sexta-feira, 2 de julho de 2010

Com Vicki Peláez, hoje mais que nunca


Por Dante Castro - Peru
A jornalista Vicki Peláez foi quem revolucionou a reportagem de rua na televisão peruana. Começavam os turbulentos anos 80 e, a imprensa devolvida aos seus proprietários, mais o retorno à democracia representativa, sacudiram as ataduras impostas aos meios pela ditadura militar de Morales Bermúdez. A propriedade dos meios de comunicação estava com a gente da direita, mas os jornalistas eram quase todos de esquerda. Das escolas de jornalismo saiam profissionais identificados com os interesses do povo (agora não mais). E, entre eles se destacou a cusquenha Vicki, com suficiente audácia para baixar até as portas do inferno se fosse necessário.

Uma tarde, ao final do segundo governo de Belaúnde, ela foi seqüestrada por um comando do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA)e o preço de sua libertação foi que o Canal 2 passasse a reportagem completa em nível nacional. O MRTA anunciava o início de sua campanha guerrilheira com a recuperação da espada e da bandeira original do libertador José de San Martín. Os encapuzados, portando moderno armamento de guerra, rodeavam a Vicki Peláez e informavam aos telespectadores sobre o programa tupacamarista.

Quando Vicki foi libertada pelos seus captores, os serviços de inteligência, muito mais desorientados que os de hoje, começaram a seguir a jornalista e a gravar sua vida, com a intenção de mostrar sua cumplicidade com o MRTA. Todos os que conheciam a Vicki, sabíamos que essa não era sua posição política. Pois ela teve de mudar-se para outras terras e buscar outros climas onde exercer o jornalismo crítico e de investigação sem ser perseguida. Foi assim que chegou aos Estados Unidos, não para se aliar aos ianques, mas para manifestar sua posição inamovível frente a toda injustiça, venha de onde vier.(Isso tem de ser bem esclarecido porque não podemos permitir que qualquer desorientado, torpe e ignorante, tire por conclusão que por estar Vicki nos EUA e trabalhar num jornal de lá, tenha se vendido ao imperialismo. Isso não é assim).

Encontramos-nos em 1992 fazendo curso de pós-graduação em Literatura Latino-Americ
ana, em Havana, Cuba. Contei a ela que já conhecia seu marido Juancho Lázaro, porque havíamos praticado karatê no dojo Zen Bu Kan, por vários anos, sob a direção de Koichi Kokubo. E também lhe contei que nesse mesmo dojo praticava karatê junto com a gente, um silencioso advogado que depois identificamos como sendo Vladimiro Montesinos. Rimos muito destas causalidades da vida.

A intenção de Vicki em Havana não era só estudar literatura, mas também buscar a cura para um câncer do qual padecia sua irmã. Nunca cheguei a saber se tudo deu certo. Espero que sim. Isso é para que fique claro que ela não foi à Cuba para aceitar ser espiã.

Vicki já trabalhava como jornalista num diário de Nova Iorque onde naturalmente não imperava uma linha de esquerda, mas onde havia um certo clima pluralista. Lá, ela criticou duramente o bloqueio anticubano, apesar de dividir espaço no mesmo jornal com jornalistas de opinião diferente. Seus artigos e investigações sempre colocaram a descoberto as manobras belicistas dos falcões ianques, denunciavam as violações de direitos humanos e destapavam casos de corrupção.

Uma das vezes em que retornou ao Peru, foi me visitar na revista Caretas, onde eu trabalhava. Tomamos sorvete de lúcuma (coisa que não existe em Nova Iorque), recordamos a nossa esta em Havana e ela me deu várias pistas a seguir de escândalos de corrupção em Lima, e me falou sobre como se vão embora os lucros que se obtêm com o turismo em Cuzco. Graças a ela entrevistei o presidente regional e constatei todos os fatos. Foi o meu artigo da semana.

