quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Sim, defendo o diploma. Mas não só!


Os jornalistas estão desde há anos enredados em uma discussão sobre a necessidade da formação superior para o exercício da profissão. O julgamento desta questão, que está para ser feito no Supremo Tribunal Federal, tem levado alguns colegas a refletirem sobre o assunto e é bastante intrigante a posição de algumas pessoas sobre a comunicação e o jornalismo. Por conta deste debate, pretendo discutir alguns aspectos da questão, trazendo para a polêmica temas como o Estado, a formação, a soberania comunicacional e o sindicato.

1 – O Estado e a corporação - Antes de qualquer argumento contra ou a favor é preciso desvelar o Estado no qual se faz este debate. É o estado capitalista, liberal-burguês. Este tipo de organização da vida impôs-se a grande parte da humanidade desde a Europa, quando a classe burguesa colocou fim ao feudalismo naquela região e iniciou sua escalada rumo ao capitalismo. E foi justamente na aurora do que mais tarde se configuraria como capitalismo que nasceu a idéia de corporação. Naqueles dias, de ascensão dos burgos, os artesãos, que eram os primeiros trabalhadores livres, instituíram uma regra: para que um jovem pudesse ser considerado mestre artesão ele deveria passar por um período como aprendiz, equivalente a sete anos. Só depois desta formação teria o direito de formar sua própria equipe e aceitar seus aprendizes para que o ciclo seguisse. Naqueles dias, as idéias liberais já se opunham a este tipo de “barreira” para o exercício da profissão. Assim se expressa Adam Smith em seu livro Riqueza das Nações: “.. a política da Europa, ao obstruir a livre circulação do trabalho e do capital de um emprego para outro dá origem em alguns casos a uma desigualdade pouco conveniente das vantagens e desvantagens dos seus diferentes empregos.. seja o que for que obstrua a livre circulação do trabalho de um emprego para outro, impede também a livre circulação de capitais. A quantidade de capital que pode ser empregue em qualquer ramo de trabalho depende muito da quantidade de trabalho que nele pode ser empregue”. Argumentava então, de forma veemente, que estas barreiras causadas pelas corporações não deixavam o capital evoluir com liberdade e condenava essa prática.

É óbvio que as corporações da época de Smith não são as mesmas de hoje, tampouco as regras são iguais. Mas é importante retomar a história para percebermos que o que vale no mundo capitalista é a liberdade do capital. Isso não mudou, daí a importância da retomada da análise do grande liberal inglês. “O privilégio das corporações restringe a competição... e a longa aprendizagem é desnecessária”, defendia Smith. Ele dizia que algumas profissões não deveriam requerer todo esse cuidado e deixava aberta a possibilidade de formação apenas para o que entendia serem profissões nobres como a de advogado, por exemplo. Também é bastante singelo o argumento de Adam Smith sobre o fato de as corporações servirem para juntar trabalhadores. Diz ele: “Um regulamento que obriga todos aqueles que se dedicam a uma mesma tarefa facilita as assembléias...permite que travem conhecimento entre si muitos indivíduos que de outro modo nunca se encontrariam e dá a cada homem de uma dada indústria uma informação sobre a forma como deverá procurar qualquer seu colega...se bem que a lei não possa impedir as pessoas que se dedicam a um mesmo negócio de se juntarem, não deve fornecer qualquer regulamento que facilite estas assembléias, e muito menos torná-las necessárias”.

Por conta desta histórica vocação liberal de garantir a liberdade do capital - tão somente -, condenar a formação específica para profissões que não entendem serem as “suas” e evitarem de todo modo a criação de um espírito de corpo nestas profissões “menores”, é que os jornalistas precisam defender estas coisas incomodativas ao capital, tais como sindicato, formação, diploma. É tudo uma questão de defesa do corpo. E isso não deve ser encarado com vergonha. É legítimo! Por isso não concordo muito com os argumentos de que a defesa do diploma para o exercício da profissão vai garantir melhor informação ao cidadão. Não creio nisso! Penso que a defesa da formação específica é um argumento de corporação, absolutamente necessário no mundo do capital. Como deve ser a formação? Aí já é outro debate.

Já li e ouvi vários argumentos de jornalistas que atuam de forma autônoma, que não têm vínculo empregatício com qualquer empresa, defendendo o fim da obrigatoriedade do diploma. Muitos deles insistem que para escrever num jornal a pessoa não precisa ser jornalista, basta que tenha vocação para a escrita ou qualquer outra formação. Isso soa tão pueril como a prédica do velho Smith. É importante que estes colegas - que estão fora do sistema opressor e explorador da empresa de comunicação - percebam que a lógica de exploração também ocorre ao jornalista que atua como profissional liberal. Não é diferente. De alguma forma os trabalhadores autônomos, os pejotizados (que se tornam Pessoa Jurídica), os que atuam em assessorias, são tocados pela super-exploração do capital e se não tiverem espírito de corpo, se não se integrarem em uma luta coletiva, também vão sofrer o peso da bota do capital, mais dia, menos dia.

