quarta-feira, 7 de abril de 2010

De boa, no socialismo


Outro dia alguém reclamou da vida em Cuba. Gente que nunca foi lá, inclusive. “O povo não tem liberdade. Não pode comprar as coisas boas da vida. Não tem transporte de qualidade, não tem carros bons e nem acesso a internet. Eu tô fora dessa história de socialismo!” Aquilo me deixou a pensar. Tem gente que nunca poderia viver no socialismo mesmo. Isso é fato.

Mas, eu, penso que poderia ser muito feliz no socialismo. A mim, encanta a idéia de que qualquer pessoa possa estudar, fazer uma faculdade, sem pensar no sacrifício para pagá-la. Enche-me de profundo prazer saber que eu teria bibliotecas de qualidade a minha disposição. Que haveria atendimento de saúde gratuito e que um médico viria na minha casa quando eu precisasse, sem cobrar nada. Agrada-me saber que eu viveria numa sociedade que primasse pelo equilíbrio entre os seres humanos e a natureza, e onde eu pudesse participar de tudo, não apenas de eleições quadrianuais.

Também não teria problema nenhum em não ter acesso a roupas de marca. Hoje não tenho. Meu salário não alcança e eu tampouco me importo com isso. Também não me faria falta um carro zero, ou DVD, ou qualquer outra bugiganga tecnológica. A gente pode viver sem isso se houver espaços públicos de lazer, como penso deve haver no socialismo. Acesso a internet o socialismo pode ter, por que não? Em Cuba não há porque as empresas de provedores impedem. Não é o governo socialista que impede isso. As novidades tecnológicas são construções coletivas da humanidade, portanto todos tem o direito de ter acesso.

Igualmente poderia viver feliz num lugar onde eu ganhasse segundo minha necessidade, e pudesse ter acesso ao teatro, cinema, música. Onde a gente recordasse com alegria os nossos heróis. E que nas noites de sábado pudesse tomar um bom rum ou uma cerveja. Claro, não poderiam faltar pulseiras e colares, mas tudo poderia ser produzido com coisas da natureza, feitos à mão. Eu gosto de tudo o que é simples. E o cabelo? Bom, se não houvesse xampu ( e em Cuba só não tem por conta do embargo criminoso) eu poderia lavar a cabeça com sabão de coco e se o cabelo ficassem meio pastoso eu o transformaria em dread. Ficariam igualmente lindos.

Assim, sem qualquer dúvida, o socialismo me encanta e eu caminho nessa direção. Por isso luto e vivo. Eu viveria de boa num regime assim. Sei que tem gente que não conseguiria. Tudo bem, respeito. Mas eu quero tanto isso. Viver feliz, de boa, em harmonia, em paz. Cuidar dos meus e saber que eles estariam bem. Não precisar ouvir, como ouvi ontem na televisão, que os pobres que morrem nas tragédias de inundações e terremotos são os culpados por isso. “Eles não deveriam estar nas encostas”, disseram Lula e Sérgio Cabral. Ah, tá, e onde estariam? Em Copacabana?

No socialismo, penso eu, não haveria miseráveis e as gentes se apoiariam nas tragédias e dançariam nas festas, como iguais. A riqueza seria repartida, não haveria abismos. Eu viveria feliz com meus gatos e cães. As gentes viveriam felizes, “compartindo”. Ah, eu quero esse socialismo, e quero muito... Idealismo? Tá bom, pode ser... Mas enquanto idealizo, construo. Profeta, vivendo hoje o amanhã esperado!

terça-feira, 30 de março de 2010

Futuro do Jornalismo: trabalho precário


A esperta decisão do STF a favor dos grandes meios de comunicação e dos espaços de poder deste país, de negar a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista, já está gerando seus frutos. E o resultado é a precariedade cada vez maior da condição de trabalho destes profissionais. A prefeitura de João Pessoa, na Paraíba, por exemplo, abriu edital para a contração de jornalista e oferece o salário de 510,00 reais, com uma carga horária de 40 horas. Exige apenas ensino médio e o registro no Ministério do Trabalho.

