quinta-feira, 14 de março de 2019

As mil mortes de Marielle


No dia em que foi divulgado o nome dos matadores de Marielle, o que mais se viu nos perfis dos bolsonaristas foram calúnias e mentiras sobre ela. Um verdadeiro horror. Cada um e cada uma, a seu modo, tentando desqualificar essa mulher que vinha lutando bravamente, inclusive pelos policiais militares que também são vítimas da violência no Rio de Janeiro. São muitos os relatos de familiares de policiais assassinados que tiveram o apoio de Marielle nos mais de 10 anos em que ela trabalhou com a ajuda jurídica e psicológica à vítimas da violência. É, Marielle não começou sua luta contra a violência quando se elegeu vereadora, antes disso já travava pesadas batalhas. 

Como parlamentar pode ir mais fundo nessa luta e estava dedicada a esfacelar as milícias (grupos paramilitares que extorquem comerciantes e populares) que tomaram conta do Rio. Assassinada por dois policias (um aposentado e outro ex) ligados às milícias, ao longo desse ano ela ainda foi sendo assassinada em cada mentira, em cada calúnia, em cada maledicência dita contra ela. Seu corpo segue quente e recebendo balaços. 

Agora, encerrada a fase de saber quem foi que atirou, deveria ter sequência para se chegar ao mandante. Mas, mais uma vez Marielle é assassinada. O delegado que estava à frente das investigações foi afastado do caso. Segundo o governador do Rio, ele não foi exonerado, apenas está saindo porque "ele está esgotado, absorveu informação demais" e vai passar alguns meses na Itália, para espairecer, talvez. Sabe-se que os assassinos foram avisados que haveria a prisão, e já tratavam de fugir. Mas, o delegado antecipou o ato e conseguiu pegá-los, um deles já em fuga. Isso diz muito. Muito mesmo.

Agora, sabe deus quem vai assumir o caso e com que vontade de chegar à verdade. Marielle seguirá morrendo...

Mas, se Marielle segue sendo assassinada todos os dias, seja pelas autoridades ou pelas gentes bolsonaristas, isso significa que ela segue viva. E segue. Nas ruas, nas praças, nas casas, nos corações dos que amam a paz e a justiça. E para cada novo balaço que ela receba, uma nova ressurreição. Mil vezes alvejarão seu corpo. Mil vezes se levantará. Até que caia aquele que mandou apagar seu sorriso. Só aí poderemos chorar e fazê-la descansar! 




domingo, 10 de março de 2019

Dia 22 de março - Greve contra a Reforma da Previdência


Lá ia eu para uma conversa sobre a previdência que acontecia na UFSC. Pelo caminho encontrei uma colega. “Bora lá saber da reforma”, chamei. E ela: “Não tô nem aí, essa reforma não vai me pegar”. Por um minuto, pasmei. Depois, respirando fundo, decidi parar e conversar. Alto lá, amiguinha. A reforma vai pegar todo mundo. Mesmo aqueles e aquelas que já estão aposentados. 
Então expliquei que com essa proposta do governo, todo o volume de recursos que hoje é descontado do trabalhador e que fica na conta do governo serão desviados para os bancos, que são os que vão gerenciar os recursos no sistema de capitalização. Isso significa que todo o bolo que hoje serve para garantir o pagamento das aposentadorias dos que já fazem jus ao benefício, não estará mais disponível para o governo. De onde então, ele vai tirar dinheiro para pagar as aposentadorias que já estão em curso? O que torna a Previdência um sistema bom é justamente a solidariedade entre as gerações. 

Como todo o volume de recursos vai ser jogado na roda do capital, nos Bancos, não vai demorar muito para que o governo venha com nova campanha dizendo que não tem como pagar as aposentadorias que já estão sendo pagas. E aí? Certamente virá mais um projeto de lei, uma PEC ou qualquer coisa que pode acabar com a paridade, que pode diminuir valores, enfim, o que der na telha dos gerentes do capital. Por que, afinal, as pessoas não são importantes. Só é importante o lucro das empresas, principalmente dos bancos. 

Sacou? Então, a reforma te pega sim. Não seja tolo. Se não for por solidariedade que seja por egoísmo, mas a luta contra esse pacote de maldades tem de ser travada por todos. 

O governo federal tem feito uma campanha mentirosa sobre o déficit da previdência. Isso não existe, como diria o Padre Quevedo. Atualmente, no Brasil, o que existe é um sistema de Seguridade Social, que engloba Previdência, Assistência e Saúde, e isso está assegurado na Constituição Federal. Para dar conta de manter esse tripé existem várias fontes de onde são extraídos recursos. Tem o desconto INSS, que é pago pelo trabalhador formal e seus patrões, tem o desconto sobre todo qualquer produto que a gente compre (o Cofins) – o que significa que todas a pessoas no país contribuem para a seguridade, tem a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, que é paga pelas empresas, tem o PIS/PASEP, tem a arrecadação sobre a venda de produtos rurais, arrecadação sobre as importações, e até o desconto sobre todas as loterias. 

É uma dinheirama que não acaba mais, tanto que, como explica Maria Lúcia Fatorelli, da Auditoria da Dívida, o governo decidiu criar a DRU, que é a desvinculação dos recursos da União, que torna possível pegar dinheiro desse bolo e jogar em outra coisa que não a seguridade. Então, não há déficit. Há é superávit, uma sobra de dezenas de bilhões todos os anos, e isso pode ser comprovado vendo as notícias que toda hora falam da desvinculação dos recursos. 

Mas, então, como o governo fabrica o déficit? É simples. Ele pega apenas a soma dos recursos do INSS que, claro, sozinha, não fecha a conta de todos os gastos da Previdência, que não é só o do pagamento das pensões. E notem que nessa soma não entra, por exemplo, os valores que nunca foram pagos pelas empresas. O governo sequer cogita cobrar os devedores que hoje devem quase 500 bilhões de reais à Previdência. E também existem setores da sociedade que são liberados de contribuir para a seguridade social, como é o caso do agronegócio. “Isso é uma infâmia. O governo libera o agro de pagar e depois vem dizer que tem déficit”, diz Fatorelli. 

Qual é então a jogada dessa proposta? Alimentar ainda mais os lobos, aqueles que fazem dinheiro sem trabalhar: os bancos, que, sozinhos, tiveram em 2018 um lucro líquido de 18 bilhões. Os que apostam no futuro com o dinheiro dos outros. Assim, os recursos pagos pelos trabalhadores serão jogados nos bancos. Essas instituições ficarão especulando com o dinheiro das pessoas por 40 anos, que é o tempo que o trabalhador vai levar para se aposentar. Ganharão rios de dinheiro. E, quando a pessoa chegar à aposentadoria - se chegar – eles vão pagar aquilo que quiserem. Porque poderão alegar que os investimentos não deram certo, que houve prejuízo, enfim, o que quiserem, porque o trabalhador não terá controle sobre o que será feito com esse dinheiro. Não bastasse isso, pensem em quantos trabalhadores ficarão pelo caminho, sem conseguir chegar a esse momento. Aos 80, 90 anos, nem sequer terão viúvos ou viúvas para requerer pensão. E o dinheiro amealhado ao longo de uma vida se perde para sempre. 

No sistema capitalista é assim. Só o trabalhador tem sua vida sugada. Dele, enquanto está vivo e atuando, sai o lucro do patrão. E, dele, sairá agora mais lucro para os bancos e os especuladores. Enquanto isso as empresas seguirão sem pagar nada, devendo sem serem cobradas, o agronegócio seguirá isento e essa minoria de vampiros seguirá vivendo à larga ao mesmo tempo em que os trabalhadores sangram. 

O governo, que tem priorizado desde sempre o pagamento de uma dívida ilegal e ilegítima, seguirá vertendo dinheiro para os bancos internacionais e para os especuladores que compram títulos públicos. 

A reforma da previdência, que o governo diz que igualará todos os trabalhadores, só os igualará na miséria, no risco de perder a velhice e na sangria. A reforma é para garantir o bom viver dos que já são ricos, e que sempre, absolutamente sempre, viveram às custas do esforço do trabalhador. 

