quarta-feira, 14 de maio de 2008

Cinema Latino-Americano

Já está na página do IELA a programação do Circuito de Cinema Latino-Americano e Caribenho, Ali Primera, que é promovido pelo IELA todas às quintas feiras, às 18:30 minutos. Coemça com uma sessão sobre a Colômbia e depois com líderes de nuestra América. Dá um pulo lá e vê os filmes que estão programados.
www.iela.ufsc.br

segunda-feira, 12 de maio de 2008

A Esfinge



Os gatos, deuses
Cuidam o portal
Os gatos, deuses
Só deixam entram
Os que sabem amar...

Assim é na minha casa,
Portal de mundos
E o gato, deus
Ali está, a cuidar...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Encontrei o Odimar


Foi num destes dias em que tudo o que tem para dar errado, dá. Saí de casa meio dormindo, por conta do cansaço de dias de trabalho duro. Acenei para o ônibus e lá fui, balançando, em pé, pois, como é comum em Florianópolis, os coletivos estão sempre lotados. Tudo por conta da ganância dos empresários que diminuem horários para ter mais lucro. Quem sofre é a ralé. A minha bolsa, enorme, ia colada nas costas, arqueando o corpo fraquinho. Numa dos braços levava uma caixa com uma filmadora, com a qual precisava registrar uma conferência. No outro braço carregava uns sete livros, que devolveria na biblioteca. Como sou baixinha, meu braço não alcança o ferro do ônibus e preciso me agarrar nas beiradas dos bancos. Nenhuma alma das que estavam sentadas se dispôs a uma gentileza urbana, que consiste em carregar as coisas dos que vão em pé. Assim que eu me equilibrava com todo aquele peso. Até aí sem novidade.

O problema é que o busu não ia para a universidade, eu havia pegado o carro errado. Saltei e caminhei umas cinco quadras até encontrar uma parada na qual passasse um que para a UFSC fosse. Entrei, esbaforida, pois já estava atrasada. Passei o cartão e, pasmem, não tinha mais crédito. Fui pegar dinheiro na bolsa, depois de toda uma novela com os livros e a filmadora e, adivinhem: não tinha dinheiro. Maior mico. Todo mundo no ônibus me olhando com aquela cara de paisagem, ou seja, estavam vendo, mas fingiam que não. Umas crianças, mais verdadeiras, riam. Pedi desculpas ao cobrador, que também não se prestou a gentileza de me deixar ir sem pagar, e saltei. Tive de andar desde o centro comercial Iguatemi até a UFSC com todo o peso. Soltava faíscas.

Passado o mico fui resolver a entrega do meu imposto de renda. Toda uma profusão de erros e complicações no programa. Arrisquei ligar para Receita Federal para ver se conseguia ajuda. Meio descrente, pois há o mito de que o povo atende mal no serviço público. Já ensaiava umas lágrimas, pois nada parecia dar certo. A telefonista atendeu e me deixou pendurada. Minutos eternos... E aquela musiquinha. Não agüentei, comecei a chorar. Então atendeu ao telefone o Odimar. Com a maior paciência do mundo foi ouvindo meu desespero e desmontando minha crise. Sem preocupar com o tempo, desenredou meus nós. Tinha a voz tranqüila e um riso sereno. Então, como por encanto, tudo se acertou. E foi assim que, num dia de terrores urbanos, de transporte desintegrado, de “mala suerte”, de lei de Murphy, eu encontrei o Odimar. Um servidor público, um trabalhador, que amparou minha angustia, que me fez sorrir, que resolveu minhas dúvidas.

E toda essa odisséia foi para dizer que o serviço público é tudo o que temos. E que os trabalhadores públicos ali fazem sua parte, muitas vezes sem incentivo, sem condições. Vez ou outra são amargos, tristes, mal-educados. Mas outros há que não, e nos salvam, quando tudo o que queremos é alguém que nos diga: “calma, vai dar tudo certo”. Assim fez o Odimar. E tudo deu certo. Valeu compa!!!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Defender o Pomar

A cidade tem de formar barricadas e fazer o que tem de fazer

Ele ainda tem cara de garoto, apesar de já não mais o ser. E carrega no próprio nome a generosa idéia da gratuidade. Chama-se Pomar. Marcelo Pomar. E é bem isso que ele parece ser, o abrigo frutuoso de um mundo coletivo, feliz e pródigo. Não é à toa que seu nome é pronunciado com reverência por um grande número de jovens que construíram, com ele, o movimento pelo Passe Livre na cidade de Florianópolis.