Anos mais tarde, uma amiga de São Marcos quis ir trabalhar nos EUA como jornalista, já havia exercido a profissão em Lima e queria alçar novos vôos. Recomendei que visitasse Vicki Peláez em Nova Iorque. Um mês depois me disse que Vicki já tinha lhe apresentado aos seus diretores e ela estava trabalhando no mesmo diário. Não aconteceu o mesmo comigo porque, no meu caso, a recomendação tinha de ser feita por um cubano emigrado aos EUA, e como faria qualquer cubano exilado, ele não me aprovou.

Eu não andava muito bem por aqui. Era os dias em que o general Miyashiro difundiu a calúnia de que Dante Castro, igual que seus amigos, era membro das FARC no Peru. A revista Caretas, onde eu trabalhava, não me demitiu, mas nunca mais voltaram a me dar uma página ou comissões. Sem poder responder a Miyashiro, optei por me demitir voluntariamente. Mas, isso não importa, e sim o que acontece hoje com Vicki.

Hoje a estão processando nos EUA, acusada de espiã russa. Nada mais absurdo. Esse teatro foi montado pelos serviços de inteligência estadunidense, a CIA e o FBI, para calar uma das vozes mais críticas da imprensa escrita de Nova Iorque. Essa montagem reciclada da guerra fria e dos tribunais macartistas está sendo armado bem diante do nariz do “simpático” e "democrático" Barack Obama.

Suspeito eu que depois de fazerem toda uma campanha de desqualificação em público, lhe pedirão desculpas em privado e a mandarão para fora dos Estados Unidos. Isso deve começar hoje com a audiência pública na qual serão lidas as acusações e mostradas as “provas”. Advirto que nenhuma prova tem peso suficiente e tudo se reduz a suposições. Não há nada mais distante para Vicki que a Rússia pós-soviética, assim como há 20 anos também era distante para Vicki a Rússia soviética. Ou seja, não há nada com os russos.

Os jornalistas peruanos – e latino-americanos - deveriam demonstrar indignação por esse macabro espetáculo e fazer manifestações em favor da dignidade da nossa colega. Parece que muitos ainda tem dúvidas e acreditam que o FBI não se equivoca e que, como Deus, está sempre fazendo o que é certo. Será por isso que ninguém por aqui se manifestou contra a captura de Vicki e de seu esposo Juancho. A um acusado se presume inocência, assim ensina o jornalismo. Por isso, não podemos condenar, com nosso silêncio cúmplice, a uma vítima do imperialismo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quando o “menor” não é meu

A cidade de Florianópolis, no sul do Brasil, está estarrecida diante de algumas informações que chegam aos correios eletrônicos como se fosse um rastilho de pólvora. Uma garota de 13 anos, de um colégio de gente endinheirada, teria sido estuprada por colegas, praticamente da mesma idade. Um dos garotos seria filho de conhecido empresário, outro de um delegado. Uma carta de mães indignadas – que o colégio nega que sejam de lá – descreve a atrocidade com riqueza de detalhes. Nenhuma informação saíra na imprensa porque, dizem as mães, um dos estupradores é filho do dono de uma rede de comunicação. O jornal Diário Catarinense deu uma nota no dia 30 de junho, lacônica, divulgando o ocorrido, mas, alertando para o fato de que como todos são menores de idade o inquérito segue sob segredo de justiça. Nenhum nome, nenhuma informação a mais.

Muito bem. Corretíssima nota do DC. Quando são menores os envolvidos em crimes, não se divulgam nomes, não se publicam fotos. E mesmo se são maiores e não há flagrante, não se poderia divulgar porque haveria apenas uma presunção de crime. Os nomes só poderiam ser divulgados depois de as pessoas terem sido julgadas. E as fotos, só publicadas com a autorização do vivente. Mas, claro, isso só vale para os que conhecem a lei, no caso, os ricos, que podem ter bons advogados. Com os pobres, tudo é liberado.

