sexta-feira, 7 de março de 2008

A guerra!

Está nos Vedas, está na Torá, no Novo Testamento, no manual de Sun Tsu, no programa O Aprendiz, nas colinas de Golan, no Afeganistão, no Iraque, na faixa de Gaza, no Rio de Janeiro, em Florianópolis, dentro de nós, está em toda parte. A guerra! Esse momento funesto em que a nossa raça luta entre si, pelo desejo de dominar. Não há consensos habermasianos quando as crianças poderosas iniciam o mantra: “eu tenho o petróleo, você não tem”. Ou então, quando, extasiadas pela beleza do outro, querem tomá-la, à força. Desejo de poder. Ter o que não é seu.

Sempre vejo os senhores das guerras como vampiros. Eles querem sugar o que é do outro, tirar até a última gota, para que possam viver em abundância. Assim, neste mundo cão, a riqueza de um é sempre a morte do outro. E tem sido assim desde priscas eras. Se tu tens diamantes no chão, prepara-te para ver teu povo morrer, ser escravizado. Se tens petróleo, estás perdido. Se tens ouro, estás morto. Se tens prata, estanho, guano, estás dizimado. Os que têm as melhores armas ditam as leis. Malvinas é da Inglaterra, ora pois! Não importa que seja território originário de outros seres. Quem ganhou a guerra, afinal?

Agora o império estadunidense já tem um bom parceiro no oriente. Israel está fazendo o trabalho de casa e muito bem. Joga bomba nos “terroristas”, destrói a faixa de Gaza, dizima mulheres, crianças. Está tudo sob controle naquela área. Tem as armas gringas e deita e rola.

Por conta disso, agora é hora de destruir Chávez, Correa, Morales, estes negros/índios/povos que se metem a sair um pouquinho da linha. Gente que insiste em falar de soberania, de direitos dos povos, de liberdade, de controle de suas próprias riquezas. Há que amassá-los, destruí-los, para que não sobre nada. Para que tudo tenha de recomeçar do zero. Para que esta gente saiba qual é o seu lugar: servos, submissos, ajoelhados diante do império.

E mais, nem precisa sujar as mãos. A marionete formada nas suas universidades, o representantezinho das elites locais - sempre dispostas a entregar seus povos como cordeiros para os dentes afiados do vampiro – cumpre a missão. É ao que se presta o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, querendo lavar de sangue a pátria grande.

No mesmo momento em que as FARC decidem dar um passo em direção à paz, em que começam a liberar prisioneiros, dando mostras de que não são eles os “bandidos terroristas”, o governo colombiano faz uma ofensiva de guerra. Não suporta ver o protagonismo de Hugo Chávez e Piedad Córdoba. Adentra territórios soberanos com o uso de tecnologia estadunidense, mata pessoas enquanto dormem e tem a coragem de dizer que está em busca da paz. Resta saber se os governos do Equador e da Venezuela, vão morder a isca. Resta torcer para que não o façam.

Tudo o que os Estados Unidos querem é mergulhar ainda mais esta parte norte da América Latina num caos de sangue e terror. Não por conta das gentes, mas por conta da sua própria fábrica de terror, essa que eles lançam sobre o mundo, a partir de seus aliados espúrios. Querem o petróleo da Venezuela, querem a velha submissão, querem o estanho, a prata, o ouro, os diamantes, o ferro, o urânio, a terra, a cana, o fumo. Querem tudo. E querem gente ajoelhada, cabeça baixa, olhar vazio. Já estão fazendo guerra na Colômbia desde há tempos, mas agora querem destruir o que chamam de “eixo do mal”, ou seja, gente que não se dobra a eles.

É sempre o mesmo velho círculo de horror. O império ataca, as gentes se defendem, tudo acaba em sangue. E, também como sempre, no mais das vezes, salvo raras exceções, as maiores baixas são sempre as nossas, dos povos que querem viver em paz, riquezas repartidas, dignidade. Como entender essa matemática? E o que fazer quando nossa soberania é aviltada, nossas riquezas roubadas, nossa vida sugada? Que outro remédio senão lutar? Dolorosas perguntas, dolorosas respostas.

