quinta-feira, 20 de março de 2008

A reforma sindical se faz, mansinha...


A indigência do movimento sindical brasileiro é coisa de dar dó. Depois de ter sido protagonista de momentos históricos importantes como a participação na derrocada da ditadura militar no final dos anos 70, hoje, sob a batuta do ex-líder sindical Luis Inácio, o que se vê é a completa capitulação dos trabalhadores a uma razão de estado. Por isso não surpreendeu o fato de o Projeto de Lei 1990/2007 ter sido aprovado pelo Congresso Nacional sem que se ouvisse qualquer protesto por parte das principais lideranças sindicais.

O projeto, que é o resultado de uma Medida Provisória apresentada pelo executivo - depois de ter sido discutida com trabalhadores e empresários, todos juntos, sentados na mesma mesa, no consenso habermasiano – define, delimita e estabelece regras para a existência das Centrais Sindicais. Ou seja, décadas depois de Getúlio Vargas ter colocado sua mão paternal sobre os trabalhadores, criando os sindicatos atrelados ao Estado, vivemos um novo momento de atrelamento ao Estado-pai, desta vez proposto por um homem que já foi uma das mais importantes figuras da vida sindical brasileira que sempre se considerou oposta ao modelo getulista.

Isso não seria espantoso a considerar o rumo que Luis Inácio deu ao seu governo desde o primeiro mandato, quando realizou uma contra-reforma da Previdência que tira direitos dos trabalhadores e apresentou aos velhos do Brasil a “incrível” possibilidade da aposentadoria privada através dos Fundos de Pensão, cuidadosamente comandados por outros ex-militantes da luta sindical. O que causa assombramento é ver o movimento sindical, na sua esmagadora maioria, aceitando todo esse processo, e o que é pior, lutando por ele.

O primeiro elemento a considerar é o fato de os trabalhadores terem aceitado discutir suas formas de organização com governo e empresários. Ora, alguém aí já ouviu dizer de entidades empresarias sentando com os trabalhadores para decidir como vão promover arrocho salarial ou as estratégias que adotarão para coibir greves e mobilizações? Pois no Brasil de Luis Inácio isso foi proposto aos trabalhadores. Sentar com os empresários para discutir como os trabalhadores podem se organizar. Isso foi feito no Fórum Nacional do Trabalho, uma verdadeira excrescência do ponto de vista da autonomia e da emancipação dos trabalhadores.

Essa conversa maluca entre patrões, trabalhadores e governo, no melhor estilo da conciliação de classe, foi gestando um monstro que levou o nome de Reforma Sindical. Mas, como sempre acontece, existem pessoas ou pequenos grupos que conseguem, de alguma forma, perceber que o rei está nu. E, estes, abriram a boca. Muitos foram os debates, seminários e protestos que esta minúscula parcela de trabalhadores que acredita na capacidade de eles próprios decidirem sobre suas formas de organização, conseguiram realizar. Essa gritaria, ainda que de uma minoria, fez com que o governo mudasse suas táticas. A tal “reforma” não apareceu na sua inteireza, ela vai se fazendo aos poucos, com pedaços de lei sendo aprovados aqui e ali, mudando totalmente a configuração da organização laboral no Brasil. Essa colcha de retalhos, que vai se conformando devagar, torna muito mais difícil a luta e, por conta disso, os trabalhadores vão perdendo cada dia mais a sua autonomia.

Já em novembro do ano passado a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que legalizava as Centrais Sindicais. E o que significa isso? Que agora, as Centrais terão a prerrogativa de atuar juridicamente contra medidas que julguem desfavoráveis aos trabalhadores. São, portanto, entidades jurídicas, com CGC, registradas etc..., Oficiais! A pergunta que fica é a seguinte: e desde quando os trabalhadores organizados precisam de autorização, dentro da ordem, para discordar de qualquer medida que venha contra seus interesses? Isso é surreal. As centrais entenderam que é no marco da justiça burguesa que a as lutas trabalhistas vão se decidir. Patético! Basta ver o processo acelerado de criminalização dos movimentos sociais que vivemos em toda a América Latina e principalmente no Brasil.

Mas, se não bastasse isso, os senadores decidiram apimentar ainda mais a questão e colocaram algumas emendas à lei, que acabaram aprovadas no último dia 11 de março, também sem nenhum protesto dos trabalhadores. Ao contrário. Contaram com o apoio de todas as legalizadas centrais, inclusive a CUT, principal defensora desta idéia.