Outros meios e comunicação, nos grandes centros metropolitanos do país, não são tão explícitos. Oferecem cargos como escritor para web, produtor de conteúdo, assistente de produtor de conteúdo e outros afins, com salários de miséria. Na verdade, todos eles cumprem a função do jornalista que é a de colher informações e formatá-las dentro de um padrão noticioso. Com isso, vai pelo ralo a possibilidade de uma boa qualidade na divulgação da informação, uma vez que o jornalismo é um fazer que exige conhecimento, não só da técnica redacional, mas também do mundo. Não bastasse isso, e é o que é mais preocupante, percebe-se a precarização cada vez maior das condições de trabalho do profissional.

Quando um “produtor de conteúdo” é contratado, ele acaba tendo de se enfrentar todos os dias com o corre-corre da notícia, com o estresse da criação intelectual, com a necessidade de checagem e rechecagem das informações, com o desafio de ouvir as várias versões do fato. Enfim, todas as fases de uma boa produção jornalística. Mas, no seu contracheque, todo esse esforço não tem amparo, uma vez que os salários são bem menores e as condições de trabalho as piores possíveis. A isso se soma a exigência da multifunção, com a qual o profissional tem de debater-se, fotografando, editando, dirigindo, filmando etc... Assim, a empresa, com as benesses do STF, acaba “ganhando” cinco profissionais ou mais, enquanto paga – mal e porcamente – apenas um.

Não é sem razão que cresce o movimento nos sindicatos de jornalistas para a organização destes trabalhadores que hoje integram o mercado de trabalho do mundo jornalístico como mão de obra barata, num processo crescente de superexploração, típico das sociedades capitalista periféricas.

Embora a Fenaj tenha definido, no último encontro do Conselho de Representantes, manter as portas fechadas para estes trabalhadores, outros sindicatos acreditam que este é um momento de se pensar a partir da consciência de classe, acolhendo os companheiros e companheiras que estão entrando neste mercado, premidos pela necessidade de trabalhar. É função de um sindicato estar de olhos abertos para o seu tempo e ser capaz de compreender que a luta não deve ser contra os trabalhadores, e sim contra os patrões e interesses do poder.

Acolher os trabalhadores sem diploma nos sindicatos de jornalistas não significa trair a categoria, não significa jogar a toalha, não significa render-se aos desígnios de um tribunal que julga com os olhos e mãos no poder. Não! Acolher estes colegas – equivocados na compreensão do que seja o jornalismo – é fazer um movimento tático de fortalecimento da luta de classe. Na briga do rochedo com o mar, o marisco não deve ser entregue a própria sorte. Ele tem de ser aliado e companheiro.

Os jornalistas, sempre tão alheios ao que diz respeito à luta de classe, às batalhas dos trabalhadores, precisam acordar. Cada dia mais a profissão é aviltada, o fazer jornalístico é relegado a uma mera informação sem contexto, as condições de trabalho se enfraquecem e empurram à competição desenfreada e o salário desaba enquanto as obrigações aumentam. Nós, jornalistas estamos colocados numa hora histórica. Ou nos fechamos num gueto, ou entramos na luta pela recuperação do bom e velho jornalismo, aquele que informa e forma, o que contextualiza, o que oferece várias versões, o que interpreta a realidade. Para isso, precisamos abrir nosso coração e nossas portas aos colegas que entram na profissão pelas laterais, sem formação.

O que está em jogo aqui não é o ego nem a condição de ter “estudo formal”. O que deveria nos mover era a consciência de classe, numa luta única de condições de trabalho dignas dentro de um sistema que só busca explorar.

Por conta disso, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina vai discutir esse tema no dia 10 de abril, às 9h, no mini-auditório da FECESC. Porque é preciso abrir os olhos, concretizar a solidariedade de classe. O que não significa que a luta pela obrigatoriedade do diploma tenha se acabado. Pelo contrário. Cada dia, neste mundo de exploração capitalista, fica mais claro que só a regulamentação bem demarcada pode por freio a ganância patronal. A luta pelo diploma é uma luta corporativa, não há que negar. Mas, se os patrões são corporativos, se as empresas o são, se os governantes são corporativos, porque aos trabalhadores isso soa como algo ruim? Ser corporativo é fazer parte de um corpo, é defendê-lo de todas as ameaças, é atuar juntos. Isso é o que temos de fazer.

E, se hoje o STF nos impõe uma derrota, nada nos impede de virar isso contra o poder instituído. Juntar os jornalistas e todos estes que agora entram no mercado de trabalho jornalístico como párias, mal pagos e superexplorados, pode ser o nosso golpe de mestre. Ou trazemos essa gente para lutar com a gente ou eles se organizam pela direita, como já se vê acontecendo, e ainda fazem a guerra contra nós. Eu não quero guerra entre trabalhadores. Eu quero consciência de classe e luta contra o sistema capitalista opressor e explorador.