Naqueles dias de 2004, quando na capital catarina iniciou o movimento pelo passe livre, Marcelo ainda era um apaixonado estudante universitário do curso de História. Junto com outras tantas centenas de estudantes da UFSC, UDESC e secundaristas, ele foi para a rua lutar por esse direito. Foram muitas as caminhadas, os atos e discursos, e foi neste espaço libertário das assembléias de democracia direta em frente ao terminal que ele foi aparecendo como uma liderança. Nada por querer, apenas aconteceu. Talvez por seu jeito seguro, sua voz firme, seu compromisso, sua doçura.

Depois, quando em junho explodiu a “revolta da catraca”, ele estava li, no meio da multidão, somando o movimento do passe livre com a indignação do povo de Florianópolis contra mais um aumento de tarifa do transporte desintegrado. Milhares de almas foram às ruas, fecharam a ponte e se confrontaram com a polícia local. Em uma semana de mobilizações, recheadas de violência oficial, acabaram vencendo a prefeitura. Foi um momento bonito da política da capital. Aquele bando de estudantes, de novo na rua, puxando o cordão da mudança, tendo as gentes como aliadas.

Mas, a primeira vitória foi só o começo de uma luta maior. Pelo passe livre, pela melhoria da mobilidade urbana, contra os aumentos absurdos das tarifas. Depois, passada a semana de revolta e arrefecidos os ânimos populares, só os estudantes seguiram mobilizados. A luta surtiu efeito e eles conseguiram fazer passar na Câmara de Vereadores a lei do passe livre. Parecia que tudo apontava para mais uma vitória. Mas, apesar de já ser lei, nada foi implementado e a luta dos estudantes teve de seguir.

No ano seguinte, 2005, mais uma vez o povo voltou às ruas, liderado pelos estudantes em outra revolta da catraca. De novo a prefeitura aumentava o preço das tarifas e o povo dizia “não”. Outra vez também a polícia protagonizou novas cenas de violência contra estudantes e população. O movimento pelo passe livre esteve à frente das lutas, decidido a fazer valer também a lei aprovada pela Câmara.

Em 2006, a vida dos florianopolitanos seguia o mesmo diapasão: transporte ruim, caro e nada do passe livre. Por conta disso, a movimentação de estudantes, sindicalistas e movimento popular seguiu firme e sistemática. Em fevereiro, em frente ao terminal, durante uma manifestação, um grupo de aproximadamente 15 homens avançou sobre os estudantes, rasgando faixas, cartazes e quebrando a caixa de som que auxiliava no diálogo com a população. O tumulto causado pelo grupo de desconhecidos atraiu a polícia, mas para a surpresa de todos, a força da ordem não veio proteger os estudantes que estavam sendo agredidos e sim o grupo dos agressores. A revolta foi grande. Neste momento Marcelo Pomar, que estava no grupo dos estudantes, agiu, pedindo calma, evitando que tudo se deteriorasse em mais violência.

Pois o seu grito de calma e de apaziguamento virou faca de corte contra ele mesmo. A polícia abriu inquérito para levantar o mandante da ação que culminou com a agressão dos tais homens contra os estudantes. Mas, este inquérito não foi levado adiante. Já Marcelo Pomar foi indiciado como aquele que incitou ao linchamento dos homens do grupo de agressores. Ora, nada mais irreal. Marcelo pediu foi paz. Ainda assim, estará sendo julgado no mês de maio como se fosse um delinqüente.

Na mesma manifestação que resultou nesta ação suspeitíssima do grupo agressor, o fotógrafo do jornal Diário Catarinense, Cláudio Silva da Silva, que fotografou tudo, o que seria uma prova da confusão armada pelo tal grupo contra os estudantes, teve seu equipamento quebrado pela polícia, foi preso por fazer seu trabalho e ainda acabou demitido do jornal. Mais um caso surreal em que a vítima vira vilã, tal qual ocorreu com Marcelo.

E agora a cidade de Florianópolis vai ter de mostrar seu valor. Marcelo Pomar será julgado, como se bandido fosse, no dia 13 de maio. Marcelo, o garoto que foi às ruas lutar por passe livre, por transporte de qualidade, o guri que deu sua cara a tapa, seu corpo à ponta do fuzil, sua palavra à paz. Esse mesmo cara vai a julgamento feito um criminoso.

O Pomar, esse abrigo de esperanças, de santa rebeldia, de doce revolta, de compromisso com o público, com os estudantes, com a população. Ele estará no tribunal, como réu, sendo julgado. E o povo de Floripa? Que padece nos latões apertados, que gasta metade de seu salário na tarifa, que amarga nos terminais de desintegração, o que fará?

