quinta-feira, 8 de maio de 2008

Encontrei o Odimar


Foi num destes dias em que tudo o que tem para dar errado, dá. Saí de casa meio dormindo, por conta do cansaço de dias de trabalho duro. Acenei para o ônibus e lá fui, balançando, em pé, pois, como é comum em Florianópolis, os coletivos estão sempre lotados. Tudo por conta da ganância dos empresários que diminuem horários para ter mais lucro. Quem sofre é a ralé. A minha bolsa, enorme, ia colada nas costas, arqueando o corpo fraquinho. Numa dos braços levava uma caixa com uma filmadora, com a qual precisava registrar uma conferência. No outro braço carregava uns sete livros, que devolveria na biblioteca. Como sou baixinha, meu braço não alcança o ferro do ônibus e preciso me agarrar nas beiradas dos bancos. Nenhuma alma das que estavam sentadas se dispôs a uma gentileza urbana, que consiste em carregar as coisas dos que vão em pé. Assim que eu me equilibrava com todo aquele peso. Até aí sem novidade.

O problema é que o busu não ia para a universidade, eu havia pegado o carro errado. Saltei e caminhei umas cinco quadras até encontrar uma parada na qual passasse um que para a UFSC fosse. Entrei, esbaforida, pois já estava atrasada. Passei o cartão e, pasmem, não tinha mais crédito. Fui pegar dinheiro na bolsa, depois de toda uma novela com os livros e a filmadora e, adivinhem: não tinha dinheiro. Maior mico. Todo mundo no ônibus me olhando com aquela cara de paisagem, ou seja, estavam vendo, mas fingiam que não. Umas crianças, mais verdadeiras, riam. Pedi desculpas ao cobrador, que também não se prestou a gentileza de me deixar ir sem pagar, e saltei. Tive de andar desde o centro comercial Iguatemi até a UFSC com todo o peso. Soltava faíscas.

Passado o mico fui resolver a entrega do meu imposto de renda. Toda uma profusão de erros e complicações no programa. Arrisquei ligar para Receita Federal para ver se conseguia ajuda. Meio descrente, pois há o mito de que o povo atende mal no serviço público. Já ensaiava umas lágrimas, pois nada parecia dar certo. A telefonista atendeu e me deixou pendurada. Minutos eternos... E aquela musiquinha. Não agüentei, comecei a chorar. Então atendeu ao telefone o Odimar. Com a maior paciência do mundo foi ouvindo meu desespero e desmontando minha crise. Sem preocupar com o tempo, desenredou meus nós. Tinha a voz tranqüila e um riso sereno. Então, como por encanto, tudo se acertou. E foi assim que, num dia de terrores urbanos, de transporte desintegrado, de “mala suerte”, de lei de Murphy, eu encontrei o Odimar. Um servidor público, um trabalhador, que amparou minha angustia, que me fez sorrir, que resolveu minhas dúvidas.

E toda essa odisséia foi para dizer que o serviço público é tudo o que temos. E que os trabalhadores públicos ali fazem sua parte, muitas vezes sem incentivo, sem condições. Vez ou outra são amargos, tristes, mal-educados. Mas outros há que não, e nos salvam, quando tudo o que queremos é alguém que nos diga: “calma, vai dar tudo certo”. Assim fez o Odimar. E tudo deu certo. Valeu compa!!!

terça-feira, 6 de maio de 2008

Defender o Pomar

A cidade tem de formar barricadas e fazer o que tem de fazer

Ele ainda tem cara de garoto, apesar de já não mais o ser. E carrega no próprio nome a generosa idéia da gratuidade. Chama-se Pomar. Marcelo Pomar. E é bem isso que ele parece ser, o abrigo frutuoso de um mundo coletivo, feliz e pródigo. Não é à toa que seu nome é pronunciado com reverência por um grande número de jovens que construíram, com ele, o movimento pelo Passe Livre na cidade de Florianópolis.

