sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Os algozes humanitários


A gente do Haiti é gente de muito valor. Foi o único país, no mundo, em que os escravos fizeram uma revolução contra seus senhores e venceram. Foi em 1791, logo depois da revolução francesa. A ilha caribenha ferveu em desejos de liberdade e o povo armado - mais de 500 mil negros num espaço onde viviam apenas 32 mil brancos - botou os colonizadores franceses para correr. Toussaint de Loverture, Dessalines, Alexandre Pétion. Gigantes da luta de libertação que, com suas idas e vindas, erros e acertos, fizeram do Haiti, com a força das gentes, uma nação livre, digna, soberana. Primeiro país abaixo do Rio Bravo a se fazer independente em 1801. Petión acolheu Bolívar e foi o responsável pela virada na cabeça do libertador. Deu a ele guarida, ajuda e só pediu em troca que ele libertasse os escravos da América do Sul. Bolívar mudou.

Mais tarde, as lutas intestinas revolveram o país e várias lideranças passaram pelo poder, até que no início do século XX o mal fadado vizinho do norte, os Estados Unidos, decidiu intervir no país para cobrar dívidas, uma história muito conhecida pelos países latino-americanos. Desde aí, o povo do Haiti sofreu fortes reveses, culminando com a dinastia Duvalier, sanguinária ditadura de pai e filho, que perdurou de 1957 até 1986. Regime de terror, tortura e perseguições, enfrentado com valentia pela população, que pagou caro por isso. A esperança veio em 1990 quando o povo elegeu Jean Aristide, um padre ligado a teologia de libertação. Mas, de novo, os Estados Unidos meteu o bedelho na vida do país, evitando que por ali tremulasse alguma bandeira vermelha. A eles, no Caribe, já bastava Cuba. Sem grandes riquezas para serem cobiçadas, a gente do Haiti sofreu “preventivamente”. Em 2004, depois de idas e vindas, com o apoio dos EUA, Jean Aristide se elege novamente, mas é deposto em seguida por um golpe, igualmente apoiado pelos EUA, mergulhando novamente o país num caos político.

É quando entram as “forças de paz” da ONU, ocupando o Haiti a pedido dos Estados Unidos. Vários países, tendo Brasil à frente, enviaram suas tropas, alegando que estavam ajudando a manter a ordem, De novo, o povo do Haiti ficava sob a tutela das armas alheias, como se não fosse capaz de definir por si mesmo o seu destino. Desde aí o país está ocupado militarmente, com denúncias diárias de mortes, torturas, estupros, violências de toda ordem. Morte diária, cotidiana, naturalizada. Estas não saem nos jornais. Contra elas não gritam os Casoys, os Bonners e outras bocas alugadas.

Agora, não bastasse toda esta história de dominação, o Haiti sofre uma tragédia natural, uma a mais, nem tão natural, já que é resultado da destruição que vem sendo imposta ao planeta pela ganância dos donos do capital. Milhares de pessoas estão mortas, ceifadas num único dia. Tragédia massiva. Então os jornais se inundam de matérias sobre a ajuda humanitária. Países de todas as cores enviam remédios, alimentos. A Globo e CNN destacam a ajuda estadunidense, “governo tão bom”, o mesmo que deixou a míngua os atingidos do Katrina. As pessoas choram diante da TV, organizam ajuda solidária nos seus bairros, observam aliviadas a humana bondade da França, da Alemanha e até do FMI (pasmem) que decidem doar alguns punhados de dólares. Falam ainda da providencial presença dos “cascos azuis”, soldados da ONU, que estão ajudando no resgate das vítimas, no auxílio aos feridos, etc...