Pois agora, as Centrais Sindicais, numa decisão tomada em conjunto com empresários, já tem as suas regras para existir. Assim, para serem reconhecidas por patrões e governos devem apresentar os seguintes requisitos: ter mais de 100 sindicatos filiados, com presença nas cinco regiões do país, ter 5% do total de trabalhadores sindicalizados no país, ter a presença de sindicatos em ao menos cinco setores de atividade econômica e filiação em, no mínimo, três regiões do país, com mais de 20 sindicatos em cada uma. Também segue valendo o imposto sindical que descontará 3,3% dos salários de todos os trabalhadores, sindicalizados ou não.

Também ficou decidido como esta verba que as Centrais vão arrecadar vai ser distribuída: 10% vai para a Central na qual o sindicato é filiado, 60% vai para o sindicato, 15% para a Federação, 5% para a Confederação e 10% para a conta salário-desemprego, um programa do Ministério do Trabalho. Ou seja, além de ter que obrigatoriamente contribuir para a Central e tudo o mais, o trabalhador ainda vai ele mesmo financiar o seu seguro desemprego. Nada poderia ser mais perfeito.

Pasmem, a lei ainda garante aos trabalhadores o direito de participar dos fóruns, colegiados de órgãos públicos e demais espaços de diálogo social que possuam composição tripartite, nos quais estejam em discussão os interesses da classe. Isso significa que agora sim. Os trabalhadores vão poder sentar com os empregadores e decidir como serem melhor explorados. É, sem dúvida, a perfeição da ordem. Autorizados, inclusive juridicamente, os trabalhadores, desde que cumpram as determinações do governo e dos patrões poderão, organizadamente, protestar. Tudo no maior diálogo, respeitoso e legal.

As pergunta que me assombram são simples: alguém aí acredita no Papai Noel? Quando, na história de lutas dos trabalhadores foi necessário estar enquadrado na ordem para reivindicar? Quem precisa de legalização para fazer a luta pelos seus interesses? Porque o movimento sindical aceita o anti-político imposto sindical? Como pode aceitar regras impostas por patrões e governo sobre como conduzir sua luta?

Por isso falo em indigência. Nunca estivemos tão mal em termos de lideranças sindicais. Nunca houve tanto vazio, nem quando líderes populares, urbanos e camponeses caiam como moscas sob as botas da ditadura. Nunca houve tanta capitulação, assim, em tempos de “democracia”. O fato é que o governo de Luis Inácio vem conseguindo conquistas para o modo de vida neoliberal, bem maiores do que qualquer outro governante de direita logrou alcançar. Luis Inácio engorda os banqueiros, triplica a dívida interna, apóia o agro-negócio, libera os transgênicos, fomenta os Fundos de Pensão, incentiva o uso de empréstimos bancários endividando os trabalhadores e, agora, consegue seu feito mais monumental. Coloca, com pompa e circunstância, o cabresto firme na boca das entidades sindicais. E sob o aplauso da maioria dos trabalhadores. Há que se tirar o chapéu para um governo desses!

Agora é esperar para ver a proliferação das Centrais Sindicais, louquinhas para criar seus fundos, suas máquinas burocráticas e os vampiros da classe trabalhadora. O dinheiro vai entrar tranqüilo pelo imposto sindical, não há que conquistar ninguém pelo debate, pela discussão, pela política. Resta saber se os trabalhadores vão permanecer amarrados às viseiras ou se, num rasgo de claridão, vão perceber o engodo de tudo isso.

A classe trabalhadora não precisa de permissão, regras, autorizações para lutar por seus direitos e para buscar os seus sonhos. A classe trabalhadora, unida, pode construir o mundo novo, inventando novas ordens e novas maneiras de organizar o mundo. A classe trabalhadora não precisa de tutela. Ela é autônoma, soberana e livre. E haverá de chegar o dia em que isso será óbvio demais...


segunda-feira, 10 de março de 2008

As forças armadas na América Latina

A agressão do governo da Colômbia, através do títere estadunidense Álvaro Uribe, à soberania do Equador, coloca mais uma vez em questão o papel das forças armadas nos países latino-americanos. A que tipo de política se prestam, afinal? Bom, para se ter essa resposta há que voltar no tempo e recorrer à história.