Naqueles dias de 2004, quando na capital catarina iniciou o movimento pelo passe livre, Marcelo ainda era um apaixonado estudante universitário do curso de História. Junto com outras tantas centenas de estudantes da UFSC, UDESC e secundaristas, ele foi para a rua lutar por esse direito. Foram muitas as caminhadas, os atos e discursos, e foi neste espaço libertário das assembléias de democracia direta em frente ao terminal que ele foi aparecendo como uma liderança. Nada por querer, apenas aconteceu. Talvez por seu jeito seguro, sua voz firme, seu compromisso, sua doçura.

Depois, quando em junho explodiu a “revolta da catraca”, ele estava li, no meio da multidão, somando o movimento do passe livre com a indignação do povo de Florianópolis contra mais um aumento de tarifa do transporte desintegrado. Milhares de almas foram às ruas, fecharam a ponte e se confrontaram com a polícia local. Em uma semana de mobilizações, recheadas de violência oficial, acabaram vencendo a prefeitura. Foi um momento bonito da política da capital. Aquele bando de estudantes, de novo na rua, puxando o cordão da mudança, tendo as gentes como aliadas.

Mas, a primeira vitória foi só o começo de uma luta maior. Pelo passe livre, pela melhoria da mobilidade urbana, contra os aumentos absurdos das tarifas. Depois, passada a semana de revolta e arrefecidos os ânimos populares, só os estudantes seguiram mobilizados. A luta surtiu efeito e eles conseguiram fazer passar na Câmara de Vereadores a lei do passe livre. Parecia que tudo apontava para mais uma vitória. Mas, apesar de já ser lei, nada foi implementado e a luta dos estudantes teve de seguir.

No ano seguinte, 2005, mais uma vez o povo voltou às ruas, liderado pelos estudantes em outra revolta da catraca. De novo a prefeitura aumentava o preço das tarifas e o povo dizia “não”. Outra vez também a polícia protagonizou novas cenas de violência contra estudantes e população. O movimento pelo passe livre esteve à frente das lutas, decidido a fazer valer também a lei aprovada pela Câmara.

Em 2006, a vida dos florianopolitanos seguia o mesmo diapasão: transporte ruim, caro e nada do passe livre. Por conta disso, a movimentação de estudantes, sindicalistas e movimento popular seguiu firme e sistemática. Em fevereiro, em frente ao terminal, durante uma manifestação, um grupo de aproximadamente 15 homens avançou sobre os estudantes, rasgando faixas, cartazes e quebrando a caixa de som que auxiliava no diálogo com a população. O tumulto causado pelo grupo de desconhecidos atraiu a polícia, mas para a surpresa de todos, a força da ordem não veio proteger os estudantes que estavam sendo agredidos e sim o grupo dos agressores. A revolta foi grande. Neste momento Marcelo Pomar, que estava no grupo dos estudantes, agiu, pedindo calma, evitando que tudo se deteriorasse em mais violência.

Pois o seu grito de calma e de apaziguamento virou faca de corte contra ele mesmo. A polícia abriu inquérito para levantar o mandante da ação que culminou com a agressão dos tais homens contra os estudantes. Mas, este inquérito não foi levado adiante. Já Marcelo Pomar foi indiciado como aquele que incitou ao linchamento dos homens do grupo de agressores. Ora, nada mais irreal. Marcelo pediu foi paz. Ainda assim, estará sendo julgado no mês de maio como se fosse um delinqüente.

Na mesma manifestação que resultou nesta ação suspeitíssima do grupo agressor, o fotógrafo do jornal Diário Catarinense, Cláudio Silva da Silva, que fotografou tudo, o que seria uma prova da confusão armada pelo tal grupo contra os estudantes, teve seu equipamento quebrado pela polícia, foi preso por fazer seu trabalho e ainda acabou demitido do jornal. Mais um caso surreal em que a vítima vira vilã, tal qual ocorreu com Marcelo.

E agora a cidade de Florianópolis vai ter de mostrar seu valor. Marcelo Pomar será julgado, como se bandido fosse, no dia 13 de maio. Marcelo, o garoto que foi às ruas lutar por passe livre, por transporte de qualidade, o guri que deu sua cara a tapa, seu corpo à ponta do fuzil, sua palavra à paz. Esse mesmo cara vai a julgamento feito um criminoso.

