quarta-feira, 2 de junho de 2010

A última dos EUA

A secretária super-poderosa dos EUA, Hilary Clinton declarou ontem mais um dos absurdos perpetrados pelo seu país: disse que quem vai comandar a investigação sobre o que aconteceu nos barcos de ajuda humanitária à Palestina será, pasmem, o Estado de Israel. Ou seja, o governo que ordenou o ataque vai investigar. Mas investigar o quê? Que barbaridade é essa? Até quando vamos aturar esse crime?

terça-feira, 1 de junho de 2010

O terror de Israel extrapola suas fronteiras


Quando na segunda guerra mundial apareceram os rumores do que acontecia na Alemanha, o mundo calou. Levou tempo demais até que os governos de outros cantos se levantassem contra o que se passava de horror sob o domínio nazista. E, mesmo, assim, a intervenção só aconteceu quando o que estava em jogo era o domínio de outros países da Europa. Não foi, verdadeiramente, o massacre dos judeus e dos ciganos que levou ao repúdio do governo de Hitler. Foi sua audácia de dominação sobre os demais países da Europa. Penso eu, cá com meus botões, que se Hitler tivesse se mantido nas fronteiras da Alemanha, não haveria tanto repúdio às suas práticas de terror.

Hoje, assistimos ao estado de Israel repetir o circo dos horrores contra o povo palestino. Já se vão mais de 60 anos de violência, de opressão, de ataques assassinos. Desde 1948 o processo de dizimação do povo palestino acontece sob os olhos das câmeras, aparece sistematicamente na hora do jantar, nos jornais noturnos. E, no mais das vezes, a maioria das gentes olha, boceja, e o máximo que tem de reação é dizer: “essa guerra não termina!” E ponto final. Lá, naquele cantão esquecido do mundo, a porta de entrada do rico médio-oriente, seguem os palestinos resistindo com pedras e gritos de dor.

Hoje, segregados em campos de concentração, tal e qual ocorria com os judeus e ciganos nos campos nazistas, eles são humilhados, subjugados, tratados como não-seres. Chamados de terroristas quando se levantam em rebelião. E tudo o que querem é o direito de viverem em paz no seu próprio território. O mundo sabe muito bem que quando os Estados Unidos criou o estado de Israel, aquela não era uma terra sem povo. Milhares de famílias foram desalojadas, expulsas de suas casas, para dar lugar às colônias israelenses. E, depois, ao longo dos anos, sob o fogo dos canhões, Israel foi comendo o território até confinar as gentes palestinas em campos fechados por muros gigantes, que deveriam ser repudiados como uma vergonha mundial, tal qual foi o muro de Berlim durante tanto tempo. A pergunta que fica é: por que o chamado “mundo livre” não brada contra o muro da vergonha de Israel?

Pois, não satisfeitos em dizimar o povo palestino, Israel chegou ontem ao auge da violência e da perfídia. Foi capaz de atacar militarmente navios que seguiam para Gaza, levando ajuda humanitária. Soldados armados atacaram civis que poucos minutos antes haviam levantado uma bandeira branca. Mesmo nas guerras mais cruéis, todos os generais sabem o que isso significa. Mas, ao que parece, não Israel. Morreram pessoas comuns, tombadas pelas balas assassinas dos soldados israelense. Gente que se importava com o que se passa por detrás dos muros de Israel, que apenas se preocupava em levar comida, remédio e conforto a um povo acossado pela violência e pelo terror. Pois foram atacados de forma absurda, em águas internacionais, violando toda a sorte de tratados e acordos internacionais.

E aí? Cadê as sanções à Israel? O seu parceiro de atrocidades, os Estados Unidos, lamentou o ocorrido, mas não condenou. Vários países estão declarando condenação, mas o que isso de fato significa? Palavras ao vento! Quais as medidas reais a serem tomadas contra esse estado assassino que extrapola suas fronteiras, atacando civis?

Os argumentos que as redes de televisão oferecem são os mais absurdos possíveis. Um general israelense dizendo que só revidaram um ataque dos que estavam no navio. Mas, como isso? As pessoas, em alto mar, cercadas de água, fizeram o quê? Tinham mísseis? Arcabuzes? Facas voadoras? Que ataque poderiam fazer essas pessoas dentro de um navio a aviões de guerra? Vejam que é o mesmo argumento que usam para matar palestinos. Meninos de 12 anos, com pedras na mão, são “violentos terroristas” e ameaçam a vida dos soldados israelenses dentro dos tanques de ferro. É o paroxismo do terror.

Por todo o planeta gritam as gentes, como gritaram contra a invasão do Iraque, contra a invasão do Panamá, do Afeganistão. Gritam os que não tem poder. E lançam declarações os que tem poder. Cuba vive sob um bloqueio criminosos por parte dos Estados Unidos, porque decidiu ser livre e auto-determinada. Isso é crime?

O que aconteceu no mar alto nesta segunda-feira não pode ficar só no plano da condenação pela palavra. É preciso parar Israel. Este é um dos países mais fortemente armados do globo terrestre. Seu poder militar é fabuloso. Tem ainda o serviço secreto mais sanguinário do mundo. É um cântaro de destruição. A fonte de sua violência segue vertendo, como já dizia o grande Mahmud Darwish.