Seria bom que o DC agisse assim em todos os casos que envolvessem adolescentes infratores. Seria bom que os jornais preservassem o direito dos menores, impedindo assim que eles ficassem marcados para o resto da vida por conta de alguma infração cometida nesta idade “tão problemática”. Mas ocorre que este debate está eivado de um recorte de classe. Quando são os pobres que cometem crimes, o que está implícito nos informes que nos chegam via TV ou jornal é de só poderiam acabar assim. “Não tem educação, não tem chances, estão fadados ao fracasso”. Como se isso fosse coisa natural. E não é assim. O prefeito Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, chegou ao absurdo de chamar as mulheres pobres e negras que vivem nos morros de “fábricas de marginal” porque, afinal, é de seus ventres que saem os filhos da pobreza.

Mas e quando quem comete um crime é um rico? Como a coisa anda? A primeira tese que se levanta é que a criatura deve ter algum problema mental. Vide o caso da loira que matou os pais, num fato que ficou semanas no ar. Pois é assim. Já se é um pé rapado quem mata os pais, aí está certo. É quase óbvio, é “da sua natureza”. Um juiz que rouba o INSS é protegido pela polícia federal. Jovens que matam um homossexual não tem seus nomes revelados para não terem seu futuro estragado. Não são menores, só ricos. Os canalhas que falsificam licenças ambientais, porque são empresários freqüentados por artistas e governadores são escoltados por agentes públicos, sem autorização para fotos. Depois, quando são soltos seguem suas vidas entre champanhes e festas. Nada os marca para sempre. Nada.

Agora este caso da garota violentada é mais um para esta triste estatística. Ficará em segredo de justiça para não manchar a vida dos garotos. Certamente haverão de se defender teses sobre graves problemas que teriam estes adolescentes, porque só isso poderia explicar tamanha infâmia, tamanha crueldade. Não é da natureza de jovens bem-nascidos cometerem atrocidades. Vamos lembrar os que queimaram o índio Galdino, hoje vivendo muito bem, em cargos públicos até. “Foi uma fatalidade”.

Ah! A hipocrisia burguesa! Todos os dias, em cada lugar deste mundão de deus os ricos estão violentando as gentes. De todas as formas. Parece ser da natureza de quem domina permanecer na impunidade. Por isso eles criam exércitos, milícias, leis, justiça. Porque estas coisas existem para eles, para proteção deles. É por isso que os gritos de “justiça, justiça” dos que estão à margem, fora do centro de poder, se perdem no vazio. A justiça é uma invenção dos poderosos para sua própria proteção. Só a eles serve. Vez em quando se dá uma vitória a um pobre para que o povo tenha a ilusão de que é possível confiar no sistema. Bobagem! Lei não é sinônimo de justiça.

Dou um exemplo de uma comunidade indígena dos Andes. Lá, se alguém viola o código da comunidade, é punido exemplarmente. O coletivo não pode ser maculado pela ação individual. A comunidade depende da harmonia. Se um homem mata outro ele não vai preso. Ele é obrigado a sustentar por toda a vida a sua família e a do outro que ele matou, vivendo essa vergonha para sempre. Porque um homem morto é um braço a menos na construção do coletivo. São regras simples, de comunidades simples.

No mundo capitalista a justiça é individual. Um homem morto é só um homem morto num universo de milhares de braços sobrantes. Uma peça, que é trocada, sem dor. Não há uma quebra no equilíbrio, porque é cada um por si. Por isso às famílias agredidas só resta chorar.

É o que ocorre agora, em Florianópolis, neste triste caso. A família da garota violada buscará justiça. Achará? O que devolve uma inocência perdida? O que recupera toda essa dor de nunca mais poder confiar em alguém? Como se retoma o equilíbrio numa sociedade medida pelo individualismo e pelo consumo? Quem se importa com essa dor? Haverá uma indignação momentânea e o caso cairá no esquecimento, como sempre é numa sociedade eternamente a espera do próximo espetáculo? Num estado dominado por um monopólio de comunicação, qual será a repercussão disso tudo?

