sexta-feira, 7 de março de 2008


segunda-feira, 3 de março de 2008

O ônibus das cinco e quinze
























Essa crônica faz parte do livro: Líricas - a palavra amorosa do cotidiano

Chegar em casa é sempre uma viagem. Cada dia diferente, embora o caminho seja o mesmo. Mas é que dentro do ônibus seguidamente acontecem coisas espantosas, visto que os seres humanos são sempre surpreendentes. O trajeto até o Rio Tavares é de puro assombramento. Primeiro com a paisagem. O mar, os montes descortinando o horizonte, os casebres de pescadores, o absurdo do aterro, as gentes, os motociclistas e suas ousadas manobras, os carros em profusão. Quando é final de tarde então, é de enlouquecer. O céu fica de um rosado/dourado, uma coisa única, e a vontade que se tem é de gritar, tamanha a força da beleza.

Depois, no terminal desintegrado, a espera. Meia hora, quarenta minutos, aquela coisa dolorosa de se estar aprisionada num lugar, tão perto de casa. Hora de pensar no quão surreal pode ser uma obra pública, se não tiver um mínimo de humanidade. Quem planejou o transporte, nunca o usou. Não sabe do horror e da exasperação que aquilo tudo pode acometer num vivente.

Então, num dia qualquer, vindo mais cedo para casa, por conta da sorte (essa danada), a gente pega o ônibus das cinco e quinze. É o que sai do Tirio rumo ao Jardim Castanheira, via Eucalipto. Ele segue pela Pequeno Príncipe, tranqüilo e sereno, passando pelas casas sem muro, cheias de ameixas, romãs e limões. Então, lá no final, quase perto da praia chega a parada que fica em frente à Escola Brigadeiro Eduardo Gomes. É quando tudo começa.

Ali, o ônibus fica parado por uns quinze minutos. É hora de entrar toda a profusão de meninos e meninas, libertos do colégio. Dois deles tem deficiência e sobem com as cadeiras de rodas, felizes por partilharem aquela fartura de vozes. O restante parece formar um poderoso furacão. Eles vão passando a catraca, revestidos de uma atmosfera de gritos e risadas. Todos falam muito alto e ninguém consegue entender o que de fato dizem. Desconfio que não digam nada, é só uma algaravia juvenil, atordoante e insana. Um grito de liberdade, de alegria pura, de esplendor.

Alguns deles se dependuram nos ferros que servem para o povo se segurar e sacodem feito macaquinhos felizes. O cobrador, que já os conhece pelo nome, um a um, vai vociferando. “André, sai do buraco da porta”, “Marquinho, não pula no banco”, “Sossega Fabiano”. E aquilo tudo vai se transformando numa balbúrdia digna de Babel. Ninguém ouve ninguém. Os passageiros que nunca pegaram aquele ônibus ficam com os olhos arregalados, sem fôlego, incomodados. Clamam por Herodes e o abençoariam se ali aparecesse para dar um fim naquela confusão.

Mas, quem já se acostumou a pegar o Castanheira das cinco e quinze não consegue disfarçar a incontrolável alegria que vai invadindo a alma. Aquela gritaria toda vai atordoando, atordoando, até o ponto de a pessoa também começar a gritar. Quando o ônibus passa em um quebra-mola então, os decibéis vão ao volume máximo. É a catarse. Êxtase total.

Então, quando o ônibus passa da parada do Raio de Sol., os grupos de pequenos vão saindo em profusão e, pouco a pouco, o barulho arrefece. Os gritos vão amainando e se perdem nos caminhos de areia do Campeche por onde vão sumindo as crianças e suas enormes mochilas de aula.

Na parada do Centro Comercial Castanheira eu desço junto com uma parte desta turba. E com ela ainda vou um bom trecho do caminho, partilhando da gritaria. Meus 47 anos desaparecem e consigo ver a menininha que fui, vestida de vermelho, a bailar, pulando as poças de água que se formam no caminho. Minha alma dança e penso que todo o ser humano deveria ter um ônibus das cinco e quinze na vida. Porque iria perceber que a melhor coisa que pode acontecer a alguém é se embriagar de meninice. Gritar feito louco, pular pelas ruas, sorrir por nada. Ah, esse meu Campeche e esses anjos que me ensinam a des-crescer!