Conforme conta o coronel argentino Horácio Ballester, em artigo no livro “La Integración Militar del Bloque regional de Poder, de Heinz Dieterich, a relação mais visceral com os Estados Unidos começa em 1942, pouco depois do ataque japonês contra Pearl Harbor, durante a segunda guerra, coisa que faz o país do norte entrar no conflito de maneira mais orgânica. Naquele ano acontece no Rio de Janeiro, uma reunião de chanceleres (representantes diplomáticos do Estado) que decidiu enviar para Washington técnicos militares e navais para discutir medidas de defesa do continente. A partir daí surgiu a Junta Interamericana de Defesa, que deveria preparar planos militares de defesa comum, envolvendo todos os países do continente.

Em 1947, tendo já terminado a guerra, foi firmado, também no Rio de Janeiro e sob a batuta dos EUA, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que estabelecia ser a agressão de uma nação americana contra outra do continente, um ataque contra todas. No ano seguinte, na Colômbia, em plena vigência de uma revolta popular contra o assassinato de Jorge Gaitán, uma nova reunião de chanceleres aprovou a carta da Organização dos Estados Americanos, que tinha entre seus artigos a criação de um Comitê Consultivo de Defesa, que afinal, nunca funcionou. Quem deu as cartas nesse campo sempre foi a Junta Interamericana de Defesa (JID) e o Colégio Interamericano de Defesa (CID), responsáveis pela formação de oficiais superiores e governantes da América Latina e do Caribe.

A proposta do JID respondia aos interesses do Departamento de Estado e do Pentágono estadunidense e fixava as hipóteses de guerra que surgiriam, os inimigos a combater, a doutrina para fazê-lo, as armas que deveriam utilizar, etc... Então, a América Latina passou a encarar como inimigo, aqueles que eram inimigos dos Estados Unidos. Foi assim que nesta parte da América, naqueles dias, se discriminou alemães, japoneses, russos, cubanos, nicaragüenses, salvadorenhos. Quem ousava desafiar os EUA era inimigo de todos, conforme rezava a assistência recíproca.

Foi aí que surgiu a famigerada Doutrina de Segurança Nacional, cujas práticas estão em vigência até hoje. Esta doutrina estabelecia que o único enfrentamento que havia no mundo era o Leste/Oeste, envolvendo os Estados Unidos e a União Soviética. E o único inimigo a combater era o comunismo. Assim, nas nações latino-americanas, o que norteava as ações do exército era o combate à infiltração marxista e a desordem social que isso provocava. O inimigo, então, deixava de ser externo e passava a ser o próprio povo de cada país. Foi essa idéia estrangeira que provocou toda a sorte de tragédias nesta “nuestra” América a partir dos anos 50, acompanhada de sangrentas ditaduras apoiadas pelos EUA.

No ano de 1951, o Congresso dos EUA aprovou a lei de Segurança Mútua e firmou pactos bilaterais com os países da América Latina para aplicar os Programas de Ajuda Militar. Isso significou, na prática, a presença cotidiana de tropas estadunidenses nos países latino-americanos trabalhando na “educação” e instrução das tropas nacionais. Ainda no final dos anos 50, aparece a Doutrina de Guerra Contra-revolucionária ou anti-subversiva, que tinha como objetivo aprofundar a luta contra os comunistas. Cuba era um terrível mau-exemplo e havia que combater essa “maçã podre” na América Latina. Então, ao longo dos anos 60, milhares de oficiais de praticamente todos os países latino-americanos faziam romaria até o Panamá, para serem adestrados conforme os ditames do Forte Amador. A nefasta Escola das Américas forneceu, assim, os manuais do terror que infestou a América Latina por 30 anos.

Nos manuais, escritos originalmente em espanhol, eram consideradas necessárias as técnicas de execução, tortura e extorsão para combater os “subversivos” internos que quisessem se meter com o comunismo. Com a doutrina de segurança nacional escrita pelos técnicos da guerra estadunidense, praticamente em todos os países da América Latina e do Caribe, as forças armadas foram destituídas de sua missão específica que seria a de combater um inimigo exterior. Ainda segundo o coronel argentino, Horácio Ballester, as forças armadas passaram a ser verdadeiras tropas de ocupação em seus próprios países, transformando-os em Estados terroristas que aniquilavam o inimigo interior, sua própria gente. Diz Ballester: “As forças armadas se colocaram incondicionalmente, consciente sou não, a serviço do establishment internacional e das minorias dominantes locais”. Isso significou que qualquer pessoa que fizesse algo que afetasse os interesses superiores, fosse luta salarial, por moradia ou terra, era logo qualificado como “comunista” e imediatamente perseguido, preso, torturado, desaparecido ou morto.

