sexta-feira, 27 de março de 2009

Lançamento de Livro


Vem aí mais um "filhinho", que conta a história da luta do primeiro grande acampamento de Sem Terra no Brasil, a Fazenda Anonni, com mais de seis mil pessoas. Para os amigos, companheiros e adversários conhecerem e discutirem.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O tempo estático

Janeiro.2009 . Rua dos Andradas. São Borja, fronteira do Brasil com Argentina. No calor da manhã, o tempo estacionado... Minha velha rua era a mesma de 30 anos atrás... O velho carro só confirma que, por ali, o tempo anda muito devagar...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Olhando sapatos...


Geralmente as pessoas me acham muito antipática, pois, na rua, não cumprimento os conhecidos. O fato é que eu enxergo muito mal e tenho dificuldades em reconhecer as pessoas. Então, para não pisar na bola e deixar de dizer olá aos amigos adquiri o vício de andar olhando para o chão. É uma coisa estranha, mas ao mesmo tempo legal porque, com o tempo, fui inventando uma técnica de analisar os sapatos das gentes. Assim, quando ando na rua, vejo pedras, ladrilhos e sapatos. É tudo o que minha vista cansada pode alcançar.

Foi assim, com a cabeça virada para o chão que outro dia eu me surpreendi. Por conta de um curso que estou fazendo, comecei a passar pela rua em frente a dois colégios tradicionais de Floripa: o Catarinense e o Menino Jesus. Então, de repente, vi meu campo de visão ser invadido por tênis, dos mais lindos que já pude ver. Marcas estrangeiras, cores vibrantes, amortecedores, desenhos arrojados, coisa que não se vê nas lojas comuns. A profusão dos modelos me fez erguer o rosto. E o que vi.

O bando de moleques que sai dos dois colégios tradicionais, reduto da gente rica da cidade, usa o que há de melhor no mundo dos tênis. Olhei para os lados pensando que aquela legião de belezas deveria atrair muitos olhares cobiçosos, afinal, tem gente que mata por um tênis. Então, logo à frente, observei duas viaturas da Guarda Municipal. Sem exagero, deviam estar ali uns oito rapazes fardados, fazendo a proteção da gurizada. E eles corriam pela rua, tranquilos, seguros.

Estupefata, “garrei a maginá”, como diria o caipira. Chegará o dia em que os filhos dos pobres poderão sair às ruas, reivindicando direitos, sem levar pau da polícia? Haverá de chegar um dia em que a polícia seja também para proteger os filhos dos pobres? Chegará o tempo em que as escolas na periferia também contarão com a presença cuidadora da guarda municipal? Vingará o dia em que as viaturas da força policial não serão mais necessárias porque as riquezas serão repartidas e ninguém será melhor que ninguém? Vira um tempo novo? Virá?

Segui meu caminho, entristecida, até que entrei no ônibus que vai para a UFSC. Meus olhos no chão vislumbraram umas sandálias de couro, bem surradinhas. Levantei a vista e dei com um guri, cabelo rasta, camisa estampada com um “salve o planeta”. Sorri. Ele também, cúmplice. Gosto mesmo é destes pés. Eles me dizem que gente há que caminha segura para estes tempos novos que construiremos...


sábado, 14 de março de 2009

Alguém que saiba fazer sabão!