O certo é que as gentes minimamente precisam saber por que, afinal, alguns governos fazem guerras. Por que mandam seus jovens para frente de uma batalha que os governantes só verão na TV, confortavelmente em seus gabinetes. Ninguém verá Bush comandando um pelotão de terra, enfrentando a fúria sã de quem resiste. Os senhores da guerra estão no conforto de seus lares, com seus filhos, esperando ver o sangue do outro jorrar. Eles sequer são os que apertam o botão. Eles só assistem. Os que apertam o botão lá do alto do avião, acreditam estar “limpando a área”, não enxergam os rostos, não escutam os gritos das crianças. Tudo é só um pontinho perdido na distância.

Pois é bom que se saiba que a guerra está sempre muito perto de nós. Nós, que não nos importamos com os iraquianos que morrem feito moscas – mais de um milhão já foi dizimado. Nós que estamos nem aí para os palestino, massacrados dia após dia. Nós que não fazemos caso dos garotos empobrecidos estatelados à bala nas vielas de nossas pacatas cidades. Nós, que não nos importamos com nada que não nos diga respeito. A guerra está aí. E é fruto da ganância do império e seus cães de guarda que tal e qual um César romano vêm rompendo tudo. Tal qual um Midas “al revés”, destroem tudo que tocam. Que faremos?

Esconderemos a cabeça e diremos: não temos nada a ver, ou vamos tratar de informar as gentes para além das telas da Globo e suas reportagens sacanas que anunciam ser a Venezuela um reduto de terroristas e ser o governo Chávez um financiador de guerrilhas? Será possível que ninguém se lembra das mentiras sobre o Iraque? Será que existe gente ingênua o suficiente para crer no que sai da boca ventríloqua de Fátima Bernardes? O império quer o petróleo da Venezuela, o gás da Bolívia, o petróleo equatoriano, as terras brasileiras, a prata, o ouro, tudo. O império quer as gentes de joelhos, perdidas de sua dignidade, escravas. Nós estaremos de qual lado? Fazendo o quê?

Os cascos dos cavalos imperiais estão sob nossas cabeças. Executaram soldados das FARC que dormiam na selva equatoriana. Gente que luta por um país soberano. O terrorismo é o estado colombiano. Terrorista são os senhores da guerra. Estejamos alertas e vigilantes. Porque, como bem lembra o poeta palestino Mahmud Darwish: “Ainda goteja a fonte do crime...” Desperta Abya Yala!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O ônibus das cinco e quinze
























Essa crônica faz parte do livro: Líricas - a palavra amorosa do cotidiano

Chegar em casa é sempre uma viagem. Cada dia diferente, embora o caminho seja o mesmo. Mas é que dentro do ônibus seguidamente acontecem coisas espantosas, visto que os seres humanos são sempre surpreendentes. O trajeto até o Rio Tavares é de puro assombramento. Primeiro com a paisagem. O mar, os montes descortinando o horizonte, os casebres de pescadores, o absurdo do aterro, as gentes, os motociclistas e suas ousadas manobras, os carros em profusão. Quando é final de tarde então, é de enlouquecer. O céu fica de um rosado/dourado, uma coisa única, e a vontade que se tem é de gritar, tamanha a força da beleza.

Depois, no terminal desintegrado, a espera. Meia hora, quarenta minutos, aquela coisa dolorosa de se estar aprisionada num lugar, tão perto de casa. Hora de pensar no quão surreal pode ser uma obra pública, se não tiver um mínimo de humanidade. Quem planejou o transporte, nunca o usou. Não sabe do horror e da exasperação que aquilo tudo pode acometer num vivente.

Então, num dia qualquer, vindo mais cedo para casa, por conta da sorte (essa danada), a gente pega o ônibus das cinco e quinze. É o que sai do Tirio rumo ao Jardim Castanheira, via Eucalipto. Ele segue pela Pequeno Príncipe, tranqüilo e sereno, passando pelas casas sem muro, cheias de ameixas, romãs e limões. Então, lá no final, quase perto da praia chega a parada que fica em frente à Escola Brigadeiro Eduardo Gomes. É quando tudo começa.

Ali, o ônibus fica parado por uns quinze minutos. É hora de entrar toda a profusão de meninos e meninas, libertos do colégio. Dois deles tem deficiência e sobem com as cadeiras de rodas, felizes por partilharem aquela fartura de vozes. O restante parece formar um poderoso furacão. Eles vão passando a catraca, revestidos de uma atmosfera de gritos e risadas. Todos falam muito alto e ninguém consegue entender o que de fato dizem. Desconfio que não digam nada, é só uma algaravia juvenil, atordoante e insana. Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor.

