segunda-feira, 26 de maio de 2008

Uma sombra em rebelião



Aconteceu assim. E só poderia ser no meu Campeche, lugar de magias. Vinha eu mui fagueira cuidando dos vaga-lumes que rodopiavam sob minha cabeça. Eram umas dez horas da noite e eu fazia o percurso que vai do ponto do ônibus até minha casa, o que dá uns 600 metros. Além dos vaga-lumes, as estrelas luziam brilhantes na noite fresca de lua nova. Noite típica de outono, plena de beleza, sagrada. Nessas horas mortas eu gosto de limpar a mente, não pensar em nada, só fruir esse presente da natureza, completamente integrada na pulsação do universo. E assim caminhava, sentindo o vento geladinho. Feliz.

Foi então que, de inopino, minha sombra andou. É sério! Andou... Vinha ela, correta, me acompanhando tranquila  no lugar onde deveria estar. Mas, num repente, andou. Vejam bem, eu não estava drogada, até porque a única droga que uso é o transporte coletivo da Capital, mas já não estava nele. A menos que tenha sido alguma reação tardia. Mas, em tese, eu estava limpa. De cara.
Durou um segundo e logo voltou à sua posição. Não havia nenhum foco de luz que a deslocasse, não estava passando nenhum avião. Tudo estava naquela santa paz das noites tranquilas. 

O fato é que minha sombra andou. Por alguns segundos se libertou de mim e seguiu à frente. Estupefiz! No meio do caminho parei e fiquei a indagar o que poderia ter sido aquele ato de rebeldia.

Estaria minha sombra enfarada de mim? Estaria meu corpo comportando-se como uma prisão para sua negra liberdade? Estaria ela querendo me dizer algo? Estaria prenunciando meu fim?Então, no meio da noite clara, na companhia dos vaga-lumes, nenhum som se fez. Minha sombra calada ficou e seguiu ordeira, do meu lado, pouca coisa atrás. Mas, me deixou essa inquietude, esse desassossego. Minha sombra, essa louca, deve ter aprendido nas tantas lutas que fiz que é preciso sair do trilho, revolucionar. Minha sombra, companheira, quer voar... Rebelde e livre, como eu!

quinta-feira, 15 de maio de 2008

60 anos de ocupação das terras palestinas


Magda do Canto Zurba*

Nos últimos dias Israel tem celebrado seu 60º aniversário. Este é um momento de muita dor e pesar de todo o povo palestino e sua imensa população que foi banida de seus territórios (leia-se lares, escolas, famílias...) nos últimos 60 anos. Muitas famílias foram fragmentadas, seus sobreviventes se espalharam pelo mundo todo. Surpreendeu-me a falta de sensibilidade da Embaixadora de Israel no Brasil ao anunciar, em seu artigo no DC, publicado em 14 de maio, que: “Israel promove a diversidade, liberdade de expressão e liberdade de culto”.
Acalenta, a senhora embaixadora, a noção de que Israel cumpre a meta de ser uma democracia genuína, baseada em valores universais. O descompasso de tais informações seria até engraçado, se não fosse trágico. É preciso então dizer o que não foi dito: que Israel foi estabelecido justamente onde estava situada a Palestina, através de uma resolução da ONU, e que isto ocorreu sem que se consultasse o povo que ali já vivia, ou seja, o povo palestino. É preciso lembrar que o Estado de Israel foi imposto através de força militar e financiado pelo capital estrangeiro.
É preciso dizer que diariamente palestinos são assassinados, até mesmo crianças. Que todos por lá vivem em situação de terror e medo, inclusive o próprio povo judeu que decidiu ali se fixar. É preciso dizer que existem postos de controle por toda parte, intimidando e reprimindo a vida dos que ali já viviam. É preciso lembrar que a criação do Estado de Israel na Palestina não foi consensual sequer entre o povo judeu, que muitas vezes tem apresentado oposição às práticas racistas e desumanas do governo israelense.
É preciso lembrar que o muro que o governo israelense construiu, desumanizando ainda mais as condições de vida do povo palestino, foi considerado pela ONU como algo que fere os direitos humanos... Enfim, seria preciso dizer tantas coisas... mas quase não se diz. Atualmente a comunidade internacional assiste impassível a um massacre cotidiano. Nem as notícias diárias parecem sensibilizar a humanidade para o que realmente vem acontecendo na Palestina (agora chamada Israel). Então, convenhamos, falar em Estado “democrático” em Israel já é demais... Democracia? Para quem?

* Professora de Psicologia da UFSC e militante pela paz no Oriente Médio.

