terça-feira, 11 de outubro de 2016

Liberdade restringida por um crime inexistente


























Foto: Rubens Lopes


A polícia de Santa Catarina, que atacou violentamente a manifestação de estudantes e populares na última segunda-feira, acabou prendendo três pessoas de forma totalmente aleatória e com acusações que não podem ser comprovadas. Duas mulheres e um rapaz foram levados, sob a alegação de resistência à prisão, quando a mobilização já se dispersava. O jovem foi liberado mediante fiança, mas as duas garotas, que foram acusadas também de depredação do patrimônio público, pela queima de dois cones de plástico, não tiveram o direito à fiança e permaneceram presas durante a noite.

Apesar de parte dos companheiros de manifestação ter se postado em frente à delegacia, as duas meninas ficaram incomunicáveis, e apenas as advogadas Luzia Cabreira e Daniela Félix conseguiram falar com elas. Elas permaneceram na delegacia até hoje à tarde, quando foram levadas ao Fórum para uma Audiência de Custódia, na qual um juiz decidiria sobre o que aconteceria com elas.

De novo, a frente do Fórum se encheu de estudantes e militantes sociais que foram se solidarizar com as estudantes, que cursam História e Relações Internacionais na UFSC. Mais de cem pessoas fizeram vigília esperando que as garotas saíssem em liberdade.

Pouco depois das quatro horas, as duas advogadas saíram pela porta da frente anunciando que as estudantes sairiam pelos fundos, para encontrarem apenas os amigos, evitando a mídia comercial, que, como sempre, deu destaque ao que chamaram de “baderna”, em vez da violência policial.

Quando finalmente Larissa Neves e Vanessa Canei cruzaram a porta para a liberdade, os companheiros e companheiras que esperavam em frente ao fórum deixaram fluir a emoção. Com cantos e palavras de ordem, receberam as estudantes com flores. “Companheira, me ajude. Eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”. Foi a hora do abraço, dos poemas e das lágrimas, afinal, a noite foi de apreensão.

A estudante de História, Larissa Neves, ainda estava dolorida e com hematomas. Passou por um exame de corpo de delito e as advogadas que a representam esperam uma declaração do Ministério Público sobre a agressão sofrida por ela, quando já estava dominada por três policiais.

Na audiência, o juiz Renato Guilherme Gomes Cunha concedeu liberdade provisória para as duas garotas, mas com restrições. Elas estão impedidas de deixarem suas casas depois das dez da noite e também nos finais de semana. Segundo a advogada Luzia Cabreira não há qualquer prova de que elas tenham depredado o patrimônio público, e existem os vídeos que mostram que elas não resistiram à prisão. Larissa, por exemplo, nem poderia, já que foi agarrada pelos pés e mãos, arrastada pelo chão, sendo chutada e golpeada com o cassetete. Há vídeos que mostram claramente a agressão. “O flagrante de queima dos cones é fictício. Só existe a fala dos policiais acusando e a gente sabe, pelas imagens, que os delitos não ocorreram”.

Segundo Daniela Félix, quando for o momento de fazer a defesa das estudantes, serão apresentadas as imagens e fotos que comprovam que não houve desacato nem qualquer outro crime. “Esperamos até que isso seja arquivado, pois não há provas”.

Agora, o processo segue e toda a máquina do judiciário vai se movimentar para discutir a queima de dois cones de plástico, como um grande vandalismo. É claro que tudo isso serve como punição exemplar, visando criar o medo na juventude que tem sido a ponta de lança dos protestos. Mas, o que se percebe é que o efeito é contrário. As agressões desmedidas, a prisão arbitrária e o exagero do processo só causam mais indignação e a promessa de que os atos de luta contra as medidas do governo Temer, contra o ataque à educação e as liberdades vão continuar.



Um comentário:

cinthia disse...

Minh´alma voa, livre sonhadora, de carona, em tuas palavras, libertadoramente simples. Eteia, nos lembras que sim _ as utopias, as construímos, amiúde, assim, um pouco de ti, um pouco delxs, um pouco de mim...