Alguns deles se dependuram nos ferros que servem para o povo se segurar e sacodem feito macaquinhos felizes. O cobrador, que já os conhece pelo nome, um a um, vai vociferando. “André, sai do buraco da porta”, “Marquinho, não pula no banco”, “Sossega Fabiano”. E aquilo tudo vai se transformando numa balbúrdia digna de Babel. Ninguém ouve ninguém. Os passageiros que nunca pegaram aquele ônibus ficam com os olhos arregalados, sem fôlego, incomodados. Clamam por Herodes e o abençoariam se ali aparecesse para dar um fim naquela confusão.

Mas, quem já se acostumou a pegar o Castanheira das cinco e quinze não consegue disfarçar a incontrolável alegria que vai invadindo a alma. Aquela gritaria toda vai atordoando, atordoando, até o ponto de a pessoa também começar a gritar. Quando o ônibus passa em um quebra-mola então, os decibéis vão ao volume máximo. É a catarse. Êxtase total.

Então, quando o ônibus passa da parada do Raio de Sol., os grupos de pequenos vão saindo em profusão e, pouco a pouco, o barulho arrefece. Os gritos vão amainando e se perdem nos caminhos de areia do Campeche por onde vão sumindo as crianças e suas enormes mochilas de aula.

Na parada do Centro Comercial Castanheira eu desço junto com uma parte desta turba. E com ela ainda vou um bom trecho do caminho, partilhando da gritaria. Meus 47 anos desaparecem e consigo ver a menininha que fui, vestida de vermelho, a bailar, pulando as poças de água que se formam no caminho. Minha alma dança e penso que todo o ser humano deveria ter um ônibus das cinco e quinze na vida. Porque iria perceber que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é se embriagar de meninice. Gritar feito louco, pular pelas ruas, sorrir por nada. Ah, esse meu Campeche e esses anjos que me ensinam a des-crescer!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um homem é do tamanho do que faz

Então, de repente, aquele que era todo energia, parou. O dínamo alucinado, a cabeça privilegiada, cheia de números, normas, resoluções. O homem de ação, do dedo em riste, da cobrança, da ironia. A locomotiva do movimento dos trabalhadores da UFSC, o que enfrenta ministro e os chama pelo nome, íntimo. O que dá de dedo em deputado, senador, presidente. O que não se apequena diante de coisa alguma. De um nada, assim, num final de ano, em plenas férias, parou.

No começo ninguém se deu conta. Era tempo de férias, normal que tudo estivesse calmo. Mas, quando chegou fevereiro, por todo o campus, faltava algo. O ar estava rarefeito, o brilho do sol estava fraquinho, e até a chuva torrencial parecia estar deslocada. O Catatau andava cabisbaixo, os passarinhos pareciam mudos e, lá pras bandas do Sintufsc, havia um silêncio. Aquele vento forte, furacão, Iansã masculina, não estava derrubando tudo pelas salas recém reformadas.

Então, todo mundo foi se dando conta. O pequenino dançador não estava ali. Flechado por uma doença, estava no hospital. Doença grande, doença dura. E ele, o guerreiro, estava agora travando sua batalha pessoal. Enfrentando de peito aberto, corajoso como sempre foi. Dom Quixote contra os moinhos. “Não são moinhos, são gigantes, mas contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha”. E assim é!

O nosso Assis, aquele que durante um bom tempo da vida andou por caminhos tortos na política. Mas, um dia, se achou. E viu que a vereda coletiva era a mais segura. E desde então, nunca mais foi o mesmo. Guerreiro. Xangô branco, implacável com os adversários e inimigos da classe trabalhadora. Generoso ser, cheio de ódios e amores sãos.

Então, enquanto luta como um bravo, vai ficando claro o tamanho do Assis. Que grande que ele é. De todos os cantos do país chegam pedidos de notícias, mensagens de carinho. Políticos, autoridades de todos os quadrantes, sindicalistas, povo do movimento popular, gentes comuns. Uma procissão de almas vibrando na energia para que o velho “compa” se levante e siga sua trajetória de luta e de generosidade. Que grande ele é. Quão grande ficou nesta decisão histórica de caminhar com os desvalidos da história. Que imensidão de figura que provoca tanta atenção, tanto amor, tantos desejos de bem.