2 – Há que diferenciar comunicação de Jornalismo - Esta é uma confusão muito comum. As pessoas que defendem a não obrigatoriedade do diploma falam do direito inalienável de comunicar, que deve ser estendido a todos os seres humanos e não só aos jornalistas formados. Está correto. Comunicar é direito de todos, e qualquer pessoa pode e deve fazê-lo. O ser humano se comunica desde os tempos imemoriais, seja através de desenhos nas pedras, em tabuletas, papiros ou gritando no alto das montanhas. Dizer a sua palavra é pressuposto fundamental da liberdade do ser. Até aí, temos acordo. Mas, é bom que se diga, o jornalismo é uma das formas de se comunicar alguma coisa a alguém que traz no seu bojo todo um conjunto de regras que extrapolam o elemento primordial de simplesmente dizer a palavra. Jornalismo é um jeito de narrar que pressupõe análise, conhecimento histórico, impressão, focos narrativos, contexto, conhecimento sobre linguagem, signos etc... Coisas que a gente precisa aprender em relações de educação formal que extrapolem o desejo criador e criativo do ser sozinho.

Dou um exemplo. Qualquer pessoa pode conhecer as ricas receitas da medicina popular que envolvem o uso de ervas e outros procedimentos de cura. Mas, é bem natural que quando fiquem doentes, além de todos esses saberes ancestrais, as pessoas recorram a médicos, gente formada em relações educacionais que aprimoram ainda mais os saberes populares. Gente que adquire, na educação formal, a habilidade com técnicas e recursos que poderão ajudar ainda mais no processo de cura. Outro exemplo. Todo o ser humano tem capacidade de expressar seu gosto estético acerca de como se projeta uma casa. Mas, se for construir uma, a pessoa vai buscar no conhecimento específico do engenheiro a maneira de fazê-la sem que ela caia na primeira chuva. E assim, nas demais profissões. Portanto, é preciso que fique claro: o jornalismo tem no seu bojo toda uma série de técnicas e maneiras de fazer que são específicas desta forma de comunicar. Daí a importância da formação e da valorização desta educação formal. Assim, todos podem comunicar suas coisa, mas quando essa comunicação for feita através das técnicas do jornalismo, precisamos valorizar aqueles que têm formação nesta área. Até porque, não podemos esquecer, o jornalismo é uma profissão.

3 - Soberania comunicacional não inviabiliza o jornalismo – A idéia de soberania comunicacional que hoje invade o mundo expressa justamente a questão do direito à comunicação, não só receber, como controlar e produzir. E isso coloca um embate junto a categoria dos jornalistas. A ênfase na produção de comunicação popular tem levado muitos jornalistas a questionar o fato de gente sem habilitação produzir vídeos, rádio e até material gráfico. Esse é um debate intenso principalmente na Venezuela onde o conceito tem caminhado com mais concretude. Mas, aí, também é bom que as pessoas separem o direito de comunicar com a profissão do jornalismo. Veículos como jornal, televisão, rádio e internet, apesar de terem muito espaço jornalístico não são feitos só de jornalismo. Uma novela é uma forma de comunicação, um programa de variedades é uma forma de comunicação, uma conversa com pessoas é uma forma de comunicação, vídeos feitos para narrar a reprodução da vida nas comunidades, as festas, os costumes, são outras formas de comunicar. Não são necessariamente o jornalismo se expressando como profissão. Como já frisei lá em cima, jornalismo é um jeito de narrar que pressupõe análise, conhecimento histórico, impressão, focos narrativos, contexto, conhecimento sobre linguagem, signos etc.. E, insisto, jornalismo é uma profissão.

Nesse sentido, o papel do jornalista num país onde exista soberania comunicacional é, além de atuar como profissional nas empresas de comunicação, ser também um formador de agentes comunitários de comunicação. É estar entranhadamente ligado a estas formas de comunicar, atuando nas comunidades, ensinando e promovendo o desejo nos jovens comunicadores de estudar e de se apropriar de maneira mais profunda das técnicas e dos saberes que envolvem a prática do jornalismo. Não há qualquer conflito entre ser jornalista formado e defender o direito das gentes de produzir comunicação alternativa e popular. Um país soberano em comunicação não pode prescindir de seus jornalistas, pelo contrário, precisa deles para que sejam profissionais e também formadores. Agora, a regulamentação da profissão se faz necessária para que, em função dos interesses do capital, ela não seja aviltada.

4 – Se o jornalismo praticado é ruim, a culpa é de quem? – Uma das argumentações que se lê por aí é de que o jornalismo praticado hoje em dia é muito ruim, levando a crer que a formação é igualmente ruim, logo, descartável. Pleno acordo na primeira parte. O jornalismo praticado é ruim. Na verdade, eu iria mais longe. Pouquíssimos veículos de comunicação de massa praticam hoje o jornalismo, tal como já conceituamos. Processo de análise, com contexto, historicidade, interpretação, etc... No geral professam aquilo que Noam Chomski já caracterizou muito bem: a propaganda do status quo. E as escolas de jornalismo podem sim ter parte de culpa nisso também, não há como negar. Muitas delas – senão a maioria – renderam-se ao ensino do estilo de jornalismo estadunidense, ou seja, meramente informativo, sem que à informação sejam agregados os elementos análise, interpretação, contexto histórico, etc.. que definem o jornalismo de fato. Mas, isso por si só estabelece que as escolas são descartáveis? Não! Seja no curso mais reacionário do país, sempre sobra uma alma rebelde que abre veredas nas almas estudantis, apresentando o jornalismo tal como é. E, pelo seu lado, tampouco os estudantes são amebas. Colocados no ambiente universitário, obrigatoriamente se deparam com várias visões sobre o fazer jornalístico e não podem jamais dizer que não conhecem estas outras formas. Tomam posição e decidem qual delas vão escolher para trilhar seus caminhos profissionais. Se escolhem o jornalismo gosmento e cortesão, isso não é culpa do jornalismo, é fruto da decisão de um ser vivente. E mais, uma decisão tomada dentro de um sistema capitalista que tem por prática eliminar aqueles que não lhe seguem as regras.