Este é o estado da coisa. E deve ser pensado no seu todo. Os finos salões da burguesia também são capazes das coisas mais sórdidas. E não é por problema mental não. Só que aos poderosos tudo parece permitido. Até quando? Até que as gentes mudem este panorama, construindo uma outra sociedade que não esta, dominada pelo dinheiro de alguns. Porque hoje, aqui, neste modo de organizar a vida, a burguesia, por exemplo, pede histericamente a redução da idade penal para conter a violência cada dia maior. Mas, não é para todos. Isso vale apenas para quando o “menor” não é seu.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Estados Unidos prendem 10 supostos espiões russos, entre eles, uma jornalista


Por Eva Golinder - EUA

Na semana passada o presidente Barack Obama compartilhava uma típica comida "americana" com o presidente da Federação Russa, Dmitri Medvédev. Entre hambúrgueres e cocas-cola, os dois chefes de Estado sorriem e proclamam sua relação "estável" e "melhor do que nunca". Medvédev até enviou pelo Twitter as fotos de seu agradável almoço com o seu par estadunidense. Não esperava que, dias depois, a Guerra fria ressuscitasse.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a prisão de 10 supostos “espiões russos”, a maioria deles estadunidenses acusados de receberem financiamento do governo russo para executar operações de “inteligência”. Segundo o governo eles teria violado a lei FARA (Foreign Agent Registration Act–Ley, de Registro de Agentes Estrangeiros), que regula e monitora todos os cidadãos ou residentes estadunidenses que recebem financiamento de um governo estrangeiro para fins políticos ou propagandístico no país.

Até este momento, os dez prisioneiros não foram acusados de espionagem, mas sim de haver “conspirado para atuar como agentes estrangeiros sem estarem registrados sob a lei FARA".

Entre os detidos está uma jornalista de Nova Iorque, de origem peruana. Vicky Peláez escrevia para o jornal El Diario/La Prensa, periódico em idioma espanhol mais lido na Grande Maçã. Ela era uma das poucas jornalistas hispânicas que criticava a política de Washington para a América Latina, e buscava uma visão equilibrada nas suas reportagens sobre a Venezuela e outros países da região que normalmente são muito criticados pela imprensa estadunidense.

Até agora nenhuma organização internacional que defende jornalistas e a liberdade de expressão, como, por exemplo, o Comitê para Proteger os Jornalistas (CPJ), a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), ou os Repórteres Sem Fronteira (RSF) fizeram declarações sobre a prisão.

Peláez foi levada para a cadeia junto com o seu marido, Juan Lázaro, nativo do Uruguai, no último domingo em sua casa no bairro de Yonkers, arredores de Nova Iorque. Segundo o Departamento de Justiça, Peláez é acusada de ter recebido dinheiro de um representante do governo russo no dia 14 de janeiro de 2000, enquanto visitava um país da América do Sul. Supostamente, segundo a denúncia, o seu marido também recebeu um pacote de dinheiro de um agente russo no dia 25 de agosto de 2007. Segundo o expediente, "apenas dias depois de regressar a Nova Iorque, pagou quase 8 mil dólares em impostos que devia ao governo estadunidense”.

Então, recebeu ela dinheiro da Rússia para pagar seus impostos nos Estados Unidos?

O expediente entregue pelo Departamento de Justiça revela que a sede de inteligência russa em Moscou havia enviado uma mensagem a dois dos detidos. A mensagem dizia que sua missão principal era "buscar e desenvolver vínculos com os círculos políticos nos Estados Unidos”, e logo, enviar informes. Alta espionagem?

Agentes do FBI detiveram a Richard Murphy e Cynthia Murphy na residência do casal em Montclair, Nova Jersey, no domingo passado. Também foram presos Anna Chapman, em Manhattan; Michael Zottoli e Patricia Mills, em Arlington, Virginia; Mikhail Semenko, em Alexandria, Virginia; e Donald Howard Heathfield e Tracey Lee Ann Foley na sua casa em Boston. Estão ainda buscando um suspeito adicional, Christopher R. Metsos, que parece ter escapado.

Nove dos 10 detidos também foram imputados por “lavagem de dinheiro”.