O Assis está no hospital, ainda. Está lutando, com a mesma garra com que enfrenta as plenárias da Fasubra, as mesas do MEC ou o neoliberalismo. O Assis está lutando, com o mesmo riso de menino, os comentários cheios de pureza, e aquela alegria que transborda dos olhos azuis. O Assis está lutando e não está só. Com ele caminhamos nós. Os que somos companheiros, os que dividimos com ele o mesmo desejo de tempos de claridão. O Assis está lutando, e por incrível que possa parecer, é ele quem vai à frente. Grande. Imenso. Carregando todos nós.

Não tenho dúvidas de que vai vencer!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Promessa de mudança!


Ele pareceria um rei, tamanha a beleza. A bermuda despojada, uma camisa em tom pastel e um boné surrado que gritava, em vermelho sangue, uma palavra muito pouco ouvida na universidade: favela. Ele era um, em meio a uma centena de jovens negros que lotavam o auditório da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina para um dia histórico. O dia em que negros e negras, muitos deles empobrecidos, entraram na universidade, não para uma visita ou para servirem de objetos de estudo, mas para ser aluno, fazer um curso superior. É que, pela primeira vez, a UFSC destinou cotas para negros no seu vestibular de ingresso.

Na comissão de professores que atendia, um por um, aos calouros, era visível a alegria e o orgulho de ver uma luta de anos, finalmente sendo concretizada na prática. Havia sorrisos, apertos firmes de mão e até abraços. Pelo auditório, passeavam outras cores, cabelos cheios de tranças ou dreads, colares étnicos, risos. Eram negros, centenas, e não aquela meia dúzia, em geral africanos, que a comunidade universitária está acostumada a ver pelo campus.

Eu penso que não deveria haver cotas para negros, nem para índios, nem para estudantes da escola pública. Mas, enfim, desde que a universidade surgiu existe uma reserva de cotas. É a cota dos que fazem cursinho pago. Dos que podem ter bons colégios particulares. Então, isso sempre existiu. E, já que existiam cotas para os ricos, é muito justo que exista também para os negros, para os índios e para os que estudam em escola pública. No regime excludente da universidade pública, estas cotas instituídas agora são muito justas sim. E podem gritar os racistas, os neonazistas, e todos os outros “istas” que existem por aí, enrustidos ou não.

É claro que a luta deve ser por escola para todos. Todo e qualquer ser humano que viva aqui nestas terras devia ter direito a uma universidade pública e de qualidade. Porque gratuita ela não é. Todos nós pagamos para que poucos possam ter uma formação. E até hoje, os empobrecidos, os negros e os índios (estes na sua maioria também empobrecidos) não tinham essa chance. Não conseguiam passar a barreira da cota dos cursinhos. Quem pode ter duzentos, trezentos reais, para pagar por mês um curso preparatório?

As cotas são um paliativo. Sim, são. Mas elas podem ser fermento de mudança, elas podem escancarar a chaga escondida do racismo. Ontem, na UFSC, eu vi. Aqueles garotos e garotas negros, sempre marcados pelo preconceito, pela exclusão, unicamente por conta da cor, agora estão dentro da universidade. Não que isso seja muita coisa. Não que seja bom para eles. É bom para a universidade, isto sim! Esta universidade racista, conservadora, por vezes reacionária, precisava se abrir ao outro, ao que sempre esteve fora por conta da sua condição econômica. Esta universidade precisa conviver com a gurizada que vem das escolas públicas, com as gentes das comunidades de periferia, com garotos como aquele do boné que grita: favela!

E tudo o que eu queria ver era esses garotas e garotas negros trazerem para dentro dos muros do campus sua música, sua cultura, suas raízes, seu riso, sua crítica, sua raiva, sua doçura, sua esperança, seu jeito de viver. E tudo o que eu quero é que eles não fiquem como a maioria dos universitários: apáticos, egoístas, ambiciosos, pensando só no mercado. Eu quero que eles possam revolver conceitos, inventar o novo. Eu fiquei olhando para eles, mergulhada em emoção e sonhando. Ainda são poucos, muito poucos, mas podem fazer um grande estrago. Sempre digo que a universidade, tal como é, precisa morrer. Há que nascer uma universidade diferente, capaz de pensar a vida real, capaz de caminhar nas estradas secundárias, capaz de construir uma nova sociedade. Não sei por que, mas creio que pode começar agora. Quando as gentes da periferia, os que estão excluídos da vida digna, os índios massacrados, entrarem e seguirem sendo eles mesmos, ajudando a inventar um tempo novo.