Naqueles dias um “comunista” comprovado perdia os direitos, não tinha julgamento justo, podia ser seqüestrado, torturado, preso ilegalmente, seus bens eram confiscados e suas casas queimadas. Ou seja, nada muito diferente do que acontece hoje em dia. Apenas o adjetivo mudou. Não são mais comunistas os que se opõe ao poder dos EUA e das elites cortesãs. Agora estão na moda os “terroristas”.

Entendendo a atualidade

Depois deste breve apanhado histórico, fica mais fácil compreender a situação da América Latina hoje e o sujo papel desempenhado por Uribe, na Colômbia. Desde aqueles dias dos anos 40 que os governos colombianos vêm enfrentando o “inimigo interno”, tal qual ordenam as doutrinas e técnicas estadunidenses. Não apenas as FARC, agora chamadas cotidianamente de “terroristas” nos meios massivos de comunicação, são perseguidas. Mas qualquer liderança social, popular, qualquer cidadão que comece a questionar o governo ou o sistema, é perseguido, preso, torturado, eliminado. Isso é recorrente na Colômbia. São os “terroristas”.

Igualmente “terrorista” são considerados os países que não se ajoelham diante da lógica estadunidense. Não é à toa que Bush quer empurrar goela abaixo, junto com o Congresso de seu país, a resolução que torna “terrorista” o governo da Venezuela, chefiado por Hugo Chávez. E é bom que se diga, Chávez segue exportando o petróleo para os EUA e fazendo negócios com empresas gringas. Ou seja, não é tão inimigo assim. Mas, como na política externa o discurso de Chávez é totalmente anti-estadunidense, o governo daquele país não descansará enquanto não colocar a Venezuela no lugar onde deve ficar: subserviente e cortesã, como foi ao longo de décadas.

Por outro lado, não são apenas Chávez, Correa, Morales, Fidel e Ortega que passam a ser considerados inimigos. Também as gentes em luta passam a receber a alcunha de “terroristas”. Tem sido assim em praticamente todos os países da América Latina. As lutas sociais tiveram um recrudescimento na repressão e quem é apanhado, logo é enquadrado nesta categoria. Foi assim com Patrícia Troncoso, a jovem mapuche que precisou ficar mais de 100 dias em greve de fome para ter direito aos benefícios da lei. Está presa como terrorista. São terroristas os que lutam por terra, por moradia, por transporte coletivo, por salário. Bastou algum grupo marginalizado se levantar para ser considerado um perigo nacional. Isso significa que nada mudou. O “inimigo” está dentro dos portões dos países e os exércitos devem baixar sobre eles.

A lei de segurança nacional escrita em Washington segue vigendo. A mesma lei que deu corpo à criminosa Operação Condor, responsável pela destruição da vida de milhares de jovens e lideranças latino-americanas durante as ditaduras, a mesma que torna inimigo do Estado aqueles e aquelas que lutam por um mundo melhor.

Então, antes de acreditar nos Bonners (Globo) e Nascimentos (SBT) da vida que tratam todos os lutadores sociais como inimigos, terroristas, é bom que as gentes conheçam a história e saibam de onde vem a caracterização dos “nossos” inimigos. Eles não são nossos, são adversários do decadente império estadunidense, opressor e criminoso, que ceifa vidas por todo o continente, todos os dias, inclusive as nossas.


sexta-feira, 7 de março de 2008

A guerra!

Está nos Vedas, está na Torá, no Novo Testamento, no manual de Sun Tsu, no programa O Aprendiz, nas colinas de Golan, no Afeganistão, no Iraque, na faixa de Gaza, no Rio de Janeiro, em Florianópolis, dentro de nós, está em toda parte. A guerra! Esse momento funesto em que a nossa raça luta entre si, pelo desejo de dominar. Não há consensos habermasianos quando as crianças poderosas iniciam o mantra: “eu tenho o petróleo, você não tem”. Ou então, quando, extasiadas pela beleza do outro, querem tomá-la, à força. Desejo de poder. Ter o que não é seu.