Na semana passada, um documento publicado sobre uma agência estadunidense, National Endowment for Democracy (NED), revelou que entre 40 e 50 milhões de dólares foram entregues a grupos políticos na Venezuela, gente que se opõe ao governo de Hugo Chávez. Segundo informes divulgados desde 2002, distintas agências estadunidenses e europeias, como a USAID, NED, Freedom House, Departamento de Estado, Comisão Europeia e outras, financiaram partidos e grupos políticos na Venezuela para "acabar com o governo de Chávez", incluindo aí o golpe de estado em abril 2002.

Não obstante, quando o governo venezuelano acusou (mas não levou para a cadeia) grupos e indivíduos que recebiam estes fundos, de serem agentes estrangeiros, o governo estadunidense e as "defensoras" internacionais dos direitos humanos o acusaram de ser "ditatorial", "repressor" e "violador" dos direitos básicos dessas pessoas que recebem dinheiro de potências estrangeiras.

Na semana passada, o presidente Evo Morales, da Bolívia, também acusou a USAID de financiar atividades de desestabilização em seu país, alertando a Washington que sua agência estatal poderia ser expulsa do país andino.

Em Cuba, Alan Gross, um empregado de uma contratada da USAID, Development Alternatives Inc (DAI), foi detido em dezembro de 2009 e acusado de espionagem e subversão. Trazia equipamentos de satélite e de alta tecnologia ao país caribenho para entregar a grupos de contrarrevolução.

Na Venezuela, as agências internacionais parecem estar envolvidas em grandes redes de lavagem de dinheiro, junto com seus "sócios" venezuelanos. Entram com milhões de dólares em efetivo no país, sem fiscalização, para assim, fugirem do controle de câmbio de moeda estrangeira que existe na Venezuela, a fim de evitar atos ilícitos e fuga de capitais.

As leis eleitorais na Venezuela proíbem o financiamento externo de campanhas políticas no país. Não obstante, Washington viola as mesmas leis que procura respeitar no seu território.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lindo Elvis...

Encontrei no You Tube essa beleza de canção do velho Elvis...
In the Ghetto
Aí vai a tradução:
Enquanto a neve cai
Em uma fria e cinza manhã de Chicago
Um pobre pequeno bebê de uma criança nasce no gueto
E sua mãe chora
Porque se existe uma coisa de que ela não precisa
É de outra boca faminta para alimentar no gueto
Então pessoas, vocês não entendem que a criança precisa de uma mão solidária?
Ou ela crescerá para ser um jovem homem faminto um dia
Dê uma olhada em você e em mim, nós estamos tão cegos para enxergar?
Nós simplesmente viramos nossas caras e olhamos o outro lado?
Bem, o mundo gira
E um pobre pequeno garoto com um nariz escorrendo
Toca na rua enquanto o vento frio sopra no gueto
E sua fome apertaEntão ele começa a vagar nas ruas à noite
E ele aprende como roubar e ele aprende como lutar no gueto
Então uma noite em desespero um jovem homem desaparece
Ele compra uma arma, rouba um carro, tenta fugir mas ele não chega longe
E sua mãe chora
Enquanto uma multidão se amontoa em volta de um irritado jovem homem
Caído na rua com uma arma em suas mãos no gueto
E enquanto seu jovem homem morre
Em uma fria e cinza manhã de Chicago
Outro pobre pequeno bebê de criança nasce no Gueto
No gueto, no gueto


terça-feira, 22 de junho de 2010

Valor de uso, quê?...



Ali estava eu, enredada nos livros, tentando entender a diferença entre valor de uso e valor de troca. Marx, Engels, Ludovico Silva, Lenin, Rosa... A cabeça fervilhando em idéias. Então, do nada, ela foi escalando pelas minhas pernas. Nenhum respeito para com aqueles velhos parceiros que tentavam melhorar a minha compreensão sobre o mundo capitalista, predador.

Sem medida, ela foi mordendo meus dedos, arranhando o casaco, fincando as unhas na minha cara. Qualquer tentativa de deixá-la quietinha no colo era logo rechaçada com um movimento brusco, um pulo, uma desenfreada alegria. Era a gata que me tem, a Bartolina Sisa, bebezinho de pouco mais de dois meses. Pedaço de vida insuportavelmente alegre. Criança ainda, ela só quer brincar.