O fato é que o que chamam de jornalismo nas grandes empresas de comunicação – e até nas pequenas – não o é. Quem consegue ver expressadas nestes veículos as várias vozes e os múltiplos olhares da sociedade? Esta não é uma regra cumprida por aqueles que detêm o mando. E a maioria dos jornalistas, por autocensura, por medo de perder o emprego, por enfado, ou até mesmo porque conspiram destas idéias de pensamento único, tampouco se esforçam para abrir espaço aos diversos discursos e fontes não-oficiais. Então, a crise não é do jornalismo e sim de um tipo de jornalista que, confrontado com a vida real, ou é cooptado pelo sistema, ou o teme demais para se rebelar. Por outro lado, dos milhares de jovens que saem das faculdades, sempre há uma porção de olhares críticos que insistem, que questionam, que subvertem a ordem das redações. E estes incomodam demais.

Assim, para o patrões, é muito mais saudável lidar com uma categoria cujo fazer não tenha uma regulamentação, que esteja alijada das lutas sindicais, que agradeça por ter um emprego. Daí esta sanha desatada pela desregulamentação da profissão do jornalista. Profissional regulamentado, protegido pela lei e pela corporação, é trabalhador perigoso, tal qual já alertava Adam Smith.

Mas, toda essa problemática não exime os cursos de jornalismo. Eles também precisam se re-pensar. Há que revolucionar e rebelar a maioria destes cursos que existem por aí. Porque a maioria fez escolhas que só servem para manter o estado de coisas. São os que preferem ensinar empreendedorismo, administração de negócios, webdesing, etc.. em vez do bom e velho jornalismo. São os que, com estas escolhas, defendem o modo de produção capitalista, que aceitam ser carregadores de palavra alheia, que não se aventuram pelos caminhos da análise, da contextualização, do aprofundamento que torna o jornalismo esse fazer singular, capaz de transitar pelo particular chegando ao universal, como bem ensinou Adelmo Genro Filho, transcendendo assim à mera informação, esta sim capaz de ser produzida por qualquer um.

Então, defender o jornalismo e, por conseqüência o diploma, passa a ser também a defesa de um outro curso, mas não a destruição dele, não a sua simples negação, ação bastante cômoda e entreguista. Resta então esperar que os professores e dirigentes dos cursos de jornalismo consigam fazer uma autocrítica e dêem o passo para mudar. E, além disso, também se espera o seu engajamento na luta por mais vagas nas universidades públicas, ampliando assim a possibilidade de formação gratuita.

5 – O sindicato – Neste contexto de lutas corporativas também o sindicalismo precisa rever suas práticas e compreender até onde também é responsável por esta indiferença da sociedade com relação às suas lutas. Quem, em sã consciência, pode esperar que a sociedade defenda os jornalistas? Alguém aí acredita mesmo que as pessoas são idiotas e não percebem o jogo de manipulação que a mídia faz diuturnamente? Há sim uma grande dose de dominação da mídia capitalista, mas também há compreensão das gentes. Estas sabem, ainda que muitas vezes de forma muito intuitiva, que as notícias que saem nos jornais e nas televisões não as representam. Elas nunca são protagonistas de nada. E quando são, é por tragédia ou por bandidagem. Ao “povo” resta a cena ritual, a imagem rápida, a marginalização. E, quando se alça em luta por direitos, contra os ataques das multinacionais, dos poderosos, dos que mandam, então são mostrados como baderneiros, loucos, bandidos. Por que raios então, eles iriam encampar uma luta de jornalistas pelo direito de regulamentação?

À maioria dos sindicatos de jornalistas, e à sua Federação, falta a devida inserção na vida real. Falta o debate direto com as gentes, a discussão acerca do trabalho, sobre o domínio das empresas, sobre a lógica que comanda a decisão do que é notícia ou não. Há que se alfabetizar toda a gente sobre o que é jornalismo e que a se propõe. Desvelar quem faz jornalismo de dominação e quem faz jornalismo de libertação. Compreender e fazer compreender aquilo que George Orwell tão bem ressaltou no seu clássico texto “Liberdade de imprensa”: que os empresários da comunicação temem a opinião pública, por isso não fazem questão de informá-la com qualidade. Ao povo, os donos do poder não deixam dar as “finas iguarias” como bem lembrava o grande repórter Marcos Faermann, daí a necessidade de discutir o fato de haver toda uma categoria de trabalhadores submetida às violações, desmandos, censuras e violências que todas as demais também passam.