Houve um tempo, há muito tempo, em que se podia falar, no Brasil, de uma pobreza digna. Não se tinha muito conforto, nem eletrodomésticos, nem celular.Os móveis eram velhos, mas a comida farta. A mesa, simples, sempre tinha umbom café, um almoço de encher o bucho e até frutas, visto que boa parte das casas tinha um pátio onde vicejava uma ou outra daquelas delícias da infância. Talvez tenha sido daí que surgiu aquele preconceituoso dito popular tão usado até hoje. “Sou pobre, mas sou limpinho”.
Pois eu, que não sou dada a visitas a supermercado, me vi diante até dessa possibilidade. De, em sendo pobre, não poder mais nem ser limpinha. É que, numa das minhas incursões esporádicas, trazia na lista de compras o tal do sabão em pó. Diante da prateleira, pasmei. Fiquei sem voz. Não podia ser possível! Procurei entre as várias marcas e nada. A mais barata custava 6,50 reais.
Chamei o garoto-trabalhador e perguntei se não havia um engano. A marca mais famosa passava dos sete reais. “Não, é isso mesmo”, respondeu o menino, me olhando como se eu tivesse caído de Marte naquela manhã. Fui ao bom e velho sabão de côco, afinal, minha vó já usava. Não podia pagar sete reais por uma caixa de sabão em pó que nem um quilo tem.
Na prateleira do sabão em barra, outro pasmo. O sabão de côco é artigo de luxo. Uma barra custa quase quatro reais. E aí? O que fazer? Como lavar a minha roupa sem ficar com aquela cara de otária, de quem está sendo dilapidada do pouco que consegue ganhar vendendo a força de trabalho num mundo capitalista selvagem?
Uma barra de sabão não seria suficiente para lavar minhas roupinhas, isso ainda considerando meu metro e meio. E comprar várias barras, daria elas por elas. Bom, só me restava procurar alguém nessa cidade que soubesse como fazer sabão de cinza, como nos tempos de antes da minha vó. Tô procurando. Ainda não achei. Esse artigo é um apelo. Quem souber, por favor, me ligue, me mande um correio, me ajude. Alguma coisa precisa ser feita para que eu siga...Desgraçada sim, sem esperanças, perdida de minha humanidade, mas, pelo menos, limpinha....Quem sabe, um dia, a gente, juntos, possa vencer esse sistema tão medonho!!!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Nas ruas rebeldes, presente!...


Eu tenho outros pensares sobre a morte. Acredito firmemente que há mortos que nunca morrem. Estes são aqueles, imprescindíveis, que estão sempre na ponta de lança das lutas. Por isso não perco meu tempo com lágrimas. Gosto de celebrar meus mortos seguindo seus exemplos.

Por isso que estes dias, nas passeatas das gentes em luta pelo transporte coletivo, eu os vi, vivos, carregando bandeiras vermelhas, tal qual faziam em vida. Dois queridos companheiros desta UFSC, cujos corpos já não estão. Mas que eu jamais considerarei mortos, porque vivem em mim e em tantos outros que os amam.

Nas tardes quentes em que os jovens estudantes, junto com os militantes sociais, enfrentavam a polícia e o nojo dos passantes, pude vislumbrar o meu querido amigo Eduardo Dalri, militante comunista, implacável diante da injustiça, sempre presente nos protestos e nas lutas. Caminhava colado na pele daquela gurizada que iniciava agora o caminho tantas vezes por ele percorrido. Eduardo nunca morrerá enquanto houver um menino clamando justiça.

E o outro, que vi, riso largo, olhar azul, correndo por entre o povo, foi o Assis, guerreiro da gente, amigo fiel, eterno militantes de todas as causas. Assis sempre puxou a orelha dos estudantes da UFSC, no seu jeito meigo/bruto. “Não sejam burros, tem que lutar”. Ver ali, carregando o carrinho de som, o Diógenes, da Economia, foi ver o Assis. Era o sonho do Assis, um DCE de luta.

E assim são as coisas. Os nossos mortos seguem aí, vivos em nós. Eles não precisam de bustos, de placas, de nada que não seja nossa boa e velha luta. Mas, sempre é bom lembrá-los. E nem precisa ser em datas específicas. Falo isso porque me lembro das mulheres que foram ao sepulcro chorar por Jesus, quando ele se foi. Foram duramente repreendidas por um anjo que guardava a tumba. “Por que procurais entre os mortos aquele que vive?”. Faço minhas estas palavras, e conclamo aos que amam estes dois companheiros que foram para outro plano há tão pouco tempo a não procurá-los entre os mortos. Porque não estão. Eles vivem, nas ruas rebeldes... É lá que o reverenciamos!

domingo, 8 de março de 2009

Sou mulher..