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um homem é do tamanho do que faz

Então, de repente, aquele que era todo energia, parou. O dínamo alucinado, a cabeça privilegiada, cheia de números, normas, resoluções. O homem de ação, do dedo em riste, da cobrança, da ironia. A locomotiva do movimento dos trabalhadores da UFSC, o que enfrenta ministro e os chama pelo nome, íntimo. O que dá de dedo em deputado, senador, presidente. O que não se apequena diante de coisa alguma. De um nada, assim, num final de ano, em plenas férias, parou.

No começo ninguém se deu conta. Era tempo de férias, normal que tudo estivesse calmo. Mas, quando chegou fevereiro, por todo o campus, faltava algo. O ar estava rarefeito, o brilho do sol estava fraquinho, e até a chuva torrencial parecia estar deslocada. O Catatau andava cabisbaixo, os passarinhos pareciam mudos e, lá pras bandas do Sintufsc, havia um silêncio. Aquele vento forte, furacão, Iansã masculina, não estava derrubando tudo pelas salas recém reformadas.

Então, todo mundo foi se dando conta. O pequenino dançador não estava ali. Flechado por uma doença, estava no hospital. Doença grande, doença dura. E ele, o guerreiro, estava agora travando sua batalha pessoal. Enfrentando de peito aberto, corajoso como sempre foi. Dom Quixote contra os moinhos. “Não são moinhos, são gigantes, mas contra eles vamos travar uma longa e feroz batalha”. E assim é!

O nosso Assis, aquele que durante um bom tempo da vida andou por caminhos tortos na política. Mas, um dia, se achou. E viu que a vereda coletiva era a mais segura. E desde então, nunca mais foi o mesmo. Guerreiro. Xangô branco, implacável com os adversários e inimigos da classe trabalhadora. Generoso ser, cheio de ódios e amores sãos.

Então, enquanto luta como um bravo, vai ficando claro o tamanho do Assis. Que grande que ele é. De todos os cantos do país chegam pedidos de notícias, mensagens de carinho. Políticos, autoridades de todos os quadrantes, sindicalistas, povo do movimento popular, gentes comuns. Uma procissão de almas vibrando na energia para que o velho “compa” se levante e siga sua trajetória de luta e de generosidade. Que grande ele é. Quão grande ficou nesta decisão histórica de caminhar com os desvalidos da história. Que imensidão de figura que provoca tanta atenção, tanto amor, tantos desejos de bem.

O Assis está no hospital, ainda. Está lutando, com a mesma garra com que enfrenta as plenárias da Fasubra, as mesas do MEC ou o neoliberalismo. O Assis está lutando, com o mesmo riso de menino, os comentários cheios de pureza, e aquela alegria que transborda dos olhos azuis. O Assis está lutando e não está só. Com ele caminhamos nós. Os que somos companheiros, os que dividimos com ele o mesmo desejo de tempos de claridão. O Assis está lutando, e por incrível que possa parecer, é ele quem vai à frente. Grande. Imenso. Carregando todos nós.

Não tenho dúvidas de que vai vencer!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Promessa de mudança!


Ele pareceria um rei, tamanha a beleza. A bermuda despojada, uma camisa em tom pastel e um boné surrado que gritava, em vermelho sangue, uma palavra muito pouco ouvida na universidade: favela. Ele era um, em meio a uma centena de jovens negros que lotavam o auditório da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina para um dia histórico. O dia em que negros e negras, muitos deles empobrecidos, entraram na universidade, não para uma visita ou para servirem de objetos de estudo, mas para ser aluno, fazer um curso superior. É que, pela primeira vez, a UFSC destinou cotas para negros no seu vestibular de ingresso.

Na comissão de professores que atendia, um por um, aos calouros, era visível a alegria e o orgulho de ver uma luta de anos, finalmente sendo concretizada na prática. Havia sorrisos, apertos firmes de mão e até abraços. Pelo auditório, passeavam outras cores, cabelos cheios de tranças ou dreads, colares étnicos, risos. Eram negros, centenas, e não aquela meia dúzia, em geral africanos, que a comunidade universitária está acostumada a ver pelo campus.