Há 60 anos Israel mata palestinos como se fossem moscas. Ontem matou nove cidadãos da paz. O mundo, enfim, se levanta. Agora, há que parar Israel. Ou isso, ou a barbárie vai se espalhar, saindo das fronteiras do terror. A história é boa mestra. Assim começaram as grandes guerras. Quando um governo, arvorado de dono do mundo, começa a sair de seus limites, abocanhando a vidas dos demais. Se o mundo, na sua maioria, pouco ligou para os palestinos que padecem desde há décadas, que, agora, com estes noves civis, gente da paz, de bandeira branca hasteada, possa se levantar e estancar a fonte do crime.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O monopólio midiático é uma invasão

Entrevista com Jilson Carlos Souza, da Agência Contestado de Notícias Populares, de Fraiburgo.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Nasce a Rede Popular Catarinense de Comunicação


Chove no meio-oeste catarinense, no mês de maio emburrado. O frio é de lascar. A cidade, que praticamente contorna as fábricas de papel, amanhece envolta na fumaça que nunca pára de sair das chaminés. O município, conhecido pela qualidade de suas maçãs, pode ser chamado também da cidade do pinus, pois, para cada lado que se olhe, lá estão eles, implacáveis, prontos a alimentar a boca gigante das fábricas, responsáveis pelo cheiro característico que toma o espaço todo. A região, que conta com outras cidades de médio porte como Caçador, Curitibanos, Três Barras e Joaçaba, é um campo de lutas importantes no âmbito fundiário. Coabitam grandes propriedades, assentamentos do MST, ricos fazendeiros e trabalhadores explorados.

Nos campos ainda reverbera a mais importante luta agrária deste chão catarina, que foi a batalha do Contestado, quando milhares de famílias decidiram construir outra forma de viver no mundo, em luta contra a invasão de suas terras pelos “donos do trem”. E, neste caldeirão de conflitos que ainda se explicitam, os movimentos populares precisam demandar muito esforço para se fazerem ouvir. Assim, é justamente no campo da comunicação que eles hoje travam uma feroz batalha. Por conta disso, aconteceu o Segundo Seminário de Comunicação e Cultura Popular do Contestado, organizado pela Agecon (Agência Contestado de Notícias Populares).

A história desta agência peculiar, que divulga notícias de toda a região, mas sempre com a mirada popular, é tão bonita quanto a luta deste povo guerreiro. Cansados de não terem lugar algum para se expressar, uma vez que as rádios e jornais locais são expressão da classe dominante, os movimentos populares locais começaram a pensar numa estratégia de unidade que permitisse dizer a palavra omitida pelos poderosos. Não foram poucos os debates e as reuniões pela região afora, nos invernos rigorosos e nas tardes escaldantes. Mas, finalmente, em 2007, no mês de agosto, nasceu o instrumento que viria balançar a estrutura de poder midiático na região: a Agência Contestado de Notícias Populares. Esta agência vinha robusta, alavancada por 18 organizações sociais, e apontava como propósito, ser um instrumento de luta para anunciar uma sociedade nova e um projeto popular para o Brasil.

Num dia de muito frio, no galpão de igreja, naquele 2007, as gentes se juntaram para um seminário. Havia desejos, sonhos, esperanças, mas eles não sabiam bem como tornar real a proposta. Foi preciso um dia inteiro de conversas com jornalistas amigos para que a coisa começasse a se esboçar. O desafio estava lançado e poucos meses depois a página da internet estava no ar. A pretensão era atingir umas 300 pessoas por mês, mas, passados 25 meses, já foram contabilizados mais de 40 mil acessos. Hoje, a agência é um pólo de difusão de tudo o que acontece na região, fazendo a ligação com as demais regiões do estado, do país e do mundo. Por enquanto, as notícias vem de agentes de comunicação popular, que se esforçam por repassar informações de toda ordem. Não há qualquer jornalista formado no projeto. Mas, a agência está aberta a todo tipo de colaboração. Ela segue o preceito da soberania comunicacional, na qual o povo, impedido de ocupar os espaços de expressão, cria o seu próprio lugar. “Os meios de comunicação não comunicam o que nos interessa, então nós mesmos fazemos nossa comunicação”, argumenta Jilson Carlos Souza, da Associação Paulo Freire de Educação Popular e um dos coordenadores da Agecon.

Os parceiros e a formação de uma rede popular

Os valentes herdeiros do povo do Contestado agora querem dar mais um passo na busca da soberania comunicacional e apostam na criação de uma rede popular de notícias, que permita as gentes de todo o estado se inteirarem sobre o que acontece em cada canto de Santa Catarina. A idéia é de que as experiências populares, tais qual a Agecon, possam se interligar e trocar informações, entrevistas, histórias etc..
E assim, aproveitando o lançamento de mais uma novidade na Agecon, que foi a entrada no ar da Rádio Web Cidadania, a Agência Contestado de Notícias Populares reuniu em Fraiburgo várias propostas de comunicação popular para concretizar a formação desta rede tão sonhada. Foi por conta deste chamado, que neste maio emburrado, em outro salão de igreja, numa manhã de frio cortante, o povo que produz a palavra livre se encontrou.