Sendo assim, quebrar essa reforma, impedi-la, deve ser considerada, no momento, a mãe de todas as batalhas. Vencê-la é fundamental para quebrar a coluna desse governo, pois é sobre ela que está ancorado o apoio da classe dominante. Os ricos, os capitalistas, sempre insaciáveis, querem abocanhar mais um pouco da vida dos trabalhadores e exigem a reforma. Se a gente vence, pode, inclusive, derrocar o governo, impedindo que tenha seguimento esse desmonte do país que acelerou com a votação da PEC que congela os gastos públicos por 20 anos. Agora imaginem o povo brasileiro sem os serviços públicos e ainda sem recursos na velhice. É a morte! Então, a greve geral que está sendo chamada para o dia 22 tem de parar o país. 

É a hora do povo em luta! 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As memórias e o pai


Há dias nos quais o pai acorda muito agitado, nervoso mesmo. Não sei o que é, deve ser da doença. Hoje foi assim. Chegou na porta da cozinha com o rosto crispado, perguntando por que as coisas estavam como estavam. A pergunta não tinha resposta, mas eu vou dando as que posso. Ele pra lá e pra cá. E, a cada retorno, fazendo a mesma pergunta e eu dando novas respostas. Aquilo é turbilhão. Vai nos desconcertando. Mas, temos de manter a fleuma para não deixá-lo ainda mais nervoso.

Fiz um mate e chamei ele para conversar. Veio resmungando, mas veio. 
- Cadê o povo?
- Tá todo mundo trabalhando
- Eu também tenho que ir.

Aproveitei o gancho trabalho e comecei a ladainha de que ele já tinha trabalhado muito, agora estava aposentado e era hora de descansar. 
- Mas, eu trabalhei?

Então comecei a desenrolar o novelo dos lugares onde ele tinha trabalhado na vida. Lembra quando tu foste soldado? E ele ia lembrando de Quaraí. Lembra do escritório dos Fagundes. Ele começou a rir e disse que lembrava. Lembra da Rádio Fronteira do Sul? E ele assentindo. Lembra do DEER? Fui nominando um a um os seus velhos companheiros de trabalho. E para todos eles ele tinha uma lembrança. Já estávamos rindo, bem descontraídos. Ufa...

Então, de repente, ele desconfiou: 
- Mas, para aí, como é que tu sabe tudo isso de mim?
- Ora, eu sou tua filha, querido.
- Minha filha? 
- É.

Ele ficou me olhando, olhando. Até que uma lágrima se formou no seu olho. Ele levantou, emocionado, e me abraçou.
- Mas, que coisa mais querida. Minha filha.

E ficamos assim, por um tempo.

Essa é aquela hora em que a vontade é de chorar todas as lágrimas. Mas, há que manter a cara alegre, o sorriso e a firmeza. Não é fácil fingir que a alma não está em escombros. 


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Juanita e o vento



Uma das minhas gatinhas, que tem por nome Juana Azurduy, tem medo de vento. É uma coisa bem incrível isso. Basta começar a soprar o vento sul ela fica numa agitação sem fim e começa a miar desesperadamente. Ela é do tipo que detesta qualquer carinho, e tomá-la no colo é uma invasão a qual ela não permite de nenhuma forma. A não ser que tenha vento. Só aí consigo apertá-la junto ao coração, acarinhando devagar. Ela vai acalmando, acalmando e fica, com os olhos graúdos, olhando pra mim, já em paz. E enquanto venta, não sai de dentro de casa.

Numa dessas noites de tormenta ela foi surpreendida numa área que fica em cima no puxadinho de trás da casa. E, como sempre, paralisou. Fica incapaz de se mexer. Era umas quatro horas da manhã e ouvi seus miados de desespero. A chuva caia com força e o vento agitava as ramagens, que batiam umas nas outras, como cabeleiras loucas. Os gritos de Juanita rasgavam a noite.

Lá fui eu, noite adentro, buscar a bichinha. A força do vento tornava qualquer guarda-chuva obsoleto, então, o jeito foi correr pelo pátio e subir as escadas sem proteção. Juanita estava num canto, horrorizada, e tanto que não me permitia pegá-la. A chuva nos fustigava. Desci e peguei uma toalha, das grandes, e voltei. Ela gritando, em desespero. Atirei sobre ela a toalha e segurei com força, para que não me rasgasse com as unhas. Ela se debatendo em completo desespero.

Desci a escada correndo, entrei em casa, fechei a porta e coloquei uma musiquinha, baixinho, enquanto acarinhava seu corpinho trêmulo. Foi acalmando, acalmando, acalmando, até que se enroscou no sofá, dormindo como um anjo. Não sei o que ela vê no vento, mas a parada é lôca. Então, sempre fico atenta quando o vento vem. E mesmo que seja no meio da madrugada, lá vou eu, tal qual um super-herói, salvar a "mocinha". 

Os bichos nos têm!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Que viva o povo bolivariano


Eu lembro de 2004 quando o mundo inteiro se manifestou contra a invasão do Iraque. Era óbvio que os Estados Unidos usavam da mentira para respaldar a invasão. Não havia armas químicas, nunca houve. Mas, os EUA sempre usaram da mentira, ao longo de sua história, para justificar seus crimes. E, ainda que houvesse passeatas, marchas, protestos em vários lugares do planeta, os EUA foram lá e promoveram a onda da destruição, que segue até agora. Já tinham feito a mesma coisa no Afeganistão em 2001 para perseguir seu velho amigo e aliado Bin Laden. Julian Assange, com o WikiLeaks foi quem desvendou os crimes e por isso vive trancafiado na Embaixada do Equador em Londres, jurado de morte pelos senhores da guerra. 

Nesse mundo é assim: os heróis de verdade, como Julian Assange e Edward Snowden  são perseguidos, enquanto os assassinos circulam livremente. 

Agora, a mentira da vez é a Venezuela. Os EUA precisam destruí-la, como destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, o Líbano, a Síria. Há que atacar e dominar todos os lugares que têm petróleo. Venezuela desgraçadamente tem e desde a ascensão de Chávez usa os recursos do petróleo para a maioria da população. 

Então, os EUA e os lacaios locais decidiram estrangular o governo. Roubam seus recursos, seu ouro e sua possibilidade de atender a população. Fecham as portas do comércio e  impedem que entre a comida, os produtos de primeira necessidade. Vem a fome, vem o terror. 

O mundo inteiro se levanta contra mais essa ignomínia. Mas, os líderes mundiais que se ajoelham diante do império e também aproveitam para abocanhar algum ganho, não querem nem saber. Aceitam a mentira e respaldam o golpista que se autonominou presidente, sem ter recebido o respaldo das gentes venezuelanas. Aceitam porque querem lucrar com tudo isso. Dane-se o povo que morre de fome. Que morram. Assim poderão gritar aos quatro ventos que foi o bolivarianismo que os matou.

Lá dentro da Venezuela o povo bolivariano está sofrendo a fome, a falta de remédios, o terror. Mas, eles sabem de quem é a culpa. Dos vende-pátria, os mesmos que governaram a Venezuela por séculos, mantendo-os na escravidão. Os mesmos que agora se aliam ao império, aos senhores da guerra, para destruir a generosa proposta de Bolívar. O libertador sendo traído outra vez, num eterno retorno. 

Tenho muita clareza do que é o governo do Maduro e tenho muitas críticas a sua postura e política. Mas, jamais me aliaria aos monstros do terror apenas para tirá-lo do poder. A Venezuela precisa seguir seu caminho autônomo, com as gentes decidindo por onde ir. Se há oposição de esquerda, que se organize, que dispute, que enterneça os corações. Mas, como aceitar uma oposição que se diz de esquerda e que se junta ao deputado golpista, think-tank dos EUA? Nada justifica isso...

Sei que nossa voz se perderá no mar de ódio, de desinformação, de ignorância. Sei que nada podemos na nossa impotência. Mas, não poderia deixar de dizer que repudio a agressão que os EUA empreendem contra a Venezuela desde 1998, quando Chávez assumiu, e que agora assume sua cara mais nefasta. A mesma velha cara do terror que vem matando e destruindo a vida dos trabalhadores, dos lutadores, dos governantes que querem garantir soberania. 

