Mostrando postagens com marcador Campeche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Campeche. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de janeiro de 2016

Comunidade vai reconstruir o rancho do Aparício

Em entrevista no programa Campo de Peixe, da Rádio Campeche, seu Aparício e o filho Pedro contam da mobilização da comunidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um rancho de canoa


O que era vida....

Virou cinzas...


Célia e Renilda tinham 100 anos, mas nem parecia. Feitas de um único tronco do garapuvu (árvore que é símbolo de Florianópolis) elas eram parideiras de peixes desde há três gerações da família Inácio, na ilha de Santa Catarina. Canoas valentes, acostumadas ao rigor das fortes ondas do Campeche, elas viram nascer e morrer dezenas de pescadores, filhos das areias dessa linda praia do sul. Também do fundo do seu ventre generoso brotaram peixes que alimentaram o bairro inteiro. Por cem anos singraram o mar, dirigidas pelas mãos fortes daqueles que, apesar da especulação imobiliária e do crescimento quase criminoso do bairro, nunca desistiram de manter viva a tradição da pesca artesanal. Eram as resistentes, junto com a Glória, que descansa em outro barracão, também do lado direito da Pequeno Príncipe.

Pois na noite do dia 16 de janeiro, uma mão criminosa ateou fogo ao rancho que servia de abrigo às duas meninas do mar. Queimou tudo. Foram-se as canoas, as redes e a memória de uma comunidade inteira. Em poucas horas, as labaredas lamberam as madeiras e só sobraram as cinzas. Mais um golpe para o Campeche que também viu ir ao chão o Bar do Chico, igualmente por criminosas mãos, ainda que governamentais. Os espaços das gentes, a história do bairro, se despedaçando.

As rixas entre os pescadores no Campeche são tão históricas quanto a pesca artesanal. Mas, mesmo as mais violentas jamais haveriam de ter como desfecho um crime como esse: queimar as canoas, centenárias barcaças com as quais os homens iam ao mar. Por isso toda a perplexidade diante das chamas que comeram parte da história da praia. A polícia ainda investiga e há suspeito, mas nada ainda foi divulgado sobre a autoria do crime.

O fato é que o rancho queimou, como já queimaram tantos outros, expulsando da praia os pescadores. Dia após dia, apagando a memória do que um dia foi essa ilha. Antes morada do homem do mar e agora, cada vez mais, espaço de paisagens especuladas. O mar como mercadoria, como moldura da sala. Da velha tradição vão ficando apenas imagens desbotadas de registros antigos. Uma história perdida nas brumas.

O incêndio no Rancho do Aparício, filho do seu Deca, comeu as canoas e comeu a história. Agora, um movimento da família e dos amigos busca recuperar o que se perdeu. Há promessas do governo sobre uma ajuda para a compra dos equipamentos, como a rede, por exemplo, e há campanhas para garantir que novo rancho se levante. Mas, o certo é que Célia e Renilda não podem mais voltar. Elas se foram, com todas as suas marcas e memórias.

Alguma outra menina talvez possa ser construída pelas mãos dos jovens do lugar. Uma garota nova, possivelmente não mais de garapuvu. Uma canoa que embalará outra geração. Pode ser que, na tragédia, se renove a vontade de manter a velha tradição de sair para o mar, na fragilidade do remo, sem qualquer outra tecnologia que a força do braço. Pode ser que nas noites de inverno, sob o clarão da lua, esses guris de agora possam contar aos filhos dos filhos que bem ali, naquele rancho havia um outro, que abrigara outras canoas. E pode ser que as dunas ainda estejam protegidas dos especuladores.

Eu olho para esse Campeche de luta e história e sigo sonhando que pode ser possível. Uma vida boa, um peixe bom, uma farinha, e essa comunidade - com todas as suas contradições  - ainda  vivendo em comunhão.


Nós não reconstruímos o Bar do Chico, porque ele mesmo se foi, encantado, para as estrelas. E, sem forças, também perdemos o pé no mar da ganância e do mau governo. Mas, o rancho do Aparício não pode ser considerado ilegal. Ele pode voltar... Haverá braços? 


domingo, 20 de setembro de 2015

Ananda Marga - uma experiência de bem-aventurança


Entrevista com o monge Dada Pavanananda, da organização sócio-espiritual Ananda Marga. Ele mora no Campeche, onde oferece práticas de meditação gratuitamente. Também dá aulas de Yoga no Centro Comunitário do Rio Tavares. No programa Campo de Peixe, ele falou sobre a Ananda Marga e sobre os tempos atuais.

sábado, 25 de julho de 2015

Retomada a luta pelo Parque Cultural do Campeche























Fotos: Rubens Lopes

Desde os anos 20 do século passado Florianópolis passou a ser ponto de escala da famosa rota de correio da Aeropostale, uma empresa de aviação francesa que cruzava os continentes com seus audazes pilotos, com a difícil tarefa de comunicar os povos, num tempo em que se levava mais de 13 horas para cruzar o Atlântico. Pois o campo onde pousavam os aviões ficava justamente no Campeche e ali chegou a circular o famoso escritor Antoine de Saint Exupéry, mais conhecido pelos pescadores e comunidade como Zé Perri.

Com as melhorias na tecnologia dos aviões, a rota da Aeropostale mudou e o velho campo de pouso ficou esquecido. Ainda assim, até hoje ele existe - sob a guarda da Aeronáutica - e povoa o mundo simbólico da comunidade ilhoa. As histórias de Zé Perri e a amizade que tinha com o pescador Deca Rafael, as memórias da presença dos demais pilotos franceses, a velha casa onde os aviadores pernoitavam, tudo isso segue vivo na vida de todos. 

Não é sem razão que o movimento comunitário do bairro  vem reivindicando a área desde há anos para a criação de um Parque Cultural. A intenção é não apenas preservar a memória do lugar, que é um espaço simbólico da vida da comunidade, mas fazer dele um lugar de vida plena para todos os que vivem no bairro e na cidade. Reformar o casarão, transformá-lo em museu, criar espaços de lazer, de brincadeira, de jogo, de arte e participação social, tudo isso está consolidado em um projeto que foi construído coletivamente.