E tu, que queres?




segunda-feira, 29 de março de 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

Estudantes da UFSC protestam

DCE comandou protesto que exigiu da adminsitração central prioridade com o ensino. A manifestação durante a inauguração de um lago e uma obra de arte, lembrou das filas do RU, da falta de salas de aula, de professores e de livros. Os alunos pularam no lago e deram seu recado.


Carta dos Estudantes

Por anos, a alusão à arte na UFSC não tem passado de um mero letreiro em latim “ars et scientia” a ser contemplado na sua bandeira e no seu brasão. Mas, o que percebemos, efetivamente, é o quase total descaso com a arte e sua concepção como elemento fundamental para formação humana. Em contraponto a este abandono, o DCE vem, desde o ano passado procurando justamente tirar a arte e cultura dos espaços elitizados e ressuscitar este tema no seio da Universidade; enfatizando como a arte pode ser um instrumento de reflexão da realidade e com isso assumindo o desafio de torná-la acessível e inteligível, ao mesmo tempo não perdendo sua capacidade reflexiva e crítica.

Apoiamos, portanto, o incentivo da Administração da UFSC em fomentar a cultura regional trazendo um importante personagem folclórico catarinense para o campus e preenchendo um espaço da Universidade, até então vazio, com arte.

Além desta escultura, os estudantes, ao inciarem o semestre, se depararam com várias outras surpresas. Uma foi o lago revitalizado, bonito e com patinhos nadando, a outra, e esta, a obra de maior impacto artístico-cultural, é o circo ocupando o lugar da terceira ala do Restaurante Universitário. O que questionamos, não é apenas o valor utilizado para a construção dessa obra, por sinal 171 mil reais, mas sim a rapidez com que a obra ficou pronta.

Enquanto a reitoria se esforçou em manter as obras da reforma do lago, estamos com algumas obras a ser concretizadas, como a nova cozinha do RU. Outras obras nem saíram do papel, como o novo Restaurante Universitário e a reforma do prédio com o segundo maior número de goteiras, o Centro de Convivência, só perdendo para o esquecido CFM, que está há pelo menos 45 anos com a estrutura totalmente avariada e abandonada.

Ainda temos os estudantes do curso de Pedagogia tendo aulas em auditório, pois prédios de salas de aula não são construídos; estamos, também, recebendo no DCE estudantes de novos cursos querendo abrir Centros Acadêmicos, mas como obter sedes se nem ao menos temos salas de aulas suficientes para todos os cursos? Tudo aqui é na base da improvisação. Além disso, a Universidade está com um número de professores substitutos acima do permitido e ainda assim temos muitas turmas sem aulas por falta de professores.

O que queremos mostrar, é a total falta de prioridade que a reitoria tem apresentado. Lembramos que não desmerecemos essa obra pela carga cultural que ela oferece, mas é um absurdo que enquanto estudantes comprometem seu aprendizado por falta de aula, enquanto muitos precisam passar eternidades em filas gigantescas, a Administração resolve priorizar reformas menos urgentes. Não basta apenas garantir as construções e reformas necessárias, é preciso entender que toda obra de administração publica só se realiza no prazo quando há devida força política por trás dela. Hoje estamos comemorando a inauguração desta obra, ao invés de, por exemplo, inaugurarmos o novo prédio do restaurante universitário, conforme a promessa do reitor, não por problemas externos, mas porque não foi dada devida prioridade da administração.

Hoje gostaríamos de estar comemorando a inauguração da 3ª ala do RU, ou a construção de novas salas, ou a contratação de professores, ou novas moradias estudantis, ou ampliação da biblioteca, ou, ou, ou... Tantas outras prioridades que nesse contexto de comemoração pouco temos para comemorar. Ao menos nos restam os patinhos que, ao contrário dessa ilustre administração do Século XXI, tornam a UFSC um lugar mais alegre e melhor de se viver.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Na frente de Jesus

E ali estavam eles, na procissão... O Cristo seguia atrás, e chorava!