Não há conciliação com o império. Que viva a gente bolivariana e chavista. Que resista e que se mantenha de pé. Mesmo que esteja sendo abandonada pelos oportunistas. 

A terra-mãe



A terra, como ensinam os povos originários não é só um lugar onde nós, os humanos, caminhamos.  Ele é viva, interage e se comunica. Viver em equilíbrio com ela é valor que faz parte de qualquer filosofia originária, de qualquer etnia dos povos antigos. Pacha é espaço e tempo, sem divisão. E nós, somos parte desse universo pulsante, aqui, hoje, ontem e amanhã.

Não descobri isso agora, há tempos comungo desse sentipensar, ainda que tenha de ver tudo isso ser ridicularizado por gente que nos chama de “pachamamistas”, ou “bicho grilo” ou “hippie” ou qualquer outra coisa de conotação depreciativa. Não importa. Creio nisso e sigo no meu caminho respeitando essa poderosa mãe.

Lá em casa tenho por costume dar pago à terra todos os dias. Cuido dela, alimento, acarinho, porque sei que ela também cuida de mim. Porque somos uma coisa só, parte da mesma grandeza infinita.

Percebi que no meu quintal desde alguns anos brotaram determinadas plantas que não havia lá: melissa, alecrim, fisalis, maracujá.  Ontem, sentada à sombra, com meu pai, tomando chimarrão, entendi que a terra que vibra em mim mandava mensagens. Todas essas plantas têm a ver com calmante e memória, duas coisas de que necessito agora, quando vivencio o processo de perda de memória do pai. Uma dura caminhada de aprendizado sobre a finitude.

Certa feita, lá no planalto central, caminhando na imensidão das terras secas, ouvi de um conhecedor das ervas essa verdade: a terra dá o que precisamos. Basta olhar ao redor e ali estarão as plantas que são vitais para nossas dores. Ontem, assim, num átimo, me surpreendi com a concretude dessa máxima.

Tudo está ao nosso alcance. Basta saber enxergar. Alegrei-me por ainda saber ver. E agradeci!


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O tempo e o pai



A vida de um cuidador de idoso não é bolinho. Além de ter de dar conta do trabalho, que garante a existência, quando chega a casa tem uma infinidade de tarefas para cumprir. O pai fica numa alegria quando eu chego. E gosta que eu fique paparicando. Então, eu trato de arrumar o café, o qual tomamos juntos, conversando sobre a manhã que passou, o almoço, a sesta. Mas, depois disso preciso dar início a arrumação. Trocar roupa de cama, pois sempre tem alguma surpresinha. Limpar de cima a baixo o banheiro, pois a pontaria já está prejudicada. Juntar as roupas todas para lavar, e eu tenho o costume de lavar à mão. Então essa é função que toma tempo.

Não bastasse isso ainda tem o restante da casa para limpar, pois os bichos, que ficam entrando e saindo, aprontam uma boa bagunça. E, nesse verão de lascar, é sempre bom passar um paninho e deixar tudo cheirando a lavanda. O pai gosta de ajudar nas tarefas, então eu dou a ele a missão de lavar as xícaras do café. É uma boa ideia isso aí porque ele fica bem entretido por algumas horas.

Enquanto ele faz essa tarefa trato de cuidar dos bichos. Lavar as vasilhas, colocar água fresca, comida, limpar o cantinho de dormir. É puxado. O tempo voa e já é hora de arrumar a janta. De novo, outra função.

Ao longo de todo esse tempo, procuro encontrar formas de interagir com ele. Faço um chimarrão para tomarmos embaixo das árvores, dou água, fazemos pequenas caminhadas pelo jardim. Uma forma não deixar ele abandonado pela casa, já que dormir de dia, nem pensar. É uma correria, pois tudo tem de ser cumprido.

Depois da janta ele vai para o quarto ver televisão e é a hora que eu encontro para estudar um pouco, ler, escrever, antes de desabar. Abro o computador e fico nessa tarefa. Enquanto eu escrevo ele fica num vai e vem. Para na porta e fica espiando. Sai e volta, sai e volta, sai e volta, como a se certificar de que eu estou absorvida em algo que não é ele. Fico com pena e pergunto:

- Precisa de alguma coisa, querido?
- Preciso. 
- Do quê?
- De atenção.

Aí não tem jeito, largo o computador e vou ver a novela com ele. Tudo para garantir esse sorrisão. O tempo vai assumindo outra dimensão e muitas tarefas vão ficando para trás...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Sobre a imprensa e a classe trabalhadora

Na foto, a jornalista Claudia Weinman entrevista Vilson Santin, do MST.

Jornal Nacional. Rede Globo. O presidente da Vale fala por um tempo gigante, a considerar o valor do tempo num jornal global. Repete insistentemente que o que houve em Brumadinho foi um acidente. Um acidente? Com todos os laudos técnicos que mostram o risco dessas barragens? Com todos os avisos de gente muito especializada que milita nos movimentos? Com a trágica experiência de Mariana? Acidente? Foi um crime.

Na hora em que vi aquela cena grotesca, sem a interferência de nenhum jornalista, questionando e apontando as contradições, fui tomada pelo ódio, a indignação. Mas, passado o estupor inicial, a cabeça esfria e a gente começa a pensar. Nada poderia ser diferente. A mídia comercial é braço armado do capital. Jamais encontraremos ali a crítica ou o contraditório. Pode escapar, é verdade, nas brechas que naturalmente os fatos apresentam. Mas, é só isso mesmo. Escapadas, rápidas e sem ligação, coisa que pode tornar bem difícil o entendimento da totalidade do fato.

Isso nos leva a um debate que raramente as forças da esquerda fazem: a necessidade de uma imprensa de classe. O máximo que temos visto nos sindicatos de jornalistas, de radialistas, nos movimentos que atuam no âmbito da comunicação é a discussão sobre liberdade de imprensa. Ora, colegas. Por favor.

Não existe liberdade de imprensa, nem aqui, nem na China, nem em lugar nenhum. O que existe é imprensa de classe. E qual é a classe que domina a mídia? No mundo em geral é a classe dos endinheirados, dos artífices e gestores do capital.

Nós, no Brasil, nunca conseguimos avançar para a construção de uma imprensa de classe. Nem mesmo nos 15 anos que tivemos o Partido dos Trabalhadores no poder. Absolutamente nada foi feito nesse sentido. Pelo contrário. Durante o governo de Lula a própria Globo acabou sendo salva e todos devem se lembrar do presidente no velório de Roberto Marinho, consternado. Também não é pouco que a gente lembre sobre a tão sonhada Conferência Nacional de Comunicação, na qual o governo nos impôs uma derrota, colocando junto os empresários e permitindo que eles dessem a direção para o debate. Praticamente nada foi mexido na estrutura das comunicações no Brasil. Nem mesmo o tema das outorgas foi tocado. O estado, na mão do PT, seguiu rezando pela cartilha empresarial. O resultado disso vimos agora, quando a classe trabalhadora estava desguarnecida de veículos de massa para fazer frente a avalanche conservadora.

É mais do que hora de ultrapassarmos esse discurso liberal de “democratização das comunicações”. Isso nunca acontecerá no âmbito do capital. Porque esse sistema não está aí para brincadeiras e só solta alguns anéis se tem uma ameaça muito grande diante dele. Hoje, ao que parece, não existe nada no horizonte. Então, não virá nada. Pelo contrário. Quando o capital corre livre, sem inimigos de peso, ele não concede um centímetro. Ele aplasta! Vejam que já se configura a vinda da CNN para o Brasil. O tentáculo mais manipulador do sistema. Esse povo não brinca em serviço.

E pensar que quando o governo petista teve a chance de colocar como canal aberto a Telesur, rede televisiva de classe, não o fez. Nunca avançou um milímetro no sentido de trazer a América Latina para dentro do Brasil.