Sempre vejo os senhores das guerras como vampiros. Eles querem sugar o que é do outro, tirar até a última gota, para que possam viver em abundância. Assim, neste mundo cão, a riqueza de um é sempre a morte do outro. E tem sido assim desde priscas eras. Se tu tens diamantes no chão, prepara-te para ver teu povo morrer, ser escravizado. Se tens petróleo, estás perdido. Se tens ouro, estás morto. Se tens prata, estanho, guano, estás dizimado. Os que têm as melhores armas ditam as leis. Malvinas é da Inglaterra, ora pois! Não importa que seja território originário de outros seres. Quem ganhou a guerra, afinal?

Agora o império estadunidense já tem um bom parceiro no oriente. Israel está fazendo o trabalho de casa e muito bem. Joga bomba nos “terroristas”, destrói a faixa de Gaza, dizima mulheres, crianças. Está tudo sob controle naquela área. Tem as armas gringas e deita e rola.

Por conta disso, agora é hora de destruir Chávez, Correa, Morales, estes negros/índios/povos que se metem a sair um pouquinho da linha. Gente que insiste em falar de soberania, de direitos dos povos, de liberdade, de controle de suas próprias riquezas. Há que amassá-los, destruí-los, para que não sobre nada. Para que tudo tenha de recomeçar do zero. Para que esta gente saiba qual é o seu lugar: servos, submissos, ajoelhados diante do império.

E mais, nem precisa sujar as mãos. A marionete formada nas suas universidades, o representantezinho das elites locais - sempre dispostas a entregar seus povos como cordeiros para os dentes afiados do vampiro – cumpre a missão. É ao que se presta o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, querendo lavar de sangue a pátria grande.

No mesmo momento em que as FARC decidem dar um passo em direção à paz, em que começam a liberar prisioneiros, dando mostras de que não são eles os “bandidos terroristas”, o governo colombiano faz uma ofensiva de guerra. Não suporta ver o protagonismo de Hugo Chávez e Piedad Córdoba. Adentra territórios soberanos com o uso de tecnologia estadunidense, mata pessoas enquanto dormem e tem a coragem de dizer que está em busca da paz. Resta saber se os governos do Equador e da Venezuela, vão morder a isca. Resta torcer para que não o façam.

Tudo o que os Estados Unidos querem é mergulhar ainda mais esta parte norte da América Latina num caos de sangue e terror. Não por conta das gentes, mas por conta da sua própria fábrica de terror, essa que eles lançam sobre o mundo, a partir de seus aliados espúrios. Querem o petróleo da Venezuela, querem a velha submissão, querem o estanho, a prata, o ouro, os diamantes, o ferro, o urânio, a terra, a cana, o fumo. Querem tudo. E querem gente ajoelhada, cabeça baixa, olhar vazio. Já estão fazendo guerra na Colômbia desde há tempos, mas agora querem destruir o que chamam de “eixo do mal”, ou seja, gente que não se dobra a eles.

É sempre o mesmo velho círculo de horror. O império ataca, as gentes se defendem, tudo acaba em sangue. E, também como sempre, no mais das vezes, salvo raras exceções, as maiores baixas são sempre as nossas, dos povos que querem viver em paz, riquezas repartidas, dignidade. Como entender essa matemática? E o que fazer quando nossa soberania é aviltada, nossas riquezas roubadas, nossa vida sugada? Que outro remédio senão lutar? Dolorosas perguntas, dolorosas respostas.

O certo é que as gentes minimamente precisam saber por que, afinal, alguns governos fazem guerras. Por que mandam seus jovens para frente de uma batalha que os governantes só verão na TV, confortavelmente em seus gabinetes. Ninguém verá Bush comandando um pelotão de terra, enfrentando a fúria sã de quem resiste. Os senhores da guerra estão no conforto de seus lares, com seus filhos, esperando ver o sangue do outro jorrar. Eles sequer são os que apertam o botão. Eles só assistem. Os que apertam o botão lá do alto do avião, acreditam estar “limpando a área”, não enxergam os rostos, não escutam os gritos das crianças. Tudo é só um pontinho perdido na distância.