Pois eu fui à procissão


Eu sempre vou à procissão do Senhor dos Passos. Acho bonito de ver a expressão de fé de tanta gente. Essa coisa louca que leva as pessoas a se agarrem a uma esperança, um desejo de se ver acolhido e de acolher. Causa-me profunda emoção observar as velhinhas, com seus terços, a chorarem vendo passar a triste imagem de um deus derrotado, torturado, em sofrimento. É como se, naquela hora, homem e deus se reconhecessem iguais: impotentes diante do poder.

Pois neste domingo fui à procissão, esta que já acontece há 244 anos, aqui, na capital dos catarinenses. Foi em 1766 que a enorme imagem de Cristo sob a cruz chegou. Conta a lenda de que era para ir ao Rio Grande do Sul, mas o barco não conseguia avança e o capitão entendeu que era desejo do senhor ficar nas terras desterrenses. A imagem ficou e virou motivo de adoração. Desde então o povo acorre para lhe render graças.

Neste dia 21 de março mais de 20 mil pessoas saíram às ruas de Florianópolis para reverenciar aquele que morreu na cruz, torturado e violentado por romanos e judeus. O homem que pregava o amor, a igualdade, a partilha, o que afrontou o poder com seus desejos de transformação radical. Eu busquei o melhor lugar para observar as gentes e também para, igualmente, partilhar daquela dor infinda que imagino tenha vivido o Jesus histórico, virado homem, na tortura da cruz.

Então, do homem em sofrimento, curvado pelo peso da cruz, meus olhar fugiu para a expressão de uma quase heresia. Bem a frente da estátua, um grupo de pessoas segurava um pequeno toldo debaixo do qual ia o bispo Dom Murilo, em sua pompa episcopal, contratando com o manto humilde que levava o deus. Pisquei duas vezes. Era real. Quem levava o toldo eram aqueles que no dia-a-dia são os responsáveis diretos por tantos males que o povo tem de viver. Na frente iam o prefeito Dário Berguer e o governador Luis Henrique. Mais atrás, o vereador Gean Loureiro e a deputada Angela Amin, seguida do jornalista Moacir Pereira.

Ah, o poder e sua sede de dominação. Vale-se da fé, da desesperança, da dor humana e aparece, assim, em pompa, como se compartilhasse da mensagem histórica daquele que, caído, seguia-lhes. Meu coração se apertou e fui ficando para trás, enquanto a procissão passava lentamente. Pensei no código ambiental, aprovado para destruir, no plano diretor imposto pela prefeitura, no jornalismo cortesão, nos projetos nefastos, tudo vindo daquele pequeno toldo que abria a procissão. Arrogância, descaso, ilusão. “Corja, corja”, fiquei a resmungar. Então, do chão, ouvi um “ô, ôô...”. Olhei. Eram três homens, caídos como o da estátua, e, com eles, uma garrafa de pinga. Eles me observavam e perceberam que eu falava dos governantes. “Ninguém tá vendo eles, olha só... o povo olha pra Cristo”.

Os três bêbados, caídos no chão da praça, estavam certos. Ninguém os via. Os olhos das gentes se voltavam ao deus sob a cruz. Mulheres choravam, outras lhe jogavam beijos, as senhorinhas repassavam seus terços, os homens faziam o “pelo sinal”. Os olhares não se voltavam para o luxo em roxo da pompa igrejeira. O povo rendia homenagens ao seu deus. “Agora ele está assim (caído), mas no domingo de Páscoa ele renasce. Sempre renasce e fica com nós”, me dizia uma velhinha, pequena como um bibelô.

Eu deixei a procissão passar e fiquei ali, junto aos caídos, num silêncio reverente. Aqueles homens, que a sociedade nem nota, os que chamam de escória, foram, talvez, os únicos que verdadeiramente comungaram com Cristo naquela caminhada de dor. Eles, como o deus caído, sabem muito bem o que é estar sozinho na dor, excluído da vida digna, perdido da compaixão. No silêncio da praça vazia ficamos nós, irmanados no sentimento de que um dia, não será apenas “o senhor dos passos”, mas o passo das gentes, o povo unido e em rebelião que haverá de mudar este mundo. Os caídos se levantarão, as riquezas serão repartidas e a vida será plena. Coletivamente, passo-a-passo, avançaremos...

sexta-feira, 19 de março de 2010

Um plano do povo



Enganam-se os que pensam que Florianópolis – a velha Miembipe - é um espaço conservador ou reacionário. Aqui, nas veredas da vida real estão as gentes a protagonizar momentos históricos importantes. Foi aqui que começou a agonia do regime militar, com os bravos estudantes – junto com o povo alçado em rebelião – promotores da inesquecível “Novembrada”, assinalando a derrocada do presidente que amava mais o cheiro dos cavalos do que do povo. Foi aqui também que as gentes se levantaram na revolta da catraca, contra as falcatruas dos empresários do transporte coletivo. E, todos os dias, nos bairros, nas vilas, nas comunidades, a população está protagonizando alguma luta importante contra os que querem destruir a vida. Este é um espaço de gente que luta e constrói novas propostas de organizar a vida.