No que diz respeito ao campo dos trabalhadores tampouco se conseguiu avançar, mesmo nos anos de maior ascensão das lutas sociais. Jamais se chegou a um jornal de alcance nacional e o mais próximo disso que tivemos - que foi o Brasil de Fato - acabou se esboroando, justamente por falta de uma compreensão mais classista por parte dos inúmeros movimentos sociais e militantes populares. O que restou foram os grupos de mídia alternativa, comunitária, popular e independente, que vão se arrastando conforme podem, com pouco poder de fogo diante da maquinária capitalista. É muito difícil enfrentar com uma rádio comunitária, uns 30 segundos num jornal noturno de uma rede de televisão que abocanha o país inteiro. O poder do capital é avassalador.

Em Santa Catarina vivemos o mesmo dilema. Temos uma imprensa ridícula, cada dia mais vazia de qualidade. Só nos últimos meses foram demitidos dezenas de jornalistas do grupo hegemônico, ex RBS, atual NSC. Precarizam-se as relações de trabalho, aumenta a exploração dos trabalhadores e a comunidade fica cada dia mais refém de uma comunicação pífia e manipuladora. Assistir um jornal televisivo é de chorar. O pensamento crítico passa longe. Não há sequer boas perguntas, matéria prima básica do bom jornalista. É uma vergonha. Mas, ainda assim temos muitos sindicatos, e movimentos, e parlamentares que preferem assinar um jornal da imprensa comercial que investir nas propostas de comunicação populares que teimam em existir, ainda que em difíceis condições.

Creio que é tempo de aprendermos a lição. Façamos a autocrítica e caminhemos no sentido de construir uma imprensa de classe. Da classe trabalhadora. Já basta de querer melhorar o capitalismo, basta de pensar que pode ele ser humanizado. Não pode. Por isso a comunicação não será democratizada. Há que mudar o modo de organizar a vida e enquanto isso não vem, fortaleçamos a imprensa de classe. É isso, ou morte.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O médico de família




Nada no mundo é por acaso. Vivi décadas em Florianópolis sem conseguir encontrar um médico, desses como os do passado, que conheciam a gente, a família da gente, que nos enxergavam como seres humanos, que não nos viam como pedaços doentes ou receptáculos de remédios. Procurei bastante, mas nada. Então, um belo dia, por conta das vivências na rádio comunitária, encontrei um desses jovens médicos que conseguiram passar pela faculdade sem se perder na selva do mundo sem coração. Formação de médico de família, perspectiva popular, compreendendo a questão indígena e a realidade do país. Guardei na memória. Um dia, quem sabe, se eu precisasse de um médico, teria a referência.

Então, pouco tempo depois, a vida me deu uma rasteira, e meu pai, de 86 anos de idade, começou a apresentar sinais de demência. Ele morava no mato e lá não tinha como ficar. Fui buscá-lo para ficar comigo. Ele estava bem baleado, muito fraquinho e totalmente fora de si. Não havia tempo para as intermináveis esperas nas filas do posto de saúde. Tinha de agir rápido. Na mesma hora me veio à cabeça o médico que havia conhecido nas lutas pelo SUS. Era o que eu precisava. Chamei.

Eu não queria um desses médicos que nem olham na cara, e já vão receitando. Queria alguém que visse o meu pai como uma pessoa na sua inteireza histórica. O Henrique foi perfeito. Sem pressa, atencioso, carinhoso, respeitoso, explicativo, honesto. Sem soluções milagrosas, mas com propostas inovadoras e perspectivas mais naturais. Iniciamos o cuidado.

Agora em junho de 2019 se completarão três anos que estou cuidando do pai, sempre com o acompanhamento do Henrique. Um médico que eu posso chamar a qualquer hora pelo uatizapi, que me atende e me aconselha. E que se está longe, encontra caminhos e atalhos para o bem estar. Um médico que pede notícias quando elas faltam, e que se preocupa com cada passo da jornada. Um médico que divide o que sabe, que expõe o que não sabe, que aprende junto. Um médico que abraça, que conforta, que ri, que se emociona. Um médico que se move com a força do compromisso, que sabe não ter todas as respostas, que está preparado para perder batalhas, mas sem largar a mão.

Eu que tanto procurei, agora encontrei o médico sonhado. E foi na hora certa, quando o mundo ruiu sobre meus pés. Nada é por acaso, mesmo. Conforta-me saber que passarei por essa dura estrada da demência e do Alzheimer tendo por parceiro do cuidado um cara como esse. Meu pai merece isso. Meu desejo mais profundo é de que cada pessoa nesse Brasil pudesse ter um médico assim, um médico de verdade, trabalhado no carinho, no cuidado, na atenção. E por isso eu luto pela saúde pública, pelos programas de médico de família, pela medicina preventiva.

Agradeço aos deuses e deusas que me permitiram encontrar o Henrique. E sei que, como ele, outros andam por aí, aqui mesmo em Florianópolis. Wagner, Murilo, só para citar alguns que são crias da mesma cepa e não concebem a medicina como negócio. São poucos ainda. Mas, rezo para que sejam mais. Possivelmente a própria ação desses que agora vivenciam essa prática fornecerá o exemplo para o surgimento de novos médicos assim, capazes de encontrar a humanidade que existe neles mesmos, e no outro. Uma parceria construída no amor.

A realidade nos mostra que esse caminho ainda é longo. Basta lembrar que a maioria das vagas dos Mais Médicos, as que estão nos lugares mais pobres, ainda não foram preenchidas. Porque não é moleza ficar cara-a-cara com o dor de quem não tem nada, a não ser o próprio corpo que se deteriora. Mas, não há saída. Só o amor salva. E o tempo da vida plena chegará para todos e todas. É um caminho sem volta, a despeito dos vilões sempre à espreita. Enquanto isso, lutamos!

Recomendo vivamente o Henrique. Podem chamar .


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O pai: querendo ir para casa


Nas últimas semanas assomou no pai um das mais difíceis fases, que é a de querer ir embora. Todos os dias a mesma cantilena. Ele chega à porta da cozinha e faz um sinal com as mãos, dizendo:

- ó, tô xispando.

Ou seja, estou indo. Ele diz que quer ir para casa, mas na verdade não tem muita certeza de onde é essa “casa”. Suspeito eu que seja algum lugar de pura beleza, tamanha a ansiedade para ir. Por vezes sinto um profundo desejo de tomar sua mão e ir com ele, para esse não sabido lugar. Mas, a vida chama.

Geralmente quando a ansiedade é muita eu saio com ele. Vamos até o mercado, compramos algumas coisas, damos a volta na quadra. Ele se distrai e quando volta já esqueceu que queria ir para “casa”. Mas, têm momentos em que não esquece e fica muito nervoso. Vai até o portão e fica mexendo no trinco, tentando abrir para escapar.

É um tempo difícil, pois, de fato, temos de mantê-lo trancado. O portão com cadeado, senão ele sai andando “até o fim do mundo”, como diz. Os médicos chamam de síndrome do pôr-do-sol, porque aparece geralmente no final do dia. Mas, no pai, aparece a qualquer hora.

Ontem me deixou mal na fita com os coletores de lixo. De manhãzinha, lá estava ele no portão, esperando algum milagre, até que apareceram os coletores. Como são bem simpáticos, já foram cumprimentando.

-Bom dia!
E o pai.
- Me faz um favor, abre aqui pra mim. Tô preso.

O moço meio que perdeu a tramontana, olhou pra mim que observava do alpendre e fez uma cara de espanto. Fui até o portão e expliquei que o pai não pode sair sozinho, que tem Alzheimer. Ele ficou meio assim, não sei se acreditando, e se foi. E eu:

- Pai, não faz mais isso. O moço vai pensar que eu tô te maltratando.
Ele fez um muxoxo e redarguiu:

- A tentiada é livre.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

As mulheres indianas e a luta por vida plena





O pêndulo da política segue seu incansável vai e vem. Por isso, enquanto em alguns espaços do planeta conquistas são perdidas e avança o retrocesso, em outros a luta por transformação assoma, com surpreendente força. Um exemplo disso foi o que aconteceu na Índia, esse imenso país asiático, ainda tão desconhecido para os latino-americanos. De lá, o que sabe o senso comum? Que é a terra de Gandhi, que tem muita pobreza, que tem templos bonitos, muitos deuses e espiritualidade latente. Raros são os que compreendem as razões da pobreza extrema bem, fruto de uma tradição ultraconservadora somado com a destruição colonial, bem como a estranha divisão da sociedade por castas, que se configuram em espaços intransponíveis. Ou seja: quem nasce numa casta ali permanece, e tampouco pode conviver com outra.