Eu penso que não deveria haver cotas para negros, nem para índios, nem para estudantes da escola pública. Mas, enfim, desde que a universidade surgiu existe uma reserva de cotas. É a cota dos que fazem cursinho pago. Dos que podem ter bons colégios particulares. Então, isso sempre existiu. E, já que existiam cotas para os ricos, é muito justo que exista também para os negros, para os índios e para os que estudam em escola pública. No regime excludente da universidade pública, estas cotas instituídas agora são muito justas sim. E podem gritar os racistas, os neonazistas, e todos os outros “istas” que existem por aí, enrustidos ou não.

É claro que a luta deve ser por escola para todos. Todo e qualquer ser humano que viva aqui nestas terras devia ter direito a uma universidade pública e de qualidade. Porque gratuita ela não é. Todos nós pagamos para que poucos possam ter uma formação. E até hoje, os empobrecidos, os negros e os índios (estes na sua maioria também empobrecidos) não tinham essa chance. Não conseguiam passar a barreira da cota dos cursinhos. Quem pode ter duzentos, trezentos reais, para pagar por mês um curso preparatório?

As cotas são um paliativo. Sim, são. Mas elas podem ser fermento de mudança, elas podem escancarar a chaga escondida do racismo. Ontem, na UFSC, eu vi. Aqueles garotos e garotas negros, sempre marcados pelo preconceito, pela exclusão, unicamente por conta da cor, agora estão dentro da universidade. Não que isso seja muita coisa. Não que seja bom para eles. É bom para a universidade, isto sim! Esta universidade racista, conservadora, por vezes reacionária, precisava se abrir ao outro, ao que sempre esteve fora por conta da sua condição econômica. Esta universidade precisa conviver com a gurizada que vem das escolas públicas, com as gentes das comunidades de periferia, com garotos como aquele do boné que grita: favela!

E tudo o que eu queria ver era esses garotas e garotas negros trazerem para dentro dos muros do campus sua música, sua cultura, suas raízes, seu riso, sua crítica, sua raiva, sua doçura, sua esperança, seu jeito de viver. E tudo o que eu quero é que eles não fiquem como a maioria dos universitários: apáticos, egoístas, ambiciosos, pensando só no mercado. Eu quero que eles possam revolver conceitos, inventar o novo. Eu fiquei olhando para eles, mergulhada em emoção e sonhando. Ainda são poucos, muito poucos, mas podem fazer um grande estrago. Sempre digo que a universidade, tal como é, precisa morrer. Há que nascer uma universidade diferente, capaz de pensar a vida real, capaz de caminhar nas estradas secundárias, capaz de construir uma nova sociedade. Não sei por que, mas creio que pode começar agora. Quando as gentes da periferia, os que estão excluídos da vida digna, os índios massacrados, entrarem e seguirem sendo eles mesmos, ajudando a inventar um tempo novo.

Assim, ontem, num átimo, me voltou a esperança...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Uma nova padaria


Florianópolis é uma cidade feita para ricos. Aqui, as ruas priorizam carros e o transporte coletivo é o pior do sul do país. Caro e ruim. Opções de lazer também quase não existem e ao pobre resta a praia, que tampouco é uma opção barata. Com o ônibus custando 2,50, ir e vir, para uma única pessoa, já custa cinco reais. Se for a família toda, aí a coisa pega. Tudo é difícil para quem não tem dinheiro.

Um encontro para o café no final de tarde, então, nem pensar. A gente sai do trabalho, já estressado pensando na maratona de ônibus que vai enfrentar até chegar a casa, e uma paradinha para o café com os amigos é coisa difícil de fazer porque os preços estão pela hora da morte. As confeitarias tiram o escalpo e um café chega a custar três reais, com um pão de queijo, já se vão seis reais. Nas livrarias chiques, tudo é bonito, há paz, mas os comes são caros. Aí não dá. As lanchonetes mais baratas são tumultuosas e a gente tem de comer em pé. Não há condições. A hora é de relaxar.