Quero meu direito, e o pego!
De trabalhar
De surpreender
De enternecer
De combater

Quero meu direito, e o pego!
De afagar
De cozinhar
De comandar
De descansar

Sou destas mulheres
Tenazes
Nojentas
Capazes

Destas que empinam o nariz
E seguem
No rumo do meio-dia
Velas ao vento
Sendo seu próprio leme

Sou das que amam forte
O homem certo
E não tem medo
De fazer dengo

Sou combativa
Cheirosa
Cheia de riso e lágrimas
Ódio e amor
Luz e sombra

Sou mulher
Sem choramingo
E gosto disso!

quinta-feira, 5 de março de 2009

Amanhã vai ser maior


Foi como sempre é. Estudantes, sindicalistas, lutadores sociais e poucos populares. Em meio ao nada e ao nojo, ali estava, como sempre, a flor. Essa que sempre re-nasce, a despeito de todas as prostrações. Um grupo não tão grande, mas aguerrido e seguro. Uma gente que sabe o que quer e o que não quer. Nesse caso, o da luta pelo transporte público de qualidade, não querem o caos que aí está, e além de tudo caro. E querem o transporte seguro, tranqüilo, ágil, barato.

Ali estavam eles buscando encontrar o apoio das gentes, estas que sofrem o transporte coletivo todos os dias. Os que ficam nas filas, os que amargam o trajeto em pé, no calorão, os que se vêm obrigados a irracionalidade das baldeações. Enfim, os usuários que reclamam nas longas esperas dos terminais. Mas, o que acham os que lutam? A velha lógica da Geni, tal qual cantou Chico. Olhares furiosos, xingamentos, papéis amassados com fúria. “Estão aí atrapalhando tudo”, dispara uma mulher. Jogam bosta na Geni.

Mas, quando a Geni salva o mundo, como na música, e como fizeram os estudantes e outros tantos lutadores anônimos em 2004, na Revolta da Catraca, estes mesmos furiosos usufruem das vitórias. Quem se lembra que em 2004 a passagem mais cara tinha ido para três reais? E que foi a luta das gentes, unidas, que fez a tarifa baixar? Quem se lembra desta estrondosa vitória do povo amalgamado em comunhão? Pois é! O povo unido, venceu... E todos agradeceram àqueles afoitos jovens que se arriscaram, que apanharam e fizeram acontecer a vitória. Tudo bem, a gente sabe o quanto as pessoas são engolidas pela mais-valia ideológica que se expressa na televisão, no trabalho, em casa, na escola. Mas o papel de quem luta é perseverar e buscar desvelar o que está escondido.

Neste primeiro dia de manifestação também foi como sempre é. Em menos de um minuto de junção do povo e lá já estava a polícia, “para manter a ordem”. A ordem dos empresários, dos dirigentes municipais. Não a ordem do povo que quer melhoria e tarifa menor. Eram poucos os milicos, mas do batalhão de choque. Já chegaram empurrando, rasgando faixas, com armas de choque soltando faíscas e aqueles olhares de ódio profundo. Sempre me tocam aqueles olhares. Uma expressão horrenda. São olhos fixos, não vêm em quem batem, estão além do ser. Vazios e cheios ao mesmo tempo. Um paradoxo. Pergunto-me sobre o tipo de treinamento que devem receber. Que coisa tremenda!

A galera não se achica, segue cantando, batucando e ocupa a rua em caminhada. Um P2 filma os manifestantes, um a um, e ri, debochado, quando é apontado como milico. Os soldados do choque acompanham, com aquele mesmo olhar. Depois, na hora da dispersão eles vagueiam pelo terminal de ônibus, ostensivos, buscando os incautos que vão tomar o coletivo sozinhos, sem proteção. É uma boa forma de provocar medo. Também são colocados alguns policias militares nas filas que se avolumam dentro do TICEN. Para que não haja o catracaço (que é quando o povo pula a catraca e não paga a passagem). Uma mulher, com cara de quem chegou de marte, pergunta ao policial.
- O que houve? Alguém morreu?
- Não, são os estudantes.
- Bando de vagabundos.

E segue, na fila, feito um cordeiro, por mais de 40 minutos. Vez em quando ela bufa embora pareça não compreender que “os vagabundos” querem melhorar, inclusive, a vida dela naquele terminal. O dia termina e a gurizada volta pra casa. Olham de soslaio, arredios, procurando os camuflados. Mas, não temem. Sorriem e esperam. Amanhã vai ser maior.

A Frente de Luta Contra o Aumento da Tarifa está chamando manifestação para os dias 6,7, 10, 11 e 12, em frente ao terminal do centro de Florianópolis.