quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Discurso del Che na ONU/1964

O homem que é um caminho!




Che Guevara, Presente!


Declaração de amor




“É hora das fornalhas, e não há de se ver senão a luz”. José Martí.

De novo, junto com a aurora, vem o meu comandante. Este homem lindo que num tempo mágico juntou teoria e ação. Homem moral, homem ético, revolucionário, apaixonado e apaixonante. El Che, Ernesto. O guri asmático, arfante e renitente. O mocinho indômito, curioso e rebelde. O caminhante desta Abya Yala, assombrado com as gentes. O médico generoso, o soldado disciplinado, o homem charmoso, o político coerente. Tinha como obsessão a conseqüência prática de cada posição política que defendia. Não era homem de discurso vazio.

“Há que estudar, e estudar, e estudar. O bom revolucionário precisa ser o mais próximo do perfeito. Perfeito em casa, no trabalho, no partido, na vida”. E era assim que ele mesmo fazia. Leitor compulsivo, trabalhador incansável, militante conseqüente. Nunca se vitimizou. Mesmo nas horas mais duras, quando o ar lhe faltava em plena selva, ele prosseguia sem proferir um ai. Sabia bem que aquele que se entrega a algo, com tanto amor, o faz sem alarde.

Este homem único fez concreta a palavra solidariedade quando percorreu as veias abertas de “nuestra América” e tomou partido junto aos empobrecidos. Todas as lutas que travou foram em nome do sonho de ver um mundo livre, justo, soberano, de riquezas repartidas. Morreu de pé, olhando no olho do carrasco. Seus olhos abertos, mesmo na morte, miravam o futuro. Ele não sabia, mas jamais estaria morto. Seu rosto cavalga nos peitos daqueles que amam a vida e sonham com o socialismo. Suas palavras ecoam nas cabeças dos que seguem a luta para vencer o capitalismo opressor.

“Será necessária uma guerra longa, uma guerra cruel. Que ninguém se engane quando for iniciá-la e que ninguém vacile por temor aos resultados que possa trazer ao seu povo. É quase a única esperança de vitória”. Aqui seguimos, comandante, amigo, subindo nuestras sierras maestras. Venceremos? Não importa... O que vale é subir a montanha, seguindo tua sombra gigante, tua querida presença. Lá na frente, o mundo novo, aquele, com o qual sonhamos, nos espera! E, em cada passo, vamos fazendo acontecer...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Jornalismo libertador

Saiba quais os pressupostos teóricos do conceito de Jornalismo libertador


O tempo dos homens lentos



Gosto de ficar parada, bem na entrada do terminal urbano, olhando as pessoas que correm. Na última sexta-feira então, estava mesmo bonito. Era fim de campanha eleitoral e as bandeiras apareciam em todo o seu esplendor. Era um mar de gente parada, segurando as bandeiras coloridas, e outro mar de gente em movimento, passando apressada, sem ver. Muitos sequer aceitam pegar um papel, ou se dignam a admirar a arte dos artesãos que buscam ganhar o pão de cada dia. Não há tempo, a vida ruge.

Penso no grande Milton Santos, geógrafo, intelectual, um ser de grande luz que dizia ser este o tempo dos homens lentos. Ele afirmava que as cidades tal qual como se conformam, transformadas em megalópolis, estão com seus dias contados. Essa vida de loucuras, de correrias, de tempo que se esvai, precisa acabar. Há que se buscar a vida boa em lugares de até cinco ou seis mil habitantes. Fazer como faziam os povos originários destas terras que quando percebiam o crescimento exagerado das aldeias, imediatamente fundavam outra, para que as gentes pudessem seguir vivendo em paz. Quanta sabedoria.

Nestas nossas cidades irracionais, os pobres moram longe de seus trabalhos, porque os aluguéis são altos demais nos bairros próximo ao centro. Comprar uma casinha então, nem pensar. Toca a se esconder na periferia, cada dia mais longe. Gastam mais tempo no transporte que os leva e traz, e ainda precisando amargar as filas do sistema desintegrado. Por isso correm. Um vivente que saia as seis do trabalho, certamente só chegará em casa lá pelas oito, na melhor das hipóteses, se conseguir fugir dos engarrafamentos monstros.