E foi na busca de um lugar barato para tomar café no fim da tarde que nós, “as pobres”, encontramos a Padaria Brasília. É uma padaria que fica bem em frente a Praça XV, tem bastante movimento de gente, lugar para sentar e um café mais um pão com manteiga ficam por 1,50. Perfeito. Enfim, tínhamos um lugar. E essa padaria acabou sendo nosso referencial para os finais de tarde. Passeatas, greves, protestos e passeios, tudo acabava ali, onde as atendentes, apesar de lentas, eram simpáticas e já conhecidas. Até a Pobres e Nojentas nasceu ali, naquelas mesas entre farelos de pão bem quentinho.

Pois um belo dia, tudo ruiu. Voltávamos de uma grande mobilização de trabalhadores que havia fechado a ponte e causado um grande engarrafamento na cidade. Tudo já tinha acabado e decidimos tomar café, para comemorar, e esperar acabar a confusão do trânsito para voltarmos para casa. Lá fomos nós para a Padaria Brasília. Desfrutávamos nosso café com pão, e falávamos excitadas, sobre a grande manifestação. Estávamos felizes, havia muito tempo não tínhamos tantos nas ruas, mobilizados e em luta. Então, um homem que estava na mesa ao lado começou a gritar com a gente. Estava indignado com o fato de não ter podido sair da cidade. Era de Tubarão e queria ir embora. Ficou trancado na cidade por conta do fechamento da ponte.

A gente tentou conversar, explicar os motivos dos trabalhadores estarem mobilizados, mostrar que ninguém gosta de trancar a ponte e apanhar da polícia. A gente faz isso para ser visto, ouvido, para reivindicar, quando ninguém mais nos escuta. Nada adiantou, o cara foi se alterando e já estava quase partindo para a porrada. Foi quando chegou a dona da padaria e passou a dar razão a ele. Basicamente a mulher estava nos enxotando. Não importava que fôssemos suas clientes de anos, que vivêssemos fazendo propaganda do seu café com pão, que a tivéssemos quase como uma velha amiga. Aflorou ali o seu pensar político. Ela também era contra as manifestações, os trabalhadores em luta e tudo mais. Ela também nos achava um bando de vagabundo, baderneiro e tudo mais que os conservadores pensam de gente que precisa lutar para poder viver. Foi o fim.

Saímos dali perplexas, chocadas, ainda ouvindo os gritos do homem. Acabava-se o sonho da padaria Brasília. Nunca mais poríamos o pé ali. Foram anos e anos de convivência quase diária e acabava assim, numa descoberta infeliz. A mulher dera razão a um cara lá de Tubarão, que nunca tinha entrado na padaria, que só tinha entrado ali para esperar a ponte abrir. A mulher era contra as lutas. Era contra nós. Pois ela nos perdeu. Saímos e batemos o pó das sandálias. Nunca mais voltamos.

Desde então iniciou nossa jornada em busca de uma padaria onde pudéssemos comer e conversar nos finais de tarde. Foram meses de procura pelo centro da cidade. Achamos algumas, mas sempre na lógica do lugar apertado e pequeno, onde não se podia sentar. Zanzamos pelo centro, pagando caro em lugares ruins, sonhando em encontrar algo que fosse, pelo menos, parecido com a padaria Brasília.

Um belo dia, já sem opções, arriscamos ir um pouco mais adiante, na rua do terminal velho, um espaço da cidade em que nada mais há, porque com a desativação do terminal de ônibus, aquilo virou um estacionamento. Fica um vazio de gente por ali. Pois eis que era bem naquele lugar que estava a surpresa. Uma padaria, barata e com mesinhas. Virou nosso ponto. As atendentes logo passaram a nos tratar como velhas conhecidas, já sabem nossos gostos, já sentem nossa falta quando demoramos. O rapaz do caixa, que gosta de cinema, também virou amigo, parceiro das conversas. Temos de volta um lugar seguro no centro de Floripa. Fica ali, quase em frente ao velho terminal, chama-se Empório. Serve pão quentinho, café delicioso e as garotas que atendem são um amor. As “pobres” tem um novo porto. Já a padaria Brasília, soubemos, fechou suas portas depois de quase meio século. O motivo: não sabemos, mas deve ter se rendido à especulação imobiliária. Sei lá. Agora também não importa. Já temos um novo amor!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Eliana do Santa Amélia