O Campeche é um bairro que historicamente desenvolve uma luta renhida pelo Plano Diretor, não só do bairro, mas de toda a cidade. Desde os anos 80 que as forças vivas do lugar se reúnem, discutem, realizam oficinas, planejam e desenham o espaço urbano. Dentro desse debate, o Parque Cultural sempre esteve presente e também foi a partir desse tempo que começou a conversa com a Base Aérea e a União para que o espaço do campo de pouso fosse cedido para a criação do parque. O entendimento de todos era de que aquele lugar deveria ser preservado como patrimônio histórico da cidade e do país, já que faz parte da história da aviação brasileira. 

Lá se vão décadas de batalhas, reuniões, encontros, passeatas, atos públicos, manifestações. E é por conta dessas mobilizações comunitárias que a velha casa dos pilotos segue firme, ainda que usada como sede da intendência. Mas, é preciso restaurá-la e fazer dela um lugar de memória. E é também por causa da luta que o campo ainda está livre das investidas especulativas, mesmo que parque ainda não tenha saído do papel. Assim, a peleia continua. E foi justamente por essa mobilização intensa e ininterrupta da comunidade que uma área de 120 mil metros quadrados foi finalmente tombada como patrimônio histórico. Uma vitória parcial já que, apesar disso, nada avançou no sentido de criar o parque.

Na última semana a comunidade foi informada de que a prefeitura havia feito uma consulta ao patrimônio da União sobre a área visando fazer ali um parque. Isso alertou a todos os que estão nessa luta desde há anos, afinal, já existe um projeto para o parque que foi construído coletivamente nas inúmeras reuniões realizadas no bairro, fruto do desejo comunitário. Assim, as comissões de trabalho que atuavam no processo do parque voltaram a  se reunir e a mobilizar a comunidade. Um grupo começou a trabalhar na readaptação do projeto aos dias atuais, atualizando algumas coisas, readequando outras. E outro grupo passou a investigar junto à prefeitura sobre qual é o projeto que existe para o lugar. 

Nesse sábado, dia 25, as representações da comissão do PACUCA, chamaram uma reunião com a comunidade para discutir a questão. A proposta foi fazer uma caminhada pelo campo para ver como estavam as coisas lá dentro e, de maneira coletiva, decidir sobre os próximos passos.  Mesmo com as fortes chuvas que caíram na véspera a caminhada foi mantida. Durante o recorrido pode-se perceber que o campo está sendo usado para o despejo ilegal de lixo. Em vários pontos há montes de lixo pesado, madeira, lixo orgânico, plásticos. "Isso mostra como os responsáveis pela área são desleixados. Todos os dias tem gente aqui praticando esportes, crianças brincando. Isso é um perigo para a saúde", aponta a médica Eleonora. 

Da mesma forma foi possível ver o quanto a comunidade já se apropriou do lugar como espaço de lazer, mesmo que ali não exista infraestrutura alguma. Há jogo de futebol, famílias brincando com as crianças, prática de aeromodelismo, e toda a sorte de outras brincadeiras. O Campeche, por incrível que pareça, não tem até hoje qualquer espaço para uso comunitário, a não ser a praia. Para os populares e lideranças comunitárias que realizaram a caminhada já está mais do que na hora de se fazer real o Parque Cultural. 

Depois da caminhada pelo campo de pouso, as pessoas se reuniram no pequeno parquinho que fica em frente a Avenida Pequeno Príncipe para deliberar sobre os próximos passos. Ficou acertado que a comissão do PACUCA  vai solicitar uma audiência com o prefeito César Souza Junior para que ele dê a conhecer o projeto que tem para o lugar, e, ao mesmo tempo, a comunidade apresentará o projeto que já tem desenhado. "Nossa intenção é conversar, trabalhar junto. O parque é um sonho acalentado há muitos anos por todos nós e temos tudo desenhado, todas as propostas. O que queremos é, no diálogo, construir uma proposta que seja o mais próximo possível do projeto da comunidade", diz Telma Piacentini, uma das integrantes da comissão.

A outra reivindicação imediata é de limpeza da área. Uma reunião será feita com o intendente do Campeche para que isso já possa ser providenciado, mas o tema também fará parte da conversa com o prefeito.

Como o Parque Cultural do Campeche é um espaço de memória coletiva da cidade, por ser parte da história da aviação brasileira, a luta pela sua efetivação se faz por todas as forças comunitárias de Florianópolis. Por isso, a caminhada contou com a presença daqueles que também lutam pelo Parque das Três Pontas e pelo Parque do Pântano do Sul, bem como de outras pessoas que militam por uma cidade para todos. O processo de luta pela criação do Pacuca recomeçou com força total. Estratégias de discussão comunitária e mobilização foram pensadas e já começam a tomar corpo. A vida pulsa no Campeche outra vez...

Ainda sensibilizados pela caminhada do filme "Desculpe pelo transtorno", de Todd Southgate e Ivan de Sá, que conta a tragédia da destruição do Bar do Chico, os campechianos estão dispostos a travar todas as batalhas para que esse patrimônio histórico que é o campo de pouso não tenha o mesmo destino do bar, também histórico espaço comunitário, patrimônio imaterial da cultura local. O Bar do Chico vive agora apenas na memória, mas o Pacuca haverá de existir para o prazer de todos os corpos. 

domingo, 21 de junho de 2015

Desculpe pelo transtorno
















Fotos: Todd Southgate




Estivemos ontem no lançamento nacional do documentário sobre o Bar do Chico, que é também a história da luta desse nosso povo campechiano. O filme, feito por Todd Southgate e produzido por Ivan de Sá, mais uma vez provocou intensa emoção., Porque é sempre bom ver, desde fora, aquilo que é o nosso cotidiano. Choramos, rimos, vibramos, indignamos, tudo ao mesmo tempo. Ver o Seu Chico, a luta pela Plano Diretor, a batalha de gente como a Janice Tirelli, o Ataide Silva, a Tereza Barbosa e tantos outros ser eternizada com tanta beleza é um presente precioso. O Centro de  Eventos da UFSC estava lotado, o povo vibrou com a derrubada do deque do Essense, vaiou César Souza, foi uma catarse. E o Todd conseguiu o que todo o artista persegue. Tocar a alma do outro, provocar a emoção verdadeira. Obrigada Todd, Obrigada Ivan. Esse trabalho é lindo. Viva o Campeche, viva a luta do povo organizado. 

domingo, 17 de maio de 2015

Desculpe pelo transtorno








Thank you, Todd
Obrigada, Ivan








Comunidade não é só um lugar. É um sentido de pertencimento, um compromisso. Viver em comunidade é respirar o mesmo ar, sonhar os mesmos sonhos, travar as mesmas lutas. No Campeche, um pequeno bairro de Florianópolis, somos assim. Famílias/pessoas que se juntam na defesa do lugar, contra a especulação, contra a destruição e pela preservação da cultura.