Assim, ontem, num átimo, me voltou a esperança...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Uma nova padaria


Florianópolis é uma cidade feita para ricos. Aqui, as ruas priorizam carros e o transporte coletivo é o pior do sul do país. Caro e ruim. Opções de lazer também quase não existem e ao pobre resta a praia, que tampouco é uma opção barata. Com o ônibus custando 2,50, ir e vir, para uma única pessoa, já custa cinco reais. Se for a família toda, aí a coisa pega. Tudo é difícil para quem não tem dinheiro.

Um encontro para o café no final de tarde, então, nem pensar. A gente sai do trabalho, já estressado pensando na maratona de ônibus que vai enfrentar até chegar a casa, e uma paradinha para o café com os amigos é coisa difícil de fazer porque os preços estão pela hora da morte. As confeitarias tiram o escalpo e um café chega a custar três reais, com um pão de queijo, já se vão seis reais. Nas livrarias chiques, tudo é bonito, há paz, mas os comes são caros. Aí não dá. As lanchonetes mais baratas são tumultuosas e a gente tem de comer em pé. Não há condições. A hora é de relaxar.

E foi na busca de um lugar barato para tomar café no fim da tarde que nós, “as pobres”, encontramos a Padaria Brasília. É uma padaria que fica bem em frente a Praça XV, tem bastante movimento de gente, lugar para sentar e um café mais um pão com manteiga ficam por 1,50. Perfeito. Enfim, tínhamos um lugar. E essa padaria acabou sendo nosso referencial para os finais de tarde. Passeatas, greves, protestos e passeios, tudo acabava ali, onde as atendentes, apesar de lentas, eram simpáticas e já conhecidas. Até a Pobres e Nojentas nasceu ali, naquelas mesas entre farelos de pão bem quentinho.

Pois um belo dia, tudo ruiu. Voltávamos de uma grande mobilização de trabalhadores que havia fechado a ponte e causado um grande engarrafamento na cidade. Tudo já tinha acabado e decidimos tomar café, para comemorar, e esperar acabar a confusão do trânsito para voltarmos para casa. Lá fomos nós para a Padaria Brasília. Desfrutávamos nosso café com pão, e falávamos excitadas, sobre a grande manifestação. Estávamos felizes, havia muito tempo não tínhamos tantos nas ruas, mobilizados e em luta. Então, um homem que estava na mesa ao lado começou a gritar com a gente. Estava indignado com o fato de não ter podido sair da cidade. Era de Tubarão e queria ir embora. Ficou trancado na cidade por conta do fechamento da ponte.

A gente tentou conversar, explicar os motivos dos trabalhadores estarem mobilizados, mostrar que ninguém gosta de trancar a ponte e apanhar da polícia. A gente faz isso para ser visto, ouvido, para reivindicar, quando ninguém mais nos escuta. Nada adiantou, o cara foi se alterando e já estava quase partindo para a porrada. Foi quando chegou a dona da padaria e passou a dar razão a ele. Basicamente a mulher estava nos enxotando. Não importava que fôssemos suas clientes de anos, que vivêssemos fazendo propaganda do seu café com pão, que a tivéssemos quase como uma velha amiga. Aflorou ali o seu pensar político. Ela também era contra as manifestações, os trabalhadores em luta e tudo mais. Ela também nos achava um bando de vagabundo, baderneiro e tudo mais que os conservadores pensam de gente que precisa lutar para poder viver. Foi o fim.

Saímos dali perplexas, chocadas, ainda ouvindo os gritos do homem. Acabava-se o sonho da padaria Brasília. Nunca mais poríamos o pé ali. Foram anos e anos de convivência quase diária e acabava assim, numa descoberta infeliz. A mulher dera razão a um cara lá de Tubarão, que nunca tinha entrado na padaria, que só tinha entrado ali para esperar a ponte abrir. A mulher era contra as lutas. Era contra nós. Pois ela nos perdeu. Saímos e batemos o pó das sandálias. Nunca mais voltamos.