Um dos grandes dramas na Índia é o das mulheres, principalmente o das de casta dita “inferior”. No geral são tratadas como propriedade de pais, irmãos, parentes e maridos. Não são poucos os casos de estupro coletivo registrado no país e a violência contra elas é generalizada. Em muitos lugares elas são impedidas até de entrar nos templos para reverenciar seus deuses. Direito é algo que parece inimaginável para a maioria.

E foi justamente a batalha das mulheres para ter acesso a um complexo de templos, no estado de Kerala, que detonou um movimento gigantesco de luta por direitos. Até então, por conta de regras pétreas da chamada “tradição imemorial” elas não podiam entrar no templo de Sabrimala, dedicado a Ayyapann, filho de Shiva, ao qual acorrem mais de 17 milhões de pessoas durante o ano. Depois de muitas lutas a Suprema Corte da Índia suspendeu a decisão da justiça do estado de Kerala, que já havia reiterado essa proibição em nome da tradição.

A decisão da Suprema Corte da Índia foi tomada em 28 de setembro de 2018 e determinava que as mulheres poderiam entrar no templo, alegando que essa discriminação não fazia parte essencial do hinduísmo, mas de um arraigado “patriarcado religioso”. Com base nessa decisão o governo da Frente Democrática de Esquerda do estado de Kerala liberou o acesso, enfrentando por isso uma série de protestos de rua realizados por grupos reacionários de direita, incluindo aí o partido Bharatiya Janata (BJP).

O clima seguiu bastante tenso em Kerala e, em outubro, o chefe dos ministros do estado, Pinarayi Vijayan, que também é líder do Partido Comunista da Índia fez um discurso público na defesa da ruptura de determinados costumes. Ele afirmou: “Se uma tradição é um grilhão, devemos rompê-la”. E então convocou as mulheres a constituir um muro vivo de protesto e de luta. A partir daí, conta o jornalista Vijay Prashad, as pessoas foram se mobilizando. “Foram realizadas mais de cem reuniões públicas nos últimos meses de 2018 para impulsionar o apoio e mais de 170 organizações progressistas da Índia se uniram à campanha”.

E foi assim que no dia primeiro de janeiro, a partir das quatro horas da manhã, começou a se formar o muro humano que juntou cinco milhões e 500 mil mulheres, ombro a ombro, por 620 quilômetros, em luta pela emancipação das mulheres. “Aquele não era um muro da intolerância, como o de Trump, mas um muro de liberdade, contra tradições que não fazem mais do que humilhar as mulheres”, diz Vijay Prashad.

Prashad informa que K. K. Shailaja, ministra da Saúde de Kerala e dirigente do Partido Comunista da Índia esteve a frente do muro em Kasaragod, no norte do estado. O muro terminou em Thiruvananthapuram, a capital do estado, onde a última pessoa na cadeia humana era a dirigente comunista Brinda Karat, que reiterou: “Este muro de liberdade não é só para as mulheres de Kerala, mas para as mulheres de todo o país”. Os movimentos de esquerda estiveram unificados nessa importante manifestação de força.

A luta das mulheres contra as já insustentáveis tradições de exclusão, violência e intolerância não é coisa simples na Índia. Os costumes ainda são muito arraigados e não são poucos os assassinatos de mulheres por conta disso. Mas, com o fortalecimento das forças de esquerda no país esses pressupostos começam a ser questionados e deslegitimados inclusive legalmente, abrindo caminhos importantes para que os direitos sejam respeitados, de fato, na vida real.

A incrível coluna feminina de 620 quilômetros que se expressou no primeiro dia do ano sabe que há muitas coisas mais a conquistar do que o direito de entrar num templo. Mas, devagar, elas vão acumulando forças, coletivamente, para avançar em outros terrenos. O passo desse primeiro de janeiro é o primeiro. 


Sobre o salário, o lucro e o socialismo



É muito comum as pessoas acreditarem que por investirem muito na construção de seus negócios, os empresários tenham mesmo o direito de lucrarem e ficarem muito ricos. No geral acredita-se que essa riqueza vem pelo mérito do patrão, que trabalha e investe bastante para ter sucesso no negócio. Mas, a realidade é bem outra. A riqueza do patrão não tem nada a ver com sua habilidade ou sorte. Ela só existe porque o patrão rouba do trabalhador. Essa é natureza do capitalismo: roubar o trabalho alheio.

Explicando: um empresário resolve montar uma empresa. Ele compra as máquinas, monta a estrutura, a matéria prima para produzir seu produto. Então vai buscar a mercadoria que definitivamente vai trazer o lucro: o trabalhador. Esse trabalhador não tem nada de seu. Nem máquina, nem estrutura, nem matéria prima. A única coisa que pode vender é sua força de trabalho. E é essa força que o empresário compra.

Bom, como o provável patrão calcula o preço a pagar pela mercadoria (força de trabalho do trabalhador) adquirida? Ele precisa calcular o preço dos alimentos que manterão o trabalhador vivo, o preço das roupas que o vestirão, do aluguel, dos gastos com saúde, educação, enfim, tudo aquilo que é necessário para que a pessoa possa se manter, a ela e sua família, e ter condições de trabalhar. Somados esses valores, o total é dividido pelos 365 dias do ano. Assim, o empresário saberá qual é o preço diário do trabalho do trabalhador. Então, se para se manter vivo o trabalhador precisar de 100 reais por dia, o patrão entenderá que o preço justo a pagar pela força de trabalho dele será 100 reais.

Pois bem, depois de comprar tudo que necessita para iniciar a empresa e contratar os empregados pagando o valor que considera justo, no caso os 100 reais por dia, o empresário está pronto para iniciar seu negócio. E quando chegar o fim do mês, o patrão terá de fazer novas contas. Observem que o empresário tem despesas grandes. Os meios de trabalho (máquinas, o prédio, as ferramentas) se gastam, há que comprar os insumos e ainda pagar o salário dos trabalhadores. Logo, é justo que ele tenha seu lucro. Afinal, no capitalismo, o lucro, o excedente, é só o que importa. Até aí vamos bem.

Mas, o lucro do patrão não tem nada a ver com o preço que ele cobra pelas mercadorias que produz, porque ao somar tudo que envolve a produção, vamos ver que o preço da mercadoria não pode ser tão maior do que o custo da produção. Onde o patrão lucra então? No roubo do trabalho do empregado. Como assim?

Ora, o trabalhador é contratado por oito horas e recebe 100 reais por dia (preço que foi calculado com base no que é necessário para a pessoa se manter viva). Bem, nessas oito horas o trabalhador, por exemplo, de uma fábrica de roupas, produz 50 peças. Bem, os 100 reais que é pago ao trabalhador representa a manutenção dele por 24 horas e não o que ele produziu nas oito horas de trabalho. É como o agricultor com seus animais. Ele sabe que uma vaca vai produzir muito mais leite do que o custo que ele tem para mantê-la.

Veja que o trabalhador vai para casa considerando que está bem, o salário é muito justo. Mas, na verdade, não é. Porque ele não recebe sobre o que produz. No caso do trabalhador da fábrica de roupas, ele consegue fazer, em oito horas, 50 peças. Cada peça será vendida por 50 reais. Sua produção foi equivalente, então, a 2.500 reais num dia apenas. E por esse dia ele receberá 100 reais.  Ou seja, 2.400 reais vão para o bolso do patrão, limpinho.

Outra coisa importante para se levar em conta é que na soma das necessidades do trabalhador, o patrão geralmente só leva em conta a sobrevivência mínima do empregado. É por isso que existe um “salário mínimo”. Isso significa que esse valor é menor valor possível que se pode pagar para que alguém consiga sobreviver, comendo, vestindo e morando.