O Pomar, esse abrigo de esperanças, de santa rebeldia, de doce revolta, de compromisso com o público, com os estudantes, com a população. Ele estará no tribunal, como réu, sendo julgado. E o povo de Floripa? Que padece nos latões apertados, que gasta metade de seu salário na tarifa, que amarga nos terminais de desintegração, o que fará?

Há duas possibilidades: ou faz de conta de que não é com ele e se omite. Ou age, com a mesma garra com a qual um dia Marcelo Pomar agiu para melhorar o transporte de todos. A segunda opção é, sem dúvida, a que se espera. Porque existem momentos na vida em que temos de tomar posição. Não é bandido quem luta. Não é criminoso quem se rebela contra o que está mal feito. Não é delinqüente quem se revolta com a injustiça. Marcelo Pomar fez o que tinha de fazer. Agora é hora de a cidade fazer o certo: formar uma barricada, defender o Pomar, como se ali estivessem as doces frutas benfazejas da vida digna, da cidade sonhada. Porque afinal, ali estão, de fato!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Que viva Abya YALA


quarta-feira, 9 de abril de 2008

A vida brotando...

A linda Bartolina deu cria e os pequeninos fizeram da minha casa sua sala de estar. Andam por lá, vivendo, miando, sendo felizes. Como eu gosto de ver a vida simplesmente sendo..Os gatos, a alegria, o não fazer nada!!! Ah, os gatos, esses deuses...

quinta-feira, 20 de março de 2008

A reforma sindical se faz, mansinha...


A indigência do movimento sindical brasileiro é coisa de dar dó. Depois de ter sido protagonista de momentos históricos importantes como a participação na derrocada da ditadura militar no final dos anos 70, hoje, sob a batuta do ex-líder sindical Luis Inácio, o que se vê é a completa capitulação dos trabalhadores a uma razão de estado. Por isso não surpreendeu o fato de o Projeto de Lei 1990/2007 ter sido aprovado pelo Congresso Nacional sem que se ouvisse qualquer protesto por parte das principais lideranças sindicais.

O projeto, que é o resultado de uma Medida Provisória apresentada pelo executivo - depois de ter sido discutida com trabalhadores e empresários, todos juntos, sentados na mesma mesa, no consenso habermasiano – define, delimita e estabelece regras para a existência das Centrais Sindicais. Ou seja, décadas depois de Getúlio Vargas ter colocado sua mão paternal sobre os trabalhadores, criando os sindicatos atrelados ao Estado, vivemos um novo momento de atrelamento ao Estado-pai, desta vez proposto por um homem que já foi uma das mais importantes figuras da vida sindical brasileira que sempre se considerou oposta ao modelo getulista.

Isso não seria espantoso a considerar o rumo que Luis Inácio deu ao seu governo desde o primeiro mandato, quando realizou uma contra-reforma da Previdência que tira direitos dos trabalhadores e apresentou aos velhos do Brasil a “incrível” possibilidade da aposentadoria privada através dos Fundos de Pensão, cuidadosamente comandados por outros ex-militantes da luta sindical. O que causa assombramento é ver o movimento sindical, na sua esmagadora maioria, aceitando todo esse processo, e o que é pior, lutando por ele.

O primeiro elemento a considerar é o fato de os trabalhadores terem aceitado discutir suas formas de organização com governo e empresários. Ora, alguém aí já ouviu dizer de entidades empresarias sentando com os trabalhadores para decidir como vão promover arrocho salarial ou as estratégias que adotarão para coibir greves e mobilizações? Pois no Brasil de Luis Inácio isso foi proposto aos trabalhadores. Sentar com os empresários para discutir como os trabalhadores podem se organizar. Isso foi feito no Fórum Nacional do Trabalho, uma verdadeira excrescência do ponto de vista da autonomia e da emancipação dos trabalhadores.