Desde então iniciou nossa jornada em busca de uma padaria onde pudéssemos comer e conversar nos finais de tarde. Foram meses de procura pelo centro da cidade. Achamos algumas, mas sempre na lógica do lugar apertado e pequeno, onde não se podia sentar. Zanzamos pelo centro, pagando caro em lugares ruins, sonhando em encontrar algo que fosse, pelo menos, parecido com a padaria Brasília.

Um belo dia, já sem opções, arriscamos ir um pouco mais adiante, na rua do terminal velho, um espaço da cidade em que nada mais há, porque com a desativação do terminal de ônibus, aquilo virou um estacionamento. Fica um vazio de gente por ali. Pois eis que era bem naquele lugar que estava a surpresa. Uma padaria, barata e com mesinhas. Virou nosso ponto. As atendentes logo passaram a nos tratar como velhas conhecidas, já sabem nossos gostos, já sentem nossa falta quando demoramos. O rapaz do caixa, que gosta de cinema, também virou amigo, parceiro das conversas. Temos de volta um lugar seguro no centro de Floripa. Fica ali, quase em frente ao velho terminal, chama-se Empório. Serve pão quentinho, café delicioso e as garotas que atendem são um amor. As “pobres” tem um novo porto. Já a padaria Brasília, soubemos, fechou suas portas depois de quase meio século. O motivo: não sabemos, mas deve ter se rendido à especulação imobiliária. Sei lá. Agora também não importa. Já temos um novo amor!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Eliana do Santa Amélia


Era uma linda mulher. Dessas que parecem iluminar tudo. E, como sempre, é preciso que um fato inusitado aconteça para que alguém, apenas vislumbrado num banco de ônibus, acabe sendo mais do que uma simples visão. E assim foi. O ônibus que vinha de Belo Horizonte à Curitiba parou na estrada em função de um acidente com um caminhão. Toca a descer todo mundo. Nenhum jeito a não ser esperar. Mas, na espera, os viajantes se falam, se conhecem, e deixam fluir suas belezas.

A mineira Eliana Rodrigues tem 43 anos e uma exuberância que a faz luminosa. E não haveria de ser apenas no físico. Sua beleza se espraia para a mente e o coração. Moradora de um bairro de periferia de Belo Horizonte, o Santa Amélia, ela não se conformou em ver a pobreza e a tristeza tomar conta das pessoas que faziam parte do seu viver. Adolescentes fadados ao narcotráfico, crianças sem futuro e velhinhos sem razão para seguir a jornada não encontrariam guarida ali. Não se ela pudesse fazer algo. “Eu tinha um emprego, poderia ficar na minha, mas acredito que a gente que tem um pouquinho, precisa ajudar o outro que não tem”. Ah, essas sabedorias socialistas!...

Foi por conta desta equação tão singela que Eliana criou, há cinco anos, o projeto “Gente ajudando gente” que desenvolve sem a ajuda de ninguém, a não ser da sua férrea vontade de ver sua gente feliz. Ela organiza oficinas, encontros e desfiles de moda, nos quais as “modelos” são gente comum. “Tem senhoras que viviam doentes, com depressão e que, agora, por conta do projeto, são outras pessoas. Estão vivas, felizes e até esqueceram suas dores, físicas e pasicológicas.”

Além dos desfiles de moda que fazem sucesso nas comunidades do Santa Amélia e São Gabriel, ela ainda realiza trabalho de reforço escolar com as crianças. E não é só coisa de acompanhar os estudos não, é acompanhar a vida, é dar nova chance, é espalhar amor e compreensão, é mudar existências. Porque Eliana é assim, como um facho de luz que tudo incendeia a sua volta. E é por ser assim que se diz feliz. Tem pouco, mas o pouco que tem, distribui. Porque afinal, desta vida nada se leva e poucas coisas podem suplantar a visão de uma pessoa saindo de seu casulo de dor e enfrentando a vida com alegria e otimismo. É isso que Eliana faz lá na periferia de Belo Horizonte, Minas Gerais. Ela se dá e, assim, vai fazendo desse mundo cão um lugar melhor. Gente ajudando gente. Sem pedir nada em troca. Profeta, fazendo agora, real, o futuro que poderia apenas sonhar.