Por isso estas gentes que passam correndo lá no terminal têm os rostos tão tristes. É raro ver alguém com aquele sorriso fugidio na cara, de quem trama alguma marotagem. São rostos tensos, cansados, franzidos. Apenas a gurizada mais jovem se concede uma risada, uma gritaria. Mas os trabalhadores, estes não. Quando conseguem sentar, eles encostam seus rostos ao vidro e fecham os olhos, e gemem, e se retorcem. Sonham em ser homens e mulheres lentos, sorvendo a vida, prazenteiramente. Mas, qual, há que fazer girar a máquina do capital.

Assim, quando tarde do dia esse povo chega em casa para mais uma jornada de trabalho antes que corpo estafado desabe, nos salões, os homens e mulheres que vivem do trabalho alheio sentem as borbulhas do champanhe e riem. Ah, quando chegará o dia do levante das gentes?!...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Eleições



«Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.»
Eça de Queiroz (1845-1900)

domingo, 21 de setembro de 2008

Nasceu mais um Tupac Amaru

Era sábado e eu não esperava. Não sei bem do tempo dos bichos e era a primeira vez que eu tinha comigo uma gata preste a ter bebês. Estava em cima da cama, dormitando, tranqüila, tendo ao seu lado um irmão, que lhe abraçava e acarinhava. Agora sei que ele pressentia. Num repente ouvi seu grito e sem mais delongas sai de dentro dela uma coisinha ínfima envolta em placenta. Ela virou-se, encostou o nariz no gatinho e emitiu um uivo, cheio de lamento. Ele estava morto. Pouco depois, outro grito de dor, e então saiu outro, este já fora da placenta e respirando. Ela nem gemeu. Meticulosa, iniciou o ritual de limpeza com a língua e, em segundos, o bichinho estava limpinho e aconchegado no seu regaço.

Notei que ela não se preocupou mais com o primeiro gatinho que havia nascido morto. Tinha ali uma vida que precisava de cuidados e, aquele, não estava mais. Sábia decisão. Enrolamos a mãe e o recém nascido numa toalha limpa e o levamos para um outro canto da casa, afinal, ela havia dado a luz bem em cima da cama. Mas, desconhecendo as coisas dos bichos, não notei que ainda faltavam sair mais um. E, depois de umas horas lá veio ele. Também envolto em placenta e igualmente morto. De novo, ouvimos o uivo de dor.

Passados alguns minutos, vimos passar Juana Azurduy com seu filhote na boca. Lépida, ela o carregava escada acima para a mesma cama onde ele havia nascido. Recusava o outro canto, as toalhas, o cobertor. Queria o lugar primeiro e não abria mão. Ali ficou com seu filho, estendida e orgulhosa. Ele, feito um ratinho, ainda sem abrir os olhos se arrasta pelo lençol. E ela, tal qual a Juana que lhe empresta o nome, vigia sua cria, com os olhos bem abertos. Vez em quando o irmão de Juana, Zumbi dos Palmares, sobe na cama e lambe o sobrinho. Depois se encosta à irmã e a abraça delicadamente. O pai, Zé Pequeno, apareceu na hora em que ela deu a luz. Ouviu o grito e veio, ficou olhando de longe e, ao ver que pelo menos um estava bem, desceu tranqüilo. É bonito ver que é o irmãozinho quem protege.

Agora, enquanto escrevo, ouço os gritinhos do filhote, a quem chamamos de Tupac Amaru II, em homenagem ao seu avô Tupac Amaru, que um belo dia sumiu daqui para nunca mais voltar. Fico a pensar que os bichos são seres incríveis que nos ensinam sobre o cuidado com a vida, com a morte, com o amor. Porque, sem quê nem porquê, os bichos da casa fazem procissão até o quarto para ver Tupaquinho. Até o cachorro, Steve Biko, já saudou o novo vivente, lambendo-o devagar, sem oprimi-lo com suas patas graúdas. Zé Pequeno, Bolívar e Zumbi se revezam junto a Juana, que assume ares de matrona. A casa está assim. Cheia de felicidade. Que coisa mais boa!