Sim, me compadeço com a tragédia haitiana deste triste 13 de janeiro. Mas, com Venezuela, com Cuba e com outros tantos lutadores sociais tenho feito isso desde que as forças da ONU entraram no país a pedido dos EUA. Contra Lula gritando pela retirada das tropas, e com Fidel e Chávez, entendendo que se alguma ajuda precisava o povo da ilha caribenha era a de médicos, engenheiros, professores, dentistas, enfim, gente que amparasse e fortalecesse as gentes. Não soldados armados para reprimir, matar, mutilar, torturar, estuprar. Doem em mim, sim, as mortes massivas deste dia 13, mas me doem também, com igual força, as mortes cotidianas, recorrentes e naturalizadas no Haiti, no Afeganistão, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na periferia de Florianópolis. A ajuda humanitária nestes dias de inferno pós-terremoto não pode ser uma mera musculação de consciência daqueles que doam um quilo de arroz e dormem tranqüilos. Há que se comprometer com a proposta de mudança e libertação. A tragédia haitiana é muito maior do que este terremoto de 13 de janeiro. O terremoto da dependência, da subordinação, da superexploração do trabalho, da ocupação armada é cotidiano, e já dura tempo demais. O país está em escombros e não é de hoje. Ajudar as vítimas da catástrofe do tremor é urgente e necessário, mas não dá para saudar os algozes. Estes que posam de bons moços, enviando alguns dólares, são os responsáveis pelo terremoto cotidiano. Isso não podemos esquecer!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Guernica em três dimensões

Guernica é uma obra impressionante, tela pintada a óleo, com 782 x351 cm, que Pablo Picasso apresentou em 1937, na Exposição Internacional de Paris. A tela, em branco e preto, representa o bombardeio sofrido pela cidade espanhola de Guernica em 26 de abril de 1937 por aviões alemães e que atualmente está exposta no Centro Nacional de Arte Rainha Sofía, em Madri. O pintor, que vivia em Paris naqueles dias, soube do massacre pelos jornais e pintou as pessoas, os animais e edifícios destruídos pela força aérea nazista, tal como via em sua imaginação. Aqui, com uma técnica impressionante, a obra é mostrada em três dimensões, fruto do trabalho de uma artista de Nova Iorque, Lena Gieseke, que domina as técnicas mais modernas de infografia digital.

*Musica: Nana de Manuel de Falla*



quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os novos sacerdotes e Abya Yala


Desde os anos 70 que das entranhas da América baixa assoma o que hoje conhecemos como “o novo movimento indígena”. Diz-se novo apenas porque apresenta outra configuração, uma vez que desde a invasão, em 1492, as comunidades originárias sempre resistiram à violência, à morte e à destruição de suas vidas e culturas. E esse “novo” momento começa quando em boa parte dos países latino-americanos as ditaduras calavam a voz de estudantes, sindicalistas e lutadores sociais. Naqueles dias, no final dos anos 60, os povos originários começaram a se reunir e discutir suas demandas. Pequenos encontros, outros um pouco mais expressivos e, a cada ano, ia crescendo a articulação continental. No México, problemas relacionados à questão da terra levaram povos de várias etnias a realizar um congresso em 1974, que acabou sendo um marco nesta reorganização. Na Bolívia os aymaras e quéchuas também se organizavam e realizavam encontros, no Equador, Guatemala, Colômbia, enfim, em vários pontos do continente se debatiam e se discutiam os problemas relacionados ao território, aos direitos, à saúde, educação, etc...

Nos anos 80 esta organização se fortalece, sai do âmbito da briga por melhorias dentro da ordem, e em alguns países os indígenas decidem fazer a luta efetiva. Não mais palavras ou pedidos, mas ações concretas. Foi assim no Equador em 1990, quando os originários ocuparam igrejas e prédios públicos no centro histórico exigindo seus direitos. Em 1994, quatro anos depois, a luta explodiu com os zapatistas e sua voz armada, enfrentando 12 dias de combate contra o exército mexicano, os aymara na Bolívia com a guerra da água (2000) e a expulsão de Sanchez de Lozada (2003), os originários do Equador derrubando presidentes (2005). Hoje, passada a primeira década do século XXI, é inegável a organização e as conquistas dos povos originários em toda América Latina. Já foram realizados quatro grandes encontros intercontinentais, dois países já incorporaram nas suas Constituições o Estado Plurinacional, que garante aos indígenas o direito de organizar sua vida segundo seus costumes, e ninguém mais concebe a vida sem a participação das gentes originárias. Mesmo no Brasil, onde as lutas indígenas ainda se travam completamente à margem da grande mídia, cresce a organização e a avançam as conquistas.