Essa conversa maluca entre patrões, trabalhadores e governo, no melhor estilo da conciliação de classe, foi gestando um monstro que levou o nome de Reforma Sindical. Mas, como sempre acontece, existem pessoas ou pequenos grupos que conseguem, de alguma forma, perceber que o rei está nu. E, estes, abriram a boca. Muitos foram os debates, seminários e protestos que esta minúscula parcela de trabalhadores que acredita na capacidade de eles próprios decidirem sobre suas formas de organização, conseguiram realizar. Essa gritaria, ainda que de uma minoria, fez com que o governo mudasse suas táticas. A tal “reforma” não apareceu na sua inteireza, ela vai se fazendo aos poucos, com pedaços de lei sendo aprovados aqui e ali, mudando totalmente a configuração da organização laboral no Brasil. Essa colcha de retalhos, que vai se conformando devagar, torna muito mais difícil a luta e, por conta disso, os trabalhadores vão perdendo cada dia mais a sua autonomia.

Já em novembro do ano passado a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que legalizava as Centrais Sindicais. E o que significa isso? Que agora, as Centrais terão a prerrogativa de atuar juridicamente contra medidas que julguem desfavoráveis aos trabalhadores. São, portanto, entidades jurídicas, com CGC, registradas etc..., Oficiais! A pergunta que fica é a seguinte: e desde quando os trabalhadores organizados precisam de autorização, dentro da ordem, para discordar de qualquer medida que venha contra seus interesses? Isso é surreal. As centrais entenderam que é no marco da justiça burguesa que a as lutas trabalhistas vão se decidir. Patético! Basta ver o processo acelerado de criminalização dos movimentos sociais que vivemos em toda a América Latina e principalmente no Brasil.

Mas, se não bastasse isso, os senadores decidiram apimentar ainda mais a questão e colocaram algumas emendas à lei, que acabaram aprovadas no último dia 11 de março, também sem nenhum protesto dos trabalhadores. Ao contrário. Contaram com o apoio de todas as legalizadas centrais, inclusive a CUT, principal defensora desta idéia.

Pois agora, as Centrais Sindicais, numa decisão tomada em conjunto com empresários, já tem as suas regras para existir. Assim, para serem reconhecidas por patrões e governos devem apresentar os seguintes requisitos: ter mais de 100 sindicatos filiados, com presença nas cinco regiões do país, ter 5% do total de trabalhadores sindicalizados no país, ter a presença de sindicatos em ao menos cinco setores de atividade econômica e filiação em, no mínimo, três regiões do país, com mais de 20 sindicatos em cada uma. Também segue valendo o imposto sindical que descontará 3,3% dos salários de todos os trabalhadores, sindicalizados ou não.

Também ficou decidido como esta verba que as Centrais vão arrecadar vai ser distribuída: 10% vai para a Central na qual o sindicato é filiado, 60% vai para o sindicato, 15% para a Federação, 5% para a Confederação e 10% para a conta salário-desemprego, um programa do Ministério do Trabalho. Ou seja, além de ter que obrigatoriamente contribuir para a Central e tudo o mais, o trabalhador ainda vai ele mesmo financiar o seu seguro desemprego. Nada poderia ser mais perfeito.

Pasmem, a lei ainda garante aos trabalhadores o direito de participar dos fóruns, colegiados de órgãos públicos e demais espaços de diálogo social que possuam composição tripartite, nos quais estejam em discussão os interesses da classe. Isso significa que agora sim. Os trabalhadores vão poder sentar com os empregadores e decidir como serem melhor explorados. É, sem dúvida, a perfeição da ordem. Autorizados, inclusive juridicamente, os trabalhadores, desde que cumpram as determinações do governo e dos patrões poderão, organizadamente, protestar. Tudo no maior diálogo, respeitoso e legal.

As pergunta que me assombram são simples: alguém aí acredita no Papai Noel? Quando, na história de lutas dos trabalhadores foi necessário estar enquadrado na ordem para reivindicar? Quem precisa de legalização para fazer a luta pelos seus interesses? Porque o movimento sindical aceita o anti-político imposto sindical? Como pode aceitar regras impostas por patrões e governo sobre como conduzir sua luta?