Então eu fiquei a pensar sobre o valor de um gato. Será valor de uso ou de troca? Terá alguma utilidade? “Esses bichos não servem pra nada”, me diz um amigo. Logo, não tem valor? Ela, alheia às elucubrações filosóficas que giravam na minha cabeça, só me olhava com seus olhos graúdos e me convidava à brincadeira. Nada de Lenin, nem de Marx. Só aquele saltitar inconsequente, infantil, alucinado. Corre aqui e ali, esconde-se sob a cadeira, pula no colo, sobe nos ombros, salta pela mesa, come os óculos, mastiga o cabelo e sai correndo. Mais um minuto e volta, e tudo de novo.

Impossível seguir estudando. Alguém ali exigia um tempo. Queria essa delícia do nada fazer, da risada cristalina, da inefável doçura, do tempo parado na alegria. As patinhas vez ou outra se transformando em afiadas garras ao estilo Wolverine. E esse jeito gato de ser, tão majestoso, tão cheio de si, tão imponderável.

Assim, em nome da Bartolina, dei um tempo ao velho Marx. Gato não tem valor, nem de uso, nem de troca. Gato é isso, pura graça. E graça no sentido teológico, como momento de absoluto encontro com o sagrado.


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estudantes de Porto Rico em luta pela universidade pública



Nestes tempos de Copa do Mundo, quando o planeta inteiro vira uma bola e as emissoras de televisão dão destaque aos mínimos fazeres dos craques do futebol, um pequeno país do Caribe, a menor das ilhas das Antilhas Maiores, vive um movimento de luta que já dura quase dois meses, mas permanece no silêncio da mídia. E não é para menos, Porto Rico é um pedaço de terra agregado dos Estados Unidos, um país dominado e subjugado, sem direito a gritar por liberdade, apesar de oficialmente chamar-se “estado livre associado”. Conquistado pela Espanha em 1493, o pequeno país foi ocupado militarmente pelos Estados Unidos em 1898, trocando de dono desde então. Porto Rico foi colônia até 1952, quando passou a ser considerado um estado autônomo, tendo direito inclusive a eleição de seus dirigentes. Essa “concessão” por parte dos Estados Unidos não aconteceu por bondade. Ela foi alavancada pela luta do povo que se levantou em rebelião no chamado “grito de Jayuya”. Por conta desta luta veio autonomia, mas ela existe só na aparência, uma vez que a moeda, a defesa, e as políticas de relações exteriores e comerciais de Porto Rico são totalmente comandadas pelos Estados Unidos.

A luta da gente de Porto Rico por independência nunca cessou. Vem desde os Tainos, povos originários que foram dizimados pelos espanhóis, e segue até hoje. Muitas foram as revoltas e revoluções, todas abafadas militarmente pela metrópole colonial. Os Estados Unidos realizaram vários plebiscitos para que a população escolhesse entre ser livre, permanecer como estado autônomo ou se integrar à nação estadunidense, sendo o último deles no ano de 1998. A maioria decidiu por permanecer como está, mas este resultado é contestado pelas gentes que lutam por libertação. “É preciso que se compreenda como se forma essa maioria, o poder financeiro que está por trás, a despolitização causada pela própria condição de colônia”. A velha Borinquen (nome originário que significa ilha do senhor valente), de 176 quilômetros de comprimento por 56 de largura, que foi uma das primeiras ilhas vistas por Cristóvão Colombo, volta e meia assoma em meio ao domínio estadunidense e as gentes se lembram quem são. Então ressurgem as lutas de libertação.

Os estudantes
Em todo o mundo os estudantes são quase sempre a ponta de lança nas revoltas e revoluções. Por estarem num ambiente de conhecimento e por possuírem a deliciosa rebeldia juvenil, eles abrem janelas nos muros escuros da opressão e saltam por elas, com suas bandeiras e utopias. Assim tem sido em Porto Rico desde que o país foi entregue aos Estados Unidos como despojo de guerra. Ocupado militarmente, Porto Rico precisou se levantar em muitas batalhas para defender sua cultura e sua história. E, quando os Estados Unidos tentaram imputar uma nova língua ao povo local em 1902, os estudantes disseram não. E resistiram no que ficou conhecido como “guerra da língua”. Até hoje o país mantém o espanhol como língua oficial por se entender mais para a América Latina do que para o norte. Hoje, são os estudantes universitários, outra vez, que escrevem mais uma página da história do pequeno país, numa greve memorável na qual reivindicam a autonomia para a universidade e lutam contra a privatização do ensino público.