Mas, para isso, precisaria primeiro haver a aceitação de que os jornalistas são classe trabalhadora. E, que, apesar da crescente pejotização, ninguém está livre da roda insana do capital. Aí sim, talvez, se pudesse iniciar um fraterno e cooperativo debate com as gentes da vida real, estas que não saem no jornal e às quais recorremos nas lutas contra o fim do diploma. Hoje, com esse jornalismo cortesão que se pratica não lograremos alcançar suas graças. Há ainda uma longa estrada a trilhar.

6– Finalizando – A luta pela manutenção do diploma deve ser feita, sem medo ou vergonha, no melhor estilo da defesa da corporação. Porque este é um estado capitalista no qual o consenso habermasiano não tem lugar. Sem uma regulamentação que garanta nossos direitos como profissionais de um determinado fazer não teremos força para sentar com os patrões e negociar. A única força capaz de dobrar o capital é o trabalhador protegido e organizado. Daí também a necessidade do fortalecimento dos sindicatos como órgãos capazes de fazer o jornalista compreender sua condição de classe. Depois, uma outra grande frente de luta junto aos cursos de Jornalismo para que enfunem suas velas na direção de um jornalismo comprometido com as maiorias. E, então, aí sim, teremos a possibilidade de encontrar nas gentes o apoio necessário para caminhar com os jornalistas na defesa de seus direitos. Defendo o diploma sim, mas não só. E sem estes outros elementos penso que esta defesa é vazia e desprovida de sentido. Ou se defende tudo isso junto, ou nada! E sempre com o firme propósito de mudar o sistema de organização da vida que aí está. Nada de humanizar o capitalismo, mas sim caminhar para sua destruição, construindo uma vida em que não haja exploração e as riquezas sejam repartidas. Utopia? Sim! Estas que fazem a gente caminhar...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Da humana mortalidade



De repente, no meio do turbilhão da vida cotidiana, o coração dá um salto. É uma coisa sutil, mas igualmente estranha. Não é amor, não é medo, não é irritação. É um defeito na máquina. Aí vem toda aquela coisa de filas, guias e esperas do SUS. Este é, sem dúvida, o melhor plano de saúde do mundo, mas ainda emperra nas burocracias. Tudo bem, a gente vai ultrapassando as barreiras. Tudo vale a pena quando se cai na mão de um adorável chinês que fez de Floripa o seu lugar. Médico sem igual, destes que olha nos olhos, que conversa e ri. Dos que transmite segurança e segura tua mão a dizer: eu estou aqui. “Não sei o que há, mas estou aqui”. Não tem certezas, apenas humanos atos de compaixão. É tudo o que se precisa quando se está frágil.

Então vem aquele sentimento que só nos invade no outono da vida: somos mortais. Toda aquela arrogância juvenil já não há mais e o sentimento de invulnerabilidade se esvai num átimo. A bomba vital está de passo errado. Agora não é mais a vida mesma que caminha na direção contrária, é o motor. Bate a certeza de que este estar no mundo é só um sopro, um fugaz segundo da história da raça. É a hora da humildade, de assumir nossa desimportância. A gente se vai e tudo segue. Nenhuma onda macula a perenidade da grande energia cósmica. Somos só poeira.

É uma coisa boa isso de nos confrontarmos com nossa fragilidade humana. A gente tira o pé do acelerador, diminui a marcha e vai procurar nas gavetas o velho poema de Borges. Hora de viver plenamente, porque, afinal, tudo já vai terminar. Hora de viver pores-do-sol, de ventos gelados a beira mar, de abraçar os bichos, de dizer que ama, de ligar para velhos amigos, rever caminhos da infância. Tempos de lentidão. Menos trabalho, mais encontros felizes. Milton Santos já dizia: o futuro é dos homens lentos. Acatarei. Não tenho saída.

Meu coração bate errado. Cansou talvez de tantos baques e lutas inglórias. Meu coração pediu água, descanso. E eu aprendo com ele que é possível o mundo sem mim. Hora dura essa, mas superável. O que vem depois é uma tremenda paz. “Não sou nada, não posso querer ser nada. A parte isso, tenho todos os sonhos do mundo”, sussurra Pessoa. Hoje eu me olhei e vi que outonei. Mas ainda há tempo para viver. Vou fazê-lo!


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

As FARC e as ligações com o Brasil

Ventilam em toda imprensa brasileira informações sobre supostas ligações do governo de Lula com as FARC, na Colômbia. Aparecem nomes como o de José Dirceu, o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, e até o ministro Celso Amorim. As informações, requentadas por jornalistas brasileiros, foram divulgadas pela revista colombiana Cambio, do grupo editorial El Tiempo, que tem entre seus diretores membros da família do atual Ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos. O ministro é o mesmo que deu em primeira mão, para o jornal El Tiempo, também da sua família, a informação de que haviam confiscado o computador pessoal de Raul Reyes, do ataque no qual o mesmo resultou morto. Desde então, este super computador tem servido de cornucópia de informações sobre praticamente todos os inimigos da política estadunidense que, por incrível coincidência, estavam listado na máquina do guerrilheiro.