No último sábado (16.05) essa comunidade se reuniu no salão da capela para ver um filme, feito por um "gringo" (nascido no Canadá), Todd Southgate, que, chegando ali, amou o lugar e dele fez seu lar.  Documentarista de profissão, decidiu filmar o Bar do Chico, espaço de cultura e resistência que havia perto da praia, onde a comunidade se fazia feliz e em luta. Foi quando o bar acabou sendo pivô de uma grande batalha da comunidade contra o governo. Estava dado o argumento.

Como era no Bar do Chico que o povo se juntava, era ele o nascedouro das centenas de lutas travadas em defesa do bairro. Lutas por um Plano Diretor comunitário,  que não esmoreceram, feitas anos e anos à fio. Por isso, a prefeitura quis derrubar o bar, atingindo de morte também o velho pescador - Seu Chico - que comandava o pequeno empreendimento. Defendido pela comunidade durante anos, o bar foi finalmente demolido numa madrugada chuvosa, de surpresa, para que não houvesse resistência. 

Toda essa história o Todd conta no filme, que expressa, muito mais do que a dor da queda do bar e da morte do seu Chico, a fortaleza de uma comunidade. Na sala repleta - exibido apenas para a família de Chico e os envolvidos com a luta - o filme de Todd e de Ivan provocou comoção. O riso do seu Chico, a praia, as manifestações, a cena dramática do bar sendo destruído pelas máquinas. Tanta luta, tanta dor. E depois, as cenas dos edifícios que vão se erguendo na beira da praia, com suas passarelas até o mar. Só tristeza.

O filme "Desculpe pelo transtorno", de Todd Southgate , é o retrato em movimento da luta e da esperança de toda uma comunidade, que começou nos anos 80,  com as reuniões pelo Plano Diretor. Depois, as batalhas com a prefeitura, a vingança do poder, a morte do seu Chico, a queda do bar. Na tela, os rostos dos velhos lutadores, ainda dando batalha. E os de uma juventude que chega e se faz comunidade também. 

A noite de visualização do "Desculpe pelo transtorno" nos fez chorar, a todos, mas, ao final, quando as luzes se acenderam e a gente pode se abraçar, percebemos que aquela era a nossa história, a digna história de uma comunidade que segue viva. Que sofre derrotas sim, mas não se apequena. Tanto que ali estávamos, todos, na mesma comunhão que nos une na hora do protesto, do enfrentamento com a polícia e com os homens do poder. 

Por isso, em meio às lágrimas, começou o riso. Porque estamos juntos, porque somos comunidade, porque temos uma história, feita por nossas mãos. Porque temos a lembrança e a força. Esse povo do Campeche, essa gente que luta sempre vai seguir em frente, defendendo seu lugar dos vilões do amor.  E ainda que venham as máquinas, que derrubem os prédios, que violentem a praia, nós estaremos braço no braço, mão na mão, porque fomos plasmados com os mesmos sonhos. Somos comunidade. Aconteça o que acontecer.

E quando saímos, alma lavada, na noite úmida, pudemos ouvir no marulho do mar, aquele que deu sentido ao filme, seu Chico, dizendo, baixinho: "aqui eu sou feliz". E bem ali, onde agora só tem areia, e um dia foi seu/nosso bar, perdura a sua energia e a de toda gente. Porque comunidade não é só um espaço geográfico. Ela é um lugar em nós. Viva o seu Chico, viva o Campeche e viva esse irmão do norte, Todd, que soube vestir a nossa história com tamanha ternura. Aqui seguiremos sendo felizes!

Vejam tudo sobre o filme no endereço: http://www.desculpepelotranstorno.com/index_port.html


O filme pode ser lançado oficialmente no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), de 19 a 26 de junho. Ainda não sabemos. Mas, até lá, só o aperitivo.



TRAILER: Desculpe Pelo Transtorno. Versão Brasileira from Todd Southgate on Vimeo.

terça-feira, 28 de abril de 2015

primeiro de maio no Campeche

















O Campeche celebra a vida

O bairro do Campeche tem uma longa tradição de luta e festa. Desde os bons tempos do velho Bar do Chico, a luta pela cidade se fazia em meio à alegria, porque a vida mesma precisa de batalha e riso. Não é sem razão que o Campeche foi pioneiro na construção de um Plano Diretor para o bairro, que depois se espraiou para a cidade inteira. São mais de 30 anos de peleias para manter um jeito de viver que é simples, bonito e comunitário.

No Campeche também sobrevive ainda a pesca artesanal. São poucos barcos, mas todos os dias se pode ver pela praia a labuta difícil de quem vive do mar. A canoa à remo, a força bruta do pescador que precisa arrastar a rede com as próprias mãos, a partilha amorosa do peixe na beira da praia. Tudo isso vibra e mantém a comunidade unida.

É por isso, que no dia primeiro de maio, desde há 10 anos, as gentes do Campeche celebram a vida numa linda festa comunitária. É missa que marca o início da temporada da tainha, peixe bom que vem junto com o frio, trazer fartura para as mesas campechianas. 