Por isso falo em indigência. Nunca estivemos tão mal em termos de lideranças sindicais. Nunca houve tanto vazio, nem quando líderes populares, urbanos e camponeses caiam como moscas sob as botas da ditadura. Nunca houve tanta capitulação, assim, em tempos de “democracia”. O fato é que o governo de Luis Inácio vem conseguindo conquistas para o modo de vida neoliberal, bem maiores do que qualquer outro governante de direita logrou alcançar. Luis Inácio engorda os banqueiros, triplica a dívida interna, apóia o agro-negócio, libera os transgênicos, fomenta os Fundos de Pensão, incentiva o uso de empréstimos bancários endividando os trabalhadores e, agora, consegue seu feito mais monumental. Coloca, com pompa e circunstância, o cabresto firme na boca das entidades sindicais. E sob o aplauso da maioria dos trabalhadores. Há que se tirar o chapéu para um governo desses!

Agora é esperar para ver a proliferação das Centrais Sindicais, louquinhas para criar seus fundos, suas máquinas burocráticas e os vampiros da classe trabalhadora. O dinheiro vai entrar tranqüilo pelo imposto sindical, não há que conquistar ninguém pelo debate, pela discussão, pela política. Resta saber se os trabalhadores vão permanecer amarrados às viseiras ou se, num rasgo de claridão, vão perceber o engodo de tudo isso.

A classe trabalhadora não precisa de permissão, regras, autorizações para lutar por seus direitos e para buscar os seus sonhos. A classe trabalhadora, unida, pode construir o mundo novo, inventando novas ordens e novas maneiras de organizar o mundo. A classe trabalhadora não precisa de tutela. Ela é autônoma, soberana e livre. E haverá de chegar o dia em que isso será óbvio demais...


segunda-feira, 10 de março de 2008

As forças armadas na América Latina

A agressão do governo da Colômbia, através do títere estadunidense Álvaro Uribe, à soberania do Equador, coloca mais uma vez em questão o papel das forças armadas nos países latino-americanos. A que tipo de política se prestam, afinal? Bom, para se ter essa resposta há que voltar no tempo e recorrer à história.

Conforme conta o coronel argentino Horácio Ballester, em artigo no livro “La Integración Militar del Bloque regional de Poder, de Heinz Dieterich, a relação mais visceral com os Estados Unidos começa em 1942, pouco depois do ataque japonês contra Pearl Harbor, durante a segunda guerra, coisa que faz o país do norte entrar no conflito de maneira mais orgânica. Naquele ano acontece no Rio de Janeiro, uma reunião de chanceleres (representantes diplomáticos do Estado) que decidiu enviar para Washington técnicos militares e navais para discutir medidas de defesa do continente. A partir daí surgiu a Junta Interamericana de Defesa, que deveria preparar planos militares de defesa comum, envolvendo todos os países do continente.

Em 1947, tendo já terminado a guerra, foi firmado, também no Rio de Janeiro e sob a batuta dos EUA, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que estabelecia ser a agressão de uma nação americana contra outra do continente, um ataque contra todas. No ano seguinte, na Colômbia, em plena vigência de uma revolta popular contra o assassinato de Jorge Gaitán, uma nova reunião de chanceleres aprovou a carta da Organização dos Estados Americanos, que tinha entre seus artigos a criação de um Comitê Consultivo de Defesa, que afinal, nunca funcionou. Quem deu as cartas nesse campo sempre foi a Junta Interamericana de Defesa (JID) e o Colégio Interamericano de Defesa (CID), responsáveis pela formação de oficiais superiores e governantes da América Latina e do Caribe.

A proposta do JID respondia aos interesses do Departamento de Estado e do Pentágono estadunidense e fixava as hipóteses de guerra que surgiriam, os inimigos a combater, a doutrina para fazê-lo, as armas que deveriam utilizar, etc... Então, a América Latina passou a encarar como inimigo, aqueles que eram inimigos dos Estados Unidos. Foi assim que nesta parte da América, naqueles dias, se discriminou alemães, japoneses, russos, cubanos, nicaragüenses, salvadorenhos. Quem ousava desafiar os EUA era inimigo de todos, conforme rezava a assistência recíproca.