O preconceito
Mas, apesar de toda esta luta e das sucessivas conquistas dos povos originários em toda América Latina, o preconceito e o racismo ainda são os grandes entraves para que as gentes passem a respeitar as demandas dos indígenas como legítimas e necessárias. É que ao longo dos séculos os países do continente foram dominados por uma elite criolla (gente branca ou mestiça nascida na América), que sequer chegou a cogitar ter ao seu lado, no comando da vida latino-america, os legítimos donos da terra de Abya Yala. O próprio Bolívar, quando volta do Haiti e incorpora as reivindicações negras e indígenas, é rechaçado pelos seus generais, que acabam por vencê-lo. Enquanto Bolívar agoniza de tuberculose, derrotado na sua concepção de estado, a nova América Latina que emerge das lutas de independência fica entregue a esta elite predadora, que se apropria das terras comunais, que rouba o indígena e o submete ao que José Carlos Mariategui chamou de “gamonalismo”, sistema de domínio dos latifundiários no qual não pode haver a redenção dos povos originários.

O foi justamente Mariategui, nos anos 30 do século XX, o primeiro a afirmar que as reivindicações dos originários precisavam sair do cultural e converterem-se em econômicas e políticas. Segundo ele, a questão indígena deveria ser encarada com uma solução social, ou seja, o centro não deveria ser racial ou moral, mas sim a propriedade da terra. Sem resolver isso, nada mudaria. De qualquer forma, a voz do marxista peruano não foi suficiente para que as elites latino-americanas mudassem sua maneira de encarar o clamor indígena e, ao longo dos anos que se seguiram, foi reforçado o preconceito, com a idéia de que o índio é preguiçoso, sujo, bêbado e com isso, seguiu aumentando o racismo que se perpetua indelével em toda a sociedade.

É por isso que nas escolas da maioria dos países latino-americanos as crianças sabem muito mais dos egípcios do que dos maias, assim como conhecem em profundidade a vida dos povos europeus enquanto sequer sabem onde vivem os caraíbas, os chibchas, os arauak, os tupinambás, os guarani. Suas formas de organizar a vida, então, são absolutamente desconhecidas e o que é falado não foge do folclore ou das aberrações.

Os sacrifícios humanos
E, ainda assim, desconhecendo, o povo que pensa o mundo (os chamados intelectuais) insiste em dizer que é impossível transladar as formas de viver dos originários para o nosso tempo. E mais, ainda há aqueles que buscam nos costumes mais lúgubres dos antigos os exemplos para respaldar isso. “Veja os maias. Eram uns sanguinários. Faziam sacrifícios humanos, assim como também os mexicas, os olmecas, teotihuacanos, astecas etc... Vamos voltar a sacrificar pessoas a um deus que exige sangue? É isso que se quer com a volta das culturas índias?” Este argumento nos faz refletir sobre os costumes antigos e os de agora. Sim, é verdade. Os maias e os demais povos que habitavam a mesoamérica realizavam sacrifícios humanos. Seus deuses eram implacáveis e era por isso que faziam incursões guerreiras. Buscavam prisioneiros para alimentar os deuses. Isso pode ser visto com bastante crueza no filme de Mel Gibson, Apokalipto, o qual narra a saga de um jovem capturado pelos maias e mostra com riqueza de detalhes os rituais de sacrifício.

Para os maias, assim como para os demais povos da região, a religião era um contrato entre deuses e homens. Os primeiros ajudavam no trabalho, davam alimentos e segurança, mas exigiam pagamento antecipado. Por isso havia o ritual de “abrir a boca”, chamado assim porque o sangue dos sacrificados era usado para untar a boca do grande deus. Enquanto entregavam o pagamento aos deuses, os sacerdotes pediam saúde, filhos, prosperidade, água e temporais para que a vida florescesse, força para enfrentar os inimigos, folga e descanso.