É importante lembrar que as Forças Armadas Colombianas formam um grupo insurgente e popular que luta pela soberania daquele país desde os anos 60, quando em toda a América Latina pipocaram dezenas de movimentos de libertação. Alguns deles foram vitoriosos, como o caso dos sandinistas na Nicarágua, outros foram sendo destruídos pelas forças dos governos ditatoriais em parceria com mercenários estadunidenses. As FARCs vem resistindo a todos os embates com os governos de seu país e ao complexo e anti-nacional Plano Colômbia fechado em Washington por dirigentes colombianos, em 1992. Já o grupo editorial El Tiempo é formado por poderosos grupos da oligarquia que sempre esteve no poder na Colômbia, controlando a maioria dos meios de comunicação que funcionam como usinas ideológicas a serviço do status quo. Logo, fica bastante difícil confiar nas informações que são divulgadas pelos seus veículos, sejam eles impressos, televisivos, radiofônicos ou distribuídos na internet. Pior ainda se a fonte for o ministro do governo Uribe, que é filho do editor do jornal e digno representante da elite colombiana.

Assim, é totalmente inverossímil que alguns jornalistas, ditos sérios, possam cair no conto de que estas “supostas ligações” tenham sido descobertas no computador de Raul Reyes, o líder guerrilheiro assassinado pelas forças colombianas no território do Equador. E acaba sendo surpreendente perceber que poucos “escribas” nacionais falem sobre a ação criminosa de Álvaro Uribe - invadindo um país soberano - mas desperdicem papel especulando sobre os famosos correios eletrônicos que Reyes teria em seu computador, e dos quais não se têm qualquer prova a não ser a palavra do ministro.

Raul Reyes era um intelectual, um homem das letras. Ele sabia muito bem que, na guerra, o elemento mais valioso é a informação. Sendo assim fica difícil acreditar que ele deixaria arquivado num computador todos os nomes e telefones de pessoas que possam ter algum dia ajudado a guerrilha. Também parece pouco provável que numa ação de guerra tão feroz como foi o ataque feito na selva equatoriana, apenas o computador “indestrutível” do líder das FARC sobraria intacto para que a inteligência colombiana pudesse descobrir os emails.

A história do computador de Raul Reyes, que armazenava correios desde a metade dos anos 90, quando a Internet ainda era um instrumento quase que exclusivamente acadêmico, é tão espetaculosa que só mesmo num livro de Garcia Marques poderia ser verossímil. Ao que parece pelo menos isso os militares colombianos têm de bom. Conhecem muito bem o realismo fantástico de seu compatriota e supõe que: se Macondo é possível, porque não um “super/mega/power computador” e um líder néscio o suficiente para registrar tudo em detalhes? Também é importante ressaltar que a Interpol, que supostamente teria conseguido recuperar as informações, violou todas as regras de investigação comumente definidas para este tipo de questão, tornando igualmente pouco crível a história.

O fato é que toda a história de computador, ligações perigosas e terrorismo é uma ação ideológica do estado colombiano para desviar a atenção daquilo que verdadeiramente importa, ou seja, a crescente ocupação do território colombiano por marines estadunidenses que buscam dar fim às lutas de libertação popular em vigor desde o final dos anos 60.

Para melhor compreender o que são as FARC é preciso voltar no tempo e estudar a história da Colômbia. Um país que entrou em convulsão social no ano de 1948 deixando sua população totalmente desprotegida diante da barbárie. Por conta disso as comunidades precisaram se armar para defender suas vidas e seus lares. Como os governos que se sucederam não atacaram as causas da violência endêmica, alguns grupos, alinhados politicamente com as idéias de socialismo e libertação, principiaram um processo revolucionário e desde então vêm lutando no país. A questão do narcotráfico apareceu muito depois e sempre teve o apoio da inteligência estadunidense, porque desta forma poderia ser um bom motivo para levar a cabo o processo de ocupação do país.

A Colômbia é um país que, ocupado pelos marines, serve como porta de entrada para uma das maiores riquezas do planeta: a região amazônica. Daí o interesse estratégico dos governos estadunidenses. Quando em 1999 o presidente colombiano Andrés Pastrana foi a Washington com um projeto de combate ao tráfico de cocaína, este projeto foi totalmente remodelado pelos assessores do presidente Clinton – de olho na Amazônia - e é nesta época que se inicia a ocupação militar estrangeira no país. Os grupos armados, de natureza socialista, como as FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN), o que têm feito é lutar para que a soberania do povo colombiano seja recuperada. É certo que a guerrilha, passados mais de 40 anos de luta renhida, está fragmentada e muitas são as correntes de pensamento e ação dentro dos grupos insurretos, mas isso não os torna terroristas ou narcotraficantes.

O tráfico de drogas existe, é real, e tem ramificações poderosas em todos os setores da sociedade colombiana, inclusive junto aos paramilitares, nas fileiras governamentais e no poder judiciário. Nem mesmo o presidente do país escapa das capilares malhas. O jornal estadunidense New York Times divulgou em 02 de agosto de 2004 -
(
http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9507E3DF163CF931A3575BC0A9629C8B63) - uma reportagem na qual mostra o atual presidente Álvaro Uribe como um dos integrantes da lista (blacklist) dos implicados com o narcotráfico, feita pelo poderoso Departamento de Combate a Drogas dos Estados Unidos. A matéria fala de Uribe como sendo uma pessoa muito próxima de Pablo Escobar, o famoso narcotraficante que consolidou o papel da Colômbia como uma dos maiores produtores de cocaína do mundo. Portanto, imputar às FARC ou a ELN o rótulo de terroristas e traficantes nada mais é do que inverter a lógica, trocar os papéis.