Esse ano, além da missa, a Associação dos Pescadores do Campeche preparou uma intensa programação cultural que começa já na quinta-feira, dia 30, com a projeção de filme lá no Rancho da Canoa Glória, que hoje é praticamente um espaço de cultura local. E, no dia primeiro de maio, em meio às celebrações do dia do trabalhador,  o dia começa com um café comunitário no rancho, depois tem a missa e, em seguida, uma série de atividades culturais como brincadeiras e apresentações de teatro, com a Dona Bilica,  e de música.

O primeiro de maio no Campeche é um dia de encontros e delicadezas comunitárias. É quando a gente sabe que pertence a um lugar. Quando os abraços se fazem, o riso ecoa e as pessoas se encontram para comungar a vida preciosa. Tudo isso com o som do mar. Um momento em que a vida faz pleno sentido.

Quem é comunidade pode chegar. Porque comunidade são as forças vivas de um lugar, que lutam por vida digna, por beleza e pela distribuição da riqueza. 

Esperamos vocês.  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sul da ilha convoca Audiência Pública e define rumos da luta pelo Plano Diretor






Fotos: Rubens Lopes


As comunidades do sul da ilha deram uma lição de participação ativa na vida da cidade nessa segunda-feira, dia 9. Por auto-convocação dos núcleos distritais do Campeche e Pântano do Sul, os moradores lotaram as dependências do Clube Catalina, no Campeche, em uma Audiência Pública, para conhecerem as mudanças produzidas pela votação atropelada da Câmara de Vereadores sobre o Plano Diretor. Essa votação, feita em bloco, de quase 700 emendas produzidas pela prefeitura e por vereadores completamente descolados dos debates do plano participativo, mudaram de forma radical a proposta que foi construída coletivamente nas reuniões realizadas nos 13 distritos da cidade. Com as emendas, a cidade fica entregue a especulação imobiliária, a serviço do grande capital, sem proteção contra a destruição do ambiente e com a sistemática desvalorização dos imóveis, afinal, em pouco tempo, o que hoje é beleza virará uma selva de pedra. 

A audiência começou as sete horas da noite, com a comunidade fazendo fila para assinar as listas e votar. Em pouco tempo, o salão estava lotado, mostrando que as pessoas estão preocupadas com o destino do município e dispostas a lutar pelo modelo de cidade na qual querem viver. O representante do núcleo do Pântano do Sul, Gert Shinke, abriu com um resumo de todo o processo do Plano Diretor Participativo, mostrando as idas e vindas da prefeitura e as conquistas do movimento no sentido de garantir cada vez mais participação. 

Depois, Janice Tirelli, do Campeche, contou sobre a história de luta da comunidade, que começou em 1989, com a histórica Carta do Campeche, que detonava o início de uma luta incansável por um plano diretor construído pelas gentes, plano esse que foi finalizado e entregue na Câmara de Vereadores no ano de 2000. "Nós fomos pioneiros nessa batalha por uma cidade boa de morar, planejada e protegida". 

Na sequência, Ataíde Silva, do Campeche, explicou o que muda no bairro com as emendas feitas por vereadores que não respeitaram as decisões da comunidade, tais como Lela, Erádio, Gui Pereira e Sandrini, que circulam pela região. Segundo Ataíde, se aprovadas essas emendas que privilegiam o capital, está aberta a ocupação de boa parte do Morro do Lampião e da restinga que protege o bairro da ação do mar. Também estão planejadas grandes vias que cortam o bairro e demandam desapropriações, enquanto que a proposta comunitária é de pequenas vias e ciclovias na beira do mar, para garantir a vida tranquila do bairro e a proteção da restinga. Segundo Ataíde, da forma como está conformado o plano, a proposta da prefeitura é elevar a população da cidade para quase 800 mil pessoas, sem considerar a capacidade energética, de água, saneamento e mobilidade. 

Em seguida, foi a vez de Gert Shinke explicar as mudanças que estão propostas para o Pântano do Sul, que seguem as mesmas diretrizes dadas para o Campeche. Ocupação das áreas verdes, construções de condomínios, vias rápidas. A ideia é encher cada vez mais o bairro, sem a devida estrutura. Na plenária, as pessoas ouviam estupefatas as propostas que foram aprovadas e exigiam o nome completo de cada vereador que foi responsável por isso. Foi frisado que apenas três vereadores votaram contra as propostas definidas em bloco pela Câmara: Lino Peres, Afrânio Boppré e Pedrão. 

Ao final, as comunidades reunidas na Audiência Pública decidiram pela confecção e entrega de um documento ao prefeito municipal, aos vereadores e ao Ministério Público, exigindo o veto de todas as emendas que se contrapõem ao plano diretor participativo construído pela população. Também definiram que será articulada uma grande manifestação para o dia 30 de dezembro, dia marcado para a segunda votação do Plano na Câmara de Vereadores. Estrategicamente no apagar das luzes do ano, quando boa parte das gentes está viajando ou envolvida nos festejos de natal e ano novo. Ainda assim, houve o compromisso de todos em participar e levar mais gente para a manifestação.

Outra proposta aprovada foi a de se fazer uma ampla divulgação dos nomes de todos os vereadores que votaram no primeiro turno e que vierem a votar no segundo turno contra o plano elaborado pelas comunidades, ressaltando que, no primeiro turno de votação na Câmara, apenas três vereadores (Lino Peres, Pedrão e Afrânio), foram favoráveis ao que as comunidades decidiram.

A noite chuvosa terminou animada, com as comunidades do sul da ilha dispostas a aprofundar ainda mais a luta pela cidade que decidiram construir.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Rua de areia





A rua onde moro é sempre cheia de surpreendente ternura. Nela ainda passeiam, sem medo, as galinhas caipiras e os cachorros. Vez ou outra passa o cavalo, carregado de meninos. Por toda a sua extensão também é possível afundar o pé na areia. Não há lajotas, nem asfalto. Mesmo nos dias frios, de chuva miúda, os meninos acorrem ao portão buscando fios para a pandorga e pedaços de pano para a rabiola. Depois, saem correndo, pés descalços, empinando a pipa, cheios de infância e gratidão pela vida. A rua onde moro fica num cantinho do Campeche, esse bairro, ainda jardim, onde a gente tem puro prazer de viver.  