Naquela complexa sociedade que inventou o zero no século III a.C - bem antes dos hindus que só chegaram a ele no século VIII depois de cristo ou da Europa que só o conheceu na Idade Média – que cultivava o milho e construía gigantescas pirâmides com degraus, muito mais espetaculares que as egípcias, quem detinha o poder sobre a vida e a morte eram os sacerdotes. Os homens comuns não podiam interpretar a vontade dos deuses, só os sacerdotes eram capazes e por isso tinham o domínio dos rituais, do ensino e da vida. Eles decidiam quem vivia ou morria, eles eram os que repassavam as ordens dos deuses e mesmo os reis eram obrigados a seguir seus conselhos. Então reverbera nos ouvidos a pergunta: “Vamos querer essa barbárie outra vez?”

Os sacerdotes atuais
Desde a pergunta do amigo intelectual passo em revista os tempos modernos. Nos livros que se escrevem aos borbotões e que vem, sobretudo, da Europa, fala-se de uma pós-modernidade, de um tempo de fins, de fragmentações, de vazios. Conta-se de um tempo anômico, sem normas. Diz-se que houve uma época em que no mundo ocidental a norma era revelada, emanava de deus. Depois, com o iluminismo, a norma passa a ser uma construção humana. É o homem quem é o centro da vida. E hoje, não há mais normas. Tudo é válido. Existe apenas o fluxo, fluido e líquido. Mas, uma olhada mais apurada revela que o fluxo, dito sem forma e sem lei, está sim submetido a uma razão bem específica: é a do mercado capitalista. Este é o grande deus sanguinário, cuja boca aberta está borbulhante do sangue das vítimas que, implacavelmente, seguem sendo oferecidas. Tal e qual os “selvagens” povos da mesoamérica, os povos contemporâneos empreendem guerras de busca de prisioneiros a serem oferecidos aos deuses, no geral travadas com pastas pretas e bem trajados homens e mulheres, representantes das agências financiadoras internacionais. Ou mesmo com guerreiros tradicionais como é o caso das invasões estadunidenses. Nações inteiras são capturadas e submetidas. Milhões de pessoas são sacrificadas todos os dias nas “bocas abertas” do capital. Uma zapeada nos programas dominicais da televisão brasileira e isso salta aos olhos. Não há como esconder. Até mesmo nas grandes catástrofes se vê a boca sangrenta do capital, quando as gentes são soterradas por estarem vivendo em áreas de risco, ou por serem expulsas do centro da cidade, ou por estarem entregues à especulação da natureza.

Os maias e os demais povos realizavam estes sacrifícios em momentos rituais, sempre acreditando que o resultado seria o bem de toda a comunidade. Exatamente como pontificam os novos sacerdotes do sistema capitalista. É preciso que alguns se sacrifiquem para que a vida de todos melhore. Primeiro crescer o bolo para depois repartir. Se a pessoa trabalhar muito, ela chega lá. Não são estes os mantras que a televisão, sede da mais-valia ideológica, passa todos os dias? Pois, então, onde está o barbarismo dos maias? Não é exatamente igual ao que vemos hoje?

Por todo o planeta economistas e políticos vomitam suas fórmulas sobre crescimento, desenvolvimento, modernidade. Há que privatizar, há que enxugar, cortar gastos públicos, diminuir o estado. Há que criminalizar os movimentos sociais, há que prender aqueles que se opõem a marcha inexorável do capital, há que eliminar terroristas, hereges, subversivos. Há que invadir países, há que roubar riquezas naturais, há que destruir todas as resistências. Nas telas de TV estes novos sacerdotes aparecem como aqueles que são os únicos capazes de interpretar a vontade dos deuses. Ao povo comum isso está vetado, tal e qual no tempo dos maias. E se alguém se arvora a querer dizer: “mas não é assim, pode ser diferente”, lá vem o garrote e o punhal. Elimina-se e entrega-se à boca aberta do grande Murdoch ( que pode ser o antigo deus babilônico ou o magnata da mídia).