A ação militar que se leva a cabo hoje na Colômbia, com o uso ilegal de mercenários a soldo estadunidense, esta sim é terrorista. É o chamado terrorismo de estado, perpetrado pelo próprio governo. Ao povo, resta a defesa e aí, as guerrilhas são a mais clara expressão desta defesa. Porque essa gente luta por uma Colômbia livre, soberana e capaz de gerir seus próprios problemas, sem precisar da intervenção do exército estadunidense e muito menos dos assassinos paramilitares. Agora, daí a crer que estas informações sobre pessoas da esquerda do mundo todo estejam saindo do computador sobrevivente do bombardeio clínico efetuado por soldados dos Estados Unidos, já é muito realismo mágico para nossas cabeças de simples mortais. Seria bom que os jornalistas cortesãos pudessem estudar mais. Porque dizer isso ou é completo desconhecimento da história, ou o pior, é ser agente de propaganda de um sistema falido e comprovadamente criminoso.

Se todas estas informações que o jornal do pai do ministro diz que foram encontradas no computador de Raul Reyes são reais e verdadeiras, porque o governo de Álvaro Uribe não encaminha um relatório completo e oficial a todos os países integrantes da OEA? Essa seria sua primeira obrigação. Mas, o que se vê é um governo dirigir sua política externa a partir de chantagens, nominando esta ou aquela liderança latino-americana, de preferência as que incomodam ao sistema, e acusando-as, sem qualquer prova, de terrorismo ou de co-participação nos processo de guerrilha. Quem em sã consciência pode crer num governo que usa o terrorismo de estado, que apóia mercenários, e que faz acusações a partir de um computador que ninguém viu? Não será ele filho da mesma escola que inventou provas inexistentes de armas químicas no Iraque?

Os jornalistas deveriam ser um pouco mais perguntadores, como ensinava o grande Marcos Faermann.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mahmud: imortal!



“Venham companheiros de correntes e tristezas
Caminhemos para a mais bela margem
Nós não nos submeteremos
Só podemos perder
O ataúde”.

Ele era assim. Essa voz poderosa chamando para a revolução. Queria ver seu povo livre, soberano, feliz. Queria de volta a sua Palestina, não como concessão de algum político bonzinho, mas porque esse é o direito do povo, usurpado em 1948 pela criação do Estado de Israel. Mahmud Darwish, poeta, guerreiro, anjo, criança, renitente, insistente. Encantou no último sábado (dia 9) quando seu coração, pesado de tanta dor, deixou de bater. Mas, enganam-se aqueles que pensam que Mahmud vivia por conta de seu coração. Não. Ele vivia pelas palavras que criava, pelas construções poéticas que erguia e, estas, nunca haverão de morrer.

Ninguém disse nada, mas quando os olhos de Mahmud apagaram para este mundo, abriram-se para a velha aldeia onde nasceu, Al Barwua, de onde sua família foi expulsa pelas armas de Israel. Um lugar que não existe mais, a não ser nos sonhos do menino que nunca a esqueceu. Encravado no coração da Galiléia, o povoado é hoje um acampamento judeu. Mas, para Mahmud sempre foi seu torrão natal, seu ninho. E é possivelmente lá que agora ele passeia, entre as oliveiras.

“Registra-me
Sou árabe
O número de minha identidade é cinqüenta mil
Tenho oito filhos
E o nono... virá logo depois do verão
Vais te irritar por acaso?”

Mahmud foi o poeta palestino que de forma mais radical imortalizou a dor e a luta de seu povo. Até porque nunca se limitou a ser apenas um escrevinhador. Era um animal político, absolutamente conectado com as ações e com a vida real. Seu canto poético brotava das vísceras à mostra, do homem pé-no-chão, do palestino encarcerado, do humano grávido de esperanças. Suas palavras nunca foram criações estéticas. Eram o gume cortante de uma vida real, expressa em sangue e lágrimas. Seu poema nos arranca da apatia e nos convida a lutar, concretamente.

“Ainda verte a fonte do crime.
Obstruam-na!
E permaneçam vigilantes
Prontos para o combate”

Pois agora a mão que rasgava em fogo o papel com o grito da Palestina ocupada já não escreverá mais. Mas precisa? Seu canto de liberdade está cravado na terra fértil dos corações que sonham com o ainda-não, e dali nunca fugirão. Mahmud passeia em Al Barwa. Mahmud passeia nas terras antigas, onde vivia uma gente livre. Mahmud passeia nas cabeças das gentes e grita, com elas. Mahmud imortal, imenso, menino, homem, pura vontade de ser aquilo que sempre foi: palestino, livre, soberano. Porque a liberdade, afinal, vive lá dentro, no profundo do humano. Mahmud! Presente! Sua alma imortal dançará no dia da vitória!

“selvagens... árabes”sim!
Árabes
e estamos orgulhosos
e sabemos como empunhar a foice
como resistir
inclusive sem armas
e sabemos como construir
a fábrica moderna
a casa
o hospital
a escola
a bomba”

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

sorriso de deus

E então a natureza nos convida a ser feliz...