No dia 21 de abril de 2010 os estudantes da Universidade de Porto Rico iniciaram uma greve contra uma nova lei que prepara a privatização da instituição, privando a universidade de recursos, assim como também a saúde, a cultura e a assistência social. Em pouco tempo, o que era só um movimento estudantil passou a ser uma luta nacional. Como se um grande dique de sonhos e esperanças estivesse se rompido as gentes começaram a identificar na luta particularista dos estudantes um projeto de nação. No grito contra a privatização e pela autonomia da universidade, também os estudantes foram percebendo que a questão era muito mais profunda e assomou, de novo, o desejo de liberdade popular.

A lei que levou os estudantes às ruas acabou por provocar o congelamento de salários dos trabalhadores públicos e também eles, mais de 15 mil, foram para as ruas defender seus direitos e os serviços públicos em geral. Como a população mais pobre depende dos serviços públicos no que diz respeito à educação, saúde e assistência social, o apoio às lutas dos trabalhadores e estudantes foi imediato. Já em 2005 os estudantes universitários tinham realizado greves, uma vez que o processo de privatização vem se fazendo devagar, como em quase toda América Latina, mas, este ano, as medidas do governo, reduzindo o orçamento e aumentando o valor das matrículas foram decisivas para outra explosão que, com a parceria dos trabalhadores, se transformou numa tormenta.

Já se vão quase dois meses e a luta segue firme em Porto Rico. E, como sempre acontece, a repressão tem sido violenta. Os estudantes fizeram greve de ocupação e o governo colocou a universidade sob sítio impedindo a entrada de água e alimentos. Mas, o povo, solidário, tem encontrado maneiras de fazer chegar a comida e a água. A medida de força levou o país a se levantar e sindicalistas, artistas, trabalhadores de todos os tipos realizam marchas, atos políticos, colocam o país em efervescência.

No mês de maio o governo ameaçou suspender o ano acadêmico e declarou que a UPR iria perder sua condição de universidade pública. Alegava que a greve era abusiva, ilegal e, por isso, endurecia na repressão e na criminalização dos estudantes. Como se pode notar, tudo muito igual, receita da cartilha neoliberal e entreguista bem comum aos governantes desta nossa América Latina. Mas, os estudantes não se intimidaram. Exigiam negociações e mantinham a greve. A mobilização popular tomava dimensões gigantescas e o governo teve de recuar, abrindo negociações. De qualquer forma há uma guerra midiática em curso. Na televisão porto-riquenha o governo e entidades empresariais gastam fortunas tentando convencer a população de que a greve na universidade é ruim para o país. Por outro lado, os estudantes, através da “Rádio Huelga” (http://radiohuelga.com/wordpress) buscam o diálogo com o povo, mostrando que quando as gentes estão unidas, podem vencer, como já aconteceu no final dos anos 90, quando mobilizações como essa tiraram as tropas estadunidenses da região de Vieques.

Hoje, na metade do mês de junho, a luta no campus de Río Piedras continua. Os estudantes que seguem acampados na UPR realizam atos, fazem formaturas simbólicas, criam hortas comunitárias, fazem limpeza, promovem teatro, chamam a população para visitar o campus, para que possa ver como é possível existir uma universidade autossustentada, autônoma, e livre para pensar a realidade nacional. As negociações seguem de maneira lenta, a universidade continua sitiada, a repressão recrudesce.