É por conta disso que talvez seja bom pensar bem e refletir se os povos originários eram mesmo os bárbaros ou sanguinários. Eles estavam seguindo sua vida, evoluindo no conhecimento da natureza e certamente chegariam a avanços se não tivessem sido invadidos e exterminados. Não sei se seriam melhores ou piores que as gentes de hoje, não sei se seguiriam realizando sacrifícios humanos ou sustentando uma casta sacerdotal poderosa. Mas uma coisa me bate a certeza. Seria diferente. A considerar o respeito que tinham pela natureza, a sabedoria que carregavam de que o que acontece a terra acontece também aos filhos da terra, os propósitos comunitários que sustentavam a vida das civilizações mais avançadas, como a dos incas, dos aymaras, quéchuas, não tenho dúvidas de que encontrariam uma forma mais respeitosa de organizar a vida.

Um exemplo disso pode-se observar no povo Shuar, do Equador, que hoje luta para preservar suas águas, entendendo que elas são sagradas, ou os Mapuche, que querem preservar as araucárias onde vivem seus deuses. Também se pode ver nos originários que ocupam o território brasileiro, de sociedades menos complexas, mas igualmente respeitosas com a vida que vive. Estas comunidades todas que conseguiram ao longo dos séculos manterem vivas as memórias coletivas de sua cultura são as que estão na ponta da luta pela preservação dos recursos naturais. Elas sabem que o deus desse tempo é um deus de destruição. Ele não protege o milho, não dá força, não manda águas e temporais para que a vida floresça. Ao contrário, este ídolo de boca aberta cria o transgênico, destrói a semente, faz assomar o tsunami, joga bombas, arrasa tudo onde pisa, desfaz as comunidades.

Abya Yala é o novo
Hoje, a humanidade está colocada diante de um grande desafio. O modelo de desenvolvimento apresentado como revelação divina por políticos e economistas está esgotando os recursos e destruindo a vida. Mudar a maneira de viver no mundo é uma necessidade bioética. Não há escolhas. As pessoas “comuns”, a quem se lhes diz vedada a capacidade de interpretar as falas dos deuses precisam saber que isso não é verdade. Cada ser humano neste mundo sabe onde lhe aperta o calo. Os que vivem na pobreza, na miséria, na dor, devem saber que isso não é por conta de um “castigo de deus”. Não. A miséria de milhões só existe porque ela garante a riqueza de uns muito poucos. Esse é o dogma da teologia capitalista. Para que um viva, outro tem de morrer.

Mas, por todo o planeta existem culturas, comunidades, seres, que sabem que há formas outras de organizar a vida, nas quais as pessoas dividem o que tem e todos podem viver com dignidade. Não há os muito ricos, nem os muito pobres. Todos cuidam da terra, das riquezas e distribuem os bens. Isso é possível e real. E, agora, diante das catástrofes, mudanças climáticas, degelos, furacões, tsunamis, ou é isso ou é o fim.

Os maias, estes mesmos chamados de sanguinários, eram extraordinários astrônomos e criaram no seu tempo um intricado calendário no qual previram uma mudança radical da vida que viriam no ano de 2012. Claro que não é a bobagem hollywoodiana que andou pelos cinemas nestes dias de verão. A profecia é clara: a humanidade deve escolher entre perecer por conta da estúpida exploração dos recursos naturais, ou viver em harmonia com o universo. Parece uma coisa boba, conversa de “velhos hippies”, utopias descabeçadas. Mas, os maias sabiam que o sol era uma entidade viva, conheciam seus segredos, e amavam a terra. Hoje, observando como o sistema-mundo capitalista organiza a vida e todas as conseqüências que daí decorrem, talvez “descabeçado” seja não entender que as coisas precisem mudar. Já basta de entregar nossa gente à boca aberta do sanguinário deus.

Abya Yala desperta e se agiganta. Os movimentos originários caminham na direção da preservação da sua cultura e mais, apresentam novas liras para novas canções. Não querem a volta a um passado perdido. Querem um futuro de paz, de respeito à natureza, de cuidado com a mãe-terra, de solidariedade, de cooperação. Avançam na construção de um outro tipo de estado que garanta o nacional/popular, mas também o pluricultural. Não querem separação, mas direito de governar junto. Propõe um passo além, dialeticamente, ao projeto generoso de Bolívar. Uma pátria grande, na qual as etnias, as culturas, as comunidades, sejam ouvidas, respeitadas e participem da esfera do poder. Uma coisa nova, abyayálica, típica do nosso espaço geográfico, mesclado de tantas culturas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os bichos


Juanita deus a luz a quatro gatinhos. Um dele morreu. Os outros seguem na luta para viver. Nestas tardes quentes é bom ver a família em sagrado momento de alimentação. A mãe nutre e segura, confiante, a patinha do irmão Tupac, que vigia, para não permitir que os cachorros tumultuem este momento sublime. Ah, o que seria de nós, humanos, sem a presença divina dos bichos?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz despertar...