Muitos já devem ter ouvido falar no salário mínimo do DIEESE. O DIEESE é uma entidade dos trabalhadores que atua justamente com pesquisa sobre temas referentes aos trabalhadores. O cálculo que o DIEESE faz para determinar um salário “mínimo” é bem diferente do cálculo feito pelo governo ou pelos empresários. Porque como é uma entidade dos trabalhadores, leva em consideração outras variáveis. E considera que os trabalhadores não apenas devam sobreviver (manter-se vivos com o mínimo), mas fundamentalmente, viver. Ou seja, o trabalhador tem direito a uma moradia digna, comida de qualidade, educação, saúde, diversão, lazer e tudo isso entra na conta. Por isso os valores são bem diferentes.

Por exemplo, nesse primeiro de janeiro de 2019, o governo brasileiro definiu o valor do salário mínimo em 998 reais, frustrando a expectativa de que ele passasse dos mil reais (1.006) conforme já tinha sido definido no orçamento para esse ano, o que ainda seria ruim. O governo entendeu que esses 998 reais devem ser suficientes para que o trabalhador não morra. Pode ser, mas, não é suficiente para que viva.

Para ter uma vida plena e segura, o salário mínimo do trabalhador deveria ser de 3.960 reais, segundo os cálculos do DIEESE. No cálculo, essa cifra é que conseguiria garantir os direitos básicos de uma pessoa: moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social. Alguns poderiam dizer: “ah, mas aí não há quem aguente pagar”. Bom, os grandes empresários aguentam sim (eles lucram muito), e aquela família que tem empregada e não quer pagar muito por ela teria que repensar se precisa de alguém para chamar de “sua”.

Outros poderiam pensar: bem, mas é justo que o patrão ganhe com o meu trabalho, afinal ele investiu tanto. Não, não é. Porque quando o patrão faz as contas dele ele sempre leva em consideração o desgaste das máquinas, dos prédios e dos equipamentos. Está tudo contabilizado e é tirado justamente do lucro que obtém com o roubo do trabalho do trabalhador. Ele nunca perde. Mas, e o desgaste do trabalhador, quem paga? Pois o próprio trabalhador. Onde está a justiça disso? Quando o trabalhador fica doente, ele tem de bancar seu tratamento. Quando ele envelhece, ele que tem de aguentar as consequências de não poder mais trabalhar já que a previdência não lhe garante quase nada.

Para o patrão, o desgaste do trabalhador não interessa. Quando um fica velho, ele demite e contrata braços mais vigorosos. O que ficou pelo caminho que se dane. Essa é a lógica do capitalismo. Sugar o máximo do trabalhador, e deixa-lo a própria sorte quando não puder mais produzir.  

Mas, poderia ser diferente? Sim, poderia. Numa sociedade onde o trabalho fosse parte da vida coletiva (e não objeto de lucro para alguns) e o trabalhador, por qualquer tipo de produção, recebesse conforme suas reais necessidades. A isso se chama socialismo. E é isso que os empresários procurar demonizar para que os trabalhadores não se deem conta do quanto poderia ser bom. “Ah, mas o socialismo deu errado em toda parte”, argumentam alguns. Essa é uma meia verdade já que algumas experiências chamadas de socialistas não foram muito bem sucedidas. Mas, outras tentativas, como a de Cuba, apresentam vitórias importantes para a população, como saúde gratuita e de qualidade, educação gratuita e de qualidade, segurança, moradia. Não é o mundo perfeito, claro, até porque a pequena ilha vive sob o ataque econômico dos Estados Unidos. Só que ainda assim conseguiu garantir avanços incríveis. Imaginem se fosse livre para negociar.

O socialismo não é uma forma de bolo na qual colocamos a massa e esperamos crescer. Não se faz por decreto ou por qualquer forma de lei. O socialismo é um processo que precisamos construir, coletivamente, em comunhão. Que nos custará muito, mas nos trará também grandes benefícios. Claro que nem todo mundo consegue acreditar que é possível viver num estado de Justiça, onde cada qual viva conforme precise, e ninguém tenha mais que ninguém. Onde o trabalho seja sinônimo de vida, de criação, e não de morte. Mas, pessoas há que querem viver assim e não deveriam ser condenadas por isso.

Então, quando ouvirem os empresários ou gente do governo dizer que o socialismo é o demônio, tenham bem claro: é mesmo. Mas, é o demônio para os empresários que enriquecem a custa de todos nós, os trabalhadores. No socialismo eles não seriam os patrões, nem seriam os ricos, porque uma fábrica de roupas, por exemplo, seria gerida por todos os seus trabalhadores. Assim, o que é ruim para eles é bom para a maioria dos trabalhadores. Não é interessante?

Então, não compre o discurso assim, tão rápido. Pense.  



domingo, 23 de dezembro de 2018

Quem cuida do cuidador?



Desde que comecei a cuidar do meu pai, diagnosticado com Alzheimer, há uns três anos, tenho procurado encontrar caminhos para melhor atender as exigências desse tempo da vida. O velho não é criança, então não dá para aplicar as regras do trato infantil com ele. É preciso dar autonomia, fazer com que se sinta capaz, respeitar suas escolhas e vontades. É um processo intenso e difícil.

As coisas ficam ainda mais duras se a gente tem de trabalhar. São pelo menos umas oito horas longe de casa, sempre em sobressalto. Há pessoas que cuidam, mas a gente não descansa. Se o telefone toca, o coração pula, se chega mensagem no celular, o peito aperta. Fica aberto aí um caminho para a doença porque a sobrecarga é grande. O sono é pouco, a pressão aumenta, e a gente parece viver num eterno torpor por conta da vigília intermitente.

Não bastasse o ataque físico, o psicológico também fica roto. Afinal, aquele que cuida está sozinho. Com o tempo, já não há mais tempo para os amigos e muitos vão sumindo. Não é culpa deles, cada um tem seus próprios dramas para viver. A família ajuda, mas a confiança do velhinho se fixa em uma única pessoa e ela é quem carrega o cuidado inteiro. Não é qualquer um que pode dar banho, não é de qualquer um que aceita a comida, o processo de dependência vai criando um torvelinho no qual o cuidador pode sucumbir.

Nesse diapasão, quem cuida do cuidador? Pois, ele mesmo. Ao longo desse tempo nos cuidados com o pai fortaleci em mim uma certeza que eu já tinha de que somos mesmo seres da solidão.  E é isso aí. Não dá para esperar nada de ninguém. Se a ajuda chega, é bom, mas não podemos querer que as outras pessoas venham em nosso auxílio.  Vejo nos grupos de ajuda a familiares o quanto as pessoas sofrem por estarem sozinhas nessa batalha danada. Mas, toda hora de angústia sempre é vivida na solidão. Não tem jeito. Nem mesmo a pessoa que mais nos ama pode viver nossa dor. Ela é nossa. E temos de nos virar com ela. Sei que isso é duro, mas é assim que é.

Podemos nos enterrar na tristeza ou podemos encontrar pequenos pedaços de beleza espalhados pela estrada do cuidado. Aprendi que o meu pai, apesar de seus devaneios, está muito bem. Faço por ele tudo o que posso, o que não posso e um pouco mais. Dedico a ele meu tempo inteiro e sei que isso o faz feliz. Vejo no seu rosto, sinto na sua risada, no seu passo miúdo, sempre me procurando pela casa. Percebo sua confiança na forma como segura meu braço quando vamos passear ou como fecha os olhos, quietinho, quando lhe faço a barba. E mesmo quando explode em violência querendo “ir para casa” compreendo que é coisa da doença e deixo que a raiva passe para depois estreitá-lo em meus braços, dizendo que estarei sempre ali.

Quanto a mim, me esforço para cuidar da casinha que abriga a minha alma. Faço pequenos momentos de meditação. Tomo uma boa cerveja enquanto cozinho. Busco encontrar momentos para encontrar as amigas e os amigos mais próximos, tomar um café, jogar conversa fora, ver as tendências. Também faço ginástica, muita ginástica, fortalecendo o corpo, os músculos, cada pedaço de mim. Basta o pai dar uma folga e lá estou eu estendendo minha toalhinha no chão, dando duro nos abdominais. Procuro ficar forte porque sei que é só comigo que posso contar. Pode parecer meio arrogante, mas não é. Saber da nossa solidão, aceitar isso, é a única maneira de não sucumbir na auto piedade.