Era uma linda mulher. Dessas que parecem iluminar tudo. E, como sempre, é preciso que um fato inusitado aconteça para que alguém, apenas vislumbrado num banco de ônibus, acabe sendo mais do que uma simples visão. E assim foi. O ônibus que vinha de Belo Horizonte à Curitiba parou na estrada em função de um acidente com um caminhão. Toca a descer todo mundo. Nenhum jeito a não ser esperar. Mas, na espera, os viajantes se falam, se conhecem, e deixam fluir suas belezas.

A mineira Eliana Rodrigues tem 43 anos e uma exuberância que a faz luminosa. E não haveria de ser apenas no físico. Sua beleza se espraia para a mente e o coração. Moradora de um bairro de periferia de Belo Horizonte, o Santa Amélia, ela não se conformou em ver a pobreza e a tristeza tomar conta das pessoas que faziam parte do seu viver. Adolescentes fadados ao narcotráfico, crianças sem futuro e velhinhos sem razão para seguir a jornada não encontrariam guarida ali. Não se ela pudesse fazer algo. “Eu tinha um emprego, poderia ficar na minha, mas acredito que a gente que tem um pouquinho, precisa ajudar o outro que não tem”. Ah, essas sabedorias socialistas!...

Foi por conta desta equação tão singela que Eliana criou, há cinco anos, o projeto “Gente ajudando gente” que desenvolve sem a ajuda de ninguém, a não ser da sua férrea vontade de ver sua gente feliz. Ela organiza oficinas, encontros e desfiles de moda, nos quais as “modelos” são gente comum. “Tem senhoras que viviam doentes, com depressão e que, agora, por conta do projeto, são outras pessoas. Estão vivas, felizes e até esqueceram suas dores, físicas e pasicológicas.”

Além dos desfiles de moda que fazem sucesso nas comunidades do Santa Amélia e São Gabriel, ela ainda realiza trabalho de reforço escolar com as crianças. E não é só coisa de acompanhar os estudos não, é acompanhar a vida, é dar nova chance, é espalhar amor e compreensão, é mudar existências. Porque Eliana é assim, como um facho de luz que tudo incendeia a sua volta. E é por ser assim que se diz feliz. Tem pouco, mas o pouco que tem, distribui. Porque afinal, desta vida nada se leva e poucas coisas podem suplantar a visão de uma pessoa saindo de seu casulo de dor e enfrentando a vida com alegria e otimismo. É isso que Eliana faz lá na periferia de Belo Horizonte, Minas Gerais. Ela se dá e, assim, vai fazendo desse mundo cão um lugar melhor. Gente ajudando gente. Sem pedir nada em troca. Profeta, fazendo agora, real, o futuro que poderia apenas sonhar.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

E ele distribuiu a água e o queijo!

Distribuindo o queijo!
Sebastião, o homem!


Há quem diga que o mundo do capital traz, dentro dele, latente, o germe do socialismo. Porque afinal, um é contraposição ao outro. É como se, dentro do monstro, pudesse ir crescendo, devagar, um novo ser que, em algum momento vai conseguir vencer a batalha e tornar-se quem é. Pois o fato é que, vez em quando, a gente se depara com essas ilhas, nas quais a nova práxis é coisa cotidiana.

Foi assim neste final de ano quando vinha de uma interminável viagem desde Belo Horizonte até Curitiba. Faltava apenas uma hora para chegarmos quando o ônibus parou. Um caminhão carregado com produtos químicos tinha virado na estrada e uma longa fila foi se formando. Produtos químicos podem trafegar pelas rodovias sem qualquer problema, mas, a contar pelo tempo que tudo ficou parado, não há qualquer plano de emergência para acidentes com carga deste tipo. Não foi à toa que o tombamento aconteceu às três horas da manhã e a pista só conseguiu ser liberada às quatro horas da tarde.