As celebrações de um novo começo na vida das gentes são tão antigas quanto a própria raça. Nas culturas mais remotas o “recomeço” era celebrado sempre no solstício ou equinócio de primavera (dependendo do hemisfério), quando tudo começa outra vez a florir. É que como o conceito de tempo ainda não havia sido aprisionado nos relógios a vida das comunidades se regia pelas estações. Naqueles dias, o povo se reunia em festivais, cantando, dançando e bebendo em honra da terra. As mulheres engravidavam e a vida florescia. Era a completude do ciclo da existência, sempre se repetindo.

De qualquer forma, na medida em que as culturas foram se complexificando, igualmente encontraram formas de medir o tempo. Os maias, por exemplo, lograram construir um intrincado calendário com 364 dias, e mais um outro, chamado de “dia fora do tempo”. Este, celebrado em 25 de julho, marca o início do novo ciclo. Já nas culturas do médio oriente, a festa era no equinócio de março, por conta da estação. A comunidade judaica comemora sua festa de Ano Novo, ou Rosh Hashaná, uma espécie de dia do julgamento, em meados de setembro ou no início de outubro, onde as pessoas fazem um balanço da vida. Os islâmicos celebram em maio, contando o tempo a partir do aniversário da saída do profeta Maomé de Meca para Medina, a Hégira, cujo marco corresponde ao 622 da era cristã.

Na China, o “recomeço” é celebrado em datas nem sempre fixas, mas entre final de janeiro e início de fevereiro. Lá, o calendário está relacionado ao movimento da lua e conta cada mês como o mês de um dos 12 animais que se apresentaram na frente de Buda e o ciclo da vida segue esta dinâmica, sempre começando na primavera.

O mundo ocidental também institui o seu “recomeço” a partir de um deus, que não é o cristão. Foi o imperador Julio César, no ano 46 antes de cristo, que determinou o primeiro de janeiro como o dia do início do ano, em homenagem a Jano, o cuidador dos portões. Depois, mais tarde, com a oficialização do calendário gregoriano, esta data permaneceu. Os franceses deram o toque romântico chamando-o de réveillon, que vem do verbo réveiller, cujo significado é "despertar".

E assim as gentes escolhem seus momentos de despertar, de balanço, de julgamento de suas vidas. Vemos que tudo depende da cultura onde se está inserido embora a idéia seja sempre a mesma: recomeçar, jogar fora o que foi ruim, esquecer, olvidar. Começar de novo, dar-se novas chances. E assim, vai avançando a raça, buscando aquilo que os filósofos gregos insitiram em chamar de “felicidade”. Pois eu, que reverencio a terra, os animais, as forças da natureza, que amo Jesus, Maomé e Buda, também vou comemorar. Que venha mais um ciclo, e que seja bom. Que floresça a vida, o amor e a paz. E que todos os povos possam vibrar na mesma onda cósmica. Eu te convido a dançar nesta bela noite de lua cheia, com os deuses e deusas, sob as estrelas. Para receber o ano novo, recomeçar... despertar! Ah, quanta bênção em se viver neste grande grande jardim!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Mais-valia ideológica no ônibus


O pensador venezuelano Ludovico Silva desenvolveu um conceito perfeito para a televisão: mais-valia ideológica. Ele diz que o sistema capitalista, não satisfeito em sugar mais valia do trabalhador no seu local de trabalho, ainda suga a mais-valia ideológica quando ele pensa que está descansando diante de sua televisão. Na verdade, diz Ludovico, a pessoa diante da TV não está fruindo, curtindo ou descansando. Não! Está sendo inundada pelos apelos do sistema: compre isso, compre aquilo, siga as regras do natal, seja assim, vista aquilo. Prisioneira, então, da mais-valia ideológica.