O primeiro a falar foi Anderson Engels, da Rádio Comunitária Fortaleza de Blumenau. Ele contou um pouco da história da criação da rádio, em 2002, ainda sob o comando do saudoso Adenilson Telles (jovem jornalista morto num acidente de carro, em 2006), da perseguição efetuada pela Polícia Federal que chegou a levar presos os locutores da rádio, em 2003, quando invadiram o espaço sob a alegação de que era uma “rádio pirata”. Falou do processo de recuperação dos equipamentos, da luta da comunidade do Bairro Fortaleza e dos sindicatos para reerguer a rádio e colocá-la no ar outra vez. Hoje, a rádio é uma referência em Blumenau e sua história de luta inspira outras tantas pelo estado afora. Anderson é ativista do movimento cultural da cidade e estuda jornalismo, mas sua ação na rádio se dá pela compreensão de que é o povo quem tem de assumir o comando da sua comunicação. A Fortaleza é mantida por um grupo de sindicatos de Blumenau e tem a completa confiança da comunidade que faz romaria para conhecer a rádio, hoje também transformada em espaço artístico-cultural, com suas paredes cobertas pela arte e seu microfone aberto à vida real.

Depois foi a vez de Edson de Lourenzo, da Rádio Livre Cidade Santa do Taquaruçu, uma experiência bonita de rádio no meio rural. Na pequena comunidade de Taquaruçu de Cima, berço da luta do Contestado, 52 famílias fizeram nascer esta rádio, com sua antena presa a um Taquaruçu, pendurado a uma araucária, para simbolizar a resistência cultural, histórica e ambiental. A manutenção da rádio é feita pela própria comunidade que se reveza no pagamento da luz. Ali, durante a programação que é tocada por nove pessoas, se registra a história do povo local, os costumes, a música. A rádio existe desde 2007, quando o povo decidiu que se as rádios vizinhas não lhes davam espaço, eles iriam fazer acontecer. Hoje, além da rádio, eles mantêm o Jornal Taquaruçu que é distribuído em papel e por correio eletrônico. “Nossa rádio fica ali, no meio de um matinho, mas é gigante na capacidade de falar da nossa realidade. Não temos propaganda, tudo é bancado pela gente de Taquaruçu”, diz Edson.

Franciele Trautman contou a história da Rádio Comunitária Maria Rosa, uma das primeiras da região de Curitibanos. Ali, o povo também foi buscar na história a inspiração para a luta comunicacional. Maria Rosa é uma das heroínas do Contestado. Fundada em 2003, a Maria Rosa é uma das comunitárias mais bem organizadas do estado, tem oito comunicadores e diversos programas que expressam os mais diferentes movimentos sociais. A rádio entra na vida das pessoas através da proposta “brincando de radialista”, na qual a comunidade aprende a falar, escrever notícias e tudo mais. Além disso, é hoje espaço cultural da cidade e uma importante fonte de informação e comunicação, pois as pessoas podem mandar recados, avisos, sem pagar nada.

A experiência da Revista Pobres e Nojentas foi relatada por mim, como uma proposta de comunicação impressa que ainda precisa de muito esforço do grupo que a viabiliza para ir ao prelo. Poucos são os apoiadores. A revista sobrevive com assinaturas e a venda de mão-em-mão feita pelos próprios jornalistas. Apenas o Sindprevs, sindicato dos trabalhadores da Previdência, aporta sistematicamente um recurso que permite a distribuição gratuita de parte da edição. A revista é bimestral e se propõe a narrar a vida que vive e se expressa na periferia do sistema capitalista. A experiência da Rádio Comunitária Campeche também foi relatada, como um espaço de informação, formação e cultural que já está encravado na vida da comunidade. Nascida do desejo dos movimentos sociais do bairro Campeche, em Florianópolis, a rádio tem vários programas ao vivo, programadores voluntários e fica no ar 24 horas. Sobrevive das anuidades dos associados e trabalha com apoios culturais que são arrebanhados no bairro mesmo. Ninguém compra espaço ou faz propaganda. Os pequenos comércios locais fazem uma pequena contribuição mensal e tem seu nome divulgado. A participação comunitária é um dos pilares do projeto.

Roberto Bohnenberger, da Rádio Comunitária Tangarense e do Jornal Vitória, ambos de Tangará, narrou as peripécias do grupo da rádio e as escaramuças com a Polícia Federal, que por várias vezes veio fechar a rádio, nascida em 1997. Por conta destes embates ela acabou ficando fora do ar, só retornando em fevereiro deste ano. “Neste meio tempo, como a gente já tinha acumulado experiência com comunicação popular, decidimos criar um jornal em 2004, que nasceu pequeno, mas, depois, foi melhorando e hoje já circula pelos vários municípios da região”. Segundo Roberto, tanto a rádio quanto o jornal são veículos que fazem circular a vida real das gentes locais, aprofundando a auto-estima, promovendo a organização e sendo fermento para as lutas.

Raul Fitipaldi, do portal Desacato, sítio de informação sobre as lutas na América Latina, também mandou sua contribuição em forma de texto, lido em voz alta para todos os presentes, uma vez que no mesmo dia acompanhava o lançamento do filme “De um golpe, Honduras”, com roteiro de sua autoria e uma das primeiras produções cinematográficas da Associação Rádio Comunitária Campeche (ARCA), de Florianópolis. Ressaltando a importância da Soberania Comunicacional como espaço de apropriação do povo de sua própria comunicação, ele apontou a necessidade da criação de uma rede que articulasse todas estas experiências.