Há duas possibilidades: ou faz de conta de que não é com ele e se omite. Ou age, com a mesma garra com a qual um dia Marcelo Pomar agiu para melhorar o transporte de todos. A segunda opção é, sem dúvida, a que se espera. Porque existem momentos na vida em que temos de tomar posição. Não é bandido quem luta. Não é criminoso quem se rebela contra o que está mal feito. Não é delinqüente quem se revolta com a injustiça. Marcelo Pomar fez o que tinha de fazer. Agora é hora de a cidade fazer o certo: formar uma barricada, defender o Pomar, como se ali estivessem as doces frutas benfazejas da vida digna, da cidade sonhada. Porque afinal, ali estão, de fato!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Que viva Abya YALA


quarta-feira, 9 de abril de 2008

A vida brotando...

A linda Bartolina deu cria e os pequeninos fizeram da minha casa sua sala de estar. Andam por lá, vivendo, miando, sendo felizes. Como eu gosto de ver a vida simplesmente sendo..Os gatos, a alegria, o não fazer nada!!! Ah, os gatos, esses deuses...

quinta-feira, 20 de março de 2008

A reforma sindical se faz, mansinha...


A indigência do movimento sindical brasileiro é coisa de dar dó. Depois de ter sido protagonista de momentos históricos importantes como a participação na derrocada da ditadura militar no final dos anos 70, hoje, sob a batuta do ex-líder sindical Luis Inácio, o que se vê é a completa capitulação dos trabalhadores a uma razão de estado. Por isso não surpreendeu o fato de o Projeto de Lei 1990/2007 ter sido aprovado pelo Congresso Nacional sem que se ouvisse qualquer protesto por parte das principais lideranças sindicais.

O projeto, que é o resultado de uma Medida Provisória apresentada pelo executivo - depois de ter sido discutida com trabalhadores e empresários, todos juntos, sentados na mesma mesa, no consenso habermasiano – define, delimita e estabelece regras para a existência das Centrais Sindicais. Ou seja, décadas depois de Getúlio Vargas ter colocado sua mão paternal sobre os trabalhadores, criando os sindicatos atrelados ao Estado, vivemos um novo momento de atrelamento ao Estado-pai, desta vez proposto por um homem que já foi uma das mais importantes figuras da vida sindical brasileira que sempre se considerou oposta ao modelo getulista.

Isso não seria espantoso a considerar o rumo que Luis Inácio deu ao seu governo desde o primeiro mandato, quando realizou uma contra-reforma da Previdência que tira direitos dos trabalhadores e apresentou aos velhos do Brasil a “incrível” possibilidade da aposentadoria privada através dos Fundos de Pensão, cuidadosamente comandados por outros ex-militantes da luta sindical. O que causa assombramento é ver o movimento sindical, na sua esmagadora maioria, aceitando todo esse processo, e o que é pior, lutando por ele.

O primeiro elemento a considerar é o fato de os trabalhadores terem aceitado discutir suas formas de organização com governo e empresários. Ora, alguém aí já ouviu dizer de entidades empresarias sentando com os trabalhadores para decidir como vão promover arrocho salarial ou as estratégias que adotarão para coibir greves e mobilizações? Pois no Brasil de Luis Inácio isso foi proposto aos trabalhadores. Sentar com os empresários para discutir como os trabalhadores podem se organizar. Isso foi feito no Fórum Nacional do Trabalho, uma verdadeira excrescência do ponto de vista da autonomia e da emancipação dos trabalhadores.

Essa conversa maluca entre patrões, trabalhadores e governo, no melhor estilo da conciliação de classe, foi gestando um monstro que levou o nome de Reforma Sindical. Mas, como sempre acontece, existem pessoas ou pequenos grupos que conseguem, de alguma forma, perceber que o rei está nu. E, estes, abriram a boca. Muitos foram os debates, seminários e protestos que esta minúscula parcela de trabalhadores que acredita na capacidade de eles próprios decidirem sobre suas formas de organização, conseguiram realizar. Essa gritaria, ainda que de uma minoria, fez com que o governo mudasse suas táticas. A tal “reforma” não apareceu na sua inteireza, ela vai se fazendo aos poucos, com pedaços de lei sendo aprovados aqui e ali, mudando totalmente a configuração da organização laboral no Brasil. Essa colcha de retalhos, que vai se conformando devagar, torna muito mais difícil a luta e, por conta disso, os trabalhadores vão perdendo cada dia mais a sua autonomia.

