bico. Exemplo disso foi uma furiosa briga entre dois homens no trajeto da passeata. Um deles, irritado com a mobilização, começou a xingar, e um outro parou para argumentar. Ali ficaram por vários minutos a gritar um com o outro. Nenhum se convenceu. “Essa gente quer a derrocada da Grécia”, insistia o homem na calçada. Outro deja vu. Já os que seguiam pela rua bradavam que é o capitalismo o único culpado por tudo o que acontece, e não eles, os trabalhadores. “Os ricos que paguem”, insistiam. Patrícia, uma brasileira que vive há 19 anos na Grécia, também não estava muito satisfeita com a greve. “Isso afasta os turistas”. Ela disse que desde que começaram as mobilizações os estrangeiros preferem ir para a Turquia, afetando assim toda uma rede de trabalho que vive do turismo. Ela conta que realmente as coisas estão bem ruins, pois o governo tem jogado a conta nas costas dos trabalhadores. “Os taxistas, por exemplo, estão tendo de pagar mais imposto e precisaram aumentar a bandeirada. Isso diminui os lucros deles. Tem gente que já não está mais conseguindo sustentar a família”. Mas ainda assim Patrícia parece não aprovar as passeatas e greves. Na Grécia o salário mínimo valia 650 euros, e agora baixou para 550, uma perda amarga para os que vivem na barra da miséria. Para se ter uma ideia, um lanchinho básico, com pão e café, não sai por menos de 8 euros. A passagem de ônibus custa 1 euro, e uma olhada nas vitrines que se apresentam, iluminadas, revela que um sapato comum custa 50 euros. Tudo está muito caro para o grego comum. O dono de uma destas bodegas de lata, místico, fala que tudo começou a ficar pior na Grécia quando o governo decidiu abandonar a moeda histórica, o dracma, a mais antiga em circulação no mundo. Com a entrada da Grécia na União Europeia, essa foi uma exigência: adotar o euro. “Nossa moeda estava aqui desde os tempos antigos, fazia parte da nossa identidade. Sem ela, fomos ruindo”. O dracma foi criado ainda no tempo das cidades-estado, antes de Cristo, e eram medidas de pagamento. A versão moderna apareceu em 1833, com a independência, e foi usada até 2002, quando finalmente a Grécia entrou na zona do euro. Agora, com a crise, já tem economista falando que o país terá de renunciar ao euro. Mais um golpe. Nem euro, nem dracma. Que a grande Atena possa proteger seu povo. O dia de greve geral acabou em clima de melancolia. Mesmo na alegre Plaka, um espaço de bares e lojas típicas, os turistas pareciam estar mais quietos, num reverente respeito ao povo que saiu pelas ruas durante o dia todo. Apenas um garotinho, tocando uma típica guitarra grega, cantava sem parar. Mas, ainda assim, seu canto não tinha alegria. Parecia mais um dolorido lamento. Só um pequeno grupo de jovens vestidos com camisetas que estampavam Che Guevara parecia estar bem. Eles atravessavam a rua com um riso bonito na cara, jeito de quem havia cumprida a missão. “Os ricos que paguem”, falei em grego macarrônico. Eles fizeram o sinal de positivo e se perderam nas ruazinhas do bairro. Lá de cima do Partenon, os deuses também sorriram. |
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Trabalhadores gregos estao nas ruas
A Grecia parou!
Ja de manha bem cedo era possivel ver os grupos de soldados se posicionando pelas ruas da cidade. Em pequenos grupos eles tomavam as principais saidas da area central, onde se concentrariam as manifestacoes. A partir das nove horas da manha, quando no Brasil todo mundo ainda dormia, em Atenas as gentes iam saindo, devagar, de suas casas, em direcao as pracas onde estavam concentradas as centrais sindicais, o partido comunista e outros sindicatos menores, independentes.
Com bandeiras, faixas gigantes e os tradicionais apetrechos de passeata, o qual o mais tipico eh um enorme porrete que serve de mastro de bandeira, mas que tambem pode ser usado na hora de se defender da policia, assim como as mascaras contra gas, o povo foi se concentrando aqui e ali. Logo, eram milhares. Comicios, palavras de ordem, caminhadas pelas ruas, tudo era motivo para chamar quem ainda nao tinha vindo.
Quando chegou a hora do meio dia, o centro da cidade, onde esta a sede do parlamento ja estava tomado. A impressao era de que toda a cidade ali estava. Velhos, criancas, muitos jovens e ate cachorros somavam-se aquele rio humano que ia varrendo cada rua. Na sede do parlamento, a cena que eh igual em todo o planeta. Centenas de policiais, armados ateh os dentes, impedindo a passagem do povo.
O sol, a esta hora, em Atenas, eh de matar qualquer um. Mas ninguem na multidao pretendia arredar pe. O dia inteiro acontecem caminhadas e manifestacoes. No final da tarde, um grande ato encerra o dia de greve geral. Ate o inicio da tarde, tudo caminhava tranquilo. A adesao em massa mostra que por aqui ninguem esta de brincadeira. Se as medidas vierem contra os trabalhadores eles saberao como reagir.
Veja o video da caminhada da manha.
(seguimos sem acentos e sem cedilha, por conta do teclado que nao configura em portugues...)