Os estudantes estão esperançosos com um novo mediador do conflito, o ex-juiz Pedro Lopez Oliver, que parece estar conseguido fazer avançar as conversas e pode até ser que nos próximos dias as coisas se resolvam, com o governo voltando atrás no aumento das taxas de matrícula e na retirada de orçamento da universidade e garantindo que nada será privatizado. Os grevistas também querem garantias de não punição uma vez que há ameaças de expulsão das lideranças. Só assim o movimento encerra.

Veja a fala dos estudantes numa mensagem ao país!

http://www.youtube.com/watch?v=ED03HiVzRd0





terça-feira, 15 de junho de 2010

O final de Lost


Eu gosto das coisas do mistério. Desde pequena. Enquanto minha mãe se enredava com os enigmas da fé cristã eu adentrava pelo fascinante mundo da ficção. Aprendi a ler muito cedo e com seis anos já devorava os livros que meu pai comprava por sentir pena dos vendedores que batiam à porta, naquele cantão perdido de mundo. Mal sabia ele que fazia bem a dois, ao vendedor e a mim, pois, com isso, descobri o mundo das letras. Os primeiros mistérios que minhas retinas abarcaram me pareciam incognoscíveis. Eram os mitos gregos. Não conseguia apreender a totalidade de toda aquela trama de homens e deuses, mas gostava. E, nas tardes quentes do verão gaucho, eu me escondia por trás dos móveis, nas viagens imaginárias aos portões de Hades (guardião do inferno grego).

Por conta disso, ficção e mistério sempre me atraíram. Discos voadores, mitos, seres de outro planeta, gênios, magos, feiticeiros, duendes, enfim, essa fileira de coisas encantadas e mágicas. Assim, não foi à toa que segui, capítulo a capítulo, a série Lost (perdidos), independentemente de reconhecer que era só mais um produto da indústria cultural. É que amo televisão, e tudo neste veículo me encanta, seja o que for. Quanto mais os mistérios...

Dia desses, depois de seis anos inteiros, a série chegou ao final. E eu, como todos os fãs, lá estava esperando a revelação de todos os mistérios da ilha maluca. Um final estranho, incrivelmente teológico. Os autores, querendo ou não, acabaram por oferecer ao público fiel, uma visão do paraíso. E eu, no dia seguinte, andava feito louca, querendo encontrar alguém com quem compartilhar aquela beleza toda que havia fruído na terça-feira final. Não encontrei. Ninguém do meu convívio havia acompanhado a trama. Restou ler os comentários na internet. Fiquei surpresa, poucos gostaram do final.

Eu, por meu lado, amei. A proposta dos autores foi reunir os personagens mais significativos num momento de pós-morte. Depois de viverem todas as aventuras mais doidas numa ilha que se movia loucamente no mar, depois de verem alguns deles morrer e outros se entregar a coisas igualmente malucas como vigiar uma fonte de luz, eles se reencontram todos numa espécie de festa. Aí descobrem que estão mortos. E que, por isso mesmo, estão juntos e felizes.

A cena final, que me levou às lágrimas, mostra um deles, Benjamin, o que havia sido o personagem mais complexo na sua paixão pela ilha, chegando ao ponto de matar até aos que amava, sentado num banco, sozinho, do lado de fora da festa. Os demais personagens vão chegando, de vários pontos da cidade, e vão entrando. Cada um deles, na sala festiva, encontra seu par, seu amor, seus amigos. É a revelação teológica de que, na morte, num determinado lugar – o céu? - nos reunimos com aqueles que amamos. Não importa o que aconteça, o tempo que passe, ao cruzar o umbral da vida, lá estarão os seres que só nos fazem bem.

Mas, o sofrido e complexo Benjamin, não quis entrar. Ele seguiu sozinho, observando a grande festa que principiava dentro da casa. Com os olhos fixos num ponto distante, ele se deixou ficar, representando, talvez, a opção pelo inferno. Nada de fogo, diabos ou gritos. Apenas a escolha deliberada pelo vazio das presenças amadas. Coisa triste demais.

O final de Lost deixou muitas dúvidas, não explicou dezenas de mistérios, mas, para mim, foi o suficiente. O maior dos enigmas se expressou... Morrer nunca é o fim, só se a gente quer!...