“Se é pra cachaça, não dou!”


Eu sou uma observadora das ruas. Gosto de ficar parada, olhando como as pessoas se comportam, e existe uma situação que me incomoda demais. É a postura dos motoristas quando pessoas empobrecidas pedem uns trocados nos sinais de trânsito. É batata. Nove em cada dez não dão moedas para o povo pobre. No mais das vezes fecham a cara e acabam de cerrar os vidros para sequer ouvirem a súplica. Outro dia perguntei a um cara porque ele não dava dinheiro e ele respondeu de forma ríspida: “isso é pra tomar cachaça”. E, claro, como um bom pequeno burguês ele tinha de dar lição de moral. Cachaça para gente empobrecida é coisa nefasta. Uísque no final da tarde não, mas cana? Por que afinal, esse povo não vai trabalhar?

Pois no início de semestre aqui na universidade federal eu vejo cenas semelhantes acontecerem. Garotos e garotas idiotas, que se submetem aos trotes - mais idiotas ainda - ficam nos sinais de trânsito pedindo trocados. Todo ano a cena se repete apesar de o trote ser proibido. Pois é incrível como a postura dos motoristas muda. Nove em cada dez abrem o vidro, sorridentes, e buscam rapidamente as moedas nos bolsos ou no porta-luvas. Entregam o dinheiro, felizes, e ainda fazem piadinhas inocentes. “São os universitários, tão bonitinhos”. Perfeito! Para as garotas de rosto corado e garotos criados a toddy não há problema nenhum em dar dinheiro. São estudantes vivenciando o trote. Mas, para os feios, sujos e malvados, ah..não! Esses vão beber cachaça.

Mas, se os motoristas imbecis não sabem, os trocados que eles tão alegremente dão aos idiotas que se submetem ao trote, vão parar todinhos na caixa registradora do Bar da Nina, onde os veteranos ficam enchendo a cara de cerveja às custas do trabalho de pedintes dos calouros. Ah tá, mas tudo bem. São estudantes. Podem encher os cornos à vontade. Os empobrecidos não. Estes têm de enfrentar a miséria, a humilhação, o nojo, de cara!

Não é sem razão que abomino a classe média, essa raça intermediária que sonha em ser burguesa e vive arrotando caviar apesar de comer cardosinhas. É uma gente que não tem compaixão, não tem consciência de classe, não se acha trabalhador e pensa que estará sempre livre da miséria. Mal sabem que no mundo capitalista para que possam viver à larga, outro tem de morrer. E seguem, com os vidros fechados, torcendo o nariz para a pobreza. Até que ela os encontre...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O que é afinal, a autonomia?

A Bolívia está de novo a arder. Há dias de um referendo histórico, a direita e a ultra esquerda se unem em uma série de protestos, o que mostra quão difícil é fazer mudanças radicais na vida das gentes. A grande questão que divide os bolivianos hoje é a da autonomia. Com a decisão da nova Constituição de estabelecer a autonomia para as comunidades indígenas, a elite branca das regiões mais ricas do país decidiu que também quer autonomia. Mas, afinal, o que diferencia uma autonomia (a dos povos originários) da que quer a elite branca? Talvez esse seja o nó que precisa ser compreendido e que quase ninguém explica.

Sem qualquer sombra de dúvida, o pano de fundo de toda essa guerra passa pela questão étnica, mas não só no que diz respeito ao aspecto cultural, folclórico. O problema é, fundamentalmente, político e econômico. Pois então vamos trilhar os caminhos da história para chegarmos até os conflitos de hoje.

Desde a invasão espanhola que os povos originários, vencidos, foram relegados a condição de gente de segunda classe. Por terem uma organização da vida completamente diferente da que foi trazida e imposta pelos invasores, sempre foram tachados de preguiçosos, inúteis, sub-raça, etc... Mesmo entre parte daqueles que se dizem seus defensores este mito subsiste e não é à toa que as idéias que hegemonizam as políticas indigenistas ou são integracionistas ou de isolamento tutelado.

O mexicano Hector Diaz-Polanco, num livro bastante revelador chamado “La cuestión étnico-nacional” dá uma visão clara destas correntes que hoje disputam as mentes e os corações das nações. A primeira delas é a da integração. Nesta, a idéia que vigora é a da completa irrelevância do modo de vida dos povos originários. Sua organização política, econômica e produtiva é considerada primitiva, atrasada, sem chance de vingar no mundo capitalista. Então, a melhor saída é a integração. Os originários adentram ao mundo branco, capitalista, e podem disputar um lugar ao sol na senda do progresso. Nada mais que a mesma lógica colonial na qual o que é diferente precisa ser eliminado. Já a outra corrente busca o isolamento dos povos em mundos idealizados e tutelados. O modo de vida dos povos autóctones é visto como algo a ser preservado e a ênfase fica calcada na questão cultural. Garante-se reservas protegidas pelo Estado e ali, os povos originários podem ser o que são, sem se contaminar pelo mundo capitalista.