Ao final, para fechar a proposta de comunicação e cultura popular, a Associação de Capoeira e Cultura Afro de Fraiburgo trouxe seus meninos e meninas pra uma apresentação desta dança/luta que é o símbolo da resistência do povo negro. E, embalados pela música dolente do berimbau, as gentes se irmanaram na mesma proposta de luta por um país digno, com riquezas repartidas.

A luta se entrelaça e avança

O Segundo Seminário de Comunicação e Cultura Popular do Contestado terminou com este compromisso. Todos os participantes passarão a trocar matérias, textos, áudios, imagens, fotos, enfim, tudo o que for produzido e que pode ter interesse em outros espaços. A vida e a luta da gente do campo será divulgada na praia do Campeche, assim como os pescadores poderão ser escutados no oeste catarinense. A rádio que se faz ouvir desde um taquaruçu vai transmitir a luta das gentes de Blumenau e a cidade da Oktoberfest vai escutar o grito do povo de Tangará. Uma teia gigante de batalhas sociais, de histórias de vida, de cultura, de arte, tudo circulando desde uma proposta solidária e soberana. O povo informando a si mesmo, dentro da lógica da soberania comunicacional que pressupõe o controle dos meios e o controle da produção.

Entre os jovens, sindicalistas e lutadores sociais que acompanharam os debates durante toda manhã ficou bem clara a certeza de que é a partir do trabalho comunitário popular que esta soberania pode ser constituída. E mais, não é necessário apenas resistir ao monopólio despótico dos meios de comunicação, mas fazer a luta renhida para mudar este sistema opressor que impede a livre circulação da palavra popular. Podemos dar o nome que quisermos a isso, socialismo, sumak kausai (o bem viver andino) ou o reino do céu na terra. O nome é o de menos. O que importa é que caminhemos para a mudança radical disso que aí está. Esse é o nosso compromisso. Tal qual dizia Jesus: eu vim pôr fogo ao mundo, e hei de atiçá-lo, até que arda! Cabe a nós atearmos fogo a este sistema capitalista que tanto nos rouba vida.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Jornalista Multifuncional


Lages, interior de Santa Catarina, dia de chuva torrencial. Meia dúzia de sindicalistas se coloca em frente ao portão do jornal Correio Lageano. Está um frio de rachar, mas os jornalistas insistem no ato público. Vieram de várias cidades do Estado para exigir da dona do jornal, Isabel Baggio, atual presidente do Sindicato das Empresas de Jornais e Revistas, que apareça para negociar, uma vez que estão em campanha salarial e os patrões se negam a ir para a mesa. O jornal fica próximo ao terminal de ônibus e as pessoas passam às dezenas. Observam os manifestantes com olhar curioso, ao que parece aquilo nunca aconteceu em Lages, médio município da serra catarinense. Com um megafone, Rubens Lunge, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, conta para os moradores da cidade a vida dura de um jornalista. O povo olha desconfiado, afinal, é sempre comum no interior as pessoas ricas e influentes serem as depositárias da verdade. Isso incomoda demais a empresária que decide chamar todo mundo para uma conversa.

Dentro do jornal ela aparece, um pouco tensa, e insiste que não havia a necessidade de ninguém se “abalar” desde a capital para um ato como aquele. Mas os jornalistas que ali estão sabem que sim, era preciso. O Correio Lageano é um jornal do interior em nada diferente dos demais jornais do Estado, boa parte deles de um dono só, os Sirotski, que já formam um oligopólio em Santa Catarina. Ainda fora das presas da família gaúcha, o jornal de Isabel, tal como os outros, segue os maus exemplos da mega empresa. Do grupo de jornalistas que atua no jornal, poucos deles recebem o piso da categoria, mesmo os que estão registrados como repórter. Outros estão expostos a subterfúgios como o de serem registrados em outras funções. Muitos não tem registro. Agora, em pleno mês da data-base, os jornalistas dos médios e pequenos jornais, como este da presidente do sindicato patronal, também devem entrar na ciranda pós-moderna, que faz a cabeça de 10 entre 10 empresários da comunicação, muito bem amparados no insensamento histérico de boa parte do professorado nacional da área do jornalismo: a idéia do jornalista multifuncional. Palavra bonita e “moderna” que nada mais é do que a velha idéia da superexploração do trabalhador. Não contentes em sugar a mais-valia dos seus jornalistas com salários de fome, os empresários agora demandam que eles sigam as exigências de seu tempo: a flexibilidade, a rapidez e a portabilidade (arg!).

E o que é esta coisa de multifuncionalidade?

Qualquer pessoa mais ou menos ligada nas coisas do seu tempo sabe que estas palavras são fluentes na forma societal conhecida como neoliberalismo e que muito estrago provocou no mundo, na década de 90 do século passado. Mas, como cabe a um país colonizado, ainda estamos vivenciando isso aqui no Brasil.