Foi aí que surgiu a famigerada Doutrina de Segurança Nacional, cujas práticas estão em vigência até hoje. Esta doutrina estabelecia que o único enfrentamento que havia no mundo era o Leste/Oeste, envolvendo os Estados Unidos e a União Soviética. E o único inimigo a combater era o comunismo. Assim, nas nações latino-americanas, o que norteava as ações do exército era o combate à infiltração marxista e a desordem social que isso provocava. O inimigo, então, deixava de ser externo e passava a ser o próprio povo de cada país. Foi essa idéia estrangeira que provocou toda a sorte de tragédias nesta “nuestra” América a partir dos anos 50, acompanhada de sangrentas ditaduras apoiadas pelos EUA.

No ano de 1951, o Congresso dos EUA aprovou a lei de Segurança Mútua e firmou pactos bilaterais com os países da América Latina para aplicar os Programas de Ajuda Militar. Isso significou, na prática, a presença cotidiana de tropas estadunidenses nos países latino-americanos trabalhando na “educação” e instrução das tropas nacionais. Ainda no final dos anos 50, aparece a Doutrina de Guerra Contra-revolucionária ou anti-subversiva, que tinha como objetivo aprofundar a luta contra os comunistas. Cuba era um terrível mau-exemplo e havia que combater essa “maçã podre” na América Latina. Então, ao longo dos anos 60, milhares de oficiais de praticamente todos os países latino-americanos faziam romaria até o Panamá, para serem adestrados conforme os ditames do Forte Amador. A nefasta Escola das Américas forneceu, assim, os manuais do terror que infestou a América Latina por 30 anos.

Nos manuais, escritos originalmente em espanhol, eram consideradas necessárias as técnicas de execução, tortura e extorsão para combater os “subversivos” internos que quisessem se meter com o comunismo. Com a doutrina de segurança nacional escrita pelos técnicos da guerra estadunidense, praticamente em todos os países da América Latina e do Caribe, as forças armadas foram destituídas de sua missão específica que seria a de combater um inimigo exterior. Ainda segundo o coronel argentino, Horácio Ballester, as forças armadas passaram a ser verdadeiras tropas de ocupação em seus próprios países, transformando-os em Estados terroristas que aniquilavam o inimigo interior, sua própria gente. Diz Ballester: “As forças armadas se colocaram incondicionalmente, consciente sou não, a serviço do establishment internacional e das minorias dominantes locais”. Isso significou que qualquer pessoa que fizesse algo que afetasse os interesses superiores, fosse luta salarial, por moradia ou terra, era logo qualificado como “comunista” e imediatamente perseguido, preso, torturado, desaparecido ou morto.

Naqueles dias um “comunista” comprovado perdia os direitos, não tinha julgamento justo, podia ser seqüestrado, torturado, preso ilegalmente, seus bens eram confiscados e suas casas queimadas. Ou seja, nada muito diferente do que acontece hoje em dia. Apenas o adjetivo mudou. Não são mais comunistas os que se opõe ao poder dos EUA e das elites cortesãs. Agora estão na moda os “terroristas”.

Entendendo a atualidade

Depois deste breve apanhado histórico, fica mais fácil compreender a situação da América Latina hoje e o sujo papel desempenhado por Uribe, na Colômbia. Desde aqueles dias dos anos 40 que os governos colombianos vêm enfrentando o “inimigo interno”, tal qual ordenam as doutrinas e técnicas estadunidenses. Não apenas as FARC, agora chamadas cotidianamente de “terroristas” nos meios massivos de comunicação, são perseguidas. Mas qualquer liderança social, popular, qualquer cidadão que comece a questionar o governo ou o sistema, é perseguido, preso, torturado, eliminado. Isso é recorrente na Colômbia. São os “terroristas”.

Igualmente “terrorista” são considerados os países que não se ajoelham diante da lógica estadunidense. Não é à toa que Bush quer empurrar goela abaixo, junto com o Congresso de seu país, a resolução que torna “terrorista” o governo da Venezuela, chefiado por Hugo Chávez. E é bom que se diga, Chávez segue exportando o petróleo para os EUA e fazendo negócios com empresas gringas. Ou seja, não é tão inimigo assim. Mas, como na política externa o discurso de Chávez é totalmente anti-estadunidense, o governo daquele país não descansará enquanto não colocar a Venezuela no lugar onde deve ficar: subserviente e cortesã, como foi ao longo de décadas.