Eram nove e meia quando alcançamos o trecho paralisado. Num outro absurdo da vida rodoviária do país, os ônibus agora não têm mais janela. Isso significa que numa situação como a que vivemos, só restam duas alternativas. Ou se morre sufocado dentro do veículo, pois ele parado precisa desligar o ar condicionado, ou se pega uma insolação do lado de fora, visto que, como já disse, não há nenhum plano de emergência para atender pessoas que são vítimas de acidentes como esse que aconteceu com o caminhão. Assim, lá estávamos nós, os passageiros, entregues a própria sorte, num trecho da estrada em que não havia uma casa sequer.

Do lado de fora, sob o sol, as dificuldades logo oportunizaram inventores. Alguém deu idéia de uma tenda e lá foi todo mundo buscar toalhas e cobertores que, amarrados, formaram um grande toldo que abrigou as mais de 40 pessoas que torravam ao sol. Nos carros de passeio que também estavam presos no engarrafamento, pessoas idosas e crianças vivam o tormento de não ter onde se esconder. Os mais próximos vieram descansar sob o nosso toldo. A dificuldade agora era a água. A sensação térmica no asfalto chegava aos 45 graus e havia muitas crianças. Era preciso encontrar alguma forma de buscar água.

Foi aí que passou um homem numa bicicleta. Era o sinal de que havia alguma casa por perto. Como nosso ônibus estava virado num acampamento e as pessoas logo o cercaram, ele parou. “Onde tem água?” Era a única pergunta com a qual bombardeávamos o pobre homem. “Não tem nada aqui. Minha casa fica a um quilômetro, pra dentro. Mas, fiquem tranqüilos, eu vou lá trazer água e uns queijos pra vocês”. Foi aquela algazarra, todo mundo deu risada e praticamente ninguém confiava que, sob aquele sol, ele fosse voltar e ainda trazer o prometido.

As horas se arrastaram e já passava do meio dia. Nada de liberarem a pista. As informações chegavam desencontradas e não havia sequer sinal de celular. Estávamos fadados a torrar no meio do asfalto. Então, lá longe, divisamos a figura do homem que passara de bicicleta. Vinha a pé, carregando um galão de água e uma sacola com queijos. Ninguém acreditou. Pois ele voltara e cumprira o prometido. De dentro do saco plástico tirou um copo, desses de massa de tomate, e a água se repartiu entre todos. Depois, foi cortando os queijos em pequenos pedaços e distribuindo também. Todos ficaram saciados, inclusive os “adendos” dos carros vizinhos que estavam sob o nosso toldo. Ali estava um homem raro, uma anomalia do sistema. Uma falha da matrix. Um socialista, e com certeza, sem sequer sabê-lo.

Sebastião é o seu nome e ele é o provedor de uma das duas mil famílias que moram na região da Barra do Turvo, atualmente ameaçadas de despejo por conta do fato de o lugar ter se tornado uma reserva ecológica, o Parque Estadual de Jacupiranga. “Agora com o parque, vieram aqui e disseram que a gente vai ter que sair. Pra onde? Estamos aqui há mais de 15 anos. É nossa casa”, conta, desolado, enquanto vai distribuindo o queijo. Ele não consegue entender como o governo pode proteger a mata, mas não se importar com as pessoas. Abrigado sob um chapéu de palha puído, ele sorri quando o pessoal pergunta o preço da água e dos queijos. “Não é nada não. Só tô ajudando, o rádio disse que isso aqui ainda vai demorar”. As pessoas se entreolham, envergonhadas. Por que, afinal, tudo precisa ter um preço? É incrível como quase ninguém acredita na gratuidade. O genuíno ato de amor.

Pois ali se fez, sob o sol. Sebastião, camponês, jesuânico, bom samaritano, socialista. Um homem capaz de um gesto poético, solidário, generoso. Um homem, Sebastião. Quando o ônibus voltou a andar, lá pelas quatro da tarde, o povo seguiu seu destino, quieto. Ninguém disse nada, mas dava para sentir que todo mundo naquele veículo havia sido tocado pelo amor. Se isso vai mudar a prática de cada um, não se pode saber. Mas eles experimentaram a gratuidade. E isso deixa uma marca indelével...