Sei que não é bolinho cuidar de uma pessoa velha, com demência, sem grana para cuidadores, ou massagens, ou fisioterapias. Mas, busco me virar à moda cubana, inventando, inventando e inventando, todos os dias e a cada minuto. É assim que eu mesmo descubro as massagens, os exercícios, os entretenimentos. E vou dando jeito, até quando preciso for.  

Por fim, nossos velhos não são incômodos, muito menos castigos de deus. Eles são uma janela para nossa mais profunda humanidade. E se a dureza do cuidado com eles pesa, ela também estende o tapete vermelho para que assome tudo aquilo que é de mais bonito em nós: o riso sem razão, o carinho, a picardia, a ternura, o amor, a compaixão, a vontade de acertar, o cuidado conosco mesmo.

Assim, vamos ficando melhores pessoas. O outro sempre é o paraíso quando ele já existe dentro de nós.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Um conto de natal


Um menino palestino

Na madrugada, bateu um vento. Tocou, de leve, o sininho que fica na porta da frente. Acordei, sonolenta, pensando que fosse, talvez, o gato querendo entrar. Mas, surpresa, vi que ali estava um menininho. Olhou pra mim com os olhos imensos, feito duas jabuticabas, e sorriu. Acercou-se da árvore que piscava em luzinhas e acarinhou o pequeno presépio andino que ali sossega, lembrando a sagrada noite. Sentou na poltrona e quis conversar. 

Não tenho problemas com visões. Costumo ver gente morta em todo lugar. Aqueci a água, preparei um chá de hibisco, e ficamos ali, na madrugada calorenta, papeando. Perguntei o que fazia ali se a hora ainda não havia chegado. “Não sei, quis vir”. Falamos das coisas que andam acontecendo. Das pessoas que falam de Jesus como um vingador. Dos que em seu nome matam, agridem, causam dor.  Falamos da longa viagem que ele e seus pais fizeram na velha Palestina, fugindo de um rei louco que queria matar todos os meninos com medo de perder o poder. E a família, no burrinho, atravessando desertos. E, no caminho, pedindo uma ajuda que não vinha. Migrantes de terras estranhas tentando se salvar. Ignorados, chutados, esquecidos à própria sorte.

Falamos sobre as guerras no oriente médio, na sua amada Palestina, lugares de onde, todos os dias saem famílias como a dele, buscando vida. Falamos dos centro-americanos caminhando em direção aos Estados Unidos, querendo comer na mesa do banquete. E ele com aqueles olhos graúdos, tristes, tristes. Falamos do Brasil, da triste rota de ódio ao pobre, ao caído, ao excluído. Bebericamos em silêncio. E nos abraçamos. Forte, forte.

O meu jesusinho, esse que eu amo, é o que caminhou com os pobres, os cegos, os perdidos, os desgraçados, as putas, os difamados, os paralisados. Ele trouxe uma mensagem de puro amor. “Ame o outro como a ti mesmo. Semeie em todos os campos. Divida o que tens, não o que sobra. Dance e tome o vinho entre amigos. Abra teus olhos para a beleza. Caminhe em direção ao sumo-bem”. Sobre isso falamos e eu, cética: “Tá difícil, menininho”. E ele, manso. “Não desiste. Tamu junto”. O meu deusinho sabe que a vida aqui depende mesmo é de nós, não dele.

A noite correu. Comemos biscoitos, gargalhamos, brincamos com os gatos e cachorros, tomamos chimarrão. De manhãzinha, ele já sonolento, apertou-se ao meu peito e depois partiu. “Passo de novo no natal, ou qualquer hora pra brincar”. Fiz o sinal de positivo. Sorri. E ele foi sumindo, não sem antes olhar pra trás, com seus olhos de lâmpada. “Não desiste, fica firme no amor”. “Podexá”. 

O sol veio vindo e eu fiquei no alpendre, pensando. 2019 será duro, mas, a despeito de tudo, vou seguir no amor. Nunca sozinha, sempre em comunhão, com todos aqueles que lutam por um mundo no qual não as riquezas sejam repartidas e cada um possa viver conforme suas necessidades. Porque nada pode ser mais forte do que uma gente unida, que atravessa os desertos, sem medo. 

Estaremos juntos. Na noite sagrada, quando vier o menininho. E nos dias que se seguem, porque a vida é presente, é dádiva, é comunhão, é amor. 

Aos amigos, aos compas, aos parças,  Feliz Natal e Feliz Ano Novo. 



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O pai e o banho



Quem cuida de pessoas velhinhas sabe, levar para o banho é o maior desafio. Tudo é motivo para não tomar banho. Não entendo isso. Só falar em banho e tudo já fica tenso e emburrado. “Agora não”. “Tomo banho é de noite”. E quando chega a noite: “agora não, tomo banho é de manhã”. É uma longa corrida de gato e rato.
Com o pai eu defini assim. Chamo pra tomar banho e se não quer, deixo pra lá. Faço uma coisa, faço outra. Pergunto de novo, para medir o nível do emburramento. Tá alto. Sigo fazendo outra coisa. E vou toda hora perguntado. “Vamos agora?” “Que tal um banho”. A brabeza firme. Tem dias que eu deixo quieto, ficar sem banho não vai matar. Passo um paninho úmido nas partes, com muita gritaria e protesto, mas fico firme. “Sem banho, ok, mas tem de limpar a bundinha”. A brabeza é grande, mas dura pouco. Creio que ele fica envergonhado.
Hoje o calor estava forte. E a novela do banho foi novamente encenada, desde as duas da tarde. Só lá por perto das cinco horas que ele apareceu na porta. “Vem, vamos tomar esse banho”. E lá fomos nós para a nova novela de tirar a roupa que demora um eito. “Não vou tirar a roupa com esse monte de gente aí”. O monte de gente são as pessoas na televisão. “É a TV, pai, eles não estão te vendo”. “Ahhhh, mas não mesmo, tira eles dali”. Tá bom, apaga a televisão.
Finalmente no banho quentinho a zanga se desfaz. Fica brincando com o sabão até mais não poder. “Bora sair, chega”, e ele nada. Vai entender.
Findo o banho, última etapa rocambolesca. Colocar a roupa. Uma confusão danada. Quer por a camisa nos pés, a cueca na cabeça. Então, cada peça tem e ser alocada, com cuidado e com explicação. Nisso tudo já se passou mais de hora. O banho é uma expedição perigosa e cheia de loucas aventuras.
Banhado e perfumado é hora de ir para o alpendre, onde ele calmamente saca o cigarro, acende, e fica fumegando, com os olhos no infinito. Então me olha e repete o mantra: “amanhã eu vou pra casa”.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Violência de quem, cara pálida?


"Chamam violento o rio que tudo arrasa, mas não as margens que o oprimem". Li hoje um comentário sobre os protestos na França. A pessoa dizia que aquilo tudo ( a violência) era fruto do multiculturalismo. Ou seja, uma racista que evitava dizer ser culpa dos negros e árabes. Como se fossem só eles os que protestam. 

Os que protestam na França são os pobres, os que vivem o cotidiano da fome, da desnutrição, do desemprego, da violência mais vil. O aumento do preço da gasolina tem reflexos em toda a cadeia de preços. A vida fica pior. E coisas assim detonam toda a dor, todo desespero. A luta que muda o curso das coisas sempre é violenta, porque violento é o modo de vida que põe milhões na miséria para que meia dúzia vivam à larga. 

Os fatos na França não têm a ver com o "multiculturalismo", até porque os negros e árabes que ali estão hoje apenas buscam viver um pouco do bem viver que lhes foi tirado por um país que tornou colônia muitos povos, que roubou e matou para extrair as riquezas desses povos. Os fatos tem a ver com o momento em que uma pessoa diz: basta, não posso mais.  E responde como pode aos opressores. 

Como no Brasil de 2013, os manifestantes não estão ligados a partidos, e realizam atos marcados via redes sociais, aparentemente sem coordenações centralizadas, mas os partidos já estão pegando carona no movimento. Todos os que são contra Macron já mostram as unhas. Macron já sinalizou que é preciso prestar atenção às reivindicações do protesto social, porque sendo ou não espontâneo ele expressa reivindicações de grande parcela da sociedade. 