Por outro lado, não são apenas Chávez, Correa, Morales, Fidel e Ortega que passam a ser considerados inimigos. Também as gentes em luta passam a receber a alcunha de “terroristas”. Tem sido assim em praticamente todos os países da América Latina. As lutas sociais tiveram um recrudescimento na repressão e quem é apanhado, logo é enquadrado nesta categoria. Foi assim com Patrícia Troncoso, a jovem mapuche que precisou ficar mais de 100 dias em greve de fome para ter direito aos benefícios da lei. Está presa como terrorista. São terroristas os que lutam por terra, por moradia, por transporte coletivo, por salário. Bastou algum grupo marginalizado se levantar para ser considerado um perigo nacional. Isso significa que nada mudou. O “inimigo” está dentro dos portões dos países e os exércitos devem baixar sobre eles.

A lei de segurança nacional escrita em Washington segue vigendo. A mesma lei que deu corpo à criminosa Operação Condor, responsável pela destruição da vida de milhares de jovens e lideranças latino-americanas durante as ditaduras, a mesma que torna inimigo do Estado aqueles e aquelas que lutam por um mundo melhor.

Então, antes de acreditar nos Bonners (Globo) e Nascimentos (SBT) da vida que tratam todos os lutadores sociais como inimigos, terroristas, é bom que as gentes conheçam a história e saibam de onde vem a caracterização dos “nossos” inimigos. Eles não são nossos, são adversários do decadente império estadunidense, opressor e criminoso, que ceifa vidas por todo o continente, todos os dias, inclusive as nossas.


sexta-feira, 7 de março de 2008

A guerra!

Está nos Vedas, está na Torá, no Novo Testamento, no manual de Sun Tsu, no programa O Aprendiz, nas colinas de Golan, no Afeganistão, no Iraque, na faixa de Gaza, no Rio de Janeiro, em Florianópolis, dentro de nós, está em toda parte. A guerra! Esse momento funesto em que a nossa raça luta entre si, pelo desejo de dominar. Não há consensos habermasianos quando as crianças poderosas iniciam o mantra: “eu tenho o petróleo, você não tem”. Ou então, quando, extasiadas pela beleza do outro, querem tomá-la, à força. Desejo de poder. Ter o que não é seu.

Sempre vejo os senhores das guerras como vampiros. Eles querem sugar o que é do outro, tirar até a última gota, para que possam viver em abundância. Assim, neste mundo cão, a riqueza de um é sempre a morte do outro. E tem sido assim desde priscas eras. Se tu tens diamantes no chão, prepara-te para ver teu povo morrer, ser escravizado. Se tens petróleo, estás perdido. Se tens ouro, estás morto. Se tens prata, estanho, guano, estás dizimado. Os que têm as melhores armas ditam as leis. Malvinas é da Inglaterra, ora pois! Não importa que seja território originário de outros seres. Quem ganhou a guerra, afinal?

Agora o império estadunidense já tem um bom parceiro no oriente. Israel está fazendo o trabalho de casa e muito bem. Joga bomba nos “terroristas”, destrói a faixa de Gaza, dizima mulheres, crianças. Está tudo sob controle naquela área. Tem as armas gringas e deita e rola.

Por conta disso, agora é hora de destruir Chávez, Correa, Morales, estes negros/índios/povos que se metem a sair um pouquinho da linha. Gente que insiste em falar de soberania, de direitos dos povos, de liberdade, de controle de suas próprias riquezas. Há que amassá-los, destruí-los, para que não sobre nada. Para que tudo tenha de recomeçar do zero. Para que esta gente saiba qual é o seu lugar: servos, submissos, ajoelhados diante do império.

E mais, nem precisa sujar as mãos. A marionete formada nas suas universidades, o representantezinho das elites locais - sempre dispostas a entregar seus povos como cordeiros para os dentes afiados do vampiro – cumpre a missão. É ao que se presta o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, querendo lavar de sangue a pátria grande.