Foi assim nesta quinta-feira, dia 19. Este povo todo, vindo dos lugares mais longínquos da cidade, com faixas, cartazes, camisas pretas, e toda a gana possível, realizou mais um feito histórico. Erguidos em luta, aqueles que amam o lugar onde vivem, vieram protestar contra a farsa montada pela prefeitura municipal, que pretendia homologar um plano diretor da cidade, construído sem a voz das comunidades. Esta gente, que durante três anos ocupou noites e noites de suas vidas para discutir a cidade e encontrar caminhos viáveis para existir neste especo caótico, acorreu à audiência e decidiu que ali, a sua voz haveria de ser ouvida. E assim se fez!

A cidade e o caos
Meia hora antes da audiência na qual o Instituo Cepa – empresa privada contratada pela prefeitura para fazer o Plano Diretor – iria apresentar a proposta que desenhou, amparada nos desejos dos empresários especuladores, já se vislumbrava a cidade que haveria de assomar daquele plano. Trânsito parado em todas as direções. Parado na Beira-Mar, no túnel, nas imediações do TAC. Buzinas tocando sem parar, gente gritando. O caos. A cidade desenhada para servir aos carros mostrava sua face irracional. Sem um transporte coletivo eficaz, as pessoas optam pelo carro e comandam um festival de engarrafamentos que tornam a mobilidade urbana um inferno. E isso com pouco mais de 380 mil habitantes.

O plano diretor construído pela CEPA quer tornar esse inferno ainda maior. Propostas esdrúxulas como prédios de oito andares na Lagoa da Conceição, de seis no Campeche e por aí afora, prognosticam uma Florianópolis de amanhã com 800 mil habitantes, um milhão. Uma cidade vertical para a classe média. Um lugar onde os ricos haverão de ter suas “ilhas de paz e beleza”, ainda que para isso seja necessário privatizar praias, como a do Costão do Santinho, ou mesmo o maior aqüífero que há na ilha, o aqüífero dos Ingleses. Ali, sob o lençol de água, os ricos jogarão golfe, enquanto as gentes amargarão a falta do líquido que garante a vida.

Pois o povo organizado nas comunidades, nas associações de moradores, disse não. Estudaram a cidade por três anos, construíram propostas, apresentaram alternativas, saídas viáveis para a vida, para as moradias, o transporte, para tudo. Só quem vive numa cidade sabe o que nela falta. O povo tem a resposta para cada questão. E isso foi feito em audiências públicas, oficinas, reuniões, tudo documentado. Por que então, a prefeitura vinha dar um golpe, impondo um plano que a população não quer? A cidade iria se levantar. E foi o que fez.

A audiência
A noite baixava sob a capital parada e caótica. Mas as pessoas caminhavam. Vinham de todo canto, de ônibus, de bicicleta, de carro, à pé. Encheram o TAC, ocuparam as calçadas, eram mais de mil. Multidão. Vieram os pescadores, os nativos, os ecologistas, as senhoras de idade, os estudantes. Vieram os líderes comunitários, os sindicalistas. Todas as cores e tendências políticas unificadas na luta contra a especulação e a destruição da cidade. Foi bonito de ver.

O presidente do IPUF iniciou a audiência, chamou o presidente do Instituto CEPA. Já começaram as vaias. Cada autoridade chamada era apupada. Manifestação pacífica, direito das gentes. As caras, na mesa, se torciam, incomodadas. As vaias seguiam. Átila Rocha dos Santos, presidente do IPUF, mostrou a cara autoritária da prefeitura. “Ou param ou suspendo a audiência e chamo a polícia”. A tropa de choque já aguardava do lado de fora, pronta para agir, porque é comum aos dirigentes que não são democráticos, terem medo do povo. Foi o que bastou. A gritaria foi geral.