Pepe Pereira dos Santos - mago da luz


A vida é um sopro. Uma hora estamos, outra não mais. Por isso entendo que aos que amamos e admiramos temos de homenagear enquanto estão aí, fazendo coisas lindas, trabalhando, lutando, agindo no mundo para torná-lo melhor. 

Uma dessa pessoas que quero hoje homenagear, é Pepe Pereira Dos Santos. Repórter cinematográfico, repórter fotográfico, companheiro de caminhada na batalha pela terra e pela vida. O conheci há muitos anos, logo que cheguei no Desterro na década de 80 do século passado. 

Juntos trabalhamos em um vídeo incrível "O país dos sem", mostrando a dura realidade das gentes que ocupavam a Via Expressa e outras comunidades nascentes, como a Chico Mendes, Vila Aparecida e outras. Foi um trabalho lindo, num tempo em que os equipamentos eram grandes, pesados, caros. Um tempo em que para editar um vídeo tínhamos de buscar parcerias externas, como a que encontramos com o então padre Jaci Rocha Gonçalves. E para andar pelas comunas, contando com a presença sempre forte do padre Vilson Groh. 

Foi um trabalho lindo, de parceria harmônica. Uma honra ter trabalhado com ele naquele então, e uma honra ter seguido a vida contando com ele sempre que foi preciso. Pepe é um homem doce, apaixonado, entregue a causa da vida do empobrecido. Um homem que caminha junto, se mistura e até se some no meio do povo que elegeu como seu. 

Tenho um baita orgulho de tê-lo como amigo e principalmente parceiro na grande batalha pelo mundo novo, de paz e de Justiça para todos os que hoje padecem a tragédia do capitalismo. Hoje ele é agricultor e faz o sonho acontecer na Comuna Amarildo.

Te amo Pepe, e te reverencio como mago da luz.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Vale a pena ser parceiro dos EUA?

Panamá - Bairro Chorrillo, destruído na invasão, segue sendo reduto de muita pobreza
Iraque - Mossul, uma cidade esplendorosa destruída pela guerra


Posso entender as pessoas que pensam que estar próximo e aliado dos Estados Unidos é bom para o Brasil. A indústria cultural mostra isso o tempo todo. Os Estados Unidos como o guardião da liberdade, o salvador dos povos, o pai da democracia. Há um bombardeio massivo dessa “verdade”, e as pessoas creem. Está na televisão, está nos filmes, está no jornal, nas revistas. Mas, se prestarem bem atenção, verão que não é bem assim. 

É muito comum aos Estados Unidos usarem da mentira para fazer crer aos povos de que seus motivos são bons. Para comprovar isso, é só fazer o teste da realidade. Qual invasão estadunidense acabou bem para o país invadido? Só para lembrar algumas invasões recentes na história, vamos ver a situação do Panamá, invadido em 1989, a pretexto de salvar o país de um presidente narcotraficante. 

Na verdade, o que o os Estados Unidos queriam era recuperar o controle do canal, visto que seu velho aliado, Noriega, que inclusive tinha sido agente da CIA, estava aumentando os impostos para o uso da passagem. Foi acusado de traficante e deposto do cargo de presidente por marines estadunidenses que entraram no país e deixaram um saldo de milhares de mortos, a maioria civis. Depois de tudo deixaram lá um presidente amigo e o Panamá segue sob suas asas, transformado que está em um paraíso fiscal. Lá, há visivelmente dois Panamás: um, que é dos financistas, na parte rica e outro que é o das gentes, o dos panamenhos, da maioria, sempre dependente e pobre. 

Outro exemplo, e ainda mais gritante é o Iraque, invadido em 2003, também com base em uma mentira: a de que Saddam, que havia sido agente da CIA também, tinha armas químicas e era uma ameaça ao mundo. A promessa era levar a democracia ao país árabe. E o que chegou foi a morte. Mais de um milhão de pessoas, civis, já foram assassinadas no Iraque desde a invasão, o país segue em conflito, com guerras intestinas e cada vez mais pobre. Toda a sua riqueza cultural foi destruída e hoje, nada mais resta a não ser o petróleo, que passou para as mãos das empresas estadunidenses. Nunca foram encontradas armas químicas.

Então, quando a família do presidente eleito vai para os Estados Unidos jurar fidelidade ao governo estadunidense está fazendo uma arriscada aposta. O Brasil tem riquezas demais, entregá-las aos Estados Unidos não trará nada de bom para a maioria da população. Alguns ganharão muito dinheiro, é certo, mas não seremos nós, não serão os trabalhadores que votaram em Bolsonaro acreditando que o Brasil estaria acima de tudo. Ajoelhar-se para os EUA traz o de sempre: roubo, guerra, dependência, pobreza, miséria, fome, desemprego, morte. 

Não é isso que queremos. Então, temos de lutar contra a entrega do país.

Para os que não acreditam nas informações que passamos, basta pesquisar e seguir o dinheiro. Quem lucra com a parceria? 

Onde nossa humanidade?








Milhares de pessoas caminham em direção aos Estados Unidos. Fogem em direção ao seu verdugo. Saem de seus países destruídos pelos Estados Unidos, em guerras de tiros, guerras culturais, guerras econômicas e seguem para esse mesmo país que os destruiu. Parece um paradoxo, mas não é. Na guerra cultural a mensagem que fica é que é lá a terra das oportunidades.

Os pobres e sua infinita fragilidade. Nada têm além de seus corpos nus, como dizia o grande repórter Marcos Faerman.

A carava na migrante passa pelo México e vai encontrando no caminho o ódio, o rechaço, o preconceito. Agora está em Tijuana, uma das fronteiras mais violentas. As gentes já enfrentaram os milicos estadunidenses e o governo mexicano fala em deportar todos os que lá estão. Mas eles não querem voltar para o terror de seus países. Quanta dor pode caber num só corpo? Quantas lágrimas ainda serão derramadas até que venha a morte, sempre próxima? E nós, como podemos dormir?

No rosto dessa menina, todo o sentimento do mundo. Ah..os empobrecidos da terra, os deserdados, os desgraçados. Se um dia soubessem a força que podem ser...

Cadernos do Terceiro Mundo



Era a metade dos anos 70, a ditadura ainda comia solta. Eu tinha uns 15 anos, não recordo como foi que consegui, mas me caiu nas mãos um número da revista “Cadernos do Terceiro Mundo”, que trazia notícias da América Latina, da África e do mundo árabe, coisas que nem sonhávamos ver nos nossos meios de comunicação.

Como sempre fui uma leitora voraz, a revista me encantou pela abordagem totalmente diferenciada. Mostrei pro meu pai e pedi pra fazer uma assinatura. Ele fez. Mandamos o pedido para a Editora Terceiro Mundo, com sede no Rio de Janeiro. Então, a revista me chegava pelo correio e eu devorava com avidez.

Quando tivemos de sair do Rio Grande e fomos viver em Pirapora, Minas Gerais, a revista me seguiu pelos anos 80 afora. Esperar a “Cadernos do Terceiro Mundo” era uma alegria profunda. Eu mais ou menos sabia quando saia e ficava todos os dias enchendo o saco do carteiro, “tem carta pra mim, tem carta pra mim”. A revista era bem isso: cartas chegadas de um mundo desconhecido até então, um mundo aonde as gentes lutavam, um mundo que me enchia de alegria e de indignação.

Foi pelas suas páginas que conheci Yasser Arafat, Mandela, Samora Machel, Agostinho Neto, Kadaffi, Steve Biko e outros tantos que tinham suas vozes expressas na pequena publicação. Há pouco tempo o professor Waldir Rampinelli trouxe para o IELA vários números da revista. Estão aqui na biblioteca. Tem muitos números. E eu ainda me emociono até as lágrimas cada vez que passeio pelas suas páginas.

Nunca será demais agradecer aos fundadores, Beatriz Bissio, Neiva Moreira e Pablo Piacentini por esse presente. Tenho muito claro que essa revista é, em grande parte, responsável por eu ser quem eu sou.