Pois é bom que se saiba que a guerra está sempre muito perto de nós. Nós, que não nos importamos com os iraquianos que morrem feito moscas – mais de um milhão já foi dizimado. Nós que estamos nem aí para os palestino, massacrados dia após dia. Nós que não fazemos caso dos garotos empobrecidos estatelados à bala nas vielas de nossas pacatas cidades. Nós, que não nos importamos com nada que não nos diga respeito. A guerra está aí. E é fruto da ganância do império e seus cães de guarda que tal e qual um César romano vêm rompendo tudo. Tal qual um Midas “al revés”, destroem tudo que tocam. Que faremos?

Esconderemos a cabeça e diremos: não temos nada a ver, ou vamos tratar de informar as gentes para além das telas da Globo e suas reportagens sacanas que anunciam ser a Venezuela um reduto de terroristas e ser o governo Chávez um financiador de guerrilhas? Será possível que ninguém se lembra das mentiras sobre o Iraque? Será que existe gente ingênua o suficiente para crer no que sai da boca ventríloqua de Fátima Bernardes? O império quer o petróleo da Venezuela, o gás da Bolívia, o petróleo equatoriano, as terras brasileiras, a prata, o ouro, tudo. O império quer as gentes de joelhos, perdidas de sua dignidade, escravas. Nós estaremos de qual lado? Fazendo o quê?

Os cascos dos cavalos imperiais estão sob nossas cabeças. Executaram soldados das FARC que dormiam na selva equatoriana. Gente que luta por um país soberano. O terrorismo é o estado colombiano. Terrorista são os senhores da guerra. Estejamos alertas e vigilantes. Porque, como bem lembra o poeta palestino Mahmud Darwish: “Ainda goteja a fonte do crime...” Desperta Abya Yala!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O ônibus das cinco e quinze
























Essa crônica faz parte do livro: Líricas - a palavra amorosa do cotidiano

Chegar em casa é sempre uma viagem. Cada dia diferente, embora o caminho seja o mesmo. Mas é que dentro do ônibus seguidamente acontecem coisas espantosas, visto que os seres humanos são sempre surpreendentes. O trajeto até o Rio Tavares é de puro assombramento. Primeiro com a paisagem. O mar, os montes descortinando o horizonte, os casebres de pescadores, o absurdo do aterro, as gentes, os motociclistas e suas ousadas manobras, os carros em profusão. Quando é final de tarde então, é de enlouquecer. O céu fica de um rosado/dourado, uma coisa única, e a vontade que se tem é de gritar, tamanha a força da beleza.

Depois, no terminal desintegrado, a espera. Meia hora, quarenta minutos, aquela coisa dolorosa de se estar aprisionada num lugar, tão perto de casa. Hora de pensar no quão surreal pode ser uma obra pública, se não tiver um mínimo de humanidade. Quem planejou o transporte, nunca o usou. Não sabe do horror e da exasperação que aquilo tudo pode acometer num vivente.

Então, num dia qualquer, vindo mais cedo para casa, por conta da sorte (essa danada), a gente pega o ônibus das cinco e quinze. É o que sai do Tirio rumo ao Jardim Castanheira, via Eucalipto. Ele segue pela Pequeno Príncipe, tranqüilo e sereno, passando pelas casas sem muro, cheias de ameixas, romãs e limões. Então, lá no final, quase perto da praia chega a parada que fica em frente à Escola Brigadeiro Eduardo Gomes. É quando tudo começa.

Ali, o ônibus fica parado por uns quinze minutos. É hora de entrar toda a profusão de meninos e meninas, libertos do colégio. Dois deles tem deficiência e sobem com as cadeiras de rodas, felizes por partilharem aquela fartura de vozes. O restante parece formar um poderoso furacão. Eles vão passando a catraca, revestidos de uma atmosfera de gritos e risadas. Todos falam muito alto e ninguém consegue entender o que de fato dizem. Desconfio que não digam nada, é só uma algaravia juvenil, atordoante e insana. Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor.