Já em novembro do ano passado a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que legalizava as Centrais Sindicais. E o que significa isso? Que agora, as Centrais terão a prerrogativa de atuar juridicamente contra medidas que julguem desfavoráveis aos trabalhadores. São, portanto, entidades jurídicas, com CGC, registradas etc..., Oficiais! A pergunta que fica é a seguinte: e desde quando os trabalhadores organizados precisam de autorização, dentro da ordem, para discordar de qualquer medida que venha contra seus interesses? Isso é surreal. As centrais entenderam que é no marco da justiça burguesa que a as lutas trabalhistas vão se decidir. Patético! Basta ver o processo acelerado de criminalização dos movimentos sociais que vivemos em toda a América Latina e principalmente no Brasil.

Mas, se não bastasse isso, os senadores decidiram apimentar ainda mais a questão e colocaram algumas emendas à lei, que acabaram aprovadas no último dia 11 de março, também sem nenhum protesto dos trabalhadores. Ao contrário. Contaram com o apoio de todas as legalizadas centrais, inclusive a CUT, principal defensora desta idéia.

Pois agora, as Centrais Sindicais, numa decisão tomada em conjunto com empresários, já tem as suas regras para existir. Assim, para serem reconhecidas por patrões e governos devem apresentar os seguintes requisitos: ter mais de 100 sindicatos filiados, com presença nas cinco regiões do país, ter 5% do total de trabalhadores sindicalizados no país, ter a presença de sindicatos em ao menos cinco setores de atividade econômica e filiação em, no mínimo, três regiões do país, com mais de 20 sindicatos em cada uma. Também segue valendo o imposto sindical que descontará 3,3% dos salários de todos os trabalhadores, sindicalizados ou não.

Também ficou decidido como esta verba que as Centrais vão arrecadar vai ser distribuída: 10% vai para a Central na qual o sindicato é filiado, 60% vai para o sindicato, 15% para a Federação, 5% para a Confederação e 10% para a conta salário-desemprego, um programa do Ministério do Trabalho. Ou seja, além de ter que obrigatoriamente contribuir para a Central e tudo o mais, o trabalhador ainda vai ele mesmo financiar o seu seguro desemprego. Nada poderia ser mais perfeito.

Pasmem, a lei ainda garante aos trabalhadores o direito de participar dos fóruns, colegiados de órgãos públicos e demais espaços de diálogo social que possuam composição tripartite, nos quais estejam em discussão os interesses da classe. Isso significa que agora sim. Os trabalhadores vão poder sentar com os empregadores e decidir como serem melhor explorados. É, sem dúvida, a perfeição da ordem. Autorizados, inclusive juridicamente, os trabalhadores, desde que cumpram as determinações do governo e dos patrões poderão, organizadamente, protestar. Tudo no maior diálogo, respeitoso e legal.

As pergunta que me assombram são simples: alguém aí acredita no Papai Noel? Quando, na história de lutas dos trabalhadores foi necessário estar enquadrado na ordem para reivindicar? Quem precisa de legalização para fazer a luta pelos seus interesses? Porque o movimento sindical aceita o anti-político imposto sindical? Como pode aceitar regras impostas por patrões e governo sobre como conduzir sua luta?

Por isso falo em indigência. Nunca estivemos tão mal em termos de lideranças sindicais. Nunca houve tanto vazio, nem quando líderes populares, urbanos e camponeses caiam como moscas sob as botas da ditadura. Nunca houve tanta capitulação, assim, em tempos de “democracia”. O fato é que o governo de Luis Inácio vem conseguindo conquistas para o modo de vida neoliberal, bem maiores do que qualquer outro governante de direita logrou alcançar. Luis Inácio engorda os banqueiros, triplica a dívida interna, apóia o agro-negócio, libera os transgênicos, fomenta os Fundos de Pensão, incentiva o uso de empréstimos bancários endividando os trabalhadores e, agora, consegue seu feito mais monumental. Coloca, com pompa e circunstância, o cabresto firme na boca das entidades sindicais. E sob o aplauso da maioria dos trabalhadores. Há que se tirar o chapéu para um governo desses!

Agora é esperar para ver a proliferação das Centrais Sindicais, louquinhas para criar seus fundos, suas máquinas burocráticas e os vampiros da classe trabalhadora. O dinheiro vai entrar tranqüilo pelo imposto sindical, não há que conquistar ninguém pelo debate, pela discussão, pela política. Resta saber se os trabalhadores vão permanecer amarrados às viseiras ou se, num rasgo de claridão, vão perceber o engodo de tudo isso.

A classe trabalhadora não precisa de permissão, regras, autorizações para lutar por seus direitos e para buscar os seus sonhos. A classe trabalhadora, unida, pode construir o mundo novo, inventando novas ordens e novas maneiras de organizar o mundo. A classe trabalhadora não precisa de tutela. Ela é autônoma, soberana e livre. E haverá de chegar o dia em que isso será óbvio demais...