A história da rapidez está associada ao tempo presente, cujo advento das novas tecnologias exige um profissional capaz de informar com mais agilidade sobre o que acontece. A histeria sobre o jornalista é a de concorrer com os blogueiros. Dizem os “especialistas” em comunicação que a internet e os blogs são espaços de informação muito rápida. Um blogueiro pode postar centenas de informações sobre um determinado fato tendo apenas um celular. E isso leva à exigência de que o jornalista também tenha de ter um celular conectado à internet para postar tantas informações quanto um blogueiro qualquer, mesmo que esse blogueiro apenas coloque a informação crua, sem qualquer interpretação ou análise, coisa típica do jornalismo. Assim, as empresas entregam um celular ao funcionário e querem que ele fique colocando informações em vez de centrar-se no fato que está presenciando para, depois, com calma, fazer uma boa análise. Ou seja, acreditar que o jornalista deve concorrer com o blogueiro nada mais é do que diminuir o jornalismo.

Já a flexibilidade é uma linda palavra para coisas tão antigas e feias quanto o sistema capitalista: perda de direitos e superexploração. Em nome da “modernidade” dos tempos de novas tecnologias as empresas querem que os trabalhadores aceitem serem levados para lá e para cá, sem quebrar. Então, exigem que o jornalista contratado como repórter passe a fotografar, faça filminho para colocar na internet, dirija o carro da empresa, poste no twitter, alimente o blog do jornal ou da TV e, se bobear, varra o chão. Ah, e é bom que se diga, tudo isso tem de ser feito dentro do horário de sete horas, que é o tempo praticado por quase todos os meios de comunicação, apesar da carga horária legal ser de cinco horas. A flexibilidade se configura no fato de que ele exerce todas essas funções, mas ganha por uma só. “É a modernidade”. Além de tudo isso, como no geral as empresas estão entrando na onda de ter também blogs, twitteres e portais, o profissional é “convidado” a contribuir nos demais veículos. Ou seja, cumpre várias funções e ainda trabalha para vários veículos, sem qualquer mudança no salário. Não tem choro, ou o jornalista aceita, ou a porta da rua é serventia da casa. Tem milhões lá fora esperando para entrar, dizem os patrões. E, assim, a servidão voluntária, tão bem descrita por Etienne de La Boétie , em 1552, nunca foi tão popular.

Por isso, causa profundo pesar observar a alegria com que muitos jovens jornalistas se submetem a esta quase escravidão, acreditando que com isso estão aprendendo e tornando-se mais “modernos”. Como sindicalista tenho ouvido relatos de deixar qualquer um de cabelo em pé, como a “acusação” de que o sindicato não deveria se meter em questões “tão pequenas” como, por exemplo, denunciar o fato de um profissional, contratado como fotógrafo, escrever matérias de vez em quando, sempre que o veículo precisar. No mais das vezes, os jovens jornalistas se colocam na pele do dono ou dona do jornal e acreditam que eles tem mesmo muita dificuldade de manter o negócio e que por isso, “não custa nada” ajudar. Mesmo que esse “coitado” seja o dono de um oligopólio, como é o caso da RBS no sul do Brasil.

A terceira palavra que define a multifuncionalidade é a tal da portabilidade. Assim, o jornalista começa a ser comparado com um aparelho de celular. Nestes, a portabilidade significa que a pessoa que tem um celular pode usar o chip de qualquer operadora, não ficando “prisioneira” de nenhuma empresa. Percebem a violenta crueldade do conceito? Se ele se fixa na nova exigência colocada ao jornalista, fica parecendo que o jornalista, tal e qual o aparelho de celular, também é livre (o celular igualmente não é!). Ele pode transitar de uma função para outra sem qualquer amarra legal, assim como transita entre as variadas empresas do mesmo dono. Tão absolutamente libertador quanto fumar Malboro ou andar de Honda. E os profissionais se encantam com esta possibilidade, sem perceber que a única liberdade de que são portadores, é a de ser explorado com alegria.

A tecnologia existe para o homem e não o homem para a tecnologia

Sempre me encantou uma frase de Jesus ao povo, quando questionado pelo fato de que fazia curas aos sábados, descumprindo, assim, a lei judaica. O galileu, com a tranqüilidade dos sábios, sentenciou: a lei existe para o homem e não o homem para lei, deixando claro que um homem verdadeiramente livre subverte aquilo que o oprime. Assim, penso, deve ser a tecnologia. Como qualquer jornalista moderno gosto demais destas novidades tecnológicas que permitem a rápida circulação das informações. Fotos postadas no twitter, pequenos textos circulando nos blogs, celulares ultra mega powers, etc... Mas há uma coisa básica nisso tudo que precisa ser problematizada. Informação não quer dizer jornalismo, necessariamente. Posso postar no twitter que a cidade de Florianópolis está alagada neste momento. E mostrar fotos dos alagamentos, etc...