Então, no meio do corredor assomou o vereador Ricardo Camargo Vieira (PCdoB), fazendo aquilo que deveria fazer um político que tem mandato do povo: com um megafone, suplantando o som do mestre de cerimônias, gritou o protesto das gentes. “Esta audiência é uma farsa, esse não é nosso plano”. A ação do Dr. Ricardo foi a deixa para que cada pessoa que ali estava quisesse dizer sua palavra. O presidente do IPUF gritava, chamando a polícia. Entrou a guarda municipal, mas nada mais detinha as gentes. Elas foram subindo no palco e revezando o megafone. As autoridades da mesa escapuliram, o diretor do IPUF mandou cortar o som. Ninguém se importava. Tinham suas gargantas e reivindicavam. Cada bairro, cada liderança, pessoas comuns, todos tinham algo a dizer. “Esse não é o nosso plano”, bradavam.

No meio do protesto uma cena intrigante mostrou bem a cara da imprensa local. O jornalista da RBS adentrou ao teatro, e, imperturbável, atravessou o corredor onde as pessoas se aglomeravam com faixas e cartazes, mostrando que ali acontecia mais um momento histórico na vida da cidade. Pois o jornalista nem olhou para a vida que se expressava no teatro lotado. Seguiu até o palco e foi lá para trás, onde estavam os dirigentes da prefeitura, protegidos pela guarda municipal. A voz do povo não haveria de sair da rede dos baixos salários, na rede da mentira. Simbiótica relação da mídia entreguista com os que querem destruir a cidade. É tudo parte de um mesmo grupo.

O povo seguiu com sua audiência. Já não havia dirigentes da prefeitura na mesa, o palco era das lideranças comunitárias. Uma assembléia popular. Democracia direta. Decidiu-se então dar seguimento a audiência pública. Foi feita uma ata e todos assinaram. Por um momento se fez uma cena mítica. No corredor, as pessoas faziam fila, assim como na missa quando vão comungar. E, para quem olhava emocionado, era isso mesmo. As gentes comungavam da mesma idéia, do mesmo desejo: proteger a cidade, garantir vida boa e bonita para todos.

Na ata, lavrada de forma coletiva, a decisão popular: “Este não é nosso plano. Não aceitamos essa imposição da prefeitura. Queremos a decisão tomada nestes três anos de encontros e participação comunitária”. O documento será registrado e enviado à prefeitura. A audiência se fez e, embora o presidente do IPUF tenha negado a palavra ao povo, o povo a tomou. E a disse.

No jornal Diário Catarinense do dia seguinte, veio a nota lacônica: confusão impede aprovação do plano diretor e ele será enviado direto para a Câmara de Vereador. Logo, segue a arrogância e a surdez do executivo municipal. A prefeitura continua fazendo de conta que não ouve a voz da população. As comunidades disseram não, mas eles não escutam. Só conseguem ouvir a voz dos que depredam e destroem. Estes sim fazem “confusão”, como diz a reportagem patética, expressão do péssimo jornalismo que é praticado pelas empresas locais.
Mas, o povo que estava ontem no TAC acredita na sua força. Vai usar a justiça, vai exigir posição do Ministério Público, acredita também na visão honesta de pessoas como a procuradora Ana Lucia Hartmann, que foi ovacionada pelas gentes a gritarem seu nome, em honra de sua postura séria e de defesa da integridade da vida. O povo se organiza e cresce em número e fortaleza. Já está marcado um protesto para este sábado, dia 20 de março, na Lagoa da Conceição. E outro, ainda maior, no dia 23 de março, dia do aniversário da cidade, em frente da Assembléia Legislativa, às seis horas da tarde. A cidade vai se movendo, o povo vai aprendendo, e as gentes fazem andar as palavras democracia e liberdade. A cidade é do povo e é ele quem tem de decidir. Não meia dúzia de empreiteiros e políticos de meia pataca.

Florianópolis pode viver uma hora histórica. É chegado o momento de todos saírem às ruas a defender a vida e o direito de se existir em harmonia com a beleza que é este lugar. Não foi sem razão que ao final do bonito momento de rebelião, as pessoas, de olhos marejados, se puseram a canta a música do Zininho, o hino da ilha: “um pedacinho de terra perdido no mar, um pedacinho de terra, beleza sem par”... E naquelas caras de gente trabalhadora, a mais absoluta certeza: esse pedacinho não está perdido, não sem luta!