Pois agora, a gente que vive sob o terror do transporte coletivo de Florianópolis, tampouco consegue se desconectar da mais-valia ideológica. Não bastasse todo o estresse de ficar nas insuportáveis filas que se formam ao longo do caminho nestes dias de verão de uma cidade turística que não tem estrutura, ainda temos de aturar uma espécie de televisão dentro do ônibus. Ali, enquanto as gentes bufam de calor e ódio, ficam passando propagandas: compre isso, compre aquilo, tal pré-vestibular é melhor. Vez em quando entra uma notícia sobre algum famoso e depois uma vídeocassetada. Um verdadeiro atentado à inteligência e à paciência. Pergunto-me, onde está o Ministério Público que não vê isso? Será possível que ninguém se importe que as pessoas sejam submetidas a esses abusos? O que pode fazer uma pessoa comum diante deste descalabro?

Ah, mas não é só isso não. Tem mais. Como o transporte é completamente desintegrado, a gente fica muito tempo sentado nos terminais de baldeação, esperando o terceiro ônibus que finalmente nos deixará em casa. E ali, por toda a parte estão as televisões com os quadros de horários. A gente fica olhando para ver quando vai sair o maldito ônibus e o quadro não vem. O que passam são propagandas, propagandas e propagandas. Infernal. Mas não é desrespeito não. É a mais-valia ideológica levada às últimas conseqüências.Uma verdadeira lavagem cerebral.

Outro dia vi uma informação de que em São Paulo já existem grupos contra isso. Bom,vou fazer a luta por aqui, mesmo o rebanho ache bom esse tipo de coisa. Odeio que me suguem a alma.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

SUS: um bom plano para quem não está doente


Insisto no SUS. Acredito nele. Sei que é um dos melhores planos do mundo, embora a maneira como vem sendo administrado possa colocar tudo a perder. Quando não se está doente serve muito bem. A gente vai ao posto de saúde, aguarda na fila, é certo. Mas, de um jeito ou outro se consegue a consulta para os exames de rotina e é possível fazer um bom acompanhamento da saúde. Os médicos de família são bons, as agentes visitam as casas, tudo certo.

Mas, a coisa estraga quando a gente fica doente. Como já não há mais diagnóstico sem exames, a pessoa corre o risco de morrer até que consiga um resultado. É o que passei neste final de ano infernal. De repente, me apareceu uma bola no pescoço. Pirei. Pronto, deve ser uma baita infecção. Fui ao posto. Médica olha, apalpa. Hum! Não parece grave. Vamos aguardar. Espera mais uma semana, aparecem outras bolas. Agora é a morte.

Estamos perto do natal. Febre, dor de cabeça, delírios. Não dá mais. Vou à Policlínica, na emergência. Médica olha. “Hum... Parece grave, mas tem que ir ao posto”. Toca a pegar outro ônibus, meio grogue, mas vamos lá. Chega ao posto, outra médica. “É pode ser toxo ou câncer no sangue. Mais pra toxo, mas vamos fazer um exame para confirmar. Enquanto isso, toma um antiinflamatório para aliviar a dor”. Lá vou eu marcar o exame. “Só depois do natal, tudo fecha amanhã”. Ah, tá!

Passa o natal e eu mergulhada na febre e na dor. Danação. Ir à emergência, nem pensar. Sem resultado de exame é perda de tempo. Passam os dias. Segunda-feira. Uff... Lá vou eu fazer o exame. “Moça, eu tô mal mesmo, será que dá para agilizar aí o resultado”. “Olha, é difícil, vem aí o ano novo, só lá pelo dia 4”. “Mas eu tô há três semanas me danando toda...” “É, mas não posso fazer nada. Só depois do dia 4”. E lá vou eu, outra vez, pegar o ônibus, meio aturdida. Uma semana mais de sofrimento. Entrando 2010 muuuuito bem. E assim é. Só no dia 4, isso se ainda houver vida para buscar o resultado. Enquanto isso, na UNIMED...