Mas, estes pequenos textos informativos não dão conta da atmosfera totalizante do fato. E o jornalismo é isso. Na singularidade de um fato dado, aquele que narra precisa transitar pelo particular e atingir o universal, tal qual ensinava o mestre Adelmo Genro Filho. Por que a cidade alagou? Quais os motivos que levaram este bairro alagar e não o outro? Como agiu a defesa civil? Por que estes fatos se repetem, sempre nos mesmos lugares? Quais as conseqüências para os atingidos? Enfim, toda a sorte de interpretações da realidade que precisa ser feita por alguém com olhar aguçado, capaz de perguntar e observar, sem se desviar por ter de carregar a bateria da câmera, ou filmar, ou fotografar e postar em tempo real, e twitar e coisa e tal. Um jornalista é uma pessoa que apreende a totalidade do fato, não é um doidivanas carregado de toda a sorte de “portabilidades” que afugentam a atenção para o que é verdadeiramente profundo. Isso me faz lembrar o exemplo de um repórter fotográfico de conhecido jornal local que, obrigado a cumprir a função de motorista, ao se deparar com um fato em movimento, desceu do carro correndo e esqueceu-se de puxar o freio de mão. Lá se foi o carro ladeira abaixo. Nesse caso, venceu o jornalista e sua visão de agente público de informação. Mas, quantos se lixariam para o carro correndo rua afora? Quantos não voltariam, salvariam o carro da empresa e perderiam a foto? Por isso, repórter-fotográfico precisa estar livre para olhar e capturar o instante. Não pode ficar prisioneiro de múltiplas funções.

Obviamente que reputo uma importância abissal aos blogueiros de plantão e a toda a sorte de gente que usa as novas tecnologias para repassar informação. Gosto de saber que tem milhares de seres por aí postando coisas, cenas, fotos, informações que, depois, reunidas por um bom jornalista que também viu os fatos, possam ser analisadas em profundidade, dando-se o devido destaque às causas e conseqüências, formando a grande e quente colcha da totalidade que cobrirá o leitor na sua inteireza.

Pesquisas do IBGE dão conta de que o Brasil está vivendo um drástico problema. Os estudantes, e as pessoas em geral, estão perdendo a capacidade de interpretar um texto. Ou seja, as pessoas lêem a informação, mas não conseguem desdobrá-la, compreendê-la na totalidade. Isso não é conversinha de “esquerdista” ou de jornalistas “dinossauro”. São os fatos. Pesquisas sérias de institutos sérios. Por conta disso, insistir em centrar foco na mera reprodução desenfreada de informação é desserviço.

É certo que não se pode pedir ao empresariado da comunicação brasileira - que vê o leitor/espectador como cidadão-cliente, como mero consumidor de um produto - que se preocupe com o nível de compreensão da realidade do povo. Eles estão se lixando para isso. Querem vender jornal, querem vender anúncio e fortalecer a mais-valia ideológica que mantém as gentes vinculadas ao sistema produtivo mesmo quando estão em casa, supostamente descansando, vendo TV. Nosso alvo tem de ser então os jornalistas.

São eles os que precisam compreender o que é, efetivamente, o jornalismo. Serviço público, espaço de compreensão totalizante do real. Não é papel do jornalismo concorrer com a rapidez internética. Basta a gente se lembrar do tempo dos infográficos, recordam? Os jornais queriam concorrer com a velocidade da televisão e enchiam suas páginas com infográficos descontextualizados. Mostravam muito bem como tinha sido a coisa, mas não explicavam os porquês. Era a superficialidade da TV transformada em papel. Virou febre, mas não durou muito. Assim, penso deverá acontecer com a tal da multifuncionalidade. Será uma febre, e vai passar. Jornalistas que faz cinco coisas ao mesmo tempo às fará todas muito mal feitas.

Leitor não é Homer Simpson

É certo que para o dono do jornal, amparado na razão capitalista, será uma dádiva ter um profissional que ganha por um e trabalha por cinco, nos seus diversos veículos. Mas, mesmo eles, ao compreenderem os mais rudimentares preceitos do capitalismo, verão que o tal do leitor, que eles consideram cliente, vai acabar percebendo a má-qualidade. Porque leitor não é “Homer Simpson” como já alegou William Bonner. E, igualmente, os trabalhadores, que hoje se submetem à servidão voluntária, acreditando que com isso estão garantindo emprego ou coisa assim, também terminarão percebendo que a flexibilidade, a rapidez e a portabilidade da multifuncionalidade só os deixam doentes, e não lhes garantem o emprego. Porque, no mais das vezes, quando uma “peça” do sistema falha , ela é substituída por outra, mais novinha e ávida por ser a “mais veloz”.

A nós, que atuamos na luta sindical, cabe desvelar as mentiras escondidas sob o manto da nova onda e organizar as batalhas coletivas dos trabalhadores escravizados pela reestruturação produtiva do capital. A tecnologia, os novos e modernos instrumentos de trabalho devem sim ser conhecidos e dominados por todos os jornalistas, mas, trabalhando numa empresa, não temos de ser obrigados a fazer tudo o que a tecnologia permite. Lembrem do nazareno e sua verdade incontestável: as novas tecnologias, que são conquistas de toda a gente, porque se derivam do trabalho socialmente produzido, são muito boas e muito legais. Mas elas foram feitas para nos libertar e não para nos escravizar. Ser multifuncional não é coisa de hoje. Somos profissionais, pais, irmãos, amigos, filhos, colecionamos coisas, praticamos esportes, fazemos artesanato, enfim, atuamos em várias frentes.