Na verdade, tanto uma como a outra desconsidera e reduz o mundo originário. Uma como negação e a outra como idealização. As gentes autóctones, por mais segregadas que estejam em reservas protegidas, estão definitivamente mergulhados no mundo real, multi-étnico e multi-cultural do agora. A América Latina é hoje um espaço mestiço, misturado, de brancos, negros, originários, amarelos e azuis, regidos pelo sistema capitalista. Todas estas etnias reivindicam o direito de serem livres e autônomas, de construírem por si mesmas, neste espaço geográfico comum, em comunhão, a vida mesma. Pois é aí que entra o debate sobre autonomia.

A autonomia dos povos autóctones

Desde os anos 70 que a América Latina vem apresentando um movimento profundo das etnias subjugadas ao longo destes 500 anos. Encontros, congresso, debates e rodas de conversas foram se produzindo nas entranhas do continente envolvendo os povos originários e suas demandas. Eles saiam das sombras e passavam a reivindicar autonomia. O grande divisor de águas, foi, sem dúvida, o levante zapatista no México em 1994, fato que impulsionou toda uma retomada das lutas autóctones. Quando alguns autores vaticinavam o fim de todas as utopias, os chiapanecos, armados, tomavam cidades e lançavam seu grito: “Ya basta!”

Mas, então, o que é essa autonomia reivindicada pelos povos originários? Até onde ela ameaça realmente a idéia de Estado-nação? Até que ponto significa a balcanização do continente? Bom, no que diz respeito à maioria destes povos em luta, em nenhum sentido. A proposta dos zapatistas não é de destruir o México, ou separar-se do estado. É garantir ao seu povo, que conspira de uma outra forma de organizar a vida, o direito de fazê-la. É, na verdade, uma proposta que se contrapõe ao modo de produção capitalista e que busca a construção de outras experiências. É, principalmente, a tentativa de destruição desta forma de vida – o capitalismo - em que para que um viva outro precise morrer. A autonomia reivindicada pelos povos originários é a que lhes garanta o direito de organizar a vida do jeito que acreditam ser melhor, o que não significa retomar de forma acrítica o passado, mas de preservar aquilo que do passado pode ser preservado e avançar ainda mais no processo de construção de um mundo bom de viver, no qual possam estar em harmonia e igualdade de direitos com as demais etnias.

Por que então, esta proposta de autonomia é diferente da que quer a elite branca de Santa Cruz? Por que esta não reivindica separação. Esta quer o direito de autodeterminação que está em todos os documentos internacionais, que é o centro da doutrina Truman, que é o que cada nação reivindica para si. Porque os povos originários são aquilo que Lênin chamaria de “nações oprimidas”, ou seja, não têm direito a vida política e econômica dos seus países, são tutelados. E os ricos de Santa Cruz, desde quando não têm direitos? Desde quando são oprimidos? Pois nunca passaram por isso. Sempre foram os que mandaram na Bolívia e agora não querem saber de dividir o poder num espaço pluri-nacional.

É aí que parte da esquerda também se equivoca, ao unir suas forças contra a idéia do estado pluri-nacional, contra a autonomia dos povos originários. É quando mostra sua faceta racista, incapaz de perceber que as gentes autóctones também estão colocadas na condição de classe oprimida, portanto, parceiras na luta contra o capital. Este deveria ser o trabalho da verdadeira esquerda: juntar forças, estabelecer parcerias, unificar as lutas. Ao atuar na direção da garantia da autodeterminação e autonomia dos povos originários os trabalhadores organizados poderiam aumentar suas fileiras com aqueles que hoje estão fazendo as lutas mais esganiçadas na defesa dos recursos naturais e pela soberania dos povos. Exceto alguns grupos absolutamente minoritários, os povos originários de todo o continente não têm entre suas consignas a idéia de separação. O que querem é o direito de atuar politicamente no país e de garantir sua especificidade no jeito de organizar a vida.

É mais do que óbvio que isso constitui um problema para os governantes e para a maioria da população que está incluída no modo de produção capitalista. Mas este é o desafio a vencer. Estas são as batalhas para serem travadas agora. As de construção de um outro tipo de nação, capaz de garantir verdadeiramente direitos iguais a todos e não apenas a alguns, como tem sido. Conviver com a diferença, respeitar o outro e fundamentalmente fundar um novo modo de viver, esta é a proposta. Um modo de viver construído “desde abajo”, por aqueles que sempre estiveram à margem, excluídos da vida digna. Um modo de viver que não seja a inclusão no sistema que aí está, mas que permita o desalojamento de todas estas verdades cristalizadas de que o capitalismo é o melhor dos mundos. Neste mundo novo, anti-capitalista e anti-sistêmicos os autonomistas de Santa Cruz não querem viver. Por isso querem outra nação, por isso querem se separar. Eles não cabem no mundo novo. Mas a Bolívia é mais do que a elite predadora e vai ter de superar seus desafios.

É certo também que o governo de Evo Morales tem lá seus problemas e muitos são seus erros e equívocos, mas o que não dá para negar é que se está tentando revolver a velha forma de vida. E na comunhão com a maioria oprimida. Esse é um bônus que não dá para descartar. Os trabalhadores explorados, os informais, os mineiros, os brancos pobres, os amarelos, os azuis, todos aqueles que conformam a classe trabalhadora da Bolívia deveriam aceitar esse desafio. E fazer história, construindo um jeito novo de viver.