No mesmo momento em que as FARC decidem dar um passo em direção à paz, em que começam a liberar prisioneiros, dando mostras de que não são eles os “bandidos terroristas”, o governo colombiano faz uma ofensiva de guerra. Não suporta ver o protagonismo de Hugo Chávez e Piedad Córdoba. Adentra territórios soberanos com o uso de tecnologia estadunidense, mata pessoas enquanto dormem e tem a coragem de dizer que está em busca da paz. Resta saber se os governos do Equador e da Venezuela, vão morder a isca. Resta torcer para que não o façam.

Tudo o que os Estados Unidos querem é mergulhar ainda mais esta parte norte da América Latina num caos de sangue e terror. Não por conta das gentes, mas por conta da sua própria fábrica de terror, essa que eles lançam sobre o mundo, a partir de seus aliados espúrios. Querem o petróleo da Venezuela, querem a velha submissão, querem o estanho, a prata, o ouro, os diamantes, o ferro, o urânio, a terra, a cana, o fumo. Querem tudo. E querem gente ajoelhada, cabeça baixa, olhar vazio. Já estão fazendo guerra na Colômbia desde há tempos, mas agora querem destruir o que chamam de “eixo do mal”, ou seja, gente que não se dobra a eles.

É sempre o mesmo velho círculo de horror. O império ataca, as gentes se defendem, tudo acaba em sangue. E, também como sempre, no mais das vezes, salvo raras exceções, as maiores baixas são sempre as nossas, dos povos que querem viver em paz, riquezas repartidas, dignidade. Como entender essa matemática? E o que fazer quando nossa soberania é aviltada, nossas riquezas roubadas, nossa vida sugada? Que outro remédio senão lutar? Dolorosas perguntas, dolorosas respostas.

O certo é que as gentes minimamente precisam saber por que, afinal, alguns governos fazem guerras. Por que mandam seus jovens para frente de uma batalha que os governantes só verão na TV, confortavelmente em seus gabinetes. Ninguém verá Bush comandando um pelotão de terra, enfrentando a fúria sã de quem resiste. Os senhores da guerra estão no conforto de seus lares, com seus filhos, esperando ver o sangue do outro jorrar. Eles sequer são os que apertam o botão. Eles só assistem. Os que apertam o botão lá do alto do avião, acreditam estar “limpando a área”, não enxergam os rostos, não escutam os gritos das crianças. Tudo é só um pontinho perdido na distância.

Pois é bom que se saiba que a guerra está sempre muito perto de nós. Nós, que não nos importamos com os iraquianos que morrem feito moscas – mais de um milhão já foi dizimado. Nós que estamos nem aí para os palestino, massacrados dia após dia. Nós que não fazemos caso dos garotos empobrecidos estatelados à bala nas vielas de nossas pacatas cidades. Nós, que não nos importamos com nada que não nos diga respeito. A guerra está aí. E é fruto da ganância do império e seus cães de guarda que tal e qual um César romano vêm rompendo tudo. Tal qual um Midas “al revés”, destroem tudo que tocam. Que faremos?

Esconderemos a cabeça e diremos: não temos nada a ver, ou vamos tratar de informar as gentes para além das telas da Globo e suas reportagens sacanas que anunciam ser a Venezuela um reduto de terroristas e ser o governo Chávez um financiador de guerrilhas? Será possível que ninguém se lembra das mentiras sobre o Iraque? Será que existe gente ingênua o suficiente para crer no que sai da boca ventríloqua de Fátima Bernardes? O império quer o petróleo da Venezuela, o gás da Bolívia, o petróleo equatoriano, as terras brasileiras, a prata, o ouro, tudo. O império quer as gentes de joelhos, perdidas de sua dignidade, escravas. Nós estaremos de qual lado? Fazendo o quê?

Os cascos dos cavalos imperiais estão sob nossas cabeças. Executaram soldados das FARC que dormiam na selva equatoriana. Gente que luta por um país soberano. O terrorismo é o estado colombiano. Terrorista são os senhores da guerra. Estejamos alertas e vigilantes. Porque, como bem lembra o poeta palestino Mahmud Darwish: “Ainda goteja a fonte do crime...” Desperta Abya Yala!