O perigo da tal multifucionalidade só aparece quando ela se transforma numa bola de ferro no nosso pé, a serviço do lucro de alguém. Como dizem os povos de fala hispânica: Ojo! O que na nossa língua mãe significa nada mais do que “olho vivo, meu irmão!” Não caia no conto do patrão. Ele toma champanhe em Paris enquanto tu esperas no posto de saúde, acometido de LER, estresse crônico ou depressão. E, mais tarde, vem a demissão!”...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Banda de Amor à Arte

domingo, 16 de maio de 2010

Eu vi o final da novela


A novela Viver a Vida terminou neste sábado e, como sempre, uma novela da Globo, por ser uma usina reprodutora de mais-valia ideológica, repercute em vários outros momentos da telinha. Este folhetim em especial suscitou muito debate sobre o que ficou configurado como “a possibilidade de superação”, uma vez que a personagem principal, Luciana, era uma garota linda, de profissão modelo, que sofre um acidente e fica paraplégica. A novela então se move neste universo de superação da personagem que, ao longo da trama, em meio à dor, vai encontrando caminhos e formas de viver que transcendem a sua condição de prisioneira de uma cadeira de rodas.

Assim, por meses, enquanto durou a novela, esse tema da superação foi assunto dos programas de entrevista, dos programas de entretenimento, dos noticiários, enfim, permaneceu como pauta, sempre reforçando que as pessoas podem superar suas desgraças físicas e pessoais. E é assim que se expressa a mais-valia ideológica como bem já demonstrou o venezuelano Ludovico Silva. A pessoa que assiste à televisão, na verdade, não está “descansando” ou “fruindo”, mas segue absolutamente conectada aos ideais e às idéias da classe dominante, que ali reforça suas verdades. E foi por assim entender que se me ficou, neste sábado de último capítulo, a seguinte questão: afinal, que pessoas, neste país, tem verdadeiramente a condição de “superar”, de transcender?

Pois vamos ver o destino dos personagens do enredo da novela das oito global.

A menina Luciana, que era uma chatinha mimada, amadurece, enfrenta com galhardia seu destino de paraplégica, encontra um amor (que também é médico), casa, passa a lua de mel em Paris e termina dando a luz a gêmeos. Ora, isso é mesmo de chorar. Luciana é rica, tem um motorista que a leva a todos lugares, vai aos melhores fisioterapeutas, não tem que ficar nas filas do SUS, teve uma enfermeira particular ao longo da recuperação e seguirá tendo. Seus filhos correrão pela casa enquanto duas ou três babás estarão a postos aos menores desejos. Que vida sem névoas! Luciana superou tudo apoiada na família, sempre presente. O pai chegou a reformar a mansão para atender a todas as novas necessidades. Tudo correu bem. Ela foi mesmo um exemplo de superação, chegando a manter um blog para contar isso a toda gente. Certo, mas na verdade, a única coisa que a personagem de fato superou foi aceitar a condição de prisioneira da cadeira de rodas, porque o demais sempre lhe garantido.

A mãe da Luciana foi a sofredora da trama. Enfrentou a separação de um marido canalha, e teve de passar por toda uma via-crúcis com a filha acidentada, ainda atendendo as demandas de uma outra filha mau caráter, que acaba com um texano rico (presente ou castigo?). Nesse processo foi muito apoiada pela terceira filha, boazinha e virgem. Ela conseguiu passar por todos os tropeços com muita valentia. Cuidou da filha, dedicando-se integralmente. O que foi possível porque a linda mulher não trabalhava, era fartamente sustentada por uma pensão do rico marido calhorda. Então, ali também não havia névoas. Era só superação emocional. No final da trama, depois de ver a filha feliz, ela finalmente encontra um novo amor, com quem vai passar a lua de mel em Paris. Incrível como Paris parece estar sempre na rota dos sofredores endinheirados.

Há ainda outra personagem que é um lindo exemplo de superação. Não lembro seu nome, mas é a garota alcoólatra. Durante toda a novela o público vibrou com as desventuras da mocinha, que desprezada pelo namorado, não conseguia superar o vício que já tinha. Então, ela encontra um novo amor, recebe o apoio dos amigos, encontra um emprego incrível, de modelo fotográfico, e vai superando, entre uma recaída e outra, o seu problema. Nos últimos capítulos ela ainda recai mais uma vez, mas tudo lhe é perdoado. Ela é linda, o namorado é uma ameba compreensiva e vai terminar morando com ela, com o projeto de andarem perambulando pela Europa. Bonito demais.

A personagem Dora, que durante toda a trama foi uma desonesta, ladra de marido e tudo mais, também encontra redenção. Ela deixa de ser uma chinelona que vive de favor na casa dos outros e encontra um homem mais velho, de classe média alta, dono de restaurante, que lhe acolhe, reconhece a filha mais velha e, de quebra, descobre que o garotinho que poderia ser filho de outro, é mesmo seu filho. A família termina feliz, entre tangos e festa. Toda a tentativa de se dar bem na vida, buscada de maneira torta pela personagem, acaba dando certo e tudo lhe é perdoado.

A linda Helena, moça negra, mas não pobre, que enfrenta a traição de um marido vagabundo, perde um filho e sofre por sentir-se responsável pela desgraça da amiga Luciana, termina a novela com um fotógrafo de moda, lindo, embora meio burrinho, que lhe dá um filho. Ela também acaba vivendo sua possibilidade de redenção, superando as culpas. No final do capítulo, Helena e Luciana terminam na passarela, em um desfile de alta moda, no qual a paraplégica aparece maravilhosa, mostrando que chegou a cume da superação. Nem mesmo o trabalho de modelo ela perdeu.