Alguns deles se dependuram nos ferros que servem para o povo se segurar e sacodem feito macaquinhos felizes. O cobrador, que já os conhece pelo nome, um a um, vai vociferando. “André, sai do buraco da porta”, “Marquinho, não pula no banco”, “Sossega Fabiano”. E aquilo tudo vai se transformando numa balbúrdia digna de Babel. Ninguém ouve ninguém. Os passageiros que nunca pegaram aquele ônibus ficam com os olhos arregalados, sem fôlego, incomodados. Clamam por Herodes e o abençoariam se ali aparecesse para dar um fim naquela confusão.

Mas, quem já se acostumou a pegar o Castanheira das cinco e quinze não consegue disfarçar a incontrolável alegria que vai invadindo a alma. Aquela gritaria toda vai atordoando, atordoando, até o ponto de a pessoa também começar a gritar. Quando o ônibus passa em um quebra-mola então, os decibéis vão ao volume máximo. É a catarse. Êxtase total.

Então, quando o ônibus passa da parada do Raio de Sol., os grupos de pequenos vão saindo em profusão e, pouco a pouco, o barulho arrefece. Os gritos vão amainando e se perdem nos caminhos de areia do Campeche por onde vão sumindo as crianças e suas enormes mochilas de aula.

Na parada do Centro Comercial Castanheira eu desço junto com uma parte desta turba. E com ela ainda vou um bom trecho do caminho, partilhando da gritaria. Meus 47 anos desaparecem e consigo ver a menininha que fui, vestida de vermelho, a bailar, pulando as poças de água que se formam no caminho. Minha alma dança e penso que todo o ser humano deveria ter um ônibus das cinco e quinze na vida. Porque iria perceber que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é se embriagar de meninice. Gritar feito louco, pular pelas ruas, sorrir por nada. Ah, esse meu Campeche e esses anjos que me ensinam a des-crescer!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um homem é do tamanho do que faz

Então, de repente, aquele que era todo energia, parou. O dínamo alucinado, a cabeça privilegiada, cheia de números, normas, resoluções. O homem de ação, do dedo em riste, da cobrança, da ironia. A locomotiva do movimento dos trabalhadores da UFSC, o que enfrenta ministro e os chama pelo nome, íntimo. O que dá de dedo em deputado, senador, presidente. O que não se apequena diante de coisa alguma. De um nada, assim, num final de ano, em plenas férias, parou.

No começo ninguém se deu conta. Era tempo de férias, normal que tudo estivesse calmo. Mas, quando chegou fevereiro, por todo o campus, faltava algo. O ar estava rarefeito, o brilho do sol estava fraquinho, e até a chuva torrencial parecia estar deslocada. O Catatau andava cabisbaixo, os passarinhos pareciam mudos e, lá pras bandas do Sintufsc, havia um silêncio. Aquele vento forte, furacão, Iansã masculina, não estava derrubando tudo pelas salas recém reformadas.

Então, todo mundo foi se dando conta. O pequenino dançador não estava ali. Flechado por uma doença, estava no hospital. Doença grande, doença dura. E ele, o guerreiro, estava agora travando sua batalha pessoal. Enfrentando de peito aberto, corajoso como sempre foi. Dom Quixote contra os moinhos. “Não são moinhos, são gigantes, mas contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha”. E assim é!

O nosso Assis, aquele que durante um bom tempo da vida andou por caminhos tortos na política. Mas, um dia, se achou. E viu que a vereda coletiva era a mais segura. E desde então, nunca mais foi o mesmo. Guerreiro. Xangô branco, implacável com os adversários e inimigos da classe trabalhadora. Generoso ser, cheio de ódios e amores sãos.

Então, enquanto luta como um bravo, vai ficando claro o tamanho do Assis. Que grande que ele é. De todos os cantos do país chegam pedidos de notícias, mensagens de carinho. Políticos, autoridades de todos os quadrantes, sindicalistas, povo do movimento popular, gentes comuns. Uma procissão de almas vibrando na energia para que o velho “compa” se levante e siga sua trajetória de luta e de generosidade. Que grande ele é. Quão grande ficou nesta decisão histórica de caminhar com os desvalidos da história. Que imensidão de figura que provoca tanta atenção, tanto amor, tantos desejos de bem.

O Assis está no hospital, ainda. Está lutando, com a mesma garra com que enfrenta as plenárias da Fasubra, as mesas do MEC ou o neoliberalismo. O Assis está lutando, com o mesmo riso de menino, os comentários cheios de pureza, e aquela alegria que transborda dos olhos azuis. O Assis está lutando e não está só. Com ele caminhamos nós. Os que somos companheiros, os que dividimos com ele o mesmo desejo de tempos de claridão. O Assis está lutando, e por incrível que possa parecer, é ele quem vai à frente. Grande. Imenso. Carregando todos nós.