Lembrando o Nakba

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Hoje amanheci


Hoje amanheci, e já se haviam passado 48 voltas em torno do sol
Longas e deliciosas voltas
De vida repartida com os perdidos, os loucos, os fora da casinha.
Vida partilhada com amigos velhos e novos
48 voltas cheias de grandes tristezas, algumas dores imensas
e infinitas alegrias.

Meus dois homens me despertaram com beijos, abraços e presentes
feitos com as próprias mãos
Meus bons amigos lembraram de mim
Os passarinhos cantaram lindas melodias
e os gatos, sabendo de minha alma em festa
se enroscaram em mim enquanto amanhecia...

Amanhão meu corpo pequeno inicia a quadragésima nona
girando, saudando o grande deus, Kuaray!
E tudo será pleno e quente e doce e belo
e todas as lutas serão travadas
e o sorriso não se apagará em mim..
porque viver, já ensinaram os Apaches
é caminhar na beleza!

Cinema Latino-Americano

Já está na página do IELA a programação do Circuito de Cinema Latino-Americano e Caribenho, Ali Primera, que é promovido pelo IELA todas às quintas feiras, às 18:30 minutos. Coemça com uma sessão sobre a Colômbia e depois com líderes de nuestra América. Dá um pulo lá e vê os filmes que estão programados.
www.iela.ufsc.br

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A Esfinge



Os gatos, deuses
Cuidam o portal
Os gatos, deuses
Só deixam entram
Os que sabem amar...

Assim é na minha casa,
Portal de mundos
E o gato, deus
Ali está, a cuidar...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Encontrei o Odimar


Foi num destes dias em que tudo o que tem para dar errado, dá. Saí de casa meio dormindo, por conta do cansaço de dias de trabalho duro. Acenei para o ônibus e lá fui, balançando, em pé, pois, como é comum em Florianópolis, os coletivos estão sempre lotados. Tudo por conta da ganância dos empresários que diminuem horários para ter mais lucro. Quem sofre é a ralé. A minha bolsa, enorme, ia colada nas costas, arqueando o corpo fraquinho. Numa dos braços levava uma caixa com uma filmadora, com a qual precisava registrar uma conferência. No outro braço carregava uns sete livros, que devolveria na biblioteca. Como sou baixinha, meu braço não alcança o ferro do ônibus e preciso me agarrar nas beiradas dos bancos. Nenhuma alma das que estavam sentadas se dispôs a uma gentileza urbana, que consiste em carregar as coisas dos que vão em pé. Assim que eu me equilibrava com todo aquele peso. Até aí sem novidade.

O problema é que o busu não ia para a universidade, eu havia pegado o carro errado. Saltei e caminhei umas cinco quadras até encontrar uma parada na qual passasse um que para a UFSC fosse. Entrei, esbaforida, pois já estava atrasada. Passei o cartão e, pasmem, não tinha mais crédito. Fui pegar dinheiro na bolsa, depois de toda uma novela com os livros e a filmadora e, adivinhem: não tinha dinheiro. Maior mico. Todo mundo no ônibus me olhando com aquela cara de paisagem, ou seja, estavam vendo, mas fingiam que não. Umas crianças, mais verdadeiras, riam. Pedi desculpas ao cobrador, que também não se prestou a gentileza de me deixar ir sem pagar, e saltei. Tive de andar desde o centro comercial Iguatemi até a UFSC com todo o peso. Soltava faíscas.

Passado o mico fui resolver a entrega do meu imposto de renda. Toda uma profusão de erros e complicações no programa. Arrisquei ligar para Receita Federal para ver se conseguia ajuda. Meio descrente, pois há o mito de que o povo atende mal no serviço público. Já ensaiava umas lágrimas, pois nada parecia dar certo. A telefonista atendeu e me deixou pendurada. Minutos eternos... E aquela musiquinha. Não agüentei, comecei a chorar. Então atendeu ao telefone o Odimar. Com a maior paciência do mundo foi ouvindo meu desespero e desmontando minha crise. Sem preocupar com o tempo, desenredou meus nós. Tinha a voz tranqüila e um riso sereno. Então, como por encanto, tudo se acertou. E foi assim que, num dia de terrores urbanos, de transporte desintegrado, de “mala suerte”, de lei de Murphy, eu encontrei o Odimar. Um servidor público, um trabalhador, que amparou minha angustia, que me fez sorrir, que resolveu minhas dúvidas.

E toda essa odisséia foi para dizer que o serviço público é tudo o que temos. E que os trabalhadores públicos ali fazem sua parte, muitas vezes sem incentivo, sem condições. Vez ou outra são amargos, tristes, mal-educados. Mas outros há que não, e nos salvam, quando tudo o que queremos é alguém que nos diga: “calma, vai dar tudo certo”. Assim fez o Odimar. E tudo deu certo. Valeu compa!!!