A Sandrinha, irmã mais moça de Helena, que ao longo da novela comete o pecado de se apaixonar por um favelado e ter um filho dele, igualmente vive seu momento de redenção. Depois da morte do marido, que era um bandidinho rampeiro, ela volta para a linda pousada da mãe e encontra o “perdão” para sua falta de filha rebelde, indo trabalhar em instituições de caridade. Ela não encontrará entraves porque a rica mãe lhe ajudará a criar o filho do bandido morto.

E assim seguem os finais dos personagens, todos da parte rica da novela. Gente bonita, lindos casamentos, superações, viagens a Paris. E até na parte pobre também há alguns bons exemplos de “ir adiante”, que parece ter sido o mote da trama. O garoto bonzinho, primo da Dora, termina a novela cantando no bar do argentino, tendo sua chance de iniciar a vida de artista. É o prêmio que lhe é dado por ser sempre um garoto amável, cumpridor das tarefas, que nunca reclamou do patrão, que sempre foi submisso. Ele sabia que ter aquele trabalho de garçom no bar do argentino era uma bênção e que não poderia abrir mão disso nunca. Sua irmã, ambiciosa, mas não tanto a ponto de ser má, também consegue que o dono do novo bar olhe para ela como se ela fosse um objeto sexual e lhe ofereça emprego. Sim, emprego, porque não lhe ocorre um casamento. Mulher pobre e bonita é pra curtir. Ela aceita maravilhada.

Já o garoto bandido, Benê, esse não tem chance de superação. A ele não lhe é permitida a redenção, embora ele sempre tenha se mostrado um bom garoto, premido pela vida cruel da favela, enrolado com o tráfico e o crime apenas porque não tinha muita saída. Mas, não, esse não teve chance de “superar”. Alguém na novela tinha de pagar por seus crimes ou quedas morais. Alguém tinha de ser punido, não dava para acabar tudo bem. Então, a escolha lógica era Benê. Ele era negro, pobre, favelado, bandido. A ele não podia ser dada qualquer oportunidade. Foi-se, morreu! É que o menino Benê não queria ser garçom na pousada da sogra, não queria ser caixa de supermercado, ele sonhava mais. Ele era rebelde, inconformado, e na sua revolta singular deixava antever um desejo coletivo de vida boa para todos os seus companheiros da favela. Ele queria dar ao filho as belezas anunciadas pelo sistema, antevistas nas casas ricas dos amigos da mulher. Ele queria viagens a Paris, talvez... Ele queria tudo que aos outros era dado. Mas não teve chance. Alguém na novela tinha de morrer. Não podia ser o Marco, empresário mau caráter, mulherengo, corrupto. Não podia ser a alcoólatra linda e aventureira, que só queria perambular pela Europa, não podia ser a Dora, traíra e ambiciosa, não podia ser a Helena, nem mais ninguém do mundo certinho e viável do núcleo dos ricos. Não, haveria de ser o guri rebelde, o insurgente. Estes não podem chegar à redenção. Estes não superam. Eles sucumbem e ponto. É assim.

O fato é que não se poderia esperar outra coisa de um folhetim do Manoel Carlos na Globo. É a visão de uma classe. E na classe dominante as coisas são assim mesmo. Tudo pode ser superado, porque não há julgamentos morais. Tampouco há empecilhos materiais. Agora, imagine a vida de uma mãe, sem marido, com a filha paraplégica, lá no Morro do Céu? Imagine uma trabalhadora qualquer, do comércio, por exemplo, que sofra um acidente e não possa mais trabalhar? Bom, mas isso não daria novela. Seria muito baixo astral. O bom mesmo é mostrar a realidade assim, na perspectiva de uma classe que pode, sim, tudo superar e transcender. Uma gente que pode ter fisioterapeutas particulares e ir para Paris quando está muito triste.

O bom das novelas é que elas nos permitem esse olhar, o nosso, desde a outra classe. E nos possibilitam ver que para os lindos, ricos e bem nascidos, o destino dos pobres é absolutamente claro. Os que não se queixam, os que não se rebelam, terminam nos empreguinhos mais ou menos, explorados e bem felizes. Já os que se insurgem, os que enxergam o mundo para além do conforto permitido pelos ricos, estes tem de morrer, sumir, escafeder-se.

Bueno, e ao final do folhetim cabe a nós dizer onde estão os nossos espaços reais de “redenção”. Na nossa “novela” de vida real, há um elemento que pode alavancar nossa verdadeira superação. A solidariedade concreta, a cooperação comunitária e compreensão de que o nosso mundo pode ser bonito, pleno e rico. Não por conta da exploração de uns pelos outros, mas porque saberemos distribuir a riqueza e construir o mundo novo. Neste nosso mundo, que construiremos, o Benê teria chance. Coletivamente, com a comunidade em luta, ele teria superado. E, no fundo, em muitos lugares deste brazilzão, é assim que já é. Só que a rede Globo jamais mostraria. Cabe a nós fazê-lo! É o que buscamos fazer na Pobres e Nojentas, revista de reportagem que conta a vida real. E assim, avançamos, para além da telinha aliciadora e alienante.