Não tenho dúvidas de que vai vencer!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Promessa de mudança!


Ele pareceria um rei, tamanha a beleza. A bermuda despojada, uma camisa em tom pastel e um boné surrado que gritava, em vermelho sangue, uma palavra muito pouco ouvida na universidade: favela. Ele era um, em meio a uma centena de jovens negros que lotavam o auditório da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina para um dia histórico. O dia em que negros e negras, muitos deles empobrecidos, entraram na universidade, não para uma visita ou para servirem de objetos de estudo, mas para ser aluno, fazer um curso superior. É que, pela primeira vez, a UFSC destinou cotas para negros no seu vestibular de ingresso.

Na comissão de professores que atendia, um por um, aos calouros, era visível a alegria e o orgulho de ver uma luta de anos, finalmente sendo concretizada na prática. Havia sorrisos, apertos firmes de mão e até abraços. Pelo auditório, passeavam outras cores, cabelos cheios de tranças ou dreads, colares étnicos, risos. Eram negros, centenas, e não aquela meia dúzia, em geral africanos, que a comunidade universitária está acostumada a ver pelo campus.

Eu penso que não deveria haver cotas para negros, nem para índios, nem para estudantes da escola pública. Mas, enfim, desde que a universidade surgiu existe uma reserva de cotas. É a cota dos que fazem cursinho pago. Dos que podem ter bons colégios particulares. Então, isso sempre existiu. E, já que existiam cotas para os ricos, é muito justo que exista também para os negros, para os índios e para os que estudam em escola pública. No regime excludente da universidade pública, estas cotas instituídas agora são muito justas sim. E podem gritar os racistas, os neonazistas, e todos os outros “istas” que existem por aí, enrustidos ou não.

É claro que a luta deve ser por escola para todos. Todo e qualquer ser humano que viva aqui nestas terras devia ter direito a uma universidade pública e de qualidade. Porque gratuita ela não é. Todos nós pagamos para que poucos possam ter uma formação. E até hoje, os empobrecidos, os negros e os índios (estes na sua maioria também empobrecidos) não tinham essa chance. Não conseguiam passar a barreira da cota dos cursinhos. Quem pode ter duzentos, trezentos reais, para pagar por mês um curso preparatório?

As cotas são um paliativo. Sim, são. Mas elas podem ser fermento de mudança, elas podem escancarar a chaga escondida do racismo. Ontem, na UFSC, eu vi. Aqueles garotos e garotas negros, sempre marcados pelo preconceito, pela exclusão, unicamente por conta da cor, agora estão dentro da universidade. Não que isso seja muita coisa. Não que seja bom para eles. É bom para a universidade, isto sim! Esta universidade racista, conservadora, por vezes reacionária, precisava se abrir ao outro, ao que sempre esteve fora por conta da sua condição econômica. Esta universidade precisa conviver com a gurizada que vem das escolas públicas, com as gentes das comunidades de periferia, com garotos como aquele do boné que grita: favela!

E tudo o que eu queria ver era esses garotas e garotas negros trazerem para dentro dos muros do campus sua música, sua cultura, suas raízes, seu riso, sua crítica, sua raiva, sua doçura, sua esperança, seu jeito de viver. E tudo o que eu quero é que eles não fiquem como a maioria dos universitários: apáticos, egoístas, ambiciosos, pensando só no mercado. Eu quero que eles possam revolver conceitos, inventar o novo. Eu fiquei olhando para eles, mergulhada em emoção e sonhando. Ainda são poucos, muito poucos, mas podem fazer um grande estrago. Sempre digo que a universidade, tal como é, precisa morrer. Há que nascer uma universidade diferente, capaz de pensar a vida real, capaz de caminhar nas estradas secundárias, capaz de construir uma nova sociedade. Não sei por que, mas creio que pode começar agora. Quando as gentes da periferia, os que estão excluídos da vida digna, os índios massacrados, entrarem e seguirem sendo eles mesmos, ajudando a inventar um tempo novo.

Assim, ontem, num átimo, me voltou a esperança...