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mulher no mar

Vinda da cidade de Campinas, São Paulo, Juliana Regazoli, ao chegar em Florianópolis, logo se apaixonou pelo mar. Na vivência com as gentes da praia do Campeche viu a possibilidade de compreender o espetacular universo da pesca de canoa à remo, até então absolutamente masculino. Nunca qualquer mulher entrou no barco para remar. Ela enfrentou o desafio, o medo, o preconceito e se foi ao mar. Conheça essa bonita história de amor de Juliana com o mar e a ancestral profissão da pesca.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dia do trabalhador e abertura da pesca da tainha







Já virou uma tradição no Campeche. Todo primeiro de maio tem festa comunitária. As pessoas se reúnem na praia, em frente ao rancho da canoa do seu Getúlio para juntar energias e pedir bênçãos. O desejo é de que as tainhas cheguem e possam ser colhidas na força do braço dos remadores de canoa artesanal, coisa que ainda sobrevive por aqui. Desde as primeiras horas do dia, o cheirinho de café assoma de dentro do rancho e as gentes vêm com seus pratinhos. Cada um traz um tipo de bolo, uma cuca, um melado, um doce de leite e ao final, todos podem comer e se preparar para o dia de atividades.

Às nove e meia começa a procissão. Como o povo do Campeche é bem religioso, as pessoas preparam as imagens de São Sebastião, padroeiro do bairro, São José, o carpinteiro, que representa todos os trabalhadores, São Pedro, o protetor dos pescadores e Nossa Senhora dos Navegantes. A caminhada sai da estátua do pescador, na entrada da praia, percorre uma parte da areia e chega no rancho onde já está preparada a missa. Rezas, oferendas, cantorias. Tudo representa o desejo de que a pesca seja farta.

Depois, terminada a parte religiosa é chegada a hora da festa. Quem principia é a Dona Bilica, personagem de Vanderleia Will, que é adorado no Campeche. Fazendo uma típica moradora da ilha ela encanta todo mundo com seu jeito de falar, suas histórias e suas críticas. “Esses políticos vêm aqui dizer que a pesca só começa dia 15. É dia 15 para os artesanais. Enquanto isso os atuneiros estão aí arrastando os peixes”.  Bilica é puro encantamento, recuperando de forma divertida a cultura desse lugar tão aviltado pela especulação.

A roda de capoeira, um projeto que viceja no rancho de canoa, prepara seus berimbaus e tambores e o ritmo malemolente invade a praia, enquanto as crianças arriscam passos da dança/luta. A banda de música, outro projeto do rancho, entoa os acordes dos aprendizes e mostra que a música pode vingar em qualquer lugar, mesmo num rústico rancho de pescadores.

A surpresa do ano foi a apresentação do grupo ilhéu “Gente da Terra”, que deu um show de cultura. Com sua música animada, cheia de elementos da vida da ilha, do tempo passado e do presente, colocou todo mundo para dançar. O almoço forrou as barrigas e o arrasta-pé se estendeu até o final do dia com a junção de vários músicos da região e de cidades vizinhas que vieram para a festa. Foi um rico dia de festa comunitária...

Dessas coisas que só parecem possíveis por aqui pelo Campeche.  






sábado, 6 de abril de 2013

Um dia qualquer

 
É de manhã, cedinho. O caminhão do lixo nem passou, trazendo com ele o barulho inconfundível e o grito dos trabalhadores que anunciam a coleta. As corujas ainda voejam por sobre o muro, abrindo as asas no rumo de um mais além, para longe das gentes que principiam em amanhecer. O sol de outono abraçando o mundo torna as cores mais vivas. O verde das árvores é pura esmeralda, e as penas dos canarinhos que ainda cantam, alucinados, no muro lateral, brilham como ouro. Os gatos estão deitados na mesa do alpendre, com preguiça de caçar. As laranjas-lima pesam no pé e são pura gratuidade, esperando a mão da colheita. O cheiro do mar assoma, queimando as narinas. É como se fosse uma manhã no paraíso.
 
Na rua de areia já estão os cachorros, as galinhas e os meninos. A impressão é de que eles não dormem. Basta que a barra do dia se anuncie e já dá para ouvir a gritaria dos pequenos tentando empinar uma pipa, jogando taco ou na malícia do futebol. É gostoso pensar que esses bacorinhos estão vivendo a vida assim, à larga, numa espécie de excesso de natureza. Pelos menos os da minha rua jamais são vistos grudados em videogames ou na internet. Estão ávidos demais por vento e sol. Correm pelas poças de água, com os pés descalços, ostentando os corpinhos fortalecidos com todos os anticorpos possíveis. Nem no inverno mais gelado os vejo de nariz vermelho. Parece que são de ferro.
 
Mesmo no outono, quando o vento sul já se insinua, eles entram pelo portão do vizinho que tem uma pequena piscina em casa. Quem vai à frente é o menorzinho, para amolecer o coração.
- Moço, pode¿ diz, com o olhar comprido para a alegria aquática.
- Só de tarde – diz o homem, já acostumado com o repetido ritual.
- Que horas¿
-Três horas.
 
Pois quando chega o momento, são pontuais. O pequeno circula pela vizinhança, chamando os comparsas. “São três horas, o moço deixou”... Então, eles chegam, aos borbotões, com os trajes de banho e as boias. São quase todos os curumins da rua. Pulam na piscina e dali não saem até que a noite chegue. Seus gritos ecoam pela rua afora, numa algaravia de felicidade que contamina qualquer um. Sem outros brinquedos além dos pneus, eles arrancam os maracujás e os fazem de bola. Entre uma entrada e outra na água vão se apropriando das acerolas, ameixas, jabuticabas e limas que abundam no quintal.
 
Quando o sol se põe, num vermelhão só, lá para as bandas do oeste, eles vão saindo, um a um. Desembestam pelo portão afora sem nem dizer obrigada. Sabem que o jardim é deles e que no dia seguinte voltarão para nova festa. Ainda molhados e sem a menor vontade de entrar em suas casas, arriscam um último jogo de frescobol. Invadem outro quintal. “Moça, empresta as raquetes”... Não têm nada de seu, mas ao mesmo tempo tudo possuem. Vivem em comunidade.
 
Só quando a noite vai longe é que a rua se aquieta. A gurizada entra, os vizinhos vão fechando os portões, a dama da noite começa a exalar seu perfume, as corujas voltam ao muro, os gatos se encaixam nas casinhas, os cachorros se aprontam para dormir. Assim, passa-se mais um dia no Campeche, no sul do sul do mundo, num outono de tirar o fôlego. E, mateando no alpendre, parece que vida fica cheia de sentido quando as crianças ainda brincam na rua e invadem quintais que nem são seus, sem que ninguém se incomode ou puxe uma espingarda de calibre 12. Os filhos da rua são os filhos de cada um e sempre há alguém a espiar pelo seu bem estar. É nessa hora que a gente suspira e pensa no quanto é bom viver.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Campeche em luta

Por decisão do Núcleo Distrital do Campeche moradores realizaram ato em frente `a Câmara de Vereadores contra a alteração de zoneamento que permite a construção de prédios mais altos. A coisa esquentou... mas a comunidade ficou firme!!! Veja o vídeo


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Campeche protesta contra alteração de zoneamento

Seguindo orientação tirada na reunião do Núcleo Distrital do Campeche, moradores do Campeche fizeram um ato de protesto em frente à Câmara de Vereadores de Florianópolis, contra a votação que alterou o zoneamento da cidade em vários bairros. A sessão foi feita de forma irregular, sem que fosse seguido o regimento interno da casa. Além disso, as comunidades envolvidas não foram ouvidas. Os moradores do Campeche protocolaram um documento no qual revindicam que a alteração seja revertida. Amanhã matéria completa. Agora, uma pequena mostra do ato em imagens... O ato teve a participação solidária de representante do Mosal, do Pântano do Sul.

sábado, 7 de julho de 2012

Voltar às costas ao mar



É comum a gente ouvir a maioria dos políticos – de esquerda inclusive - e os empresários de Florianópolis dizer que a cidade virou as costas para o mar e que é chegada a hora de mudar essa concepção atrasada. Investir no turismo, vocação natural. Pois, na contramão da história eu digo que isso está errado. Na verdade, já faz muito tempo que a cidade está bem de frente para o mar, embarcando na onda estúpida do desenvolvimento capitalista que considera o mar e a sua orla como espaço de especulação e lucro.

Quando a cidade de Florianópolis estava mesmo de costas para o mar, a concepção de vida era outra. O mar era visto como espaço de trabalho, lugar onde as famílias iam buscar a comida do dia-a-dia, quintal de descanso e fruição. Quem conheceu a velha Desterro, antes do inchaço migratório dos anos 80, deve se lembrar que, nas praias, as casas tinham o mar ao fundo, onde ficavam os ranchos de canoa, os apetrechos da pesca. Porque ninguém via a natureza como coisa à venda.

Mas, aos poucos o mar começou a ser disputado pelo “empreendedorismo imobiliário”. Como era possível que as famílias vivessem de costas para tanta beleza? Era o que diziam... Mas, isso nunca foi verdade. Ter o mar no fundo de casa não era virar-lhe as costas. Pelo contrário. Era proteção. Aquela maravilha não se lhes aparecia como paisagem especulada. Era mesa farta, morada das sereias, dos peixes, do mistério.

Foram os abutres do capital que mudaram a lógica. Chegaram com suas pastas pretas oferecendo uma vida melhor. “Por que não trocar a difícil vida na beira praia por um bom apartamento no Roçado, em Serraria, em São José? Já não é hora de deixar de andar com os pés sujos de areia e viver num lugar onde o chão é um carpete felpudo?” E tantas famílias caíram nesse conto de sereia, abandonando a beira da praia em busca de um eldorado moderno. Foram viver a promessa capitalista do apartamento seguro de 50 metros quadrados enquanto as empreiteiras iniciavam a construção de monstros verticais ou condomínios de luxo nas praias. O mar deixava de ser mesa para tornar-se paisagem à venda.

Arrisco dizer que aquele que ama Florianópolis deveria pensar melhor sobre essa sanha turística. Talvez fosse hora de, de novo, voltar às costas ao mar, como faziam os antigos. Proteger essa beleza, esse patrimônio. Pensar outra lógica de turismo, comunitário, popular. Um processo de compartilhamento da beleza do qual as próprias gentes da cidade possam se apropriar. Vi essa experiência há pouco tempo no Egito. Ao longo do rio Nilo, lugar de extrema beleza, berço de uma das mais antigas civilizações, circulam milhares de turistas. Mas, a forma como as comunidades compartilham a maravilha de sua cultura é radicalmente diferente. Ainda não está tomado pelas grandes companhias ou grandes empresas, embora elas existam, é claro. Mas, a maioria dos serviços é prestada por famílias, pessoas físicas. Tudo se intercala e se complementa. Cada um ganha um pouco e ao mesmo tempo preserva a margem do rio dos monstrengos imobiliários.

Penso que essa realidade é possível de ser constituída na ilha. As pessoas têm essa condição de tomar nas mãos os destinos de Florianópolis e protege-la da destruição. Por isso eu quero muito ver a nossa cidade voltar às costas ao mar, para que ele volte a ser mesa e rede onde descansamos... Eu quero ver, e luto por isso!

terça-feira, 3 de julho de 2012

Pedra do Urubu canta o Campeche


Campeche, espaço da cultura ilhoa, lugar de luta e de tradição. Na beira do mar, as canoas são ventres de peixe, que chegam aos milhares, pelas mãos dos pescadores do lugar. Quem é do Campeche aprendeu a se guiar no mar olhando para o morro do Lampião. Bem no alto, a pedra do urubu é como um farol. E, dali, as gentes podem abarcar a cidade inteira, numa visão de deslumbramento.

A pedra do urubu é o ponto mais alto da comunidade e serviu de inspiração para que um grupo de músicos começasse a cantar as coisas do lugar. A vida do Campeche e as coisas que o conformam viraram canções, sons, acordes, poemas. Assim nasceu a banda Pedra do Urubu, com a missão de universalizar aquilo que é mais singular no tradicional bairro do sul. A praia, o Bar do Chico, o morro do Lampião, a Lagoa da Chica, as gentes. E a música que vai nascendo torna-se hino e luta. Porque o povo do Campeche está sempre alerta com a proteção da natureza, dos bichos, das águas, dos seres.

Então, para quem quer conhecer a vida que vive na comunidade mais aguerrida dessa ilha, é só aportar no “Parada Roots”, um bar que fica na estrada geral do Rio Tavares, perto da Pedrita. Ali, nesse dia 07 de julho, a Banda Pedra do Urubu vai cantar o Campeche e as coisas bonitas que esse lugar tem. Depois das dez da noite é só somzera, som de raiz, meio açoriano, meio mané, meio gringo, tudo junto misturado. Um toque único, vibrando em uníssono, pelas mãos daqueles que escolheram esse espaço para viver. Pedra do Urubu, dez da noite, no Parada Roots, dia 07 de julho. Vale a pena arribar!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Com medo de meninos



Eles entraram no ônibus como se fosse uma horda de selvagens. Gritando, se estapeando. Era o busão das seis horas da tarde, lotado, portanto. Como sempre acontece na hora “noa”, quem sobe nesse coletivo já sabe que ficará bons momentos no engarrafamento do trevo do Rio Tavares. É, porque a duplicação da estrada só trocou a tranqueira de lugar. Então, o que se via eram os mesmos velhos rostos desolados, cansados da rotina diária de trabalho e esperas. Por isso a gritaria dos guris incomodou.

Mas eles não ficaram só nisso. Em pé, no corredor, cuspiam nas pessoas, davam gargalhadas, enfiavam a mão das calças, tocando as “partes” e ficavam encarando as mulheres. Não tinham mais que 13, 14 anos. Carregavam mochilas de marca, vestiam calças de marca e calçavam tênis de marca. Falavam alto e diziam obscenidades. Com eles estavam três gurias, que davam risadinhas abafadas a cada palavrão proferido. Eram seus heróis!

Uma senhora olhou feio para eles e um dos guris enfrentou: “O que é, velha? Quer encarar?” Ela virou a cara, impotente. Outro tirou da mochila uma sombrinha, que girava, ameaçando bater na cabeça de quem estava no banco. Todos se mexiam, incomodados, mas com medo. Os piás intimidavam. Muitos deles são nossos vizinhos, moram na nossa rua e, quando estão sozinhos, parecem anjos. Mas, basta integrar o bando, se transformam, viram pequenos monstros, como tomados por maus espíritos.

“E daí, vai um fininho?” pergunta um deles, mostrando o baseado na mão. As gurias riem. “Sabe o que é bom pra gente ficar locão? Gun socado e Bacardi com gelo! As mina pira!” Gargalhadas. As pessoas se remexem, indignadas, mas ninguém ousa interromper a sessão de pavoneamento e violência verbal. Parece que aqueles aparentemente inofensivos guris podem, a qualquer momento, se transformar no bando do Alex, do “Laranja Mecânica”, capaz das mais absurdas maldades.

Os meninos da classe média emergente parecem poderosos demais. Eles formam insuportáveis grupos intolerantes, racistas e violentos. Intimidam as mulheres, agridem os pobres, proferem vitupérios, provocam os garotos tímidos e se acham os “reis do pedaço”. Ninguém tem coragem de intervir. Todos se olham, sem ação. Perpassa pelo ônibus um arrepio de medo e um frêmito de indignação. E eles sabem disso e se aproveitam. Gritam mais alto, riem, contam vantagens. “Quebrei o guri de soco”, “Ninguém tira onda comigo”, “Vou arrasar geral”.

O tempo se arrasta e a tensão dentro do ônibus chega ao auge. Até que um rapazote de pouco mais de 18 anos resolve enfrentar. “Respeita a senhora aí, mané?” E o bandinho classe média: “Te mete com tua vida. Nós vamos te pegar, fica ligado!”. Coisa de louco. Maior climão. Até que chega a parada do Castanheira, onde eles descem. Saem gritando, prometem vingança, fazem gestos com mão. Depois, ficam por ali, na frente do mercado, juntando-se a outros pequenos “monstrinhos”, que também gritam e falam palavrões. Coisa impressionante. Foi-se o tempo em que os meninos eram respeitosos e agiam com educação. Foi-se o tempo em que meninos jogavam bola e puxavam carrinhos, agindo e vivendo como crianças.

E o que mais espanta é que são mesmo meninos, quase crianças. Mas, tão cedo, já não têm limites. Comportam-se como loucos, são violentos, agressivos, provocadores. Que adultos serão? O que farão quando tiverem mais altura, mais força, mais comparsas? É nessa hora que a gente vê como é cada dia mais possível que pipoquem casos de homofobia, agressão gratuita, violência cega. Eles são poucos, mas agem de tal forma que paralisam, assustam, intimidam. As pessoas não sabem muito que fazer, e os temem.

Fico a pensar: que mundo é esse em que os velhos temem meninos? Onde tudo isso vai dar? E nessa hora bate uma dor profunda e uma sensação de cansaço, desapontamento, desesperança.

Dias há em que até o meu Campeche parece escuro demais...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Que venha a Tainha

O primeiro de maio no Campeche. Festa de fé e esperança...


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Primeiro de maio no Campeche


Quando chega maio, o Campeche se prepara. Friozinho, vento suli, é chegada a hora da tainha. Nessa comunidade do sul do Miembipe, o peixe é, mais do que alimento, cultura. Por ali assomam as canoas que saem para o mar em busca do sustento e o tempo da tainha vira tempo de festa. Os peixes chegam aos milhares, e a praia se enche de gente e bicho numa alegre algaravia.

Assim, como também é uma comunidade de fé, o Campeche instituiu, bem no dia do trabalhador, primeiro de maio, o dia de rezar pela boa pesca. Então, no feriado, cedinho, as gentes se reúnem na praia para pedir proteção e peixe aos montões. Todo ano é assim. Um altar é montado na praia, onde acontece a missa.

Nessa hora a comunidade consegue, de alguma forma, juntar todas as forças, ainda que antagônicas, numa mesma vibração. Ali estão os lutadores sociais, os indiferentes, os bajuladores e os crentes. Não é hora de divergir, mas de vibrar numa única onda para que venha o peixe e a praia se encha de vida.

Ainda assim, durante a missa, não faltam os desconfortos. No mesmo espaço está o prefeito Dário, que tem ajudado a destruir a comunidade, com as vistas grossas aos empreendimentos ilegais e imorais, e com suas propostas de emissário na praia. Ou ainda a insólita oferenda de um oficial da polícia militar, que colocou diante do altar o cassetete, o mesmo que nos dias de luta cai sobre a cabeça do trabalhador. Mas, apesar dos olhares indignados, ninguém se manifestou. Aquele era um momento de união, coisa rara nas comunidades. “Talvez ele esteja querendo entregar a arma, pedindo que ela não seja usada”, dizia a turma do deixa-disso.

Depois, os pescadores inauguraram, dentro do rancho da canoa, um pequeno altar, onde colocaram, no centro, a figura de São Sebastião, o padroeiro do bairro. E, junto a ele, outros santos de devoção do povo. Afinal, reza e caldo de calinha não faz mal para ninguém.

Depois das bênçãos e desejos de boa pesca foi a vez da banda e Amor à Arte tocar e animar a galera. Música, bolo de fubá, café forte, alegria, pé na areia, cheiro de mar. O primeiro de maio no Campeche, apesar de alguns pesares, é só prazer...


terça-feira, 1 de maio de 2012

Emissário no Campeche, não!



O Campeche decidiu e não havia nada mais a discutir. A obra do emissário não seria feita. Há anos a empresa de saneamento insistia no projeto. Fazer um grande cano levando a bosta da cidade para o mar. E a saída seria ali, nas águas da praia. Mas, a gente do lugar era assim, decidia e fazia cumprir. O prefeito – que nem nascera na cidade – desconhecia aquela força e, sem ligar, mandou a obra seguir. Do nada apareceram operários, máquinas, cimento, tijolos. Surdo aos desejos das gentes ele tocava para frente o emissário. O homem da empresa de saneamento jurava de pés juntos que o esgoto não poluiria a praia. “Vai sair longe, não chegará à margem”. E os repórteres reproduziam à exaustão as mentiras bem armadas. Não seria uma comunidade atrasada que impediria a cidade de se modernizar.

Dentro das casas, o povo esperava. Vez ou outra passava pela obra algum morador, de olhos compridos, espiando. As mulheres ressuscitavam bruxedos e nas noites de lua dançavam na praia, invocando poderes adormecidos. As crianças recolhiam ervas e bichos para as poções de encantamento. As velhas recitavam antigas orações achadas nos baús. Os mais jovens se reuniam na praia e socializavam entre eles os planos que se urdiam nas casas.

Então, numa noite de lua nova, quando a escuridão caia como um manto sobre a cidade, no Campeche não se viu qualquer luz. Escondidas pelo negrume, as pessoas saiam das casas, uma a uma, em direção ao rancho de canoa. Lá dentro os velhos faziam arder o caldeirão e só se ouvia o estalido da madeira, salpicando uma chama bem tímida. O mar se agitava, a maré bem cheia. O vento soprava terral, uivando, feito bicho.

No rancho, as gentes se postavam em roda. Um murmúrio baixinho embalava o girar da colher de pau no caldeirão. As mãos se fechavam umas nas outras, o murmúrio aumentava, e na noite de maio, aquele barulho de vozes humanas se fez ensurdecedor. Era como um vagalhão alucinado invadindo a cidade. Assustador.

Os homens da obra despertaram. O que era? As vozes, os murmúrios alucinantes, o cheiro de jasmim. Saíram para a rua e não viam nada. Era o breu. Lá longe, no mar, parecia assomar uma vaga de água, alguma coisa mais escura do que a própria noite. Os cabelos arrepiaram, o coração parou. “Bem que avisaram que aqui tinha bruxa”, disse um. “Bobagem”, disse outro, enquanto sentia um bafo quente na nuca. A fumaça ou sei lá o quê foi adensando e cobriu a obra, com gente e tudo. A estação de tratamento, quase pronta, sumiu na bruma. Houve barulho de lata, prego, cano. Tudo esboroava. Os trabalhadores amoleceram e perderam os sentidos. Na escuridão do Campeche só a fumaça e o murmúrio eram constantes.

No centro da cidade, o prefeito acordou enregelado. Um aperto no peito, uma sufocação. Levantou e foi tomar água. Espiou pela janela e petrificou. Lá fora, envolta na escuridão, uma mulher bem alta, branca como a lua, olhava para ele com olhos de fogo. Não disse palavra. Apenas o olhar, assustador, felino. O prefeito voltou para a cama como um autômato. Dormiu num segundo.

Quando o dia amanheceu no Campeche já não havia obra. Alguns homens atordoados se perguntavam o que faziam tão longe de casa. As pessoas os acolhiam com um chá quente e logo foram embora, sem saber o que passara. No gabinete do prefeito, quem chegara nem de longe parecia o jovem ariano, pretencioso. Como um zumbi, se debruçou sobre os papéis e começou a babar. Nunca mais foi o mesmo. Vieram médicos, psicólogos e especialistas, sem encontrar cura. O vice, que era filho do lugar, sumiu no mundo. Ninguém mais soube dele. O presidente da companhia de saneamento esqueceu os últimos setes anos e foi viver em um sítio em Antônio Carlos.

Na praia, as pessoas seguiam suas vidinhas. Jogar a canoa no mar, colher o peixe, um violão ao anoitecer, o terno de reis, a bandeira do divino, a festa de são Sebastião, as ruas sem asfalto, as damas-da-noite com seu cheiro doce, o pão-por-deus. O tal emissário que jogaria a bosta da cidade no mar? Nunca mais se ouviu falar. E quando alguém do poder tenta trazer à memória esse “monstro de cocô”, as mulheres se entreolham e balançam a cabeça furtivamente. É quando uma fumaça densa e escura começa a se formar... Ninguém brinca com o povo